Cabresto Universal

Quinta-feira, 3 de Abril de 2014

Coisas da Política

Hoje às 06h00

Cabresto universal

Paulo Rosenbaum – médico e escritor

Vai ter de tudo. Copa, confusão e eleição.

Curiosa a verve estoica das elites governantes. A maioria faz questão de ignorar o tamanho da encrenca em que a má gestão política e a condução da economia nos meteram. Do outro lado, há gente pedindo bis. — Queremos golpe! Só isso? Golpe e pronto? De qual tipo? Militar? Imobilizador, ou nocaute?

A frase oscila entre a estupidez e o non sense. Apesar de como a maioria, também me desespero com o curso dos acontecimentos. Mas golpes abrem precedentes difíceis de sanar. Quem pede golpe pode não se dar conta, mas é sócio ativo dos que hoje pensam em rasgar a Constituição, ou reformá-la à sua conveniência, o que no fim e ao cabo dá no mesmo.

A quem interessa que se projetem apenas polarizações no imaginário social? liberdade ou socialismo, justiça social ou capitalismo selvagem?

Capturo uma experiência das ruas. Um taxista acaba de me dizer, com pesar, que, na sua cidade — região do setor leiteiro do sul do Ceará — muitos conterrâneos preferem não mais trabalhar — com ou sem registro — porque estão acomodados com os benefícios sociais conquistados.

Enquanto dirigia, empolgado pela indignação, emendava que todos por lá votarão na situação. A pergunta inevitável, que não fiz, seria saber se era essa a função —essencial, imprescindível, útil — dos programas de assistência do Estado. Gestões tucanas foram pioneiras nas “bolsas”, e hoje a autoria é ferozmente reivindicada pelas petistas. Mas a pergunta que importa não é quem é a mãe. Indagamos se o plano era transformar os pobres em vassalos do Estado. Se o improviso pode ter caráter definitivo.  Se a emergência há de continuar.

No lugar de promover desenvolvimento e educação, aplacar a fome de renda, aplica-se a injeção soporífera de renda vitalícia. Sob tal esquema, quem negará sucesso ao populismo de Estado? Como é tentador proscrever a miséria na base do decreto, do slogan, do voluntarismo messiânico.

Claro que dá muito mais trabalho — muito menos interessante do ponto de vista do apego ao poder — aumentar a produção, diminuir as desigualdades através do crescimento sustentável da renda, tornar os sujeitos autossuficientes para  que possam, enfim, sonhar com algo parecido com a cidadania. Sonho bem distante dos brasileiros.

E assim vamos emplacando o cabresto universal da perpetuidade. Depois das experiências pífias de milagre econômico, socialismo moreno, globalização e liberalismo chegamos ao pseudossocialismo candango. Um derivativo do atraso, da mesmice, da inépcia política que atola a Federação com ideias de antanho, num momento que exigiria quebra de  paradigmas, não reafirmação de dogmas.

Parece produzir algum conforto mental acompanhar os bem-pensantes que fantasiam a luta essencial entre conservadores e revolucionários. Convoca-se violência, aposta-se no acirramento, na exposição crua das contradições do capitalismo, como se elas já não estivessem dissecadas a céu aberto, nas fronteiras fraqueadas ao crime, nas cidades abandonadas à própria sorte.

Incorrem no simplismo primitivo de ignorar como estão distribuídas as forças produtivas. Mas, principalmente, são hábeis para negar a legitimidade das aspirações das pessoas. Doravante reduzidas à classe média, pequena burguesia, elites conservadoras. Seletivamente cegos, ignoram que processos de transformação que viram a mesa, esfacelam junto a cultura. Cuja democracia é um dos seus resultados civilizatórios.

O erro está em supor que a vida comporte reduções dessa ordem para se encaixar em formulações políticas.

Não podem conceber — muitos não sobreviveriam — que há sempre uma luta precedente, não exógena, não ideológica.

Ainda há esperança que o sonho de Monteiro Lobato não termine no mesmo buraco sem fundo que deu início aos anos de chumbo. Imagino que, num futuro próximo, muita coisa vá requerer medidas de inédita radicalidade. Resta saber se, contando com os instrumentos atuais, estamos maduros para os colocar em prática.

http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2014/04/03/cabresto-universal/

 

Livro de coisa nenhuma (Blog Estadão)

Conto de Notícia, Paulo Rosenbaum

31.março.2014 22:39:51

Livro de coisa nenhuma

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Nada, Do latim, Nata, scilicet res, coisa nascida, da elipse do não
(res) {non} nata) e perda do res passou a significar coisa nenhuma. )

Antenor Nascentes e Aurelio B. Holanda

Foi um tema investigado. Milan Kundera lhe dedicou um capítulointeiro. Falamos sobre o implausível projeto de Flaubert para executar um livro sobre o nada. Dá para entender o fascínio. O nada sempre figurou como possibilidade literária.

