Pai? ( Blog Estadão)

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Pai?

Está ouvindo?

Queria levar um papo. Agora é urgente.

Se estiver ai faça um ruído, cutuque a porta, dá uma raspada no gesso, sei lá.

Vou falar, quando puder de algum sinal de vida, combinado?

O que fiquei pensando é que aqui a coisa está tão pesada que a gente já está apelando para qualquer lado. Talvez você pudesse me dar uma força. Temos uma situação como nunca houve neste País — e por favor nem venha com uma daquelas suas gargalhadas. Oh velho, tudo tem sua hora.

(cutucão na porta)

De verdade, é presidente que não exerce, vice que não assume, fora que não se vê consenso em lugar algum. Os outros poderes? Você sabe, nem preciso falar. Era para ser parlamentarismo, mas o senhor sabe melhor que a maioria, eles seguem a boiada. Mas nem é isso que está me preocupando. O que está deixando todo mundo maluco é que não há ninguém que ofereça solução. Para bom entendedor. Tem gente que acha que a solução é cadeia geral. Também tem a turma do liberou geral.  Na linha do “restaure-se a moralidade ou locupletemo-nos todos”. Pobre isso, né? Eu sei bem o que você esta pensando: enquanto eu estava lá em Arembepe vendendo artesanato você estava bem aqui, lutando contra a ditadura e enfrentando os valentões que queriam matar pela causa.  Mas Pai, entenda que aquilo era barra para mim. A alienação sempre foi um alívio. Sabe a coisa de fingir que não é com você? Hoje também tem muita gente nessa. Não quero te decepcionar mas tenho que contar: tem gente pedindo a volta deles.

(raspada de gesso)

Isso mesmo. Como se fosse solução. Mas tem que haver uma saída. Que seja uma redução de dano. Eles preferem sacrificar a República que os cargos. Não dá para chamar gente assim de homens públicos.

Isso aí. Acredita? E a esquerda, lembra a sua querida esquerda? Sinto te dizer que a que está no poder não é mais esquerda muito menos democrática. Defende aliança com ditadores, caça jornalistas, quer controlar a mídia, todos cheios de grana suspeita e se alinharam com os piores tipos para faturar as eleições. Os bem pensantes? Parece que boa parte dos intelectuais está dominada. O pessoal está sem autocrítica ou se beneficia dos abusos, ou ambos. Tá difícil, eu te falei. Desculpa te falar isso tudo bem hoje.

Me perdi, o que estou para te perguntar:  aí é melhor que aqui?  Eu já sei que você vai repetir o que falou a vida toda: “mais vale um minuto aqui do que 1000 anos ai”. Mas é que o tempo aqui está passando cada vez mais rápido.

Era exatamente o que você sempre dizia, isso aqui só vai dar certo quando não tiver mais paizão, o salva pátria, o rei da cocada. O populismo é uma praga que dá certo. Tem um pessoal que quer guerra. Ainda na base do quanto pior melhor. Eles insistem em montar o circo. Tem aqueles irresolutos de sempre com o velho problema, que está mais para psicanálise que para sociologia. Eles não querem se indispor com os históricos, morrem de medo de serem chamados de golpistas. Não assumem a identidade. Já deu. Ninguém tem paciência. E desde quando obedecer a constituição é golpismo? Pai, eu sei que você achava de todos eles e como me arrependo de, na época, não ter concordado contigo. Tua frase exata era “não importa quem está lá, o País vai caminhar, ele é maior que todas as figuras públicas juntas”. Mas não tem duvidas que eles estão escondendo o horizonte das pessoas, fingindo que sabem para onde estão nos levando. Já se ouviu que não vale a pena salvar, e o pior é que talvez seja isso mesmo.

