Marcha sem volta (blog Esatdão)

Tags

, , , , , , ,

 

Conto de noticia
07.fevereiro.2014 13:41:19

Marcha sem volta

Não são só os protestos, não são só as notícias, nem só nas redes sociais: existe um veneno explicito nas páginas que circulam pela net e nem poderia ser diferente com bilhões de editores on line. Se há uma virtude na liberdade de acesso às informações é que pode haver transferência de poder para as pessoas. Trata-se de um fenomeno tão poderoso e célere que gera um inquietante efeito paradoxal. Um poder tão difuso pode tornar as instituições cada vez mais fracas. Vale dizer, as instuitições têm lenta formação, são o resultado de décadas, as vezes séculos de amadurecimento. Uma convocação pelo megafone da web é imediata. As instituições apresentam milhares de defeitos mas são a proteção coletiva contra a barbárie. Melhor seria se os avanços na informação não acarretasse ficarmos reféns do meramente opinativo.

A doxa (do grego – opinião) é muito bem vinda num debate, mas que aura problemática se ela não está no contexto do diálogo. Neste caso, ela adquire uma aura dogmática. E como abunda gente com opinão formada, convicção e cabeça feita por aí. Prefiro Carlos Drummond quando escreveu “50, nada resolvido”. Esta multidão de convictos talvez explique a desolação e o o novíssimo mal estar na civilização.

Muito se tem falado de linchamento moral. As vítimas vão das personalidades do cinema, às figuras políticas até os cidadãos comuns. Essas desforras instantâneas — que para os comuns as vezes não são apenas morais — estão diretamente relacionadas com a facilidade e fluidez com que a informação têm chegado às pessoas. E retransmitidas também. Uma notícia rapidamente se transforma em boato e assim se propaga. Até que deparamos com a contraboataria. Contesta-se o primeiro boato, criando nova versão, a terceira narrativa dos fatos. Ainda que a verdade seja subjetiva, existem limites para o abstrato.

E é aí que chegamos à militância.

Agrupamento que torce, com a mesma ênfase, para o ídolo, time de futebol ou partido merece máximo estudo e reflexão. Nos dois primeiros casos, celebridades e agremiações desportivas, trata-se de esfera intrinsecamente pessoal, e, portanto, diz respeito à intimidade. Dela, o fã militante poderá guardar segredo, externalizar sua paixão – amor incondicional ou fúria irracional. No caso da política a complexidade aumenta.  Afeta diretamente os outros, todos que convivem na mesma República. Entusiastas partidários, legiões que seguem os ideólogos ou gente que marcha pela “causa” frequentemente representam a faceta obscura da manipulação política.

As vezes, não sabendo o que exatamente estão defendendo dão declarações curiosas sobre o apoio solidário ou pecuniário que oferecem, por exemplo, a alguém que foi condenado em longo e exaustivo processo. Ou explicitam publicamente ” essa justiça não serve, vamos executar com as próprias mãos”. E, por vezes, reproduzem as palavras de ordem oriundas da boca de quem subsidiou um desagravo a si mesmo. Sabe-se que sempre existe uma desculpa para torcer mas, por favor, para que ninguém precise criar a ONG “direitos de quem não protesta”, alguém aí convoque um plebiscito para separar fã-clubes da política.

Torcer pelo partido e apostar contra as instituições não é só um tiro no pé da democracia, é marcha sem volta.
 

Para comentar use o link

 

http://blogs.estadao.com.br/conto-de-not…

Fraudnet

Jornal do Brasil

Quinta-feira, 6 de Fevereiro de 2014

Coisas da Política

Hoje às 06h16

Fraudnet

Paulo Rosenbaum – médico e escritor 

A noticia recente é de alguém que está sendo enganado na internet a cada 18 segundos no Brasil. Dezoito segundos é o tempo de vestir um pé de meia, andar 20 passos, o tempo médio que alguém se prepara para redigir o cabeçalho de um e-mail. Esta avalanche de fraudes via net acompanha o crescimento das transações comerciais pelo mundo. Estimativas apontam para um futuro no qual a transação virtual será hegemônica.

O que significa mais ou menos o seguinte: o mundo virtual é um ambiente muito mais falseável do que o mundo real. Parece óbvio, mas isso é quase uma ofensa aos defensores da integridade e do progresso representado pelo predomínio  do espaço cibernético sobre a dimensão pluridimensional da existência.

Os viciados em tecnologia e todos os que são coagidos ao vício (como se adaptar sem aderir?) não se dão conta da enorme quantidade de embustes e falsificações por trás das telas. E a fantasia de segurança não se esgota. É como se precisássemos acreditar — assim como a morte — que só acontece com os outros. Mas se a cada 18 segundos se registra uma ocorrência, a epidemiologia da fraude indica que suas chances de ter os dados violados são enormes.

Por exemplo, entre no site de algum governo e tente um download de um formulário. Alta probabilidade de que você será presa de roubo de dados. Compre numa loja de quinquilharias nacional ou internacional, e seu cartão de crédito junto com todas as informações pessoais será repassado para terceiros. Quanto mais campos informando “não repassaremos seus dados para ninguém”, pode ter certeza, logo mais você estará comprando o que nunca pediu. A ideia do “site seguro” é, ao mesmo tempo, uma idealização e uma fraude em termos. Hackers entram em qualquer sistema, como provaram na invasão do sistema de defesa norte- americano.

Podem ser gênios do mal, mas é também um plano de carreira, muitos depois ganham bons empregos como agentes protetores de empresas graúdas. Afinal, não é justo que a violação de privacidade seja um privilégio da NSA.

O que assusta não é a ingenuidade coletiva acerca do monitoramento da vida privada de todos sobre todos. É mais complexo do que isso, pois, ao mesmo tempo, verifica-se quase o desejo de ser acompanhado por alguém. Isso há de indicar algum tipo de perturbação psíquica específica de nossos dias. Gente da área de saúde mental deve estar em assembleia permanente para definir como se chamará e que número ganhará no próximo CID (Código Internacional de Doenças) esta subespécie da síndrome de Estocolmo.

Conclusões preliminares devem indicar que o desejo de ser monitorado, o documento de consentimento da violação da privacidade, deve fazer parte de alguma síndrome narcísica na qual o cidadão precisa sentir que é apreciado, desejado ou coleciona amigos eletrônicos. Pois, há de fato legião de voyeurs, loucos para saber o que você está comendo, com quem esteve à tarde ou quais seus hábitos higiênicos

O bombardeamento não selecionado de imagens e a poluição gerada pelo excedente de informação banalizam o raro, o sutil, as pequenas particularidades agradáveis e importantes de compartilhar mas que, infelizmente, passam despercebidas no mar de bobagens irreflexivas

http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2014/02/06/fraudnet/

Estado do contentamento

Tags

, , , , ,

Jornal do Brasil

Quinta-feira, 30 de Janeiro de 2014

Hoje às 06h00

Estado do contentamento

Paulo Rosenbaum – médico e escritor 

Será que somos todos cidadãos inoportunos no meio dum mar de oportunistas? Uma pena que a oposição seja assumidamente tão pusilânime e que as lideranças não se responsabilizem. Que diferença com os ucranianos, que, sem um milésimo do nosso vandalismo protoanárquico, botaram o governo contra a parede, e não houve um putin que os paralisasse.

