Polidez seletiva (Blog Estadão)

Polidez seletiva

  Era melhor nem comentar. Nem iria, se não fosse a comoção histérica que passou a monopolizar as conversas. Acontece toda vez que a impopularidade dos populistas aparece. Decerto foi indelicado. Novo padrão estético mereceria ter chance nos coros de protesto. Sem refrões mais criativos seria preferível manter a elegância da vaia. Ela demonstra repúdio […]

 

 

Era melhor nem comentar. Nem iria, se não fosse a comoção histérica que passou a monopolizar as conversas. Acontece toda vez que a impopularidade dos populistas aparece. Decerto foi indelicado. Novo padrão estético mereceria ter chance nos coros de protesto. Sem refrões mais criativos seria preferível manter a elegância da vaia. Ela demonstra repúdio mais civilizado, impessoal. Pode ser gutural, mas é universal. Claro que aos ofendidos interessava tomar como desonra e contra-atacar. Mas é o poder que estava sendo recriminado. O espantoso são os critérios de equivalência usados pelos comentaristas chapa branca.

Um juiz pode ser humilhado e testemunhar sua reputação sofrer pesada campanha difamatória, racista e caluniosa sem que se levante um pio. Enquanto ao presidente do partido que está no poder é facultado insinuar que o adversário político consome drogas. Quem não se lembra do séquito de indelicadezas indiscriminadas – dossiês sujos, ataques de intelectuais à classe média, o despudor do “relaxa e goza”, insinuações homofóbicas nas campanhas eleitorais, desqualificações sistemáticas daqueles que discordam, o clamor em rede nacional contra a mediocridade dos pessimistas – e do abuso do linguajar hostil, por vezes espalhado com subsidio federal.

A tragédia nacional não é bem essa. Chocante é o nível com que hoje se expressa o diálogo político. Criticar tornou-se escandaloso. Vaiar, ilicitude. De repente, xingamentos nas arenas serão criminalizados. Como se catarses não fossem imprevisíveis. Como se as massas dos estádios lá não estivessem para se desvencilhar da autocensura. Como se qualquer pagante fosse culpado. Como se eles não fossem co-autores do esbanjamento e do clima de animosidade. Como se a elite estivesse fora das tribunas de honra. Como se o ópio não liberasse insultos sufocados nas gargantas. Como se fosse tremenda novidade que árbitros, bandeirinhas, times e jogadores não tivessem que ouvir as mesmíssimas expressões. Palavrões e insultos que agora maculam o aveludado ouvido de autoridades, locutores e militantes indignados.

A hipocrisia fica muito mais insuportável quando escolhida a dedo. Sob um puritanismo distorcido, escolheram a polidez seletiva para se solidarizar.  Sinto muito, mas aí o cinismo escapa do centro da meta.

 

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Dia D – Blog Estadão

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Dia D

Paulo Rosenbaum

` Tudo é processo, mas que ninguém subestime datas decisivas. O dia D do século vinte foi o maior desembarque para derrotar o mais poderoso inimigo. Parecia imbatível, mas como demonstrado pela história, ninguém é invicto para sempre. As ameaças é que se renovam sem muita criatividade: neoditaduras, populismo sem filiação, Al Quaeda do B, […]

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Tudo é processo, mas que ninguém subestime datas decisivas. O dia D do século vinte foi o maior desembarque para derrotar o mais poderoso inimigo. Parecia imbatível, mas como demonstrado pela história, ninguém é invicto para sempre. As ameaças é que se renovam sem muita criatividade: neoditaduras, populismo sem filiação, Al Quaeda do B, extremas à deriva, e a intolerância está solta.

O dia D da copa, com todo ufanismo dos locutores e patrocinadores, não empolga. Sinal de declínio ou signo de saúde? A indiferença carrega mais significados que a euforia. Transcender o estereótipo não seria já uma meta? Um adeus à pátria do samba e do futebol? Trocaríamos essa energia por sucursais mais promissoras? Não é desafio para quem se aflige com o vazio e já que ser pessimista dá o mesmo trabalho que ser otimista, o que nos custa? Para onde migraria nosso leitmotiv?