Ninguém respeita mais nada. O reino dos direitos sem deveres. Incrível que é tal qual você previu. Todo mundo acha que pode tudo, todos estamos na mesma, mas uns estão menos na mesma que outros. E tem mais uma pergunta: o que que você quer de presente de dia dos pais? Te dou algumas opções: uma viagem às vinícolas do sul (dizem que a safra é das melhores), um bote inflável (para o caso sabe?) ou uma revista de figurinhas com os melhores momentos da Copa do Mundo com um encarte “os grandes cartolas da Fifa”.

(sons indecifráveis)

Não é em alemão não. Acredita que reeditaram? Tinha tanta gente tirando da nossa cara que eles acharam que seria pop. Pode rir, eu aguento a gozação, você merece.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/pai/

Valeu pessoal! Muito obrigado!

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“o outro codigo da medicina” 

Pode acontecer hoje (Blog Estadão)

forçasXXX

Neutralizem-nos. Desfazer é a palavra. A concessão ao ódio, pueril. A profusão sentimental, irreflexiva. Justiça instantânea, perigosa. Destoar da hegemonia é girar, numa outra direção. Evidente, tudo pode mudar. Uma revolução pode operar no silêncio. A política é lábil, mutante, ciclotímica. Distorçam-na como arte ou torçam nas arenas. Aprender a esquecer como convém aos pactos datados. Vivemos numa não ficção. Um vento não remove um Estado. Mas também não o edifica. O radical limita-se a um vício de informação. O acirramento interessa: para poucos. A ilusão hegemônica está em pé. Não é que o projeto acabou, foi adiado. Rejeitam a ideia de que o mundo não é um menu acabado. Preferem o manual onde, numa balança infinita, só se ensina dois lados.

Não só pelo 16 de agosto, mas porque nossas ações exigem rumo. Usem a rota b. Ninguém quer golpe, bastaria oposição. Desmonta-la, sempre foi um mal negócio. No jogo democrático oposição é vital. Respeitada e respeitável, ela, quando vigora, exerce poder moderador. Se assim fosse, renuncias, afastamento e outras tribulações não seriam traumas. Uma República deveria ser o conjunto das instituições. Sem reunificação (aceitemos o desacordo), sem conluio, (assumamos as disputas) apenas alguma circunscrição da desforra. Comutem por um outro estar. Mudem as flores por vasos mais enxutos. Na vigília digital não há esperança de sono ou coesão. “Contamos com vosso sonambulismo”, eles vêm nos pedindo. Mas, em nossas realidades, não há indício de respiro. Não te falaram que as urbes tirariam todo nosso fôlego? Que a rarefação do poder estava garantida? A confusão, sortida? Era verdade, mas ninguém varou a noite para avaliar.

O jogo democrático não é exatamente negócio de lobistas. O jogo pode não ser equânime, justo ou coerente, precisa ser pacífico. Exige renuncia à brutalidade, desvio do confronto e, elegância mínima. É que as lutas se despistam nas guerras. Se te convencerem de um destino bomba, não será esquerda ou direita. Que se prolonguem as vidas dos homens sensíveis. Mas que não te assombrem. Nem nos sacrifiquem na idolatria do culto personalista. Dirijam irritações contra a milionésima parte dos abusos. Dos desmandos aos comandos. Adensem os artefatos até se transformarem em palavras. Afiem a civilização. A Pátria seria educadora se comovesse alguém. Nunca é tarde. Mas, a certa altura, perdemos a razão, junto com o sentimento. Rumo ao fundo dizem. Até que a sangria não coagule. Até que os autores meçam-se por cãibras. Até que os analistas mexam nos roteiros que filtram. Até que a Nação seja um cárcere sem fronteiras. A cadeia deveria ser para ninguém. Nem as aberrações das leis, feltro para justificar o arbítrio.

