“O delírio que se manifesta com risos é menos perigoso que o delírio sem alegria”

Hipócrates, aforismos, 53, 6a seção.

O Blog Conto de Notícia organizou mais um colóquio, desta vez conversei com Jacob Pinheiro Goldberg, psicólogo, doutor em psicologia, advogado, assistente-social, professor convidado das principais universidades no Brasil e Exterior.

Blog – Qual a sua avaliação do impacto psicológico durante esta pandemia? Me refiro a dois aspectos principais, o natural e conhecido medo da extinção individual, mas também, e principalmente, a fobia induzida pelo excesso de informações contraditórias — o que em última análise significa desinformação. Qual tem sido o papel da mídia, e qual deveria ter sido? Na sua perspectiva como experiente profissional da área da saúde mental, qual é a melhor abordagem que os pais devem ter com os filhos? Temos um desgaste extra nas relações interpessoais não só pela restrição dos espaços físicos, mas por uma forçosa impossibilidade de privacidade. Parece um paradoxo, mas é a realidade para a maioria das bilhões de famílias em confinamento. Um estudo australiano já apontou aumento no número de separações durante o isolamento. Como aborda isto com seus pacientes e o que imagina que poderia mitigar este quadro?

JPG – Os pais terão que assumir está função de orientar e proteger superando a ambiguidade omissa de “amigos” dos filhos. Não podem delegar aos psicólogos e professores a chefia da família. Finalmente certos casais terão que conviver e não simplesmente serem condôminos de sexo e dinheiro. Uma prova de fogo para laços consistentes de amor.

Blog – Estamos também presenciando algum grau de gerontofobia muitas vezes acobertado por um discurso de cuidado e preocupação. Um professor de medicina amigo, já acima dos 65, estava andando na rua e foi xingado por alguns motoristas que passavam. “Vai para casa, velho!” foi a carinhosa advertência que ouviu. A sociedade está transferindo culpa para as vítimas preferenciais? Como opera este mecanismo inconsciente?

JPG – Realmente de forma vertiginosa a cultura contemporânea foi desafiada a enfrentar o tabu da morte e a realidade do envelhecimento Religião e ciência, ideologia e psicologia estão perdidos no Labirinto enquanto os fantasmas de cadáveres se amontoam. Infelizmente procede seu conceito de “fobia induzida”. A mídia reflete o estado de perdição da Academia, Governo e a absoluta falta de preparo filosófico que o Vírus provocou.

Blog – A “peste emocional” conforme descrita por Wilhelm Reich na década de 1950 é uma segunda e inexorável decorrência da pandemia? Qual é o papel daqueles que deveriam acalmar e induzir paz e esperança diante da opinião pública?

JPG – A mídia tem que se ajustar à um papel didático e não sensacionalista exasperado

Blog – Exatamente, mas parece que a tanatofobia está sendo usada a favor de um populismo instrumental, seja qual for seu objetivo. Há uma fobia induzida. Gráficos de mortos, pilhas de cadáveres, covas sendo abertas à revelia e filmadas com requintes cinematográficos. As imagens aguçam a paura. A realidade pode ser apresentada de muitas maneiras, mas a escolhida deixa a desejar como política de comunicação. E ai só faz crescer e dar consistências às teorias conspiratórias, as quais abundam neste momento, intensificando os transtornos psíquicos da população, uma vez que que ninguém tem as respostas e a verdade, bem, a verdade parece ter sido arrastada para dentro das solitárias. As relações virtuais podem mitigar a falta de contato e o isolamento. No entanto, parece que esta situação promoverá um efeito colateral: com a ideia de que o outro pode ser a fonte do contágio haverá uma transformação, não necessariamente positiva, onde sob a justificativa do risco, as pessoas darão preferência ao virtual em detrimento do real.

