Geração espontânea e terroristas avulsos (Estadão)

Geração espontânea e terroristas avulsos

Quais as etapas que um sujeito deve percorrer entre entrar em seu veículo, escolher o alvo, acelerar contra este a uma velocidade significativa, abalroar uma ou mais pessoas, descer do veiculo e golpear à faca, adaga, lâmina ou machadinha até acabar com uma vida? Há um terrorismo exposto e um latente prestes a irromper. Quais as chances de que uma epidemia homicida atinja várias mentes sincronizadamente? Pois os cidadãos de Israel tem sido alvo de múltiplos e sistemáticos ataques terroristas. Os fatos, porém, tem sido expostos de uma forma surpreendentemente neutra. Sob as vozes monotônicas e testeiras eletrônicas da mídia televisiva, tem-se a impressão de que os ataques precisam ser naturalizados. Terroristas avulsos surgiriam às dezenas ao modo de geração espontânea. Ações terroristas ex-nihilo se propagam sob a ação de esfaqueadores em transes assassinos. Da forma como nos apresentam os eventos, a impressão é que, subitamente, uma parte dos palestinos e árabes israelenses — os perpetradores dessas ações contra alvos civis inocentes — tiveram, ao mesmo tempo, a mesmíssima inspiração.  A sensação quase subliminar que se pode ouvir ao largo das transmissões é ambígua: “um horror”, e ao mesmo tempo “devem ter feito algo para merecer”.

Quem não reconhece que a raiz profunda desta e de outras crises passadas e futuras são os erros políticos recorrentes dos governantes israelenses e palestinos em achar uma solução para a tragédia que se abate sobre os dois povos? O perturbador é que parte significativa da mídia insiste em pulverizar os atos nitidamente terroristas como “sublevação legítima”, “insurgência política”, “resposta à ocupação”e, mais recentemente, o criativo “fúria contra a proibição de fiéis muçulmanos rezar na esplanada das Mesquitas”. A notória má vontade da mídia mundial com Israel e seus habitantes teria origem num antissemitismo latente? A desonestidade intelectual estacionada em acusações irresponsáveis como a de que ali vigora um “regime de apartheid”? Essa latência  floresce irrigada a cada mínima gota. É como se um argumento subliminar estivesse a postos para ser sacado contra a mítica pré condenação judaica. Manchetes omissas diárias — sem contar as abertamente  judeofobicas dos jornais árabes e iranianos —  estampadas nas páginas de jornais terminam inculcando uma percepção completamente distorcida da realidade social e política da região.

Abundam questões territoriais, jurídicas e culturais em permanente disputa, mas quem é curioso ou cultiva um pouco de amor à análise política sabe que Israel é um dos países com maior liberdade religiosa e de gênero em todo o mundo, e, decerto, o mais multicultural entre as nações do oriente médio. E, com todos os defeitos inerentes implicados, uma democracia estável. Pois as pessoas deveriam também saber que o desenvolvimento econômico nos territórios palestinos está entre os maiores registrados na região e não é fortuito que a taxa de escolaridade por lá também seja bastante alta. Não há nada de fortuito ou coincidência mística que o novo ciclo de ataques tenham se iniciado alguns dias depois do discurso do presidente da autoridade palestina Mahmoud Abbas, quando declarou que considerava nulos os “acordos de Oslo”. É sintomático que o anúncio tenha sido feito num momento histórico no qual o relevância do conflito esteja em evidente declínio na agenda dos países ocidentais. Com tópicos quentes como guerra civil na Síria, estado islâmico, Ucrânia e fortes indícios da retomada de uma novíssima guerra fria, o imbróglio palestino-israelense não é mais prioridade para ninguém. Abbas captou a nova realidade e talvez tenha pretendido instrumentalizar uma escalada para recobrar a relevância perdida. Porém, a conclamação ao ódio e à indução ao terror, ainda que cifrada, é um novo e perigoso precedente na escala de equívocos políticos. No reino dos justificacionismos não há, nunca houve, solução para contendas.  A busca pela pacificação é provavelmente um dos impulsos mais contra-instintivos em nossa espécie. Quando não existe ninguém realmente pensando em paz, o vazio pode vir como signo de guerra. Oxalá o futuro nos reserve menos lamentos e mais civilização.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/geracao-espontanea-e-terroristas-avulsos/