É inegável que nosso grau de insatisfação esteja perto do insustentável. Por que reclamamos tanto? Estudos psicométricos de felicidade (é diferente de contentamento) mostram que, superadas as questões de carências essenciais como fome e sustento básico, o excedente não traz mais felicidade, pelo menos não proporcionalmente.

Isso nos leva mais uma vez à justa desconfiança do senso comum que, sem relativizar, costuma estabelecer uma equivalência, entre bem-estar e dinheiro. Então, de onde provém a insatisfação que parece varrer as sociedades? Nem as orientais escapam, basta analisar a preocupante epidemia de mortes por excesso de trabalho na sociedade japonesa, já batizada de “karochi”. O “karochi”, do qual ouviremos falar cada vez mais, é apenas um dos últimos degraus da contradição nas sociedades industrializadas.

Se o que buscamos é felicidade, ou estados correlatos,  o que estamos fazendo com nossas vidas nas quais as prioridades são ditadas pelo ritmo do business? Não é nem mais possível responder atrás do que estamos correndo, porque já nos ultrapassamos no quesito automatismo e impulsividade. Alcançamos um ponto no qual a inquietude não pode ser aplacada por ansiolíticos nem a depressão domesticada por drogas. Vale dizer, podem, mas fármaco algum resolve os aspectos que envolvem a decadência. Sempre que esta palavra emerge, há uma tentação de lhe atribuir valor moral. Talvez até haja, mas prometo que não é este o caso. Neste artigo, decadência é apenas a distância que nos separa da realização.

Por isso, e considerando que as avaliações mostram que a proximidade com a natureza é essencial para haver contentamento, aquele país preserva 60% de suas florestas, deixando muitas de suas riquezas naturais semi-intactas, ainda que longe de inexploradas.

Que os economistas se descabelem dá para entender. Máquinas de cálculos foram feitas para somar, aumentar, amontoar e acumular. Que os administradores avaliem tudo como loucura e recaída obscurantista também é compreensível. Mas o que será que diriam os habitantes se pudessem de fato escolher que tipo de lugar querem viver? Devastação com luxo, ou preservação com vida mais simples? Aglutinados em prisões domiciliares, ou com a liberdade de passear sem medo de ser trucidado ou espoliado? Escolheríamos desertos erodidos ou florestas vivas?

Não é nada fortuito que várias comunidades pelo mundo estejam retomando a ideia de vida no campo. Voltam a surgir núcleos de co-habitação e divisão dos meios de produção. Na Dinamarca, por exemplo, já existe mais de uma centena destas comunidades.

Para se conquistar estados próximos aos da felicidade o segredo pode não ser produção, mas fazer com que ela seja compartilhada. Não porque precisamos ser iguais, muito menos pela força de espadas e da cartilha dos ideólogos. É importante que as oportunidades sejam distribuídas de forma justa.

Gianetti da Fonseca fez brilhante síntese da perversidade de um país que custeia supérfluos quando tem um enorme déficit de casas com esgoto tratado. Trata-se de um paradoxo, para contornar a palavra aberração. As eleições e escolhas que o Estado diz que faz para todos, mas não para nós, não frustram só as pessoas, paralisam a própria vida.

Num documentário, o sorridente ministro do bem-estar do Butão parece estar em posse de algumas das respostas que perseguimos. Por lá o Estado pensa diferente. Um exemplo? O Butão poderia oferecer energia para a vizinha Índia, ávida por crescimento econômico e, portanto, carente de energia. Seria um grande negócio para o país vizinho, relativamente pobre. Geraria um superávit favorável e aumentaria a capacidade de investimento do Estado. Seria razoável pensar que isso seria de interesse nacional, pois não é assim que a cabeça dos governantes costuma operar?

A resposta quase óbvia deveria ser sim. Vamos sacrificar as corredeiras, fazer hidroelétricas e produzir energia para fornecer a quem queira.

Para ele não é tão simples.

Segundo ele, as pessoas que habitam um país buscam essencialmente contentamento. O Butão, ao contrário de muitos países, parece levar a sério a obstinação do papel do Estado. O Estado deve ser apenas um veículo para que os habitantes expressem seus desejos e necessidades. O Estado, quando despeja as pessoas, se transforma num fantasma. E todos sabemos como funcionam parasitas que não têm mais uma função.

O governo, se ainda está construído para servir o povo, deve ser o indutor da felicidade, uma enzima que acelere o desenvolvimento humano e aproxime as pessoas. Se o Estado não pode fazer isso por seus cidadãos, que ao menos não obstaculize suas trajetórias.

Tags: inoportunos, insatisfação, lideranças, oportunistas, oposição, povo

Compartilhe:

Shar

http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2014/01/30/estado-do-contentamento/

Resenha do livro “A Verdade Lançada ao Solo” por Regina Igel (Blog Estadão)

Tags

, , , , , , , , ,

Conto de noticia
29.janeiro.2014

Resenha do livro “A Verdade Lançada ao Solo” por Regina Igel

Resenha*

A verdade lançada ao solo, de  Paulo Rosenbaum. Rio de Janeiro: Editora Record, 2010.

Por Regina Igel / University of Maryland, College Park

Há certos sabores que só podem ser apreciados lentamente, para que a língua tenha mais vantagens em degustá-los e  ganhe tempo para informar o cérebro sobre eles. Respeitadas as coordenadas referenciais, é o caso do livro  A verdade lançada ao solo, de Paulo Rosenbaum. É obra que exige lenta leitura, com pausas regulares, preenchidas por contemplações, reflexões e meditações. Para se aprender, pelos caminhos do rabino Zult Talb, o que é a alma, se ela transmigra ou não, onde se pode encontrar Deus, como chegar até o Criador (ainda como ser vivo), enfim, para ser saboreado em seus meandros místicos, filosóficos, científicos, pessoais e universais, este livro tem de ser lido lentamente. (Eu levei um mês mais uma semana para terminar a leitura – pois parei em várias passagens,  para pensar no que acabava de ler…)