Nada pode ser muitas coisas. Zero, nulo, vazio, absolutamente não, sem importância, insubstancial, infinitesimal, dez reis de mel coado, não ser, não estar, em branco.

E, já aí, na insuficiência das sinonímias, começam as digressões. É que, fora o texto técnico stricto sensu, tudo é, ou acaba em digressão.Qualquer narrativa criada precisa desdobrar seus temas, buscar os caminhos do suspense, criar enredos. O escritor francês esperava contornar os caminhos do romance para atingir o reducionismo perfeito?

Onde estaria este esvaziamento criativo? O nada essencial estaria presente, in situ, um trilionésimo de segundo antes do big-bang? O momento que  foi apelidado de singularidade? Talvez, a única verdadeira? Segue a pergunta que obseda todos: o que precedia o nada?

E se o fascínio do escritor francês fosse menor ambicioso e estivesse só na não possibilidade? Um romance no qual a poesia resignificasse a prosa. Que essa mantivesse seu esqueleto e enredo. Uma história contada sem que o ritmo concedesse demasiado espaço ao formalismo, nem que o deslumbramento pelas palavras fosse diluído pelos temas.

Impossível escrever sobre o nada sem o texto em branco. Apesar da veemente negação de legião de biógrafos, há desconfiança de que o famoso livro sobre o nada tenha sido mais que um presságio inconcluso.

Em 2009, numa dessas artimanhas do destino, o bibliotecário chefe da Biblioteca Nacional da França, François Rivoll, afirmou ter encontrado, junto com os originais da peça“O Candidato”, uma folha com o monograma: G.F. Só. Não havia registro ou indexação. Nenhuma assinatura ou qualquer sinal indiciário do autor.

Teria aquela folha única, potencia para mudar o curso da literatura?

Somente revelado em 2013 “O livro sobre coisa nenhuma” enfim não era só uma página em branco:

“Registro do som da perplexidade. Um dicionário vazio. Era a confissão da angústia. A inverdade do tempo. Era o passado que continha o futuro. O livro sobre coisa nenhuma é a própria vida, porque, incontável, ela é outra singularidade.”

http://blogs.estadao.com.br/conto-de-noticia/livro-de-coisa-nenhuma/

Pororoca de beócios

Coisas da Política

Pororoca de beócios

Paulo Rosenbaum – médico e escritor
Nos últimos dias, marchas antagônicas caminhavam em direções opostas pelas grande avenidas do país. Ficar de fora deste e de outros grandiosos encontros traz consequências: serás acusado de alienação. Se não é palavrão, soa depreciativo. Então, do conforto alienado fico a pensar se, enquanto eles se agridem com palavrões de ordem, acreditam naquilo que dizem, e se tudo isso faz algum sentido.

Bastaria os nomes para deixar qualquer um aflito: marcha da família X antifascistas — mídia ninja. É de tremer.

Todos estão dizendo, até o alto escalão, que tudo isso é prova de que a democracia está viva. Na contramão, tomado de assalto, vejo real perigo de fim da picada. Daí a convicção de que não são poucas as chances de que me mandem ao encontro do alienista do Machado. Aí, tento me recompor para avaliar o tamanho da avaria que devo carregar na cabeça. Mas, de novo, me convenço de que o raciocínio não poderia ser mais retilíneo.

Se todos têm direito de se manifestar, não quer dizer que quem se manifesta possa se arrogar monopólio de coisa alguma. Pois é o que parece: que quem faz barulho representa todas as vozes. Não é assim, mas eles impedem a mobilidade urbana dos outros milhões. Como fica?

Por isso e para outras coisas, os gregos, preocupados com a representação, inventaram o voto. O que ainda não aperfeiçoamos foram instrumentos que permitam corrigir o rumo, em caso de arrependimento. Os recalls, compreensivelmente temidos pelos que legislam, seriam os melhores e mais eficientes instrumentos fiscalizadores dos cidadãos. Por isso, dificilmente serão instalados.