Retrocesso e equivalência (Estadão)

Retrocesso e equivalência

Paulo Rosenbaum

08 novembro 2015 | 03:19

retrocessoIII

Mais uma tese arguida, e de novo, predomínio temático. A palavra mais usada na última semana? Retrocesso. Usada como troca de acusação. Troquem progresso por sucesso. Recesso por recuo. Mudem estampas. Mexam nas cores. Rosa e azul, turquesa ou branco. Uma confusão dessas só pode se estabelecer em terreno de ideias colonizadas. Mudamos para uma frequência abertamente iletrada. O antônimo de ideológico chama-se agora confrontação. O oposto de reflexão, contestação. Toda discussão sobre gênero, irrelevante. Manifestem-se ainda que tarde. Invadam sem dó. Vale abolir a autocensura. Divulgar o que der na tampa. Emitir plebiscitos unitários. Enaltecer o monologo. Trata-se da erotização do vale tudo. O grande juri de uma só pessoa. A glamorização da estupidez. O estilo? Sempre livre e direto. Para os cultores das opiniões formadas o que conta é deitar dedo no teclado. O que vale é soltar o verbo. Não ler a fundo, virou virtude. Ocupação formal, coisa para boçal. A arte, um toque decorativo. A cultura, luxo recreativo. Toda penalidade, e suas variações desagradáveis — sanções, prisões, restrições e moralizações — devem ser abolidas. Não há, nunca houve déficit fiscal, pedalada institucional ou acordo nacional. Um estoicismo de resultados foi fumado e bateu. Está levando todas. A regra vai ficando clara, não há regras. A corrupção, ofuscada pela maquiagem. A lei, golpismo disfarçado de justiça. A constituição, uma carta de intenções, mal redigida e sub digerida. Todo processo está sujeito ao avesso da interpretação. O contraditório depende da oratória. E as provas documentais são desatinos acidentais. Afinal, o que é retrocesso? Literalmente? Andar ao arrepio, tornar à vaca fria. Político? Aqui, agora. Analogicamente? Retrocesso é um borracha amnésica, que sempre volta para recusar a devida equivalência entre as pessoas.

*****

Minha contribuição ao #AgoraÉQueSãoElas : um microconto de Lydia Davis extraído de seu “The collected Stories”, um trecho do mestrado de minha esposa, a psicóloga Silvia Fernanda Rosenbaum “Permanência e transformação: a paternidade”, além de uma poesia da estudante de design de moda, atriz e poeta Hanna Rosenbaum.

Insomnia by Lydia Davis

My body aches so —

it must be this heavy bed pressing up against me

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Silvia Fernanda Rosenbaum

Os símbolos culturalmente disponíveis, sendo com frequencia contraditórios, têm suas possibilidades metafóricas limitadas pelos conceitos normativos. Estes são prescritivos, afirmando o masculino e o feminino através de dogmas religiosos, educativos, científicos políticos ou jurídicos.

Se tais campos doutrinários podem ter sido – e o são – abertamente contestados, segundo Joan Scott a história posterior é escrita como se estas posições normativas fossem o produto do contexto social e não do conflito. A mitificar o presente – o novo pai — através de uma narrativa sobre um passado consensualmente retrógrado — o velho pai — a hierarquia de gênero atual é obnubilada, apagada, em certo sentido negada. A hierarquia de gênero é coisa do passado. Neste sentido é possível concordar com Lallemand, quando afirma sobre a puericultura francesa: tudo tem que mudar para que tudo fique igual.