É livro denso, pode-se dizer, enciclopédico pois, ao redor de um verbete – devekut –giram três histórias, um epílogo e uma parte iconográfica. Cada uma das três primeiras especula, analisa, questiona, por personagens ativos e diálogos dinâmicos,  o que vem a ser ‘devekut’. Na primeira narrativa, que transcorre na cidadezinha de Tisla, em meados do século XIX (mais precisamente em 1856, que corresponde ao ano judaico 5.616),  a história esclarecedora de ‘devekut’ tem início numa casa modesta, adaptada para ser também casa de orações para os judeus naquele remoto e parcamente povoado lugarejo. O rabino Zult, líder da comunidade, é visto com respeito e com desconfiança: na sinagoga, ele dirigia judeus que respeitavam a religião e eram pouco afeitos a interpretações esotéricas, às quais ele se dedicava de tempos em tempos. Não que ele fosse um rebelde ou motivador de rebeldias religiosas, mas era um homem que não aceitava a palavra escrita como prova irrefutável de uma verdade, nem tampouco a interpretação tradicional do Talmud (o texto que reúne códigos de comportamento ético, composto por uma sequência de rabinos a partir do segundo século da Era Comum aos judeus e cristãos).  Na página em que se identifica “ … Zult era um iconoclasta” (p. 24), se encontra o cerne desta narrativa, que é a imersão na ‘devekut’. O autor coloca uma nota explicativa ao pé do texto (como faz com quase todas as palavras de origem hebraica, em transliteração ao português), esclarecendo que ‘devekut’ significa “aproximação, aderência, apego. Termo místico que define proximidade com Deus. Estado modificado de consciência, no qual os homens podem experimentar no corpo a própria energia de Deus.” No mister de provar tal experiência, o rabino pode ser observado como se fosse um submarino cortando águas profundas, interceptado por diversas correntes (as perguntas, os comentários e observações de seus ouvintes), mas com uma trajetória firme, articulada por sua vontade de experimentar um fenômeno místico, arrebatador, que se manifestaria nele num delírio de integração ao Divino e do qual ele lançaria luzes a seus seguidores. Entender os caminhos de Zult é um desafio – não só para a sua plateia, mas para os leitores também. O iconoclasta – na verdade, um homem interessado no diálogo, numa discussão esclarecedora, numa dialética quase platônica (talvez) – tentava arrancar dos ouvintes a capacidade latente deles em argumentar, discutir, trocar ideias. Seus discursos desafiavam a crosta conservadora da sua comunidade e de conselhos rabínicos, quando defendiam a ideia de que a Diáspora ou o Exílio era melhor para os judeus do que se aglomerarem em Israel, como queriam os sonhadores do seu tempo – que se tornou realidade pela força sionista. Como era formado em Filosofia, por uma universidade não-judaica, Zult trazia para suas prédicas a ideia de que as ciências eram benéficas para todos e que os judeus religiosos não deveriam se fincar apenas na fé ou na espera de milagres, pois a medicina (sua vocação frustrada), por exemplo, era um pilar de suma importância na prevenção e na cura de doenças. Um de seus muitos filhos, o Nay, era um atento interlocutor e provocador, que muitas vezes substituía um público de ouvidos um tanto moucos em suas prédicas, pois o menino de 14 anos lhe fazia perguntas, apresentando desafios e sugestões. E também houve ocasiões em que Zult, o iconoclasta, não tinha público nem filho para contestar suas verdades; mesmo assim, ele falava, ou se calava, preparando-se para receber a ‘devekut’ – e a recebia, gerando em si mesmo uma energia de alta frequência, de pulsação insólita, que o levava a pensar que se impregnava da energia divina. Não que quisesse se igualar a Deus, mas queria usufruir da divindade o que a patologia de ser um ente humano não lhe permitia.

Se a ‘devekut’ foi definida no início da primeira narrativa e gradualmente explicada ao longo das primeiras cem páginas, o título da obra só vai receber esclarecimento para além da página 100, como se fosse necessário preparar os leitores para a essência de uma escrita laica num contexto carregado de religiosidade. “A verdade lançada ao solo” (fragmento que se  encontra no Livro de Daniel 8:12) se tornou uma espécie de mantra ou bússola para o pensamento, utilizada por Zult, na sua busca por uma interpretação do versículo em todas suas possibilidades semânticas ou racionais e místicas ou movidas pelo supernatural. Em resumo, a verdade está diluída no pó ou é o pó que se alimenta da verdade? O livro se apropria dessas (entre outras) versões para explicar Deus, o mal, o bem, a doença, a cura, o êxtase, o milagre, a indiferença, a alma, o espírito, indo do geral ao particular, ao mencionar a necessidade de se estudar textos bíblicos em duplas (como o fazem os estudantes dos seminários judaicos), pois uma leitura individual não é aceitável – faz-se necessário discussão, apresentação de ideias conflitantes, diálogo, é preciso liberar o epílogo, a conclusão, de todo o emaranhado que nos desafia.

O diálogo vem a ser o cerne da segunda narrativa, “A balada de Yan e Sibelius”. Os personagens são dois homens perdidos nos Alpes, em meio a uma nevasca. Um deles é médico, o outro é seu ex-paciente; um deles é o Dr. Talb, descendente do Zult Talb, personagem proeminente na narrativa anterior. Numa área escavada numa montanha gelada, que mal abriga os dois, à espera de não se sabe o quê, ou que o tempo melhore ou que eles se entendam, discorrem sobre a ótica médica e a ótica dos pacientes que não só podem diferir uma da outra, mas chocar-se também.  Fé e razão passam a ser elementos de fricção e ponderações para os dois perdidos na brancura da neve e na negritude da noite. Ambos mantêm o fogo do conhecimento aceso e reciprocamente sopram as chamas, como querendo que um se apagasse para o outro continuar a existir.

Como o fez na primeira história, o narrador interpõe ao texto ‘recados’ ou intercalações de cunho explanatório sobre a religião, hábitos dos judeus ao longo dos séculos e outros temas. Imitariam os ‘comentários’ ou ‘ridushim’, notas ou observações marginais ao texto do Talmud. Nesta narrativa, as interferências explicam certas reações orgânicas a alguns remédios, os efeitos da sua ‘produção industrial’,  a manipulação do corporativismo, o darwinismo, o congelamento dos órgãos internos, a fome contínua, o perigo da morte pela inércia física no panorama congelado  – em enunciados breves, não-invasivos, que complementam o desenrolar dos eventos. Com a precariedade da situação, o judeu impulsiona o tema da ‘devekut’, que passa a ser o jogo dialético entre os dois alpinistas. Ela é então praticada: os sentidos se renovam, os membros congelados se movem, a cabeça se esvazia do medo e da incerteza, a “Presença” penetra pelos olhos dos seus praticantes. “… não tem como comparar com droga nenhuma. Nem alucinógenos, nem estupefacientes, nem nada da farmacopeia”(p. 479). É a fé ou é a alucinação dos corpos deteriorados?