Manifestações difusas e sem pauta denotam esse déficit de recursos das democracias representativas. E, sem podermos dar vazão ao arrependimento, mergulhamos no remorso e na constrição.

Sair às ruas para arregaçar o patrimônio tem valor zero como procedimento democrático. O mesmo zero que os governantes merecem por usar verbas públicas para faturar votos. A mesmíssima nulidade quando o poder autocrático, sem cerimônia, favorece a si mesmo. Podemos estar acostumados, mas nada disto faz parte das regras democráticas.
Se há uma Constituição e ela ainda tem algum valor, o clamor geral deveria ser para que fosse cumprida. Golpistas, pró e contra, não podem ser confundidos com democratas. Infiltrados na multidão, eles vêm se transformando no aval para a continuidade do arbítrio sob o qual estamos sendo cozidos em fogo brando.

O silêncio sobre os massacres contra os venezuelanos, a fidelização da política externa contra os interesses do país, a naturalidade com que se abusa da máquina administrativa com propósitos de reeleição — esta última, prática antiga, multipartidária — mereceriam repúdio universal nas urnas, impedimento, escárnio.

Mas quem pode saber disso tudo se ainda há risco para uma mídia altiva e independente? Assim como financiamento público para campanhas, não seria necessário criar um fundo para garantir uma mídia que não seja governamental ou partidária? Toda turbulência é, de uma forma ou de outra, fascista. Isto é, sua origem é de natureza essencialmente autoritária.

Talvez a maioria esmagada prefira não dizer nada em público. E qual o problema se escolhermos só depositar nossa opção no segredo de uma urna? O fato é que, historicamente, sempre que se discute muito política, significa que estamos bem perto de um engarrafamento.

Saudades das urnas em que você sentia a cédula na mão. Quando se tinha certeza de que o voto tinha uma existência quase corporal, com valor espiritual. Não esse irritante barulhinho virtual, que dá mais a impressão de intervalo da Rede Globo do que depósito de uma informação com potência para nos arrancar do marasmo.

 

 

 

 

 

 

 

 

http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2014/03/29/pororoca-de-beocios/

Estado Volátil (Blog Estadão)

Conto de Notícia, Paulo Rosenbaum

26.março.2014 22:39:23

Estado Volátil

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Oposição no Senado diz ter apoio necessário para CPI da Petrobrás

Atitude de Obama na crise da Ucrânia é impopular nos EUA, diz pesquisa

Reparem, há uma estação própria para palavras. Elas vem, duram um tempo e se mandam. Em geral, pegam a última carona. Hoje dá até para medir a frequência com que aparecem. Não faz muito foi a palavra crack (da bolsa, da crise, do colapso, das drogas) mas também já tivemos impeachment, inflação e sustentabilidade (7.410.000 resultados (0,24 segundos).

Um destas palavras da hora é manifestação (563.000 resultados – 0,27 segundos).  Agora outra ameaça colocar a dianteira: volatilidade. Tudo está cada vez mais volátil. (do latim volatile, fig. inconstante, instável, volúvel, que pode ser reduzido a gás ou vapor, Nascentes, A.) Palavras, governo, país, economia e pessoas.  

Quanto vale uma refinaria? Um imóvel na Vieira Souto? Chuva no lugar certo? O corpo humano? Um voto? E a palavra de honra?

Esqueça a ideia de inflação, e, se puder, apague da memória a percepção de que há uma sensação de descontrole no ar. Num prazo recorde, o país que decola é o mesmo que debica.

Não serão os últimos dias de Pompéia, mas podemos estar captando o início da montanha russa. Não será nenhumaterceira guerra, mas secessões em cadeia, conflagrações civis e a desorganização social são formas de conflito não menos terríveis.

O mundo sempre foi essa esponja turbulenta – davam de ombros os mais vividos – mas até eles admitem que o clima acumulou nebulosidade.

Exemplos recentes de volatilidade das palavras, e como ela se tornou um dos problemas mais complexos do presente?

Quatro grandes nações prometeram à Ucrânia proteção caso se livrasse das ogivas. A linha vermelha pelo uso de armas químicas na Síria. A manipulação das informações no caso do último acidente aéreo. A semelhança dos discursos e o comportamento paradoxal e errático dos políticos.

Que dizer? Que a natureza incontrolável dos fenômenos e sua comunicabilidade instantânea nos guiaram à inconsistência?