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Hanna Rosenbaum

Mata que cresce nas artérias,

Tanta flor de cimento,

concreto e argamassa,

não quebra,

não desarma,

edifica mais muralha,

Cada andar uma ferida que seca,

cicatriza por fora,

derrete por dentro,

Barreiras sólidas,

Planejadas a tanto tempo,

E o desejo eterno,

De que um dia,

Algum trator arrebente

*****

Paulo Rosenbaum

Inautêntica liberdade (Estadão)

Inautêntica liberdade

Paulo Rosenbaum

13 novembro 2015 | 10:36

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Tudo voa e escoa, na leniência, no desgaste moral, na ousadia recolhida. A paz não é, nunca foi clemente. Quem suporta sacrifício, termina na resignação. Chora a compaixão para reboca-la ao céu. É a leniência, cobrando o preço sem parâmetro. Um coro fechou na frase “aceitaremos qualquer coisa”. Ainda obscuro,  há algo entre a caretice e o revolucionário. Um hiato que ninguém decifra. Não é o medonho vazio que devemos temer. Nem a aspereza do sem sentido. É essa servilidade, a aceitação incondicional, a passividade mórbida. Eis os monstros insubjugáveis, indomáveis e aflitivos, que nos facultaram o abismo sem precedentes. De que outra forma explicar miríades de mortes evitáveis? Pode ser por lama, ciúmes, ou baionetas urbanas.  Acidentes que não são causas naturais. Fatalidades são fatais para os desprotegidos. Nenhuma cartografia é espontânea. Alguém traçou estes mapas. Não é de agora, mas é que o hoje ofende mais. Degrada ao exagero. A política não responde mais aos chamados e a civilidade tem seus limites. Coincidem com os da cidadania vilipendiada. As ruas poderiam, contidos os desperdícios de convocações inúteis, mostrar que só de uma outra forma será possível. A sociedade se transformou, sob o imobilismo em suas formas de representação. E quem não tem medo dos motins? Das aventuras sem controle? Das marchas invasivas? Da violência em espasmos? Mas já não vivemos algo similar? O selvagem já não imprimiu seu ritmo? Quem ainda tolera a cronicidade dos enganos, desmandos e disfarces? Nunca o cinismo encontrou tanto respaldo. Tantas caras sérias, cantores e escritores fazendo estranhas concessões ao arbítrio.  Não há mais vexame intelectual em capitular ao autoritarismo instrumental. A remuneração em medalhas. Num governo impensável, a ilegitimidade fermentou o fisiologismo extremo. A noite, ao modo da casa, esparramam seus soldadinhos pelo mundo. Como praga vitalícia, se repetem mundo adentro. Alguém precisa gritar chega. Não podemos mais nos entregar ao oficio da imolação. Ninguém mais implorará nada. Os desterrados estão, de novo, na mira dos covardes. Não aprendemos a lição e estamos levando um quinau. Na trilha das construções destrutivas assistimos o projeto embrionário do tirano. O ilídimo em triunfo. Se há esperança, ela não está acusar outros, mas reconhecer, estamos submetidos a um regime rente à exceção. Findo o espaço para concessões e com as instituições em seus limites operacionais. Nos caminhões ou sob o barro, nas caravanas ou nas casas, nos prédios e nos pátios, só uma chance para que a grande indignação não se esfole no vazio. Mudar o rumo. Parar tudo, até que o acordo leve em conta as vozes travadas pela engenhosa opressão. A mais ardilosa dentre todas, a inautêntica sensação de liberdade.

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Paulo Rosenbaum

Linguagem e códigos de paz (Estadão)

Linguagem e códigos de paz

Paulo Rosenbaum

20 novembro 2015 | 21:08

O que fazer quando se enfrenta um inimigo que rejeita a paz, não pela incompreensão, mas exatamente porque sabe o que ela significa? Segundo Antonio Houaiss em seu “Sugestões para uma política da língua” de 1960, das 3.000 línguas que se falavam no planeta (sem contabilizar os dialetos), 2.800 estavam em crise de existência. No buffer literário estão representadas apenas quarenta destas línguas, e, destas, somente pouco mais de vinte faladas por mais de dez milhões de indivíduos. Entre os complexos conscientes e inconscientes dos homens que regulam a busca pela deposição das armas ou a disposição bellatrix, estão os significados das palavras com suas cargas inatas. A paz é um ardil, álibi para moderar impulsos, um alimento que ninguém aceitou. O grande significado da paz, ainda ignoto, não pode ser compartilhado. Não é silencio, concórdia, tranquilidade, ou “ai dos vencidos”. O que a paz não traz, as bombas suprem. Para formar tréguas é preciso coexistir senão na língua, na linguagem. O multiculturalismo, que deveria significar distensão e convívio, transformou-se em multisectarismo. Depois de quase oito décadas distantes do fim da segunda guerra mundial, de Paris a Nairobi, de Beirute a Jerusalém, testemunhamos a corrupção dos alfabetos. Vale dizer, uma degeneração dos códigos. Numa corrosão que alcança a cultura, as redes eletrônicas multiplicaram dialetos e tribos. Os países estão inertes e imersos em seus próprios interesses. Os Estados já estão perguntando para seus habitantes, abertamente: liberdade ou segurança? Muitas democracias, reféns do populismo (mesmo aquele involuntário pois, ao fim e ao cabo, o que vale é voto na urna) estão ficando paralisadas por contradições.