Um ano do dia D das manifestações juninas, a enzima da insatisfação, ampla geral e difusa. Em meio ao envelhecimento da representação e da inadequação do Poder, a energia foi drenada ao ralo da violência, do mau humor e dos tribunais selvagens.

A mensagem original continua límpida: basta ao projeto hegemônico. Há uma exaustão aglutinada diante da ineficiência do Estado voraz. Aquele que toma pessoas como adversárias. Pois quem foi que fez questão de misturar as coisas no pronunciamento?

Portanto, este primeiro jogo nasce como paradoxo. Por ironia, justo hoje, mesmo os que amam futebol, estamos todos fartos de jogos. Como se sabe, a democracia não é uma peleja. Pelo menos não uma onde alguém perde para que o outro avance.

Quem aguenta viver sob ameaças diárias às regras constitucionais? Onde é que se dorme tranquilo quando, com a naturalidade com que se chama uma cerveja, o presidente de um dos poderes é jurado de morte?

Modelo caribenho, cubano, venezuelano, portenho? Todo mundo sabe, era tudo para garantir vaga na eventual derrota. Alguém precisa avisar a cúpula que está extinta a era dos aparelhamentos.

Há uma regra histórica que merece respeito, vale dizer, reverência: virar as regras costuma surpreender mais o protagonista. Antes do prazo, calças curtas deixarão a nudez exposta, e, desta vez, ela não será castigada.

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Paulo Rosenbaum
rosenbau@usp.br

Recusar torcer (Blog Estadão)

 

Ainda temos o direito de não dar satisfação? Não aceitar chantagens? Ora ora, não é que redes sociais, blogueiros subsidiados e um punhado de articulistas resolveram aplicar um passa moleque? Começaram tímidos, encorparam e agora esqueceram a modéstia. Já falam abertamente da grande convocação e do diagnóstico: beócio é aquele que não apoia o escrete! Só para registro, trata-se do mesmíssimo argumento da ditadura.

Com licença? Apoio se quiser, quem quiser, e pelos motivos que escolher. Melhor, posso não escolher lado nenhum. Que tal não torcer?

Esse tutorial intelectual de pensadores conhecidos e anônimos a favor da onda nacional, tem a mesmíssima importância que o evento que passaram a enaltecer. Insignificância. E daí se tem gente que não dá a mínima para a Copa? (desconfio de um grupo muito mais representativo do que as estatísticas concedem) Completo desperdício. E são menos os gastos sem precedentes, muito mais a espalhafatosa energia gasta atrás da pelota.

Se futebol é potencial arte, destreza e beleza, quando se trata de seleção canarinho ela é mais nostalgia que presente. Fora as questões estéticas, os problemas do legado: meia infraestrutura, semi aeroportos, e a inerte mobilidade urbana. A sonoridade da palavra “fuleco” é insuportável, beira o abominável. Foi de propósito? 

Estamos sendo arrastados para um cara ou coroa moral, apagando as marcas da flexibilidade bem humorada. No fim, não tinha nada a ver com o bom selvagem, era só a capacidade de rir das nossas primitividades, gozar das caras amarradas, curtir alegrias sem sentido. Estamos perdendo o relativismo para uma inflexão maniqueísta. empirismo de padaria.

Aí de você se não tomar partido. Te carimbam na hora. Nem precisa consultar a executiva. No reino fácil da catalogação ou você é black bloc ou tfp, liga das senhoras ou pcc.  Adesista, golpista, portador de alienação.  Experimenta não dar atenção para a histeria. Há os que odeiam ou idolatram Barbosa. O que realmente importa? Um homem decisivo foi ameaçado e jogou a toalha!  Para acreditar precisamos da mortalha? Ou alguém já parou para fazer os cálculos?

