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Há quem imagine o paraíso como jardim, outros preferem o palácio de mármore branco ou pátios brancos vazios, alguns, entre os quais Jorge Luís Borges costumavam imaginar o paraíso como uma biblioteca.

Em uma palestra de 1977 sobre a “Divina Comédia” de Dante Alighieri, o escritor argentino menciona que, segundo os cabalistas hebreus, a Bíblia foi escrita com a polifonia mais radical já concebida: qualquer palavra parece conter uma mensagem pessoal para cada sujeito. Isso só seria possível se concordássemos que o autor das Escrituras, sendo quem é, alcançou a proeza vedada aos escritores: a ciência da singularidade absoluta.

Considerei seriamente antecipar quais seriam os títulos prediletos de uma biblioteca pessoal no mundo porvir. A maioria daria preferencia a uma estante eclética, com um pouco de tudo, mistura de tomos clássicos e títulos curiosos.

Mas o livro essencial, aquele que sempre fará a diferença independentemente de cronologia, editor e autoria, será aquele que nunca estará completo. Onde não há espaço para a página perfeita nem a última palavra.

Se tivesse que optar entre milhões de exemplares decerto escolheria a estante de dicionários. É que nele, numa combinação volúvel e polissêmica, estão contidas todas as perspectivas.

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