 O gesso que agora imobiliza o continente europeu tem características especiais. O sonho da união vai se configurando pesadelo, pois é preciso bem mais do que liberdade alfandegária e de circulação para fundir princípios, como sugeriu Stephan Zweig em seu texto “Da unidade espiritual da Europa”. Há uma análise mais ousada do que a superficialidade das teorias conspiratórias de Chomsky: o terror pode estar sendo legitimado sob a manipulação política do medo. Os especialistas afirmam ainda que as comunas terroristas ocuparam o lugar de administrações ausentes — sob um modo operacional similar aos morros cariocas e outros bolsões de violência. Numa aparente contradição, enquanto jihadistas queimam infiéis e massacram civis, crianças ou adultos, podem ao mesmo tempo pagar tratamentos médicos caros para pessoas doentes e funcionam sob os auspícios das lideranças tribais, que, em troca, lhes dão sustentação moral e guarita em suas casas e lugares públicos em caso de chuva de mísseis. Os grupos terroristas do Daesch ao Hezbollah, do Hamas ao Boko Haram, suprem uma lacuna. Analogamente aos vendedores eletrônicos de fé oferecem uma saída remunerada à transcendência. O ocidente finge não constatar um gap psicológico óbvio: a crise de sentido das sociedades materialistas. A esquerda, por sua vez , desconsidera a “fome de significado” para atribuir toda responsabilidade à marginalização socioeconômica. O apelo pop dos terroristas é evidente. O falecido playboy belga jihadista, em sua Toyota top de linha, já avisava, sorrindo, que enquanto os outros fazem frete com mercadorias, eles arrastam infiéis. Não, não há nada de islâmico em trucidar para purificar. Mas chega ao limite da psicose a negação com que os líderes mundiais tentam ocultar o caráter jihadista que vem inspirando massacres. Incluindo modalidades “produção independente”, como o esfaqueamento de judeus em Israel e a epidemia de franco atiradores pelo mundo. Quando Umberto Eco teve a coragem de nomear o Isis como o “novo nazismo” uma parcela de progressistas pulou das cadeiras para acusar o escritor de parcialismo e reacionário. Pelos procedimentos já divulgados, as práticas do terror beiram a degradação da espécie. Custa-nos garantir-lhes direitos de seres humanos. Talvez seja mesmo necessário, para horror da hipocrisia, cassar-lhes essas regalias.

  As democracias quebram suas regras e princípios para obter, em troca, alguma governabilidade. Foi assim que o crime comum se avizinhou do terrorismo para, enfim, aglutinarem-se num tandembélico.  É óbvio que o Ocidente, mesmo ameaçado, ainda não corre o risco que os escatologistas apregoam. Ainda que tempos obscuros estejam de volta, melhor aceita-los que combate-los com estoicismo. A coragem precisa do medo para emergir. O que importa é que velhos inimigos superem diferenças e voltem a aceitar que, com um inimigo comum à espreita, alguma união será inevitável. Onde partilhem que existem inimigos públicos da humanidade e aceitem algum código de paz, de preferência que contenha tolerância e liberdade. Ninguém se safará sozinho dessa enrascada e nem mesmo há garantia de que um consenso provisório tenha êxito: a pulsão de morte costuma ter um curso errático.

O último whats (Estadão)

O último whats

Paulo Rosenbaum

17 dezembro 2015 | 19:13

-Leia isso aqui!