E na terra das ameaças, o líder dos sem-sem já fez a aplicação: se ganhar quem ele não quer vai ter barraco. Palavra exata: “guerra”. Na interminável arte de manipular o medo, a intimidação virou  ferramenta essencial, chantagem, peça chave. Queres um comando no poder? Preferes chuchu no trono? Barba na carranca? Amazônia universal? Reforma política por decreto?

Entre os múltiplos inimigos da democracia, o mais habilidoso é aquele que gera uma rede de constrangimento para induzir pessoas a escolher entre a pseudo ordem do status quo e o caos potencial das transformações. Considerando a grande corda que simboliza a sociedade, eles precisam apagar tudo que não é ponta. O grande meio, o centro, precisa ser afogado para que só os extremos fiquem aparentes. Com os intermediários submersos, somos forçados às extremidades. Mais um motivo simbólico para instigar o ódio à classe média.

As vezes, temos que aceitar que a mola terá que se recolher até o fundo até acumular força cinética suficiente para defenestra-lo. Quem? Esse jogo sem regras sob o qual penamos. O oportunismo político. O gerenciamento de ocasião. O qualquer toldo serve. Portanto, formadores, deixem as outras cabeças em paz. É de bom alvitre que cada um arbitre. Governabilidade e hexa talvez não rimem, é até provável que se encaixem em estrofes parasitas. Culpa nossa certamente. Nas próximas, vamos tentar não apostar nos vermes de sempre.  

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Livre arbítrio?

http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2014/06/05/o-livre-arbitrio/

Jornal do Brasil

Livre arbítrio?

Paulo Rosenbaum – médico e escritor

A neurociência vaticinou por aí: é finda toda especulação filosófica. Somos governados por condicionamentos neurais e, sendo os neuroescaneamentos quase inquestionáveis, não há espaço para decidir mais nada. Hoje, imagens falam mais alto. Nossas escolhas, todas, já estão predefinidas via interconexões químicas, e o quer que venhamos a decidir não passa de um reflexo sináptico previsível.

Mas, se a liberdade para arbitrar está predefinida, alguém poderia responder: onde está a graça?

Estamos então numa espécie de vão. Um vão que indica tempo, mas talvez indique também, ou principalmente, uma espécie de espaço descontínuo. Penso nas manifestações e em toda a energia desperdiçada no ralo. Na falta de diretriz. Num país que não consegue enxergar que a potência real está mais nos habitantes do que nos bilhões de recursos.

Se até este discurso pode estar quimicamente predefinido, por que insisto, persisto, e, mesmo contra as evidências, não desistimos? Isso também pode estar catalogado na lei geral da evolução, uma espécie de ilusão alimentada para que continuemos a acreditar na preservação da espécie – não duvido de Darwin, apenas suspeito de uma mensagem incompleta. E como escaparemos das garras dos deterministas?

Sempre que ouço gente discorrer – do púlpito, teclado ou nas plaquinhas de manifestantes – com convicção e resolutividade, fico deprimido. Deve ser também alguma falha axonial, esta de natureza melancólica. Isso não significa inveja, desejo de compartilhar o sentimento de gente com certezas absolutas. Confesso que meu problema principal está na hesitação. E esta tendência, ainda que potencialmente paralisante, é o que permite se cogitem outras formas de perguntar.

Parece mesmo que há um vão.

Um vazio que precisa ser preenchido com incertezas. É que a certeza nos traumatiza. A dúvida nos salva. Nos salva da ideologia. Devia haver uma reza que pedisse para nos livrar de gente com opinião formada. Não seria heresia, espero, incluir nos afastar dos formadores de opinião. Basta breve rodada na grade da programação da TV para julgar se exagero. Precisamos pedir férias das posições sólidas. Exonerações de alinhamentos automáticos. É que isso pode nos resgatar do mais grave dos efeitos colaterais já inventados: a morte da criatividade.