A terceira e última das narrativas, “Sonho não interpretado”, concerne tratamentos de dependentes químicos, na época contemporânea. Um jogo de xadrez se coloca entre médico e paciente e mais: doutrinas espíritas, um papiro que contava vidas dos antepassados do médico (entre eles, o rabino Zult Talb), transes, incursões a cemitérios de judeus poloneses depois do Holocausto, perspectivas para o mundo sob o comando dos norte-americanos,  terrorismo, Al-Qaeda, a destruição das vidas e das torres gêmeas em Nova York, exorcismo, os justos em cada geração judaica… um repertório que instala personagens e questões dentro de uma moldura atual, atravessando Israel, Grécia, Egito, o Brasil e a inclusão do velho Zult Talb, que reaparece em espírito. Atmosfera sufocante, perturbadora e liberadora, instiga perguntas que exigem respostas,  como se indicassem que, no mundo caótico em que vivemos, só o questionamento pode nos encaminhar para o conhecimento.

O Epílogo é uma tentativa de amarrar os eventos principais, transcorridos pelas três narrativas mas, na verdade, são os leitores que devem fazer o acerto das circunstâncias lidas, visualizadas e imaginadas, com o roteiro fornecido pelo autor. Este também insere fotos dos ‘pergaminhos’ deixados por Zult (em papel brilhante, de um colorido esmaecido como num daguerreótipo, em escrita artística), para que as futuras gerações soubessem que a ‘devekut’ é uma atividade que pode e deve ser experimentada para uma aproximação real com Deus, ainda que paradoxalmente seja abstrata, como parte do absurdo da existência humana.

Para quem eu recomendaria este livro? Para aqueles que não sabem absolutamente nada sobre judaísmo, para aqueles que, como eu, sabem um pouquinho e para aqueles que sabem bastante. Esta obra, imersa em conhecimento, divulgado por diálogos e meditações dos personagens, é inédita no repertório de obras brasileiras de ficção, pois mostra intenções implícita e expressas de provocar nossa curiosidade intelectual, espiritual e emocional. Quem a ler, ganhará em conhecimento sobre a religião judaica, seus mitos, rituais, tradições, transgressões e acertos; sobre alma, Deus,  julgamentos humanos e divinos mas, principalmente, ganhará em conhecimento de si mesmo. O estilo da escrita tem volteios e sinuosidades, trazendo às narrativas possibilidades de caminhadas mentais, por uma leitura lenta e gradual. Dêem o tempo necessário para seu cérebro e suas emoções procurarem ‘a verdade lançada ao solo’.

Regina Igel é professora titular de Literaturas e Culturas em Língua Portuguesa no Departamento de Espanhol e Português da Universidade de Maryland. É autora de inúmeros artigos, publicados em diversas revistas especializadas nos Estados Unidos, Europa e Brasil. A Profa. Dra. Regina Igel é também encarregada da seção Brazilian Novels do Handbook of Latin American Studies, uma publicação da Biblioteca do Congresso, em Washington, D.C., e colabora para esta publicação com cerca de 70 resenhas de romances publicados num período de dois anos no Brasil. Foi colaboradora do Jornal “O Estado de São Paulo” (Suplemento Literário e Cultura). É autora dos livros: “Osman Lins, uma bibliografia literária” (1978) e “Imigrantes Judeus, Escritores Brasileiros – O Componente Judaico na Literatura Brasileira (1997).

*Um trecho desta resenha será publicada no Handbook of Latin American Studies, uma publicação da Biblioteca do Congresso, Washington, D. C. que está programado para sair em 2015 (Vol. 60)

____________________________________________________________________________________________________

English Version

“Throw Truth to the ground” by Paulo Rosenbaum. Rio de Janeiro: Editora Record, 2010.

By Regina Igel / University of Maryland, College Park

Translated from the Portuguese by Alex Forman and Regina Igel

There are certain flavors that must be savored slowly to give the tongue a chance to absorb them and time enough to inform the brain about them. Keeping the necessary distance from this parallel reference, this is the case of A Verdade Lançada ao Soloby Paulo Rosenbaum. It is a book that calls for a slow reading, with regular pauses for contemplation, reflection, and meditation in order to enjoy, along with the teachings of rabbi Zult Talb, what the soul is, whether it transmigrates or not, where God can be found, how we can meet the Creator (while still living). To fully appreciate its philosophic, scientific, personal, and universal mystical meandering, this book has to be read unhurriedly. (It took me a month and a week to finish reading, because I paused at various passages to think about what I’d just assimilated.)

One could say that the book is dense, even encyclopedic, since it comprises three stories, an epilogue, and an iconographic section revolving around a single term – devekut. Each of the short stories explores what it is to be “devekut” through speculation, analysis; the characters’ own questioning, and their dynamic dialogs. The first narrative takes the reader to the town of Tisla in the mid-nineteenth century (more precisely in 1856, which corresponds to the year 5,616 in the Jewish calendar). The enlightening story of “devekut” begins in a humble home, adapted also to be a house of prayer for the Jews of that remote and scarcely populated village. Zult, the rabbi and leader of the community, is treated with respect and mistrust. He oversees a religious congregation little familiarized with the esoteric interpretations he dedicates himself to from time to time. The rabbi is not a rebel nor is he calling for a religious rebellion, but he does not accept the written word or the traditional interpretation of the Talmud (ethical codes of behavior compiled from the writings of a series of rabbis from the second century of the Common Era for Jews and Christians) as irrefutable proof.  The heart of the narrative is found on page 24, where Zult is shown to be “an iconoclast” and is immersed in the “devekut.” The author adds a footnote (as he does with almost all Hebrew words transliterated in the text)  explaining that “devekut” means “approximation, adherence, attachment. Mystical term defining closeness with God. Modified state of consciousness in which men can experience the energy of God in their own bodies.” In order to prove that such an experience exists, the rabbi might be seen as a submarine slicing through deep waters, intercepted by various currents (the questions, comments, and observations of his listeners). But he remains firm in his itinerary, articulated by his desire to manifest a mystical, ravishing phenomena in himself, in the delirium of joining with the Divine, from which he will enlighten his followers. Understanding the ways of Zult is a challenge not only for his audience, but for his readers too. The iconoclast – actually, a man interested in dialog, instructive discussion, and nearly platonic dialectic (perhaps) – tries to draw out his listeners’ latent ability to argue, discuss, and exchange ideas. His lectures challenged the conservative crust of his community and the rabbinical counsel who defended the idea that, for Jews, Diaspora or Exile was better than to congregate in Israel, as the visionaries of the time foresaw, and which later became reality through Zionist efforts. Zult had a degree in philosophy from a non-Jewish university, and he brought to his teachings the idea that science was beneficial to all and that religious Jews should not rely on faith alone or wait for miracles, since medicine (his frustrated vocation), for example, was of unparalleled importance in the prevention and cure of diseases. One of his many sons, Nay, was an attentive interlocutor and provocateur, often making up for the listeners’ silence, on whose deaf ears Zult’s speeches would fall; the fourteen-year-old asked questions, challenged, and made suggestions. And there were also occasions when Zult, the iconoclast, had neither public nor child to challenge his truths; but even so, he spoke or stood silently, preparing himself to receive the “devekut.” Then he would receive it, generating within himself an energy that was of such a high frequency, and of such an uncommon rhythm, that it led him to believe that he was impregnated by divine energy. Not that he wanted to be equal to God, but he wanted to enjoy something of divinity not usually allowed by the condition of being a human being.