Pode-se mudar de opinião, instante a instante. Para a contemporaneidade, a coerência é uma máscara abjeta. Ninguém pode ser julgado. A decência pode ser um valor burguês superável. O crime e a violência adquirem álibis cada vez mais plausíveis. Ainda assim, a volatilidade não deixa de ser um produto perigoso. Mais cedo ou mais tarde virá a bula. Se o volátil representa flexibilidade, plasticidade, adaptação e dinamismo, ao mesmo tempo significa incerteza, imprevisibilidade, oscilação e temeridade.

Se há saída?

Precisamos aprender a evaporar com classe.  

As águas de março não fecham mais o verão. (Blog Estadão)

Conto de noticia
21.março.2014 19:27:46

 

Quando enfim achávamos que era primavera, vimos outonos. As águas de março não fecham mais o verão. Não porque a natureza foi  desprogramada. Seria estranho, milhões de anos com a coisa cronométrica. Também não deve ser porque seguimos a cartilha de Sir Francis Bacon e a torturamos. O clima pode estar até enfeitiçado pela fumaça fóssil, mas será que é para tanto?

Pode ser derivado daquele poder ilusório que sai da caneta da história. Coisa de ficção. Foi só insinuar que ela terminaria, virou vertiginosa, e o mundo veio abaixo. Quando todos achávamos que era primavera, sobrevieram estações despedaçadas, secas de roldão, neve extemporânea, granizo no carpete. Não há nada estável no steady state.

As folhas não têm sabedoria nem auto suficiência para saber quando cair ou persistir, os ciclos estelares é que escolheram outro destino. Os ventos do big bang mudaram de lado. E o tsunami no ruído cósmico de fundo fez o planisfério mudar. E quando se pensava que a Terra estava imune e que pelo menos as fronteiras se aquietariam soubemos da provisoriedade do mapa mundi.  E ai se vê melhor a arbitrariedade com que os povos se espalham pelo mundo.  

Com novo polo magnético, invertemos as pilhas. Os wi-fis geraram micro campos que mexeram com algo além da detecção. Não eram só as redes wireless. Nem os vórtices de energia das super antenas. Pode até ser que uma nova droga esteja sendo infundida na atmosfera. Mas também pode ser que a esfera esteja simplesmente se cansando. Com tanta gente zanzando em sua crosta. Vagabundeando no carbono. Dando bobeira pela vida.

Nossa espécie veio para arrebentar. Perturbar o plâncton. Derreter gelo. Azarar biomas. O papo eco já deu. Mas a moçada curte praia sem lixão. Ninguém quer economizar água e energia. Desligar o ar, tua mãe! Olhamos torto para a espuma no leito fluvial. Organizamos petição pra preservar o cerrado. Nada de economizar. Os vizinhos que entrem no racionamento. São Paulo vai anexar o Paraíba do Sul. Que bando de preguiçosos somos. Que as estações esperem pelo nosso bom humor. O Rio pode continuar lindo, pode não ter pau nem pedra, mas já dá para ver, é o fim do caminho. O resto é toco.

 

Hamlet e as demoditaduras

Coisas da Política

Hoje às 06h00

Hamlet e as demoditaduras

Paulo Rosenbaum – médico e escritor

Talvez a frase mais marcante num dos textos mais reproduzidos na história da literatura seja o que se segue ao icônico monólogo “ser ou não ser”. O que vem depois muitos já decoraram. Mas há uma destas pequenas sentenças de Shakespeare particularmente atraente. Trata-se do trecho que Hamlet se refere à insolência dos governantes. Como se vê não é de hoje.

 A insolência (raiz do latim insolente, que não é do trato, comum, atrevido, injurioso) define muitas coisas. Significa que o Estado e bando se arrogam regalias negadas aos cidadãos. Se precisamos mesmo dele, e precisamos, que seja rotundamente reformado. Que não se petrifique naquilo que parece em consolidação e não só por aqui: uma entidade acima dos julgamentos. A personificação maliciosa de quase todos os males.

Mas, e as urnas? Neste status quo elas podem estar perdendo significado simbólico. Deixam de refletir o poder de transformação que as eleições deveriam representar. O sentimento de anomia que vivenciamos é o salário de um Estado que se faz presente onde deveria sumir e se faz ausente onde é imprescindível. Eis a fórmula para o desgoverno. As vozes que deveriam se fazer ouvir não têm onde vibrar. E, dependendo do grau de hegemonia que o Executivo construiu sobre o Judiciário e o Legislativo, o teor de manipulação das maiorias ultrapassa e avilta a linha da legitimidade.