-“Help?”

-Isso, “help!”.

-Chegou quando?

-Meia noite!

-Estranho!

-Quem enviou?

-Não tem remetente, nem destinatário.

-Exato, mensagem na garrafa e parece que milhões de pessoas receberam.

– E a outra chegou um segundo antes!

-“Embargo geral?”

-Essa!

-Por que escreveriam isso?

– Ah, você não imagina?

– Não faço a mínima.

-Eu te listo mil motivos em um minuto.

– Então conta

– Perdemos critério, esvaziamos o bom senso, estamos governados pelo senso comum, a elite sustenta o poder, estamos sob censura, o crime varou a carne, o sistema tolheu as escolhas individuais. A divisão virou guerra. Os dossiês, armas. As discussões, torcidas organizadas. A judicialização, indevida. Carência de justiça devida. Segredos de Estado. Estado democrático sob cerco. Estado com espectro policial. Qualquer um não pediria ajuda?

— Imploraria.

–Foi até discreto, mas assim? Ao cosmos? Para alguém alhures? Ele é um daqueles que ainda acredita no Céu?.

–E você, não?

(silencio intimidador)

– Não?

– Evoco a quinta emenda.

– Isso não vale nada por aqui. Lembra? Aliás, essa Constituinte aqui não sei não.

— Então te digo que no que não acredito: nessa política, na esquerda retrógrada, na direita obtusa, no centro acéfalo.

— Vejo que você não enxerga mesmo. Não percebeu os símbolos na linguagem? Impedimento, bloqueio, intervenção, sigilo de justiça, controle da mídia, restrição, liminares, prisão domiciliar oficial, arbítrio, mordaça. Ninguém precisa decretar “somos um governo tirânico”, é auto evidente. Se não acredita, faça seu próprio levantamento. Te digo que é por ai.

— Certo, mas o mistério persiste: quem digitou “help”?

– E quem não o faria? É help mesmo! Socorro, acudam, alguém faça qualquer coisa.

– Você está insinuando o que? Uma inteligência artificial? Capaz de perceber a bagunça e ainda gritar “socorro”?

– E por que não? Fenômeno raro, já registrado antes. Assim como existe uma inteligência individual de cada órgão do corpo, existe uma espécie de organização autonômica desconhecida, que age à nossa revelia. Só se manifesta em momentos críticos para a humanidade e poucas vezes abaixo do Equador. Transmissões radiofônicas sem origem, impulsos eletromagnéticos que são próximos e ao mesmo tempo não localizáveis, é como se a radiação cósmica de fundo tivesse uma voz, que as vezes até digita.

-Você tá de brincadeira!

– Não brinco com coisa séria!

(Voz celeste embargada: – Céus)

– Você ouviu, ou vai se fingir de surdo.?

-Ouvi, mas não conta, tinha acabado de pingar 3 gotas de Rivotril

(voz celeste grave : – I rest my case) (tradutor automático: Para mim, deu)

– Essa eu ouvi.

(ruídos de tremor de dentes)

– To te falando!

(voz celeste : – Fui)

– Olha aqui, o whats voltou.

– Milagre!

– Mas embargaram só no Brasil?

– Parece que sim.

– Arábia Saudita?

– Não. Isso é coisa muito nossa. Em qual outro lugar na Terra fariam isso?

– O que não entendo é por que uma Inteligência desse porte pediria nossa ajuda?

– Filho, era uma expressão: torrou, excedeu todos os limites, de saco cheio. Entendeu? Nem Ele aguentou!

— Você (se aproxima e sussurra) acha que Ele (aponta ao alto) pode ser anarquista?

(silencio constrangedor)

—No máximo um não alinhado!

– Mas não era brasileiro?

-Se naturalizou argentino, ontem.

-Então é mesmo o fim.

– O País acabou.