As the “devekut” was defined at the beginning of the first story, and gradually explained over the first hundred pages, the title of the book only becomes clear beyond page 100, as if it were necessary to prepare the reader for the essence of a lay text in a context laden with religiosity. A fragment from the Book of Daniel (8:12), “You threw Truth to the ground,” became Zult’s mantra or fixed thinking in his search for an interpretation of biblical verse in all possible semantic, rational, mystical, and supernatural explanation. At last, is truth diluted into dust, or is it the dust that nurtures truth? The book grasps these (among other) interpretations to explain God, good and evil, illness and cure, ecstasy, miracle, indifference, the soul, the spirit, moving from the universal to the particular, when mentioning the necessity of studying the Bible in pairs (as Talmudic scholars do). A single reader is not acceptable since it is necessary to discuss, to present conflicting ideas, to establish a dialog with each other, in order to release the epilogue, the conclusion, from the mass of problems challenging us.

Dialog is at the heart of the second narrative, “A Balada de Yan e Sibelius.” The characters are two men lost in the Alps, in the middle of a blizzard. One is a doctor, the other a former patient of his. Dr. Talb is a descendent of Zult Talb, the preeminent protagonist of the previous story. In a dugout in the frozen mountain that barely shelters the two of them, waiting on who knows what – that the weather clears or that they reach some understanding between them – they discuss a doctor’s and a patient’s points of view which not only differ semantically from each other, but also violently clash. Faith and reason become elements of friction and deliberation for the two lost in the whiteness of the snowstorm and the blackness of night. Both keep the flame of knowledge lit and take turns blowing on its ashes, as if they wanted one to be extinguished so that the other could go on existing.

The narrator interjects “messages” or parenthetical statements of explanation about Jewish religion and customs throughout the centuries, and other subjects. These notes might be an imitation of the “commentaries,” or “Rashi’s notes,” observations written in the margins of the Talmud. In this narrative, the remarks explain some of the organic reactions to some medicines, the effects of “commercial production,” the manipulation of corporatism, Darwinism, the freezing of internal organs, famine, the risk of death by physical inertia in the frozen panorama – in brief, non-invasive comments that complement the evolution of events in the narrative. In this precarious situation, the Jew drives the “devekut” theme, which becomes a dialectical game between the two alpinists. Then, it is practiced: feelings arise again, frozen body parts move, the mind becomes empty of fear and doubt, the “Presence” shines through the eyes of the practitioners. “. . . impossible to compare to any drug. Not hallucinogens nor narcotics, nothing from the Pharmacopeia” (p. 479). Is it faith, or is it some hallucinatory effect emanating from the deteriorating bodies?

The third and last of the narratives, “Sonho Não Interpretado,” concerns the treatment of the chemically dependent in our times. A chess match is placed between the doctor and the patient and more: spiritualist doctrines, a papyrus with the doctor’s predecessors’ lives written on it (among them, the rabbi Zult Talb), trances, incursions to the cemeteries of Polish-Jews after the Holocaust, opinions about the world under American command, terrorism, Al-Qaeda, lost lives, the destruction of the twin towers in New York, exorcism, the Just of each Jewish generation… In a repertoire that crosses Israel, Greece, Egypt, and Brazil, bringing these characters and questions into a contemporary frame, including old Zult Talb, who makes an appearance as a ghost, this suffocating, disturbing, and liberating environment raises questions that demand answers, as if to indicate that in this chaotic world in which we live, only questioning can lead us to knowledge.

The Epilogue is an attempt to tie up the main events in the stories, but in truth it is up to the readers to link these seen and imagined circumstances in the author’s script. He also provides photographs of the “scrolls” left by Zult (inserted on shiny paper, with washed-out coloring like of a Daguerreotype, with artistic writing) so that future generations may be able to know that “devekut” is an activity that can and should be tried to find real closeness to God, even though it is paradoxically abstract, like some of the absurdity of human existence.

To whom would I recommend this book? To those who know absolutely nothing about Judaism, to those who, like myself, know a little bit, and to those who know a lot. Immersed in knowledge disseminated through the dialogues and meditations of its characters, this book may be unique in Brazilian literature, since it demonstrates implicit and explicit intentions to provoke our intellectual, spiritual, and emotional curiosity. Who reads it will benefit from the wisdom surrounding Jewish religion, myths, rituals, traditions, transgressions, and assertions about the soul, God, human and divine judgment. But above all, the reader will learn something about him or herself. The writing style meanders and is sinuous, bringing to the narrative the option of mental perambulations for a slow and gradual reading. Give your brain and feelings the time they need when “You throw Truth to the ground…”

http://blogs.estadao.com.br/conto-de-noticia/resenha-do-livro-a-verdade-lancada-ao-solo-por-regina-igel/

Paulo Rosenbaum
rosenb@netpoint.com.br
rosenbau@usp.br

Dia Internacional em Memória às vítimas do Holocausto (Blog Estadão)

Conto de noticia

O Holocausto, em uma e em 6 milhões de palavras

A Organização das Nações Unidas declarou em 2005 o dia 27 de janeiro como o dia internacional em memória das vítimas do Holocausto. Dia 27 foi a data da libertação dos prisioneiros do campo de extermínio de Auschwitz.  Será que houve algum exagero?  Por que aquilo que já foi descrito como o “maior drama da história ocidental” deve estar sempre em pauta? Por que não passamos a borracha e vamos adiante? Afinal já faz 69 anos! Desolado, as vezes sinto que não há cabimento dar ouvidos a quem não não quer aprender com a história. Como alguém já escreveu, é mais do evidente que vivemos uma era com déficit de alunos.

Pois recentemente, numa discussão via web deparei com argumentos revisionistas clássicos na boca de usuários ou muito ingênuos ou muito mal intencionados. Lá, dizia-se (sic) “que eles (a senhora tinha um sogro que pertenceu à SS) foram tão vítimas quanto os que sofreram” (sic) além do desfile de chavões como “esqueçamos as versões que lemos e procuraremos nos informar melhor, já que a história é sempre escrita pelos vencedores” (sic), diante dos quais, alguém como eu, neto de vítimas do nacional-socialismo alemão, só teria duas alternativas civilizadas, reduzir-me ao silêncio, fazer uma denúncia ou promover uma serena discussão sobre a natureza do absurdo.