Que ninguém se engane. Os intelectuais podem estar silenciosos mas os poetas não desapareceram. Guardam a visibilidade oscilante. No parapeito de cada surto. No limite do susto. Nas paginas anuladas, borradas de insultos. Nas impressões foscas. Na fuga das rimas. No êxodo do cuidado. Na contagem regressiva dos soluços. Não foi ainda ontem que mudamos tudo? E as unhas de quem sofria encobriam o ruído de quem comia? Até o fim do dia. Abandonar a surdez para enxergar todos os outros. Enquanto isso, vaga uma meia lua constrita pelo excesso de olhares. Ela não inibe a dor, nem os sonhos. É que o milagre opera na surpresa. Desce ao simples. Pode acontecer hoje.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/pode-acontecer-hoje/

Tags: 16 de agosto, blog Rosenbaum Estadão, jogo democrático, pode acontecer hoje, silêncio dos intelectuais

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No livro “O outro código da Medicina” o médico, mestre em medicina preventiva e pós doutor em ciências, Paulo Rosenbaum, coloca sua experiência clínica e capacidade de pesquisa a disposição do leitor para elucidar aspectos pouco conhecidos da arte de cuidar. Se a saúde é um enigma, a homeopatia pode ser definida como um sistema terapêutico de interferência médica baseada em similitude e observação clínica que usa a individualização dos sintomas como sua principal fonte de conhecimento. Trata-se de uma prática médica que ouve histórias, acolhe narrativas e interpreta biografias: uma medicina do sujeito.
Apresentamos aqui este outro código da medicina, a homeopatia, em linguagem acessível, tocando nos principais tópicos de sua história, filosofia e técnica. Adicionamos também as reflexões sobre saúde e enfermidade que emergiram de anos de pesquisa e prática clínica.


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Padaria Espiritual é o nome pelo qual as livrarias eram conhecidas em Portugal e suas colônias até o século XIX. Este conto é uma ficção sobre o fim dos livros impressos e o controle do Estado sobre o direito dos cidadãos à informação. Simultaneamente, estranhos fenômenos ocorrem com as árvores que se insurjem contra os desperdícios de papel. Ulisses Moby luta contra essa hegemonia ditada pelo mega oligopólio cibernético o qual, num futuro não distante, monitora o acesso à maioria das obras literárias.


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O que não merece ser salvo? (Blog Estadão)

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O que não merece ser salvo?

Paulo Rosenbaum

31 julho 2015 | 18:48

lideresXXX

Eles querem conversar? À vontade. Quem ainda é líder? Ouço que estamos a deriva, mas é mais. Bem mais. Embarcações extraviadas ainda costumam contar com timoneiro, um marujo senior, algum almirante aposentado. Nós não temos nada, nem contamos com ninguém. Somos passageiros encurralados em meio a uma epidemia de negação. Quem não sabe que o País sempre se desloca de crise em crise, de popa à proa, do melhor para o pior e vice versa? As instituições estão suportando. Até quando? E desde quando um Estado policial pode conviver com a democracia?

A aversão aos líderes que nos guindaram a essa anomia sem precedentes emerge de um outro ponto, não mapeado, mascarado, que nos assombra por outros motivos. Os defensores do indefensável se reuniram no clube Brasília. É que, de certa forma, suas vidas só fazem sentido na negação. A aversão aos que hora governam, com menção honrosa para o lulopetismo pela década de descuidos e desperdício de oportunidades, não é emocional, é científica. E a repulsa não vem de outro lugar a não ser do gênero de poder que emanaram. No exercício de uma tirania especulativa, que monitora até onde todos nós somos capazes de engolir.

Portanto, a inviabilidade deste governo não vem do DNA das elites. Não vêm da perda de privilégios. Não têm origem na ancestralidade oligárquica. Não brotou do preconceito de classe. Não se proliferou por geração espontânea nas redes sociais. Não é oriundo do labirinto de versões. Não se sustentou por perseguição moral. Não perdura pela luta entre patrões e empregados. E nem se espelhou em nada a não ser uma predisposição inata, programática e perseverante, uma quase aptidão, para a incapacidade ético-político-administrativa.