Se a isso alguns chamam de democracia direta, talvez seja mais  honesto voltar a uma ditadura explícita, com ou sem a chancela eleitoral. Nela, ao menos nos sentimos mais dispostos para opor alguma resistência.

Vejam o patético caso da Rússia. Neossaudosistas hasteando suas bandeiras do antigo império. Essa, Putin ficará devendo aos trapalhões da diplomacia ocidental. Pois as flâmulas estavam arquivadas o tempo todo lá, guardadas nos porões para saudar o heroísmo do novo líder, uma mistura de Stálin e czar.

Também é o caso da China, que usa o modelito centralismo partidário na moita, economia livre sem liberdade civil.  E nenhuma potência ocidental os incomoda, desde que mercado interno e as importações continuem crescendo. Os direitos humanos, vejam só, chegam a ser um princípio secundário bastardo: aceitam-se suas premissas desde que não interfira com as boas normas dos negócios. Parece que as ditaduras, de toda estirpe, são boas para o business, como se vê na África e no Oriente Médio. Exceção aos tiranos de Cuba e ao nepotismo revolucionário longevo da Coreia do Norte. Ali, os negócios ainda são vistos com a desconfiança típica de quem não compreendeu a mínima do funcionamento do mundo.

O predomínio da ideologia, por aqui grosseiramente difundida do ensino básico à pós- graduação, é que ela não forma mais estudantes: são todos partisans da boa causa.

A massa de intelectuais cooptada pelos mais diversos tipos de subsídios — dos financiamentos para pesquisas aos cargos de assessores — aproxima o esqueleto funcional do Estado ao escândalo. Um escândalo que se esconde sob o manto do heroísmo ideológico. Mesmo entendendo a ideologia como uma alusão à realidade, mesmo sendo indulgentes com as escolhas equivocadas de quem identifica o totalitarismo como opção de regime ideal, e mesmo exercitando a tolerância com aqueles que querem chegar ao poder por via democrática, para, depois, suprimirem essa mesma democracia, em nome das predisposições acima enumeradas.

Deveríamos nos preocupar menos com uma perspectiva de intentona totalitária — eles ainda esfregam as mãos quando pensam na ideia de um reino pleno. Graças a um capricho da idiossincrasia territorial, diversidade cultural, fusão étnica e confusão enraizada, isso seria irrealizável por aqui.

Mas não é isso que teria o poder de nos tornar insones, mas o empobrecimento cultural e didático de uma geração que ou está sendo ensinada na cartilha única e anacrônica dos ideólogos ou submetida a uma educação de péssima qualidade, um dos pilares de sustentação do populismo grosseiro. A maioria não sabe o que é socialismo, comunismo, capitalismo.

São as injustiças sociais que alimentam a busca por soluções mágicas, aquelas que redimiriam o mundo das mazelas. Mas justiça social sem a contrapartida das necessidades humanas de arte, atenção ao espírito, gentileza e solidariedade nos faz atolar na tentação de degolar as contradições. Alguém poderia responder: como, se elas são a própria base de nossa composição anímica?

http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2014/03/20/hamlet-e-as-demoditaduras/

Não é só a Crimeia

Conto de noticia

Quanto voltamos atrás nas últimas semanas? E não é só a Crimeia. Sempre julguei limitada a divisão entre otimistas e pessimistas ou sonhadores românticos e realistas convictos. Mas, a história têm dado demonstrações que, como vagão curto que é, oscila num trilho modesto. Vai e volta em curtíssimas distâncias. Esta repetência deve mostrar alguma dificuldade no nosso aprendizado. Há uma inépcia generalizada, mas, especialmente, de quem acha que pode liderar. Só podemos atribuir isso a um rebaixamento, de caráter ontológico, da autocrítica. De geração em geração nossa memória, progressivamente encurtada, transforma a natureza do conhecimento. O que deveria ser aprendizado torna-se supérfluo e numa inversão absoluta, o superficial torna-se o único ponto digno de ser decorado. Talvez seja tarde, escolhemos o trem errado.