E é essa disposição a recusar o que pedem para pensar que poderia nos liberar para um diálogo mais livre, sem formatação, liberto dos formalismos. Pensei na intenção dos velhos filósofos e em sua insistência no regime tutorial, e, ao mesmo tempo, o ensino realizado nos espaços abertos. As caminhadas peripatéticas, uma forma simbólica de induzir abertura e porosidade na mente das pessoas. Os filósofos que admiro não buscavam discípulos obedientes, mas gente que podia dissentir, arguir e, se possível, criar contrapontos aos lugares sem saída. Becos que encaixotaram cabeças.

Desde quando não surgem cabeças estratégicas, não ideológicas, que apresentem soluções mais razoáveis para os problemas crônicos que nos castigam? A hipótese é que morrem no berço. Nas escolas e nas panelinhas. Sobra espaço para correligionários, companheiros e amigões.

É raro que um dissidente sobreviva na área educacional. Um docente de universidade precisa de uma rede de apoio político, senão sucumbe rapidamente. Piora bem se o ambiente for público, estadual ou federal. O mérito hoje reside na avaliação da capacidade para criar networks. A instrumentalização política do saber é problema antigo, porém nas proporções atuais precisa ser chamado de escândalo. Pode ser muito humano, mas isso não é álibi para abonar o desanimo.

Chega de euforia e lamúrias, o déficit é de gente que preza mais a criação que a repetição e fórmulas bem sucedidas. Meus neurônios provavelmente podem até não gostar da ideia. Tanto faz. Já aprendi a discordar deles.

Gatilho de Bruxelas (Blog Estadão)

 

Quem puxou? Ninguém? Algum ninguém. Na estoica Europa, mais uma derrota. Na odisseia do ultraje, o humanismo ofuscado. Sigam as pistas: fomento racista, fuligem nazista, chauvinismo fascista, autocracia comunista, fundamentalistas revisionistas. É a vergonha que consente a intolerância de sempre. Tragada por homens de estado. Nas fronteiras civilizadas, desprezo higiênico. Miseráveis esmagados. Arrependimento seletivo. Religião, desculpa. Tribalismo, disputa. Pobres devotos, inimigos dos votos. Xenofobia ou eugenia? Multiplicam-se milicianos da dor: tolerância com intolerantes. Intolerância com tolerantes. Na placa continental, o tao dos beligerantes. Nas roletas viciadas, o turismo do azar. Alguém sabe da hora da morte? Da maldição dos dados? Do lugar e hora errados? A paz emperra o museu que enterra. A eternidade traída chora em balas perdidas. Nas palavras caçadas, bestas destravadas. Nada muda sangue desperdiçado. Se alguém for identificado? O homem totaliza todos? Um culpado eximirá outros? Xenofobia ou eugenia? Os omissos e os sumiços. Os desatentos e os deixa-disso. Todos crimes maciços. Escondidos e delatores. Na inverdade dos rumores. Rodar o tambor, moda coletiva. A história desdisse e se refez. Roleta russa, corredor polonês, pacto chinês. Notem, um por um. O regresso ao inverso. O recesso do convívio. Intolerância, nacionalismo e boçais. Tudo que deveria ser nunca mais.

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Penultima Epistola (blog Estadão)

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Veja a edição
São Paulo
Brasil
14:52 •  16 Maio de 2014
16.maio.2014 10:23:29

Penúltima epistola

“A grande prosa é a arte de captar um sentido jamais objetivado até então. E de torná-la acessível a todos os que falam a mesma língua. Um escritor morre em vida quando não é mais capaz de fundar assim uma universalidade nova e de se comunicar em meio ao risco”

Maurice Merleau-Ponty

Peço-vos calma. Também ouvi os rumores com atenção. Se ainda não notaram, aquele País, de qualquer forma, a pátria cultural que imagináramos, já foi. Desceu à hera. Sem meio termo: inexiste. Talvez adiante, em outras gerações. Se me forçam a dar um parecer, eis que nesse novo território vigoram regras, claras, porém impostas. A síntese que captura o estado das coisas: não importa mais o que se escreve já que não importa mais o que se fala.

