Há alguns aspectos do “Verdade Lançada ao Solo” que anteciparam eventos. Compartilho com meus amigos um deles. Na III parte do livro Sibelius, depois de ser perseguido pelos colegas-gangsteres do seu ex-partido:

“A Verdade Lançada ao solo”

“Um dia acordou de madrugada com pesadelos. Recordou de muitas coisas menos do conteúdo opressor dos sonhos:

Lembrou-se da velhice paranóica de Stalin e da temporada de caça aberta aos médicos judeus . Repassou na cabeça um livro com lombada restaurada das ultimas cartas de Trotsky. Viu poetas que acobertaram o assassinato do líder russo na embaixada chilena no México. Lembrou-se de Erza Pound e enguliu que poetas olímpicos podem ser delatores ou militantes de causas espúrias. Como uma vertigem que começa em espiral, direita e esquerda se misturaram em sua mente, embaralhando sua capacidade de aludir à realidade.

Uma dor de cabeça fina e persistente arrebenta em seus ouvidos. Quer parar com tudo e beber um galão de alguma coisa, pois sua língua esta desfiando. Corre e pega um lenço para estancar o sangue que vaza da narina esquerda. Mesmo assim não pode interromper as imagens que vão, a sua revelia, passando sob seus olhos.

Lembrou-se das cenas reais, simulacros de colagens, dos aiatolás iranianos desfilando com a cúpula do PC em Havana em algum evento anti norte americano. Viu o ex-SS Kurt Waldheim, aclamado secretário geral da ONU menos de 25 anos depois do fim do nacional socialismo alemão. Imaginou os massacres de Darfur enquanto Koffi Annan sorria com sua voz felpuda acalmando a platéia. Refez a solenidade imperial com que Pinochet enganara os psiquiatras ingleses e de sua risada explosiva quando embarcou na limusine imediatamente após o acting out. Repassou o escritor Gunther Grass e sua habilidade para ocultar sua biografia nazista até alcançar o prêmio Nobel. Recuperou os papéis da juventude hitlerista de Heidegger que sem nenhum constrangimento, os sepultou na floresta negra, esperando, em vão, que o tempo limpasse sua euforia ariana. Explodiu-lhe no rosto o orgulho sardônico dos militares bolivianos sobre o espólio cadavérico de Che Guevara, a penúria dos professores humilhados durante a revolução cultural na China. Lembrou-se do sorriso convicto do general Videla, da concentração desesperada de mães na Plaza de Mayo e depois sua exploração política por ditadores populistas. A sua revelia chega à imagem da funesta figura de Lopes Rega, “El brujo” argentino impecável, com seda escocesa enrolada no pescoço preparando-se, a salvo, para uma sauna em uma cidade do centro-oeste brasileiro. Dos remendos de corpos espirrados a 600 metros no atentando da Amia que uniu a extrema direita argentina aos teólogos de Teerã. Recordou-se de Eichmann, suas regalias brasileiras, seu requinte portenho, antes de ser denunciado por um cego e ser justiçado em Israel. Mengele escondido em Bertioga, acobertado pela polícia local, e da milionária farsa para justificar sua morte. Lembrou-se de Walter Benjamim nas passagens que enfim o levariam daqui, pouco antes da era messiânica.”

——————————————————————————–