Como sou um ser verbal não sereno e as denúncias todas caem no abismo comum das atrocidades substituídas por decurso de prazo, resta promover um debate sobre o absurdo da condição humana. Imaginei a história contada pelos derrotados. E os nazistas teriam muito a dizer? Um resumo poderia ser o seguinte: Um dia tudo será retificado. Não só não fomos os carrascos voluntários do fuher como fomos injustiçados violentamente pelas potencias que nos ocuparam. Não só não esqueceremos da humilhação que sofremos em Versalhes como sempre soubemos o plano dos aliados. Na verdade, tudo não passou de uma conspiração da mídia internacional contra o povo alemão já que a doutrina de Hitler se não exatamente pacifista, usava a beligerância na justa medida contra povos que não aceitavam as evidencias científicas de que algumas raças devem prevalecer sobre outras”

 Poderia imaginar muito mais, mas fiquemos com fatos. Há alguns anos, durante em encontro de especialistas na Alemanha, um professor de história da medicina me respondeu categoricamente quando lhe fiz uma pergunta. Minha dúvida: como era a educação nas escolas contemporâneas alemãs sobre o período nazista. Além de um momentâneo mal estar o catedrático, muito sincero, me disse: ‘”Colega, sabe de uma coisa? Acho que é excessiva. Não aguento mais meus filhos tendo aulas sobre o assunto!”. Na hora não o contestei  — pelo que sinto e pelo material que circula pela web, fica-se cada vez mais convicto da obrigatoriedade de explicitar o que significou o holocausto e a política nazista para as minorias — mas me limitei a anotar sua cara contrariada, mais ou mesma que devo ter deixado escapar. O mal estar estava gerado.

Pois no último dia deste colóquio este mesmo professor me levou a uma cidade vinícola, região histórica não bombardeada pelos aliados, a cerca de 40 kms de Stuttgart. Pois lá ele me chamou de lado para me dizer que talvez estivesse enganado em nossa pequena “não discussão” do dia anterior. Curioso, perguntei o que o tinha feito mudar de ideia. Ele me conduziu até uma ponte. No final, havia uma placa. Ele apontou o dedo e esboçou uma tradução, para a qual relato o teor aproximado: “Nunca esqueceremos nossos heróis, ainda sem liberdade em prisões estrangeiras”.

A data da placa? 1959.

O mais comum é que a memória das tragédias permaneça subestimada, por isso mesmo a amnésia é um amanhã de erros persistentes. Lembrar está para além das homenagens: é trazer à vida e fazer reviver quem foi calado pelo arbítrio, a tirania e o descaso dos outros.

Para comentar

http://blogs.estadao.com.br/conto-de-noticia/holocausto/

Ócio sem sentido

Coisas da Política

Hoje às 06h00

Ócio sem sentido

Paulo Rosenbaum – médico e escritor

A questão da concentração de pessoas em lugares públicos e privados foi analisada por vários ângulos, com evidente ênfase na ideologia de quem observava. Alguém nomeou “fenômeno cultural” enquanto outras preferiram carregar na tinta para dizer que era uma extensão das manifestações juninas. Entretanto, a questão que comanda este tipo de concentração é o número de pessoas jovens e sem atividade que há uma década não encontram lugar ao sol. Os “nem, nem” apresentam um problema real de falta de oportunidades, mas um dilema ainda maior de falta de perspectivas.

E esse pode ser o ponto central e pouco tratado da questão. Ter e encontrar um lugar significa achar a identidade que permite ao sujeito a aquisição de uma certa paz. E o apaziguamento é essencial numa sociedade. Especialmente para quem tem a inquietude do porvir em ebulição.

É essa dificuldade em definir a identidade que está em crise na sociedade contemporânea. Estas pessoas não sabem o que buscam, muito menos encontraram lugares onde realizar estes encontros. Ouvindo o depoimento de alguns deles, ficou claro que não querem nada além de buscar espaços onde possam encontrar e serem encontrados por pessoas. O detalhe é que muitos nunca se viram pessoalmente. São entidades de carne e osso mediadas por vozes, imagens e mensagens.

Ao mesmo tempo em que o lazer se transformou em encontros nos nichos de consumo, a análise do discurso evidencia que os valores são os mesmos de qualquer agrupamento desta faixa etária: ver e serem vistos, exibir marcas e grifes, apresentar a evolução material e testar suas popularidades. Este último talvez seja o motor mais evidente desta novíssima modalidade de tour urbano.

No que diferem as classes sociais? Em poder aquisitivo? Para esta análise isso é periférico.

Talvez não seja tão trágico, mas é no mínimo melancólico que uma geração esteja tão à deriva. Talvez sempre tenha sido assim, mesmo para os que já passaram para outras etapas da vida. A diferença talvez é que a procura do ócio já tenha sido formatada sob perspectivas menos estreitas e narcisistas. É provável que haja algum grau de idealização, mas enxergava-se algum movimento distinto nas gerações anteriores. A necessidade de encontrar hobbies e motivações particulares estavam condicionadas menos por motores externos, e o cultivo das relações se dava de forma menos maciça e impessoal.

É esta a relação que traz a grande novidade. É como se a facilitação extrema de comunicação das redes sociais concedesse a esta geração não só a possibilidade da popularidade instantânea como a promessa de que é esse um objetivo per se. Trata-se de uma espécie de simulacro daquilo que os homens públicos sempre produziram com seus cartazes, horários de propaganda obrigatória, discursos e palanques. Ninguém presta muita atenção nos descaminhos que a obsessão por fama, necessidade de adoração e busca por veneração pode trazer aos indivíduos. Ela é importante. Esta imitação involuntária, a cópia de um modelo culturalmente esgotado mas com enorme força simbólica pode ter afetado definitiva e talvez irreversivelmente o modo com que nos relacionamos.

Isso transcende os jovens, que agora migram para redes sociais mais dinâmicas, diretas e menos vigiadas por “coroas” abelhudos. O Facebook já vem acusando: caminha para ser hegemonicamente atividade de gente de meia idade e de velhos.

Diante de telas de conexões incalculáveis a ideia de vida social e vida em grupo assumiu dimensões inquietantes. Num fenômeno mundial e multietário, para cair no agrado das massas, grandes contingentes de pessoas tentam achar formas de sedução para captar adeptos, clientes, amigos virtuais e curtidas. Muitos já vivem em função da conectividade e se tornaram psiquicamente dependentes dos retangulozinhos vermelhos, sinal de aprovação para o que acabou de ser postado.