(chega uma mensagem de texto paga com a música dos Beatles: – O País nem começou. PS- Podem me acordar se surgirem novidades. PS2- Por via das dúvidas, o novo passaporte é provisório)

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Inversão da República (Estadão)

Inversão da República

Paulo Rosenbaum

25 dezembro 2015 | 05:22

 

Progresso: involuir 20 anos em 13. Retrocesso: modernizar o país. Progresso: desviar dinheiro público para o partido. Retrocesso: penalizar improbidade. Progresso: aparelhar todos os escalões do funcionalismo publico. Retrocesso: aumentar controle de gastos. Progresso: uso de informações privilegiadas para aliados. Retrocesso: meritocracia. Progresso: Riscos públicos na república privada. Retrocesso: Eficiência administrativa. Progresso: distorcer as leis. Retrocesso: poderes independentes. Progresso: aumento do controle sobre as massas. Retrocesso: emancipação das pessoas. Progresso: culto à personalidade e mitificação populista. Retrocesso: democracia participativa. Progresso: demonizar oponentes. Retrocesso: processo dialógico. Progresso: autocracia baseada em consumo. Retrocesso: desenvolvimento baseado em infra estrutura. Progresso Pátria educadora, Retrocesso: País de estudantes.

Progresso: catedráticos militantes Retrocesso: professores críticos. Progresso: não vai ter golpe Retrocesso: leis obedecidas Progresso: poder hegemônico Retrocesso: alternância de poder. Progresso: demonizar a burguesia Retrocesso: pacificar a sociedade. Progresso: transformar velhos talentos em propagandistas do Regime Retrocesso: estimular a leitura. Progresso: status quo Retrocesso: atualização. Progresso: aliança com ditaduras Retrocesso: proximidade com democracias. Progresso: silencio seletivo  Retrocesso: liberdade para a justiça Progresso: chantagem e dossiês Retrocesso: articulação pelas ideias

Progresso: cargos políticos Retrocesso: critérios técnicos Progresso: neooligarquias Retrocesso: horizontalização do desenvolvimento Progresso: maniqueísmo instrumental  Retrocesso: ética e equidade Progresso: flexibilidade moral Retrocesso: responsabilidade fiscal  Progresso : lideranças grandiloquentes  Retrocesso: Estadistas equilibrados. Progresso: infantilização sistemática Retrocesso maturidade analítica. Progresso: neutralizar toda oposição Retrocesso: embates políticos. Progresso: rigidez ideológica Retrocesso: captação dos novíssimos tempos Progresso: centralização de impostos Retrocesso: autonomia federativa Progresso : revisionismo da queda do Muro Retrocesso: contemplação do futuro. Progresso: consagração dos mitômanos Retrocesso: desmistificação dos consagrados Progresso: anomia. Retrocesso: estabilidade Progresso: jogo viciado Retrocesso: regras transparentes Progresso: apesar de você. Retrocesso: amanhã há de ser. Progresso: eleição vitalícia irreversível Retrocesso: impeachment!

Poesia de transição (Estadão)

Poesia de transição

Paulo Rosenbaum

09 janeiro 2016 | 09:50

 

“Ao enxergar tua dispersão, uni-me.”, foi o que escrevi para Fernando Pessoa. O título do livro de Mario Sá Carneiro “Dispersão” antecipou a evidência. O estado das coisas nos varre afora. As versões vivem dos simulacros. O momento nos aflige, e, a distração, é quem colide com a objetividade. A perspectiva, substituída por um horizonte nodoso. É preciso dizer que não é auspicioso viver num lugar como esse. O sub-pensamento lidera as pesquisas de opinião. O lugar onde a tirania emula condescendência. E onde o alinhamento automático substituiu a critica. No reino imune dos sindicatos a República perde seus dentes. Estamos num jogo que já terminou. Facínoras construíram a inimputabilidade eterna. Nossa única esperança é a criatividade, a recusa sistemática, a ironia aguda. O sujeito que sobrevive ao que o preside. É o que restou de uma democracia em andrajos? Querem metáforas? Vazar, lambuzar, melar. É o que mais se ouve. Cada uma delas também tem seus desdobramentos simpáticos. Vazar: evasão, invasão, evasivo. Além disso, o escape. O escape através do qual saímos do Estado infantil para um destino incerto. Lambuzar pode ser o fim da língua a deriva. O término do sugador. O dever não é com todos. Que seja ucraniano, paraguaio, ou português. O importante é subir até a cerca. Sair da