• Uma entrevista sobre Verdades e Solos
  • Resenha de “Céu Subterrâneo” no Jornal da USP
  • A verdade lançada ao solo, de Paulo Rosenbaum. Rio de Janeiro: Editora Record, 2010. Por Regina Igel / University of Maryland, College Park
  • Resenha de “Céu Subterrâneo” por Reuven Faingold (Estadão)
  • Escritor de deserto – Céu Subterrâneo (Estadão)
  • A inconcebível Jerusalém (Estadão)
  • O midrash brasileiro “Céu subterrâneo”[1], o sefer de “A Verdade ao Solo” e o reino das diáforas de “A Pele que nos Divide”.(Blog Estadão)

Paulo Rosenbaum

~ Escritor e Médico Writer and physician

Paulo Rosenbaum

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Negação da morte e Habitat

14 quinta-feira jun 2012

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eutanasia, finitude, habitat, Montaigne, morte, ortonasia, RIO+20

Negação da morte e Habitat

Sabemos que o assunto da hora é a RIO+20. Mas outro tema, igualmente importante, está sendo discutido sem merecer o devido destaque. A comissão que se encarregou de modernizar o novo código penal está concluindo os trabalhos, cuja versão final ainda não se conhece, e ali incluiu assuntos críticos. Refiro-me aqui aos que abordam a terminalidade da vida.

A legislação dos Países Baixos autoriza a eutanásia (medidas ativas, proibidas no Brasil) enquanto nos EUA existem grandes batalhas judiciais que só fazem aumentar as controvérsias. A ortonásia (etimologicamente, morte no tempo certo) tem sido por aqui discutida (diferente da anterior, admitida em casos em que a morte é comprovadamente uma questão de horas ou dias) apesar de já extensivamente praticada. Prevê a cessação de tratamentos considerados fúteis e pode incluir o desligamento de máquinas, interrupção de alimentação parenteral etc.

A ética hipocrática da qual os profissionais de saúde são herdeiros preconiza: não se deve interferir em uma doença sabidamente mortal ou incurável. Por outro lado como saber ao certo? Hipócrates também nos adverte sobre a precariedade das convicções e finalmente questiona em seu primeiro aforismo o valor dos prognósticos: a arte é longa, a experiência enganosa, o julgamento difícil.

O filósofo Montaigne abre um de seus Ensaios com “filosofar é aprender a morrer”. Precisamos aprender, mas como nos educar em terreno tão delicado? Até a pena de morte foi discutida — e abolida em boa parte do mundo – então por que intimidar-se com os debates sobre o fim da vida? Não me convence pensar que a distinção esteja entre castigo e alívio terapêutico.

Esquecemos, convenientemente, que fomos inculcados com uma amnésia chamada finitude. Resumindo, somos desmemoriados o suficiente para tocar a vida contra o inexorável que é nossa condição de mortais. Trata-se de estoicismo adaptativo, conforme mostrou Ernst Becker em seu clássico “A Negação da Morte”.

Hoje temos equipes especializadas em “dar conforto” às famílias de pacientes terminais. Foi uma solução superficial que a medicina hospitalocêntrica encontrou para lidar com o tabu. Este é um legítimo dilema da vida contemporânea: o que fazer diante de sofrimentos extremos e de alegada incurabilidade?

Quem terá o direito de opinar e a quem cabe a decisão final? À medicina, ao Estado ou à família? Haverá espaço para ouvir o único que poderia dar qualquer legitimidade ao ato? Nesse caso o desenganado: o sujeito que muitas vezes é impedido de votar por sedação excessiva, afasia ou coma. Pois e se o doente quiser confirmar presença mais alguns minutos, uns dias, quem sabe a semana? Dissecando o termo “desenganado” descobrimos que pode significar dizer a verdade, revelar, ou dissuadir. E quem pode dissuadir alguém acerca da continuidade da própria vida? É evidente que a sedação da dor e a manutenção de uma medicina paliativa são ganhos importantes no trato com doentes em sofrimento severo.

Portanto o problema parece estar mais no campo da psicologia, filosofia e direitos humanos do que propriamente no da deontologia médica ou direito penal. Qualquer equipe pode ligar aparelhos, mas e quanto a desligá-los? Plantonistas da UTI, dos home care, auditores das empresas de seguro saúde estarão autorizados? Afinal quem é que decide em quem não se deve mais “investir”?

É licito supor que mais este desleixo com os vivos que estão no final de um ciclo esteja mesmo na própria raiz da atual predação sistemática que executamos contra nosso habitat. Queremos consumir mais e praguejamos ao ver espuma nos rios e a bagunça climática. Guiados pelo imediatismo tomamos uma rota de caminho único: já que o planeta está envelhecido vamos logo partir para outro. Infelizmente a Rio+20 não terá tempo de discutir esta tênue relação analógica.
Cabe perguntar: não estamos tornando artificial demais um fenômeno natural assim como já fizemos com os partos e o envelhecimento? Que tal voltar a morrer em casa? Não seria mais digno estar consciente para assistir nosso próprio fim? Há preparação e prevenção para várias situações, mas parece que ninguém se preocupou com a morte. Mesmo quando o prognóstico for desfavorável e o enfermo estiver com os dias contados quem pode decidir quando chegou a hora de abortar a vida? Investidos de qual direito impediremos quem esta morrendo de aproveitar o tempo que lhe resta usando o que sobrou de saúde?