Inacabada história

 

 

Conto de noticia
14.março.2014 18:51:13

Inacabada história

                Grupo depreda Ceagesp em protesto e quatro pessoas ficam feridas

Procuradora-geral da Venezuela diz que EUA querem financiar protestos

Neonazistas, fascistas, ultranacionalistas, pós-comunistas, xenófobos, vândalos e golpistas. Recaída imperial russa. Intolerância expandida. Revisionismo viciado. Ditaduras legitimadas. Insolvência andina. Lugar comum da violência. Intolerância ferina. América hesita.

Mal estar na cultura? Mais desta vez? Se ao menos fosse inédita. Eruditos passaram diagnósticos: problemas de identidade, complexidade do mundo cibernético, fim da pós modernidade. Oi?  

Acusações a rodo.  Notem a corrosão da linguagem. Políticos negociam. Essa era a carência? Se há urgência? Voltem a ouvir. Indícios de que a vida civil agoniza? Observem os enxames. Multidões viciadas nas soluções brutais. Sonha-se com a volta de martelos e cutelos. Toda revolução é autoritária. De golpe em golpe desconstruímos acordos. Anulamos contratos. Esfacelamos instituições. Certo. O que colocar no lugar?  Ditar-se-á.

A crise não é nova, ela é só da hora. Sob os auspícios do Estado a política só pensa nas massas. Com o partido redimido o sujeito foi subtraído. Acabamos. Ainda assim é preciso sobreviver. Esgana-se o outro.  A gana nos engole. A grana nos encolhe.   

Enquanto compatriotas se matam pelas ruas, homicídios explodem nos quintais. A política externa dá aval para a violência. No compadrio ideológico. Que ninguém se culpe por não entender, é incompreensível.

A história pode não ter acabado. Nossa criatividade para gerar novo espírito sim. 

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Assassinar o cinismo ideológico

Quinta-feira, 13 de Março de 2014

Coisas da Política

Hoje às 06h00

Assassinar o cinismo ideológico

Paulo Rosenbaum – médico e escritor

Um líder consulta, o ditador manda — desmanda. Um prioriza o consenso, o outro, a vontade pessoal. Uma liderança coordena, o autocrata desorganiza. Enquanto um decodifica os símbolos da turbulência para saneá-las, o áspero se mistura a ela. Um democrata sabe que inexiste interesse honesto em fomentar fissuras sociais. Procura cimentá-las com medidas que atendam os contratos vigentes. Um inimigo da democracia finge que dialoga enquanto, na barganha de cargos e salários, concentra poder. O déspota não consegue delegar nem abrir mão da autoridade para acumular potência. 

Não se trata de contrastes maniqueístas, apenas carregar nos estereótipos para que o entendimento de cada coisa ainda obedeça um pouco ao vernáculo da língua brasílica, vilipendiada pelo discurso político partidário. Sim, porque negociação política virou plano de carreira. Estratégias para o país se transformaram em aplicações de curtíssimo prazo. Uma outra diferença entre o totalitário e o líder que aceita a pluralidade é que o primeiro despreza a dissonância. O outro sabe que depende dela para reformular o que provavelmente está no ritmo e no rumo errado. O estadista percebe que a crítica não visa apenas uma desforra de quem perdeu o pleito eleitoral mas uma tentativa de alertar: o mar pode ser o mesmo, não a maré.  Já quem tem carranca na cara se comporta como se toda contradição significasse ofensa pessoal.  

O tamanho da crise significa exatamente esse diálogo náufrago. E, sem diálogo, o que temos é o clima de confrontação que excita os nervos mas paralisa o país. O significado de mais de 40 milhões que pularam para a classe média e o resgate de uma camada significativa de gente para um nível socioeconômico (mas não ainda educativo, eis a omissão fatal) aceitável e decente é um avanço que vai sendo borrado pelos equívocos sistemáticos, não só na continuidade de programas como na manutenção do anacronismo. O clima protecionista, ufanista e patrimonialista que trava, ao mesmo tempo, liberdade e negócios. Que sufoca quem tem sede de horizonte. Que faz desconfiar quem ainda tinha um fiapo de esperança.

Sem o plano real nada teria sido possível. Sem a estabilidade da moeda estaríamos ainda na corda bamba do FMI. Sem a inédita transição civilizada não teríamos o que foi conquistado. Sem os primeiros anos em que a política do PT era similar à do PSDB jamais a estabilidade e a confiabilidade estariam preservadas. Ali, por questões diversas, a continuidade e a consciência superavam os planos totalitários de longo prazo. Um pragmatismo benévolo que fez com que atravessássemos para a fase em que a The Economist chamou de decolagem do Brasil.