Vamos então produzindo legiões de seguidores e celebridades parasitas. Talvez todas elas sejam. Neste caso, parasitas porque muitas vezes não há nada artístico, curioso ou exuberante em muitas pessoas que conquistaram, com enorme esforço, o estatuto pop. Celebridades, porque não importa mais o mérito, o que vale é a recompensa de sair do anonimato. Poucos sabem que longe de ser uma maldição ele é talvez a única, provavelmente a última garantia de ainda se estar em posse de uma vida privada.

http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2014/01/23/ocio-sem-sentido/

 

#naovaiterpais# (Blog Estadão)

Tags

, ,

Conto de noticia
22.janeiro.2014 13:35:30

#naovaiterpais#

Como muitos, avalio que os custos do evento desportivo deste ano, num país como o nosso, beira o inescrupuloso. No momento precisamos da frieza e do pragmatismo parecidos com aquele dos homens públicos,  É que, infelizmente, não há nenhum registro científico de que algum pinto tenha voltado para dentro do ovo. O dinheiro já foi gasto, os estádios são uma realidade e com ou sem tanques nas ruas, haverá uma Copa. Se tivesse dado certo poderíamos ter uma economia em crescimento e aeroportos decentes. Provável que nem isso aconteça. Em Fortaleza alguém foi franco o suficiente para dizer que “se não der tempo, o consórcio vencedor se comprometeu a erguer uma estrutura de lona”!!!

Portanto, tarde demais folks. Seria outra coisa se tivéssemos mudado as coisas pelo voto, isso antes da choradeira, do barulho e das pichações. A melhor e mais eficaz forma de protestar é retirar o poder de pessoas ineptas através das eleições. Foi para isso que os gregos se deram ao trabalho de bolar uma coisa tão trabalhosa. Continuar botando para quebrar – parece que este é o  grande plano alternativo à Copa — funciona só como um exercício catártico para expressar indignação e liberar frustrações. Mas a violência dissemina respostas e mina a democracia que nos resta. Os espertos de plantão já desenvolveram tecnologia e know how para faturar politicamente com a paralisação do País. O risco de se limitar ao slogan naovaitercopa é produzir o efeito colateral naovaiterpais.

Concentrem energia, respirem fundo, vaiem, critiquem, saiam por aí para exercer a resistência pacífica. No melhor estilo da frase do Moreira da Silva “tire o sorriso da tua cara que quero passar com minha dor”, protestemos com elegância. O mundo todo observará a assimetria do padrão fifa no Pais de serviços e infraestrutura pífias. E o principal: votem com raiva, isso sim vai arrancar a pouca grama dos cabelos deles.

Para comentar use o link do Estadão

http://blogs.estadao.com.br/conto-de-noticia/naovaiterpais/

A dor merece nosso constrangimento. (Para quem perdeu)

A dor merece nosso constrangimento.

Para os que perderam e contra a inércia da justiça!

 

Devo estar cultivando a insensibilidade já que não me comoveu o choro presidencial nem a circunspeção dos políticos nos funerais. Além disso, temos que suportar o horroroso espetáculo dos apresentadores explorando a biografia das vítimas ou especialistas explicando como os alvéolos são destroçados pela inalação de fumaça. Nesse campo de batalha, só cabem urros, uivos, ritos de contrição. A dor merece nosso constrangimento.

São poucas ou muitas as palavras que podem descrever acuradamente o absurdo. Absurdo é pouco, estultilóquio, limitado, dislate, distante. Precisava de um vocábulo sem precedentes. Pois “galimatias” revela um glossário analógico apropriado para o desastre gaúcho: um acervo de heresias e incoerências disparatadas, coxia de desconchavos, parvoíce chapada, um amontoado de cacaborradas, aranzel, inépcia, chocarrice. Para contornar registros menos recomendáveis ao grande público, cada um deles pode indicar o repertório que se passa pelas nossas cabeças quando tragédias completamente evitáveis parecem inevitáveis.

A falta de decência não é só fazer as coisas sem pensar que outros podem se ferir ou sair lesados. Paira no ar um senso de desproporção, tocado pelo culto ao único mito invicto de nossa era: grana.

Há uma máxima que deveria vir instantaneamente à cabeça de qualquer um “tratarei todo filho como se fosse meu”. Passa longe do sentimento predominante. Que dizer dos donos do lugar e dos homens da segurança? Inicialmente, sem perceber a eminente tragédia, impediram pessoas de sair do inferno. Quais as regras a serem seguidas e quais merecem desobediência civil já?

Não sei quantos mais poderiam ter sido salvos da asfixia, da carbonização. Uma vida poupada teria feito toda diferença. Mas havia a barreira do execrável pedágio, a pirotecnia fora de lugar, o entupimento das salas, as formigas espremidas na armadilha.

Não vem ao caso apontar para a banda ou para os proprietários como alvos óbvios de punição e responsabilização criminal. Já que pais e mães tiveram seus futuros cassados e as vítimas ardem na sombra, seria preferível acompanhar o que o poder público tem a dizer.
Em geral fiscais são bons burocratas e, raramente, tem consciência de seu papel vital na prevenção dos desastres. Prevenção, lugar comum, baixa visibilidade, anti-popular, mas a única palavra chave para não termos que ouvir a esfarrapada desculpa “fatalidade”. Isso não é um se, está acontecendo agora. Nas enchentes, na calamidade absoluta que é a segurança pública do País, na incapacidade organizacional para gerir o dia a dia das cidades. A verdade é que se ainda vivemos ilesos, é por sorte e apesar do Estado. E não se trata de apontar para um único partido. Todos comungam deste mínimo múltiplo comum, a incapacidade de enxergar que toda matéria política caberia numa sentença: governo é para o povo. Submergidos no populismo ignorante, cosmético e estelionatário quanto dinheiro ainda será arrecadado nas miríades de impostos pagos para fiscalizar e manter as bocas de lobo, as escolas, o passeio publico, a segurança, a defesa civil? E como isso será gasto? Não sabemos e ninguém sabe. Mark Twain escreveu: “o governo é meramente um servo, meramente um servo temporário: não pode ser sua prerrogativa determinar o que certo e o que está errado, e decidir, quem é um patriota e quem não é. Sua função é obedecer ordens, não originá-las.”
Só quando os administradores forem imputáveis e sentirem nos bolsos e na privação de liberdade que, se falharem em prevenir o prevenivel sofrerão consequências pesadas, talvez tenham mudanças efetivas no dislate que é o planejamento público no Brasil. Só quando a opinião pública exigir que as apurações não se limitem a dois ou três bodes expiatórios, mas, a quem, de fato, permitiu a vigência do absurdo. Talvez ai, calçados na educação solidária, o respeito aos cidadãos terá status de lei.

