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Em 2013 comecei a contribuir com este valioso jornal. Um dos primeiros artigos publicados no blog “Conto de Noticia” comentava a marcha do movimentos de rua que pediam “Tarifa Zero”. A perplexidade tomou conta da sociedade e ali gerava-se uma reação em cadeia que, ao fim e ao cabo, culminou, três anos depois, com o impeachment e o início do combate à corrupção e aos desvios de função do Estado.

De lá para cá colhemos os frutos dos desmandos do petismo e associados. As forças se reagruparam, novos atores chegaram, mas nenhuma delas mudou essencialmente sua índole oportunista.  O resultado das benesses populistas não tardaria em aparecer. Mais uma vez os habitantes do País marcham para que o Estado assuma responsabilidades indevidas: seremos viciados em subsídios? No País perturbado pelo verdadeiro sítio imposto pelo anarco-sindicalismo, detecta-se a mesma acefalia nas lideranças políticas, a polarização fulanizada e a inação do poder. Sob a maior recessão de sua história republicana o País emudeceu sem um porta-voz razoável.

Ou devemos assumir a esclerose e propor que a solução para a crise institucional que o conjunto de erros criou é abandonar o País à regressão?  Se não for um “Ministério do Desabastecimento” a opção pode ser ‘Gestão baseada em Incompetência’. E apesar de tudo isso, é o que temos. Quem insiste em atropelar o governo com caçambas colocaria quem no lugar? Pois é, por incrível que pareça — à luz da combalida constituição federal — fora o vácuo, não há ninguém melhor à vista.

E todos nos perguntamos:  será preciso inventar o que ninguém pensou para escapar do cerco e do impasse crônico? Qual será a origem da profunda insatisfação que nos assola?

Neste contexto, a única novidade aceitável seria uma mobilização apartidária e pluri institucional que gerasse uma cultura comprometida com o bem estar como premissa fundamental.

Se o País assumiu o perfil de ingovernável, a criação de uma nova cultura pode ser uma forma de ultrapassar os ditames da sociologia tradicional, que, como se vê — também se esgotou como instrumento de análise e estabelecimento do mínimo de previsibilidade política. O mais revolucionário de todos os caminhos não será extrema esquerda ou direita. Se ainda houver saída, será encontrar os atalhos até o extremo centro. Para tanto, será preciso observar alguns pontos:

Em oposição aos clamores das ruas, dispensaremos populistas condenados, golpes militares, eleição de sujeitos fortes, vigorosos e violentos.

Só um contundente caminho do meio que seja ideologicamente fraco — pois flexível —  traduzido por um comportamento intolerante com toda radicalidade politicamente correta. Destarte, trata-se da própria sobrevivência da democracia. Pois a obsessão com o politicamente correto não examina, oculta. Não dialoga, decreta. Não amplia, reduz. É o próprio berço que embala as Fake News. Desprovida de curiosidade intelectual a postura de que possam existir itens do pensamento que são inegociáveis petrifica a vida e a política. Aparente paradoxo? Esta acusação desfaz-se ao verificarmos quantos assuntos estão “cientificamente” decididos peremptoriamente pelos formadores de opinião que editam os slogans e os estamentos do Poder. E isso também acontece nas redações dos jornais e no Congresso, nas Universidades e nas militâncias partidárias, nas ruas e nas casas. O que naturalizamos como o monitoramento manipulador do que é o correto nada mais é que senso comum racionalizado pelo maniqueísmo. É o tutorar que trava todas as pautas, uma vez que a busca por consenso pressupõe ceder à argumentação e não odiar mortalmente o interlocutor.

Só uma visão plástica e sensível pode mudar a política que se acostumou a contemplar a realidade à luz da convicção. Há mais homens coerentes e de opiniões fortes nos gabinetes produtores de catástrofes sociais do que podemos supor.

Por que será que o  suspiro atual da sociedade é por um líder político não profissional —  que por uma incompreensão ou preguiça intelectual a mídia insiste em traduzir por antipolítico? Porque a política tradicional expandiu a dissonância entre o poder e as necessidades das pessoas (eufemismo para povo) e já há a percepção clara de que a super especialização de um profissional do voto pode ser insuficiente para captar as reais necessidades e problemas contemporâneos. No imaginário coletivo só alguém “externo” poderia compreender e encaminhar essas demandas.

Plausível ou não é assim que a fantasia cresce na opinião publica.

Precisamos de mais homens e mulheres, tanto maleáveis como refinados, que só consigam trabalhar em equipe. Será preciso dispensar lideranças carismáticas que monopolizam decisões, poder e impostos. O sempre lúcido Roberto Romano escreveu: só a descentralização dará conta de amenizar a corrupção. Mesmo que prendam todos, especialmente aqueles que afundaram a economia, que as empresas sejam penalizadas, o Estado Policial para o qual hoje caminhamos pode apenas suprimi-la provisoriamente. Por outro lado, se ainda somos uma federação, será necessário fortalece-la através da pulverização da concentração da arrecadação. Essa medida teria o potencial para encaminhar uma solução de longo prazo.

Esta é a diferença entre medidas paliativas temporárias e soluções estruturais através de políticas de estado.

Aqui vem a segunda parte. Nenhum Estado laico pode imaginar que seus políticos podem prescindir de algum aprendizado filosófico e psicológico sobre si mesmos. Obviamente, existe um entrave chamado delta tempo. Reformar o legislador é uma tarefa que requer séculos e paciência. O espírito de conciliação que alguns vem propondo para apaziguar o País só poderia ser alcançado se todos assumissem suas responsabilidades.

Sem autocritica, a reconciliação não passa de recalque.

O famoso psiquiatra austríaco Viktor Frankel, ex prisioneiro em quatro campos de concentração da Alemanha nazista, explicou a um entrevistador perplexo que ele proporia abolir o item da constituição americana que preconizava a “busca da felicidade”*

Diante do intrigado ar do jornalista, o psiquiatra afirmou que se desejamos alcançar a felicidade e o bem estar eles não devem ser buscados. Os discursos de estímulo à autoajuda são um blefe, um engodo institucionalizado. Finalmente, Frankel entende felicidade e bem estar como “efeitos colaterais da auto transcendência do homem”, isto é, promover o bem estar e servir à sociedade sem esperar reciprocidade ou benefícios. Não se trata de principio religioso nem de um estamento político, mas de um mergulho em sua experiência pessoal que reemergiu como percepção das muitas dimensões do homem.

Não seria a índole perfeita para o político? Será muito exigir isso de um homem público?

Possivelmente.

Mas podemos começar a exigir de nós mesmos.

*”And hold these truths to be self-evident, that all men are created equal, that they are endowed by their Creator with certain unalienable Rights, that among these are Life, Liberty and the pursuit of Happiness”