Essa é apenas outra forma, covarde por sinal, de confessar ao leitor que doravante será inútil, ao romancista ou ao poeta, debruçar-se sobre os papéis, esmiuçar palavras, estimular a dedução dos sentidos.  Graças a uma fenda no tempo enxerguei as novas histórias. Essas, com data. Testemunhei um estilo, traduziam toda linguagem ao senso comum: florestas reduzidas a carvão. Vermes digerem homens e livros, destinamo-nos ao pó.  Consolava saber que inscrevíamos nossas singularidades no mundo. Eis que, lá adiante, será diferente: o autor sucumbirá, sem cravar marca. Foi então que me ocorreu a temível antecipação: o que será deste nosso ofício? Notem que mesmo acolhendo a pergunta com equanimidade, meu espírito cedeu. Foi pela resposta que recebi. No futuro, alguém redigirá nossos textos. E quando quis saber no que consistia o aperfeiçoamento –  o próprio espírito da adulteração — me contam de gente treinada. Treinados para promover  simplificações. Golpe e tanto saber que escrevo hieróglifos. Primeiro me perguntei da estupidez, depois se todo mistério para abolir a capacidade criativa do escritor caberia num só cabresto. Querem saber mais deste futuro tardio? O que será levado em consideração? Como se julgará a qualidade?  Descubro, há consenso. Lá adiante, o principal, senão o único aspecto que avaliará uma obra será: alcançou leitores? Aos milhões? Portanto, neste final, abraço um a um para anunciar que, sem renúncia, mágoa ou resignação, abdico da atividade. E direi, ao modo de um daqueles meus presságios que os clínicos insistem em diagnosticar como “aura”, que, quando, experimento o tratamento que o futuro nos reserva, sou tomado por uma anomalia que reputo estranha ao meu espírito, convicção. Ela que justifica a penúltima epistola.

Se formulo um conselho? Busquem outros meios para alcançar imortalidade!

Afetivamente,

Machado de Assis

Adeus, Machado

Coisas da Política

Hoje às 06h00

Adeus, Machado

Paulo Rosenbaum – médico e escritor

O projeto da moça que quer popularizar as obras de escritores “difíceis” é subsidiado pelo Minc, custeado por todos nós. E isso é só o começo. Com outros autores na fila, mais penas serão escaladas para a simplificação literária.  Descaracterização ou acessibilidade? O que parece óbvio não é simples. O problema é menos o projeto que a chancela do Estado.

A questão de popularizar a literatura tem indignado muitos. Mas isso é popularizar a leitura ou atestar o analfabetismo funcional da maior parte das pessoas? Se é isso, temos que nos perguntar qual terá sido a função do MEC nas últimas décadas. Portanto, a indignação está mal direcionada. O foco de estupefação deveria ser bem outro. E é, mais uma vez, a ideologia que o projeto encerra.

Ninguém, com algum discernimento intelectual, votaria desfigurar, adulterar ou anular as idiossincrasias de um escritor. O que sobraria deles e de qualquer um, se não fossem as palavras e as coisas que só cada um de nós pode falar, fazer ou escrever? Bem que os roteiristas e adaptadores de obras para o cinema usam a literatura, raras exceções, tentando enxugar e filtrar as obras mais difíceis. Mutilações são a regra.

O que interessa nesta análise é o que se esconde atrás desta política. Trata-se de verdadeira reversão do processo pedagógico. Reversão é bem melhor que perversão por representar perigo e gravidade maiores. Ninguém pode dizer que há incoerência. Afinal, a proposta é cuidar do candidato a leitor, tal qual a administração federal costuma tratar os interesses públicos: desprezo à inteligência.

