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Políticas de “desospitalização”

Jornal do Brasil Paulo Rosenbaum

Hoje 1345

Políticas de Desospitalizaçao

A doença de Lula provocou uma explosão de artigos, editoriais e comentários, dentro e fora das redes sociais (poderíamos renomeá-las teias pegajosas?). As mais variadas teorias apareceram: do equacionamento para viabilizar o sistema público de saúde até quem enxergasse no sofrimento do paciente — e na espreita confessa por um mau prognóstico — a solução política. O mérito nisso tudo, se é que houve, foi a exposição do tema: de qual atendimento de saúde a sociedade precisa?

Não importa ter ou não simpatia pelo sujeito enfermo. Na medida em que habito outro século, considero decoro e privacidade essenciais quando se trata de gente doente. Porém, não resisti em examinar levas desses artigos, especialmente os que prodigalizavam a saúde ideal, tivéssemos “hospitais de alto padrão para todos”. Penso o contrário. Estudos da Organização Mundial de Saúde (OMS) mostram que não é disso que a saúde pública do mundo precisa. Não foi por acaso que a conferência da OMS em Alma-Ata, 1978, ex-URSS, deliberou Sobre cuidados primários em saúde. A viabilidade dos sistemas públicos de saúde no mundo depende, no longo termo, não de atendimentos, cada vez mais especializados, mas sim de processos de descentralização, de participação comunitária, valorização dos generalistas e acolhimento institucional para práticas e saberes das várias racionalidades médicas.

Precisamos mesmo é de “desospitalização”, valorizando melhor as práticas de cuidado. Ações como a política de humanização dos partos – um tanto indigesto o eufemismo “humanização” para uma prática como a medicina – o médico de família e a política nacional de práticas integrativas e complementares são algumas das ações transgovernamentais que passam afônicas pela mídia. Há carência de atenção primária à saúde, e não só, pelos diagnósticos precoces que pode oferecer, mas na ênfase em cuidado. Noção quase perdida que renasce como perspectiva generosa em saúde.

Como comentou Elio Gaspari em sua coluna do domingo, um laboratório em São Paulo inaugurou um serviço único no mundo: oferece ressonância magnética em plantão diuturno. Excelente? Pode ser! Mas precisamos de tantas imagens? Perguntando de outro modo: por que aqui temos mais tomógrafos que no Canadá? A resposta está numa confusão essencial que se faz entre tecnologia e padrão de excelência em saúde. A necessidade das pessoas não é prioritariamente de tecnociência sofisticada nem hotelaria hospitalar de luxo, mas de atendimento clínico de qualidade. Há, sim, deficit de tempo para anamneses compreensivas que possam ir às minúcias de cada história clínica individual (a média mundial é de 20 segundos) e, com isso, não só evitar exames e diagnósticos em excesso mas oferecer às pessoas medicina preventiva de qualidade que ajude a evitar exatamente que se chegue aos transplantes, cirurgias complexas, terapias caríssimas, às vezes perigosas, geralmente à custa da bancarrota das famílias.

Para ler mais acesse

http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2011/11/10/politicas-de-desospitalizacao/