Mesmo sem um pingo de teoria conspiratória não é preciso muito para identificar a tentação de abandonar as pessoas à própria sorte torcendo para o pior, a saber, uma resposta dos oprimidos. Se preciso for sempre há o recurso de se convocar minorias violentas. Desorganiza-se o Estado. Para eles, o opressor que está atrapalhando e que pode colocar tudo a perder tem um nome: os valores da burguesia. O detalhe é que nem a mais eficiente técnica para provocar amnésia é capaz de apagar o superavit de bobagens de uma administração, que não pode, por uma questão de pele, nem pedir para sair, nem ficar onde está.

Tudo isso para agora, como resultado de todas as decisões equivocadas acumuladas, ver seus efeitos descerem à realidade e encontrarem o País às vésperas de um embotamento sem precedentes. Só que ninguém, nem os mais pessimistas, poderia prever que o mais repulsivo estava por vir.

Em meio a toda sórdida campanha mitômana a fim de evitar uma queda já consolidada, acaba de chegar, pela voz do líder decadente, uma comparação entre perseguição aos judeus pelos assassinos nazistas com crimes de natureza pecuniária e anti republicana liderados por consórcios que detém o poder há mais de 13 anos. Passou do ponto de não retorno!

FHC tem toda razão, existem coisas que não merecem ser salvas. Como meros súditos, ainda temos o direito de perguntar se há um lugarzinho qualquer no bote salva-vidas? Também serve rolha, isopor e boia.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/o-que-nao-merece-ser-salvo/

Kepler 452 (blog Estadão)

Caros habitantes,

Queríamos dar as boas vindas para todos neste dia histórico. Aviso que estamos usando o tradutor automático para 214 línguas.

Nenhum antigo parece ter valorizado suficientemente aquela previsão. Na verdade, grosseiro erro de estimativa, pois era mais do que uma advertência. Foi tomada como desafio moral. Inútil, diziam todos eles. Mas isso foi antes do grande incêndio. Hoje, daqui, podemos enxerga-la com telescopia de lentes de água e vapor solar. Em tese, com a aceleração linear, alguém poderia, caso ousasse, voltar e atingi-la em 1.400 anos luz. Ou, se preferem, na velha cronologia, em 236 anos, 22 dias e 18 horas.

Obviamente, como ninguém desconhece, isso está fora de questão por toda contaminação atmosférica e pelo deslocamento do eixo magnético. Sem contar o aquecimento e a radiação. Sim, aquele sol minúsculo nos impediria pisar ali, naquele que já foi um solo fecundo segundo os arquivos e as poucas marcações que restaram da biopaleontologia. Ninguém a deseja mais a não ser por uma estranha nostalgia. Nunca se esquece de um berço. Não se pode desprezar aquela que foi objeto de todas nossas especulações e depositária dos desejos da espécie até não muito tempo atrás.

Quem poderá esquecer as amostras que hoje preservamos no Museu Copérnico II? As experiências de desmaterialização no eixo polar? A concentração de verde no hemisfério sul? A extração recente dos painéis de sondas e embarcações perdidas em missões frustradas (na época de combustível liquido fóssil) são um patrimônio da memória. Muitos eram, assim como em nosso velho mundo, a favor da destruição desses registros de memória. Congratulemo-nos todos já que a argumentação não passou nos testes dialógicos.

A energia dos núcleos como armas não poderá mais ser esquecida. Nossa responsabilidade deixou de ser só com aquele sistema solar, hoje obsoleto até a órbita de planeta com a grande tempestade, graças aos nossos erros. Neste ano 127 da novíssima experiência humana, podemos avaliar retrospectivamente o que fizemos com o velho habitat e evitar amanhãs de erros antigos. Por isso, é com grande alegria que inauguramos este memorial na via Kepler com a famosa frase do escritor Arthur C. Clarke (infelizmente, profissão quase extinta nesse nosso novo mundo, que apenas ameaça renascer)

“Os dinossauros desapareceram porque não tinham um programa espacial”

Via Estadão: Kepler 452 – http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/kepler-452/

