Não é fácil encontrar esperança sendo um leitor de jornais, dando uma volta no quarteirão do bairro, ou sentindo o clima que paira por ai. É preciso negar o que se vê, ou, como querem os psicanalistas, ressignificar a realidade. Isso significa que é altamente provável que o estoicismo seja uma virtude. Viver não contra, mas à revelia das vicissitudes. A reboque das adversidades. E imitando o famoso Príncipe da Dinamarca, Hamlet, pegar em armas contra o mar de calamidades. Ou como o Marques de Pombal diante da Lisboa arrasada pelo terremoto de 1755 quando exortou os seus para “enterrar os mortos e cuidar dos vivos”.  A extrema objetividade pode ser equivocadamente encarada como insensibilidade, mas muito provavelmente seja apenas um indício de alta resistência psíquica. Depois dos atropelos do País, e da inépcia política generalizada, o que nos resta senão sobreviver ao “mar de calamidades” usando as armas disponíveis.

Que ninguém pense que especulo tomado por otimismo, ingenuidade, ou faço uso de antidepressivos (mesmo porque a maioria deles só atua em depressão grave e não sobre a infelicidade reativa ou a depressão com nossa esquizocracia sem resultados). Sou provavelmente muito mais adepto dos preceitos de Schopenhauer do que a maioria dos meus conhecidos, mas a política deveria ser encaminhamento, não pathos.

Tampouco há fórmula pronta alguma, pois vivemos a atual fase de torneio para a cidadania olímpica com a prova de cem metros rasos com abismos consecutivos. Ainda assim, não deve nos impedir de enxergar a legião de pavios apagados no fim do túnel. Se houvesse uma generalização, seria viver sem prestar atenção ao excesso de contradições. Viver sem uma pauta. Viver sem ser tutorado. Abolir as bulas prescritivas, inclusive esta aqui. Sem encarar o político como elemento escravizador. A política não é tudo. Mas também, evitar abjura-la. Considerem que, no glossário subjetivo, não existe uma palavra que seja antônimo de política. Decerto não é antipolítica, nem apolítica. Estamos condenados a ela. É ontológico e constitutivo. Notem que mesmo a alienação está nela compreendida. Destarte, podemos vivencia-la sob uma compreensão mais elástica. Sem a ideologia como grade. A vida está sempre sob cerrado teste empírico. Quem abandona as experimentações estará se condenando a praticar inércia, não existência.

Por que será que somos obrigados a nos posicionar sobre tudo? A neutralidade seletiva pode ser higiênica para a saúde mental. Se ninguém é mesmo livre, precisamos assumir. Como Ernst Becker escancarou, somos negadores crônicos da morte. Se não há lugar, Estado ou condições de plena liberdade, e ao cabo, nosso fim terá o mesmíssimo destino, que tal exercer a micro história individual? Como se fosse um épico? Como se o último ato vigorasse a cada segundo? Trata-se de uma questão de proporção: a frequência de normalidade benéfica supera numa proporção de 10 para 1 as anomalias tétricas. O status quo é maçante? Muito melhor do que recusa-lo ou apostar em transformações inoperantes.

É preciso aceitar nossa neurose — mais até, usufrui-la — com a mesma resignação com que o vulcão decide fazer jorrar as perigosas ondas piroclásticas.  Quando se trata da natureza — e como somos parte dela  — mesmo com toda rede de sismógrafos integrados, ainda hoje não se pode prever a eclosão da lava com exatidão matemática. O essência do acaso é nao só a incognoscibilidade, mas o  incontrolável. Se a neurose é mesmo tão incurável como parece, que tal assimila-la?

Isso significa que o bem estar é uma escolha?  Provavelmente não. Quando descobrimos que a principal transcendência não é, nunca foi, exógena pode ser tarde. E se a tomássemos como somente um imenso efeito colateral das nossas posturas?

O mal estar na cultura denunciado por Freud é cíclico e pode nunca chegar ao fim. De qualquer forma, nós continuaremos aqui, de passagem. Somos mais do que teimosos: nunca nos renderemos.