Onde estava Deus é uma pergunta que muitos sobreviventes do holocausto (famosos e anônimos) fizeram. É comum ver a pergunta ser reeditada diante de qualquer tragédia natural ou provocada pelo homem.  Ao se perguntar pelo lugar do Criador o desejo era fazer várias interpelações ao mesmo tempo: argui-lo, insultá-lo, chamá-lo, invocá-lo, convocá-lo, negá-lo.

Mas se é justo, até próprio, que indaguemos onde estava Deus, enquanto o III reich alemão planejava, com régua e compasso — com ajuda e apoio das grandes industrias alemãs (como Krupp, Siemens, sem esquecer da norte americana IBM) e maçico suporte popular — deportações dos inimigos, não podemos esquecer do discernimento: quem desempenha qual papel?

Se Deus é mesmo Ativo e Todo Poderoso (e ele é) deveria ter interrompido a delinquência macabra — vale dizer feita sob o suporte democrático e popular do nacional socialismo alemão.

Se Deus sempre foi a “Rocha Eterna de Israel”  o que estava esperando enquanto seus filhos iam aos fornos? Enquanto minorias  eram deportadas e os deficientes despejados para serem enterrados vivos? O que fazia diante do mal, do mal como coisa em si? Olhe que naquele caso, o mal foi a menos maniqueista versão que se pode imaginar.

Mas este é o papel de Deus? Bloquear as mãos dos homens?Especialmente quando os homens são predadores de homens?  

Mas e o papel dos homens? A pergunta retorna embaraçosa: onde é que nós estávamos?

Afinal Deus é o guardião contra os excessos e a violencia que os lobos dos homens fazem contra seus irmãos?

Por que Deus não nos livrou das tragédias?

Porque talvez este não seja o papel de Deus? 

E qual é o papel de Deus?

(não me importo muito com os teólogos. Nesse assunto, prefiro envelhecer com minhas próprias ignorâncias)

Só conheço um papel claro para Deus: interferir individualmente sobre cada sujeito. Torná-lo capaz de mudar a ponto do sujeito experimentar a “adesão”. Sim. na linguagem judaica, a devekut. É ai que se aprende sem professor. Só se pode ver Deus na intimidade, jamais em público.

Para que pedimos então?  

Se Deus não quer sequer conter as intempéries da natureza? Se não deseja interpor-se entre carrascos e suas vítimas ou sustar o massacre contra inocentes? Enfim não parece querer interromper o curso da história quando existem fortes evidências que seus filhos estão determinados a acabar com o habitat?

Então, o que ele quer de nós?

Todo santo dia rezo e peço a Ele que responda.  As vezes imploro.

Sinto-o por perto. Ele está em comunicação com cada sujeito, mas meu palpite (neste caso, é só o que podemos ter, palpites) é que ele quer ver seus filhos crescidos. Não podemos recriminá-lo. Qual pai não se cansa da infância sem fim?

Cansou dos bebes chorões, dos lamentos, da histeria ociosa. Não suporta mais mitomanos em sua negação crônica das responsabilidades. Simplesmente perdeu a paciência com quem não entendeu o projeto.

Mas então há um projeto?

Há! Claro que há.

Só que a planta está sendo readaptada.