Legalidade

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A legalidade

legitimidadeXXX

Quem ouviu  soube. O que se passou nos últimos dias é mais que simbólico. Aqui na CPI, Viena ou Atenas. A legalidade transformou-se numa embarcação que não pode mais ancorar. Isso durará mais do que o previsto. Enquanto as velas se distribuírem pelas marés, enquanto estivermos à deriva, enquanto a agitação exceder a orientação, enquanto a carta náutica modular a dissipação, enquanto a tormenta for maior do que os ventos, enquanto a vida ameaçar o consenso, enquanto a decisão de um, solapar o combinado com tantos outros. O compartilhado à muitas mãos. Blefe rima com esquece. Legalismo não pode ser  oratória, nem persuasão stricto senso. A legalidade se transformou num conjunto de regras. Ainda bem. Mas é igualmente impossível esquecer que há uma legalidade sem credibilidade. Se há excesso ou déficit, ambas fabricam distorções progressivas e insanáveis.  O que esta em questão na governança é bem mais do que o jogo perigoso num jogo de futebol. A falta costuma ser evidente. Já jogo perigoso é a intenção deletéria, cuja penalidade é feita com cobrança livre indireta. O legalismo não pode disfarçar nem a falta grave, nem o jogo perigoso. Ou tergiversar não é uma outra forma de obstruir a justiça?

A legalidade é contra o senso comum. Não pode emergir da criatividade, da engenhosidade, do desejo de fazer justiça a qualquer preço.

O Estadista não pode achar, nem por um minuto, que seus êxitos se devem à retórica. Todo triunfo de um líder, deveria ser, por natureza, essencialmente coletivo e não populista. Ou com tudo pelo qual estamos passando alguém ainda acha que deveríamos preferir quem argumenta melhor aquele que emana confiança? Acordos podem ser costurados na base da verificação, mas confiar continua sendo  essencial. Se ainda estiver por aí, a história será o juiz no caso do acordo nuclear. Mas não importam esforços diplomáticos de adiamento, ou a misericordiosa paciência dos aitolás: há jurisprudência histórica suficiente para demonstrar que acordos mal traçados são muito mais nocivos que um status quo incerto, mas que preserve a vigilância e o alerta do mundo.

Aqui ou na Europa, extremas, direita e esquerda, abjuram posturas de centro. Preferem convicções à dúvida. Fieis aos pressupostos, devotos da ideologia, escolheram não pensar para se alinhar. Se as motivações são claras, as consequências, imprevisíveis. A imposição de qualquer revolução é um novo status quo, o qual os extremos partilham intencional ou involuntariamente. Quanto pior, mais generalizado, mais embaralhado, mais fácil manipular.

Fica claro que existe mais de uma forma de romper com a ordem regimental ou readequá-la. Melar operação e ajeitar a votação são sinônimos. Consequências diretas das rupturas anteriores, onde o culto à personalidade sempre vale mais do que as Instituições. Entrar para a história é mais cobiçável que promover justiça. Quem vibra com exceções são os mesmos que as abjuram. São tentativas de sacrificar o diálogo pela imposição adocicada de opiniões e gentilezas. A acusação de seletividade vale para qualquer lado, apenas que o objeto selecionado continua valendo. Não pode ser apagado por quem, à contra ordem, quer anular um pelo outro. Doa a quem doer, não era esse o slogan?

Séculos foram necessários para que que conquistássemos o estado laico e mais uma eternidade para que a academia não fosse apenas uma plateia de doutrinados acríticos. Conquistas que, lentamente, definham no esteio do desprezo pelas culturas e tradições. Um fordismo afoito tomou conta dos procedimentos políticos e uma animação suspensa vigora no mundo. Nessa, uma linha de montagem onde todos carimbam automaticamente, contra ou a favor.

Ninguém confunde política com partidarismo numa terra onde todos deslizam juntos. Porém, para infortúnio de muitos, a figura chamada “escala” subsiste. Há um “quanto” para qualquer sociedade e essa enormidade de malefícios acaba de chegar aos destinatários; só o remetente ainda não se deu conta que já foi.