Às vezes é preciso coragem para ir contra as soluções que o senso comum apresenta como óbvias. Da mesma forma que temos o dever de recusar uma vida tutelada, não podemos aceitar o papel de carrascos, mesmo que ele venha com a chancela e a benção do Estado.

Paulo Rosenbaum médico e escritor. É autor do romance “A Verdade Lançada ao Solo”, (Editora Record).
paulorosenbaum.wordpress.com

Para comentar acessar o link do JB :

http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2012/06/14/negacao-da-morte-e-habitat/

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Sociedade dos paradoxos 

24 quinta-feira maio 2012

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Tags

consumo, educação cítica, educação informativa, extrativismo, habitat, RIO+20, Royal Society, Sistemas de produção, sociedade paradoxos, sustentabilidade

Sociedade dos paradoxos

Um grupo de 23 cientistas britânicos da Royal Society , encabeçado por John Sulston, acaba de elaborar um documento – a ser apresentado durante a RIO+20 – que vinculará consumo e pobreza.

Como dado preliminar hoje há 1,3 bilhão de pessoas em estado de pobreza absoluta. Não bastasse a cifra escandalosa, temos que considerar que estes números são totalmente dependentes do padrão de consumo nos países desenvolvidos. Só o Brasil representará nos próximos anos 5% do consumo global, enquanto o continente africano responderá com 70% do crescimento populacional do planeta. Há alguma resposta a esta situação? Consumir mais, certo? Segundo os cientistas, não necessariamente, depende de quem consome. Fato que evidencia como o senso comum é cego.

O consumo excessivo e concentrado produz lixo não administrável, além de poluir em escala não civilizada. O consumo é um ato inconsciente. Aliás, um enigma muito bem explorado pelo marketing contemporâneo. O que os publicitários nos ensinaram nestes anos todos é que precisamos precisar. Porém, há muito mais que um único conflito de interesse quando se trata do binômio desenvolvimento industrial e manutenção da biosfera.

Sem atenção planejada e coordenada de uma educação menos informativa e mais crítica, planejamento familiar e radical equalização do consumo, teremos saudades dos tempos em que as conferencias ainda podiam prometer resultados. Nas poucas unanimidades nessa área, uma delas é que estas decisões não são para hoje. Ontem já seria tarde.

Então lá vamos nós aos chavões: comprar movimenta a economia. O excesso de consumo aumenta as discrepâncias sociais. Consumir faz com que a sociedade se torne mais produtiva e competitiva. A industrialização selvagem asfixia e desarticula micro sistemas artesanais e extrativistas de produção jogando populações inteiras à desvalia e ao desamparo social.

O incrível é que é muito provável que todas as afirmações acima sejam verdadeiras ao mesmo tempo. A explicacão de como podemos conviver com tantas contradições é que chegamos à sociedade dos paradoxos.

Dadas as atuais condições desvantajosas do planeta não há mais como sustentar os padrões que as sociedades industrializadas vêm mantendo desde o pós-guerra. Por outro lado, a crise indica que talvez consumir e induzir consumo sejam a única saída. Um consumo mais igualitário poderá favorecer as sociedades e o mundo.

Podemos detestar isso, mas neste ponto da história, em que nos transformamos numa força geológica, estamos em regime forçado de interdependência. É preciso estimular a consciência a trabalhar, já que ela não pega tão facilmente no tranco. Só quando um norueguês perceber que ele aumentará seu risco se não deixar de comprar sua terceira TV de plasma para que um senegalês tenha seu primeiro rádio, o mundo poderá estar ficando menos díspar.

O interesse ativo em manter a população em estado de obscuridade é, infelizmente, a grande força política dominante. Vale dizer, a transparência que se oferece não é a que necessitamos já que o jogo democrático deixou de colocar os interesses coletivos como os mais importantes. E a única coisa que pode nos unir nesse momento é a responsabilidade com o habitat. A ignorância é o estado de maior vulnerabilidade como mostram os estudos epidemiológicos. Por isso, a solução pode estar em medidas mais radicais que o gradualismo que professam os debatedores canônicos.

É chegada a hora de virar a mesa antes que a natureza e os impasses sócio-ambientais nos virem do avesso.

Paulo Rosenbaum é médico e escritor. É autor de “A Verdade Lançada ao solo” (Ed. Record)

paulorosenbaum.wordpress.com

http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2012/05/23/sociedade-dos-paradoxos/

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