Para que elevar os leitores ao patamar de uma linguagem erudita? Por que se esforçar para produzir uma geração crítica? Que importa trazer às pessoas o discernimento literário que permitiria distinguir Euclides da Cunha de um manual de autoajuda?

É esse, e nenhum outro o foco nevrálgico dessa e de outras iniciativas. A transformação palatável de conteúdos complexos em pasteurização medíocre, ainda que às vezes sutil, subliminar, e sempre com a camuflagem da promoção de equidade, faz parte do decadente projeto de poder. Essa visão estratégica que autoriza pessoas (pulemos o mérito da competência) a reduzirem uma obra de arte a um produto de consumo popular tipifica a índole deste gênero de experimentação com dinheiro público.

Decerto, perguntar-se-ia se valeria a pena continuar a gastar a vida, esforço e tinta, para, no final, ver suas letras pulverizadas para a grande degustação universal. Ele reconsideraria. Por que não aproveitar melhor o tempo?

Consultado, impossível prever a reação de Machado de Assis ao ser apresentado ao projeto. Talvez abrisse mão do uso de palavras sofisticadas. Provavelmente, daria cabo dos contos mais labirínticos. Caso os colegas, aflitos com a proposta, viessem até a sacada aflitos com seu suposto enlouquecimento, ele se ausentaria da escrivaninha para caminhar nas ruas do Cosme Velho, jogar palavras fora na velha adega e enfrentar o dia sem pressão dos fantasmas.

O fundador da Academia Brasileira de Letras convocaria os colegas de fardão para abandonar o ofício, cada vez menos útil.

O Bruxo, que não costumava remoer as vicissitudes, pensaria numa vingança elegante. Desistiria de corrigir o antológico erro tipográfico que atingiu seu livro Poesias. Com gosto, preservaria a palavra “cagara” no lugar de “cegara”.

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Mãe não é só isso (Blog Estadão)

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Mulheres obtêm na Justiça tratamento para virar mãe

Mãe não é só isso. Toda mãe é filha, neta, berço das genealogias. Falam que só o tempo dirá se será matriarcado. Para mim, é só olhar, já está sacramentado. Mas lembrem-se das não mães. Das que não quiseram, das que não conseguiram, das que perderam, daquelas que nunca puderam escolher. Mães distantes, postiças, prematuras, velhas e das que nunca souberam. Mães futuras e as que já foram. Temos presente, vocês não vêm de hoje.

Chilique conservador (Blog Estadão)

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Examinando minhas referencias especulei: hoje o que é ser conservador? Não gostar de pichação, estranhar ônibus queimado, deprimir-se com avenidas interditadas, imaginar organização, cidades limpas, uma direção que guie ao sonho. O populismo deforma os espelhos. Inverte as leituras. Esqueçam formação. Não preparem pessoas. Qualquer coisa serve. Reescrevam Machado, Alencar e Joyce. Daqui em diante e para todo sempre, tudo será mastigado, achatado, pré metabolizado. Renda, saúde e educação. Abaixo critérios estéticos. Acabem com todo esse rodeio ético. Incorporem a bagunça. A anomia, norma. O crime como forma. Mídia que desinforma. O desvio como rotina. A vida como defesa. O País está demente. Linchem a granel. Bruxa ou inocente. Esfolem a vontade. Não há mais ninguém imune num mundo impune. Comprar consciências está moleza. A campanha está no papo. Obras sem fim. Inacabadas. O marketing bombado nos partidos alugados. Pesquisa de intenção. Está na mão. O rendimento no regaço. Funcionalismo no inchaço. Trabalho, conceito burguês. Política, gosto do freguês. O discurso do mestre. Precisamos de ajustes? Maquie os embustes. Esforço é elitista. Mérito, golpista. Aparelhamento está na meta. Pau na classe média. Poesia virou funk. Cultura, descarte. Esqueçam o cerrado, destaque ao senado. Viram no que deu? Entra a turma do despiste. Se a fraude é contumaz. Escondam na Petrobras. E nada de mensalistas. Escolham diaristas. Criem regras flutuantes. Limites redundantes. E viva o balão de ensaio. O Bolão da República. Ele está de volta. Criticar virou golpismo. A esquerda, direita. O materialismo, liberalismo. O capitalismo, socialismo. Ainda bem, fala baixo, não descobriram o niilismo. A última saída do abismo.