Na hora dos massacres a solidariedade autentica vem das pessoas desvinculadas do poder. Emerge pura da nossa emoção, premida pelo nada, esvaziada de sentido, e lapidada pela voz rouca do abandono. Um sobrevivente do incêndio descreveu “vi o monte de corpo empilhados uns em cima dos outros, como os judeus no holocausto”. Ainda que o cenário justifique a analogia, a outra semelhança é a gratuidade com que essas vidas foram incineradas.

Todos nós, civilizados desde o berço, podemos enxergar tragédias como inerentes à condição humana. Rachaduras na placa continental, asteróides, furações e terremotos são eventos inevitáveis, às vezes inexoráveis. Crematórios não. A dor merece nosso constrangimento, assim ao menos sofreremos todos juntos. Não entendo bem por que, mas parece que precisamos derreter para nos unir.

Paulo Rosenbaum é médico e escritor. É autor de “A Verdade Lançada ao Solo”(Ed. Record)

Paulorosenbaum.wordpress.com

A libertação do óbvio

A libertação do óbvio  

Nobody was ever meant
To remember or invent
What he did with every cent.

Robert Frost

O comissário do escritório de registro de patentes nos EUA, Charles Duell, fechou o lugar no início do século XX, alegando que “tudo que pode ser inventado já foi inventado.”  

A humanidade sempre depara com essa divisão. A metade Duell de nós vive com a expectativa de que somos e permanecemos óbvios. De que não há muito como escapar da monotonia e de que não há  modo de conceber o novo. Tudo seria uma espécie de replay-reprint. Seríamos o carbono universal daquilo que sempre existiu.

Exilados na maldição do status quo, estaríamos condenados ao imobilismo. E o que esperar de uma civilização não criativa? Pouco, assim como quase nada de uma geração que cresceu sob a educação baseada em televisão e mídias sociais.

 A principal lacuna do aprendizado contemporâneo é não poder reconhecer que os recursos essenciais nunca foram os externos.  Se há uma premissa no processo educativo ela seria promover e desenvolver nossos instrumentos internos.  Uma pedagogia libertária só acontece com reconhecimento dos talentos e aptidões de cada sujeito. Vamos no sentido oposto ao enaltecer a técnica sem arte e por isso estruturalmente confinados por uma cultura que está na raiz dos equívocos sociais.

No pseudo-dilema metrópole X periferia, temos que nos perguntar por que o centro se tornou o epicentro dos desejos, a principal categoria de sucesso? Por que assimilamos valores com suspeita neutralidade? No final, é a grana que governa nossas vidas. Isso não significa que o capitalismo seja uma maldição como pregam os  ideologos que só conseguem pensar por cartilhas. Nem o paraíso. Mas as sucessivas experiências nas sociedades onde vigorou a ditadura do proletariado comprovaram: elas conseguem ser mais censoras, atrasadas e discriminadoras que outras.  Casta por casta, prefiro aquela na qual ainda caiba ser dissidente e sobreviver.

Sem corrigir as distorções na cultura, a redução das injustiças sociais não produzirá os efeitos favoráveis que se esperam. Paz social, solidariedade, alguma fraternidade e se não for abuso, liberdade são frutos de processos educativos construídos, não de isonomia monetária.

Uma sociedade mais justa deveria ser uma sociedade que discute suas prioridades, conduzida por Estadistas efemeros que aceitam e compreendem seus papéis transitórios.

O problema é que os valores não estão na mesa. Ninguém dá um fuleco para eles. Seguimos num processo educacional, em uma sociedade que discrimina sem formar. O que privilegiamos são aquisições de instrumentos que garantam nosso triunfo na competição. O objetivo ainda é subir no pódio ao final da corrida: perfomance,  eficiência, rendimento e resultados.

Não é mais possível aceitar isso como evolução. Tampouco a volta das aulas de educação moral e cívica como recentemente uma senhora pediu, em recente programa político partidário. Que tal ensinar a filosofar sem ideologia e professores motivados para estimular a imaginação dos alunos?

Estamos o tempo todo sendo subliminarmente informados que o mais importante é a vitória. Encarar a vida como uma disputa é uma decorrência dessa percepção. Assim aprendemos que temos que nos defender dos demais. Afrontados, passamos a enxergar os outros como competidores. Exige-se e exigimo-nos superação. Nada contra o progresso e a ambição, mas não dá mais para disfarçar que estamos numa maratona cabra-cega. Aceitar este modelo de cultura com tanta naturalidade é endossar as deformações.

Deveriamos é nos sentir mais responsáveis uns pelos outros, e, assim, automaticamente, diminuir nosso vício na onipresença dos governos. Estes, como pais maquiavélicos que são, torcem ativa ou passivamente, que permaneçamos divididos, isolados em nichos controláveis. O amadurecimento da democracia é um pesadelo duplo para os autoritários: como ninguém patenteou a criatividade aprender a depender menos do Estado é uma forma de se libertar do óbvio.  

 http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2014/01/18/a-libertacao-do-obvio/

Giros em falso (Blog Estadão)

Tags

A polêmica dos rolezinhos, rolezões e giros em falso está rendendo. Em primeiro lugar bonificou os agentes do Planalto, sempre à espreita para manipular fatos e embolar informações. Aproveitaram a oportunidade para insuflar o ódio entre classes sociais. É exatamente deste tipo de oportunismo político do qual estamos todos fartos. Não podemos nos contentar mais com ser a favor ou contra. Estamos carecas de saber que esse era o plano original: implantar uma democracia plebiscitária e onde quem tem mais verba portanto mais bala, faz mais propaganda e fatura as eleições.

Agora estamos às voltas com desagravos aos mensaleiros, caixinhas para arrecadar fundos e marchas solidárias partidárias  pipocando pelo Pais. Reparem que não estão lutando contra preconceitos, nem pela justiça, muito menos ao lado desses jovens que originalmente começaram um movimento para romper o cordão de isolamento cultural que os centros acaba lhes impondo. O que fazem os governantes? Tomam partido no lugar de uma atuação apaziguadora. Chamam os conflitos desde que tenha a chance de lidera-los. Isso não é republicano, decente, nem democrático, isso é uma piada.

Os órfãos do Partido estão buscando nichos para se legitimar e reencontrar a interlocução perdida com a sociedade desde o susto que tomaram com as manifestações juninas.

Mas qual será o custo do jogo perigoso? Jogar classes para o confronto pode gerar escapes inesperados. Claro que a conta cairá de novo no débito automático da maioria, que, mais desta vez pagará por uma conta que não foi ela que gerou. Só um aviso: quem sopra o fogo deveria prever que nem sempre as fagulhas escolhem a direção do vento.

Para comentar use o link

http://blogs.estadao.com.br/conto-de-noticia/giros-em-falso/#respond