JPG – Concordo que refúgio no mundo virtual é o risco: com medo de morrer deixamos de viver. Ficção de horror, sonho dos tiranos, pesadelo da liberdade

Blog – Já estava acontecendo, mas a pandemia tende a radicalizar esta tendência, você concorda?

JPG – Necessário desmascarar mistagogos e paranoicos que inventam teorias lunáticas, sedutoras, passionais. Precisam o corretivo,  inclusive jurídico, para sustar o crime da alienação persecutória que fertiliza fantasias totalitárias.

Blog – E não seria mesmo um  álibi perfeito sob “motivo coletivo de força maior” coibir ou cercear as liberdades individuais? E isso já está acontecendo em países assumidamente totalitários e até aqui no Brasil ainda que em escala muito pontual. A expansão da paranoia coletiva é um alerta importante, mas é importante lembrar que o autoritarismo sempre emergiu sob o justificacionsmo da exceção. E depois perdura para além dela, desta vez como regime de exceção. Outro aspecto que gostaria que abordasse: a ideia do contágio e da patofobia. Teremos uma forma legitimada de discriminar o doente: “Ele está com a peste, logo ele é a peste”. O que nós, das áreas da saúde, podemos fazer para não deixar novamente que um pensamento retrógrado e penitencial pressione ainda mais quem está enfermo?

JPG – Sim. E está saída autoritária já encontrou bodes expiatórios: enfim delírios de “caça as bruxas” que ultrapassam o maniqueísmo autofágico de esquerda e direita. Os doentes e nós somos seres frágeis na luta pela saúde e pela vida. Cabe desmitificar o modelo eugenista através da alteridade e a solidariedade.

Blog – Vale também mencionar o estado de perplexidade aguda vivido pela humanidade. Desta vez não era bem a tese do “fim da história”que falhou no teste da hipótese com o 11 de setembro, mas a ideia nem tão subliminar, de que a ciência assumiu um papel redentor, quase messiânico. No imaginário coletivo era inconcebível há apenas três meses, que voltaríamos aos estereótipos de uma imitação da idade da trevas, no entanto, apesar de não estarmos revivendo a peste negra, testemunhamos cidades vazias, solidão imposta, e somos expostos diuturnamente — e desnecessariamente – à constantes imagens escatológicas. A neo-idolatria à tecno-ciencia também não é uma forma de retrocesso? Um mundo pós-humano não é exatamente um mundo onde os valores humanistas das tradições e da ética podem ser sacrificados no altar de robôs e algoritmos?

JPG – Sim. Alguns anos atrás um pensador italiano Vacca já se referiu à uma nova Idade.Media em que religião psicotizada e tecnologia de informação criaria sociedades infantilizadas e submissas Orson Wells, num programa radiofônico, apavorou os EUA com a ficção da invasão da Terra por alienígenas. Agora interesses ocultos manipulam multidões com informes tenebrosos e ambíguos. É o fantasmagórico do horror à esquerda e à direita. Teorias conspiratórias assustam o indivíduo solitário.

Blog – Pode-se dizer que vivemos em negação? Ela ajudaria a explicar o atual estado de desorganização do mundo? Não seria o momento de popularizar as ideias contidas no livro de Ernst Becker “A Negação da morte” ? E assim tratar com a naturalidade necessária, mesmo para aqueles que tem fé na existência de um devir metafísico, de que a volta do corpo ao estado inorgânico é nosso único destino comum e isso deve ser compreendido como parte do ciclo da vida? E talvez encarar esta bizarra situação recorrendo ao bom humor e à alegria imotivada?

JPG– A ciência sem Ética é crime na desumanização. A liberdade do Ser não admite as “verdades” de laboratórios eis que não somos ou não deveríamos ser reduzidos à cobaias em experimentos condicionais como pretendia o nazismo e o stalinismo. Esta guerra está travada e a primeira batalha foi vencida pela sordidez do Vírus. Agora precisamos de profetas verdadeiros, cientistas éticos e líderes conscientes, uma autêntica elite humanista para conduzir o Bom Combate.