Um dos motivos da corrosão da representatividade e a progressiva decadência da governabilidade é a surdez generalizada. Quando políticos são chamados para consultas, todos esperamos mais do que palitinhos para definir ministérios e mais seriedade diante do momento agudo que vivemos. Esperamos responsabilidade e afirmação daqueles que se candidataram para atender não os interesses da maiorias mas a atenção a toda a sociedade. Uma sociedade democrática não aceita ser patrulhada por convicções dogmáticas.  

Para que a democracia viva, é preciso assassinar o cinismo ideológico.  

Tags: autocrata, consenso, democrata, ditador, fissuras, líder, políticos

 

 

 

 

 

http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2014/03/13/assassinar-o-cinismo-ideologico/

Epidemia de generalizações

Coisas da Política

Hoje às 06h01

Epidemia de generalizações

Paulo Rosenbaum – médico e escritor 

Os acontecimentos na Ucrânia precisam e merecem inversão do pensamento. Aquilo a que temos assistido é mais um atestado de falência da diplomacia internacional. Falham numa das premissas essenciais a se evitar no ramo: uma epidemia de generalizações. Os russos são imperialistas. Os americanos só enxergam suas necessidades. O Ocidente é malévolo. Os ucranianos que se rebelaram contra o títere russo são fascistas. De fato, um dos principais líderes, fervoroso ultranacionalista, impõe um vocabulário esdrúxulo, anacrônico e antissemita. Lidera uma corrente fascista, antiga como os progrons contra as minorias que remontam ao século 16. Mas, e os democratas, a maioria entre os combatentes da praça? E a significativa parcela do povo ucraniano que derrubou o presidente que ordenou abrir fogo nos insatisfeitos? E, aqui sim, pode-se responder por antecipação aos argumentos erráticos que tentaram embasar a invasão. Por que os manifestantes foram às barricadas? Por que escolheram a resistência não pacífica? E o principal: por que não o fizeram pela via democrática, o voto?

Um dos limites da democracia — um problema não previsto e muito menos equacionado — é quando o eleito usa das prerrogativas do poder conquistado nas urnas mas faz — por motivações ideológicas, pessoais ou pecuniárias — o que lhe parece mais conveniente. Pois é o que vemos em muitos países. A solução de impeachment vai ficando cada vez mais difícil, chega a sumir do horizonte, quando os poderes são amalgamados e controlados pelo Executivo.

E se nenhuma daquelas generalizações tiver consistência?  É que, para fugir da complexidade pouco analisável, gostamos das reduções. Encolhidas a meras teorizações genéricas, pretensamente analisáveis, as matérias parecem nos dar a segurança da compreensão. Às vezes, ela é só uma ilusão, um ardil para não nos atordoar.

Enquanto acusam os fascistas, os russos violam a soberania da Ucrânia, enquanto Obama se retrai diante de alguém que fala mais grosso, coloca seus diplomatas para fazer as ameaças difíceis de cumprir. Todos fazem o jogo de fingir que são quando na verdade motivações ocultas é que dão as cartas: acesso ao mar, território rico em commodities.

Se a história é um registro, a interpretação pode virar sua borracha.

Que outra explicação para que uma das primeiras medidas do novo Parlamento ucraniano tenha sido a aprovação — num país multiétnico — da supressão do russo como segunda língua? Inexperiência ou provocação? Inabilidade ou estupidez?

Putin,  experiência curricular de ex-diretor da KGB, nem precisava de aulas extras de xadrez para enquadrar o falatório hesitante dos líderes do Ocidente. Ninguém tem saudades de Bush filho, mas não vamos exagerar. É o caso, com a desconcertante ingenuidade com que o atual presidente americano lida com questões gravíssimas. Por sua vez, Vladimir, com sua racionalização justificacionista e a liberdade hipnótica com que manipula os fatos, não macula sua habilidade. Nada menos que espetacular chamar a invasão de “resgate humanitário”.

Com a maior parte dos lideres ocidentais impotentes e em pânico, resta esperar que o efeito dissuasivo do piloto para a anexação da Crimeia se esgote e Putin volte a reinar, só, em seu enorme feudo. É que lá, como cá, também não se escuta a oposição.

Quem imagina que a temperatura das guerras esfria, pode só estar com problemas de percepção térmica e de aclimatação.

A verdade é que nada é, nem parece.