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Mais humanos (Blog Estadão)

Entidade rebate crítica de Dilma a médicos brasileiros

Jorge Luis Borges cotava da sabedoria oriental que a felicidade, vem do menos. O advérbio mais é perigoso. Sempre foi. Do latim magis, designa aumento, superioridade, ou comparação. Não só porque a palavra comporta armadilhas, mas porque ela, inevitavelmente, envolve medições. As medições, comparações. As comparações, dificilmente atendem a justiça. Afirmar os médicos cubanos são “mais humanos” estabelece um diagnóstico generalizante, precoce e duvidoso. Especialmente para uma atividade complexa e individualizante como é a medicina. Mais humano? Comparado com quem? Sem dúvida, a frase avulsa já levantaria a boa discussão. Isso se não estivéssemos em meio ao pathos de uma campanha política.

Portanto, o que será que define o grau de humanismo em um atendimento médico? Raça, nacionalidade, cor da pele, dos olhos, escola que cursou, etnia, incidência de raios ultravioleta, classe social? E se disséssemos que ainda não há escala padronizada e consensual para contabilizar o teor humano de cuidado despendido às pessoas por profissionais de saúde? Há anos estudos e pesquisas tentam tornar o atendimento menos mecânico, confortador e oferecer estímulos para o estabelecimento de vínculos próximos com quem precisa de tratamento.

Não seria extraordinário se todos que se dispõem a cuidar dos outros buscassem também ser sujeitos nos atendimentos? E isso se ensina numa Escola de Medicina? O historiador da medicina Pedro Lain Entralgo, consciente do fenômeno da transferência, preferiu chamar a proximidade curativa com o paciente de “amizade médica”. Mas há também outros ingredientes a serem considerados como o talento, a disponibilidade, a geração de empatia. Capacidade de escuta é uma síntese feliz. Mas há um item, que, subtraído das discussões, anda em esquecimento: condições de trabalho.

A ideia geral de prover médicos em maior número para regiões desassistidas é basicamente justa. Mas o tratamento e as circunstâncias com que os médicos estrangeiros foram contratados são aviltantes. Sob quaisquer perspectivas. Não importa o viés com que se analisa a matéria. Só uma visão ideológica que aspira a hegemonia pode considerar naturais a falta de liberdade e salários humilhantes a que essas pessoas estão sendo submetidas. Estas sim, condições sub humanas.

Será que a mandatária geral quis dizer que os brasileiros que praticam medicina, na hora de cuidar, são menos humanos do que seus colegas cubanos? Se é isso seria bom que nos explicasse para que conhecêssemos as razões de sua afirmação. Teria ela experiência com a realidade de solo? Dos hospitais, dos centros de saúde, das clínicas e ambulatórios, dos consultórios públicos e privados? Meu palpite é que ela não pretendeu ofender ninguém. Só quis exaltar o slogan num período eleitoral. A infelicidade é novamente o contexto com o qual se faz propaganda. De qualquer modo, todo cuidado é pouco com o mais. Ele não é, nunca foi, sinônimo de qualidade. Pelo contrário. Jamais foi critério para assegurar decência.

Prometo não usar a palavra mais para não parecer incoerente, mas não seria má ideia que essa administração tivesse qualquer consideração com quem cuida da saúde das pessoas: menos marketing, alguma efetividade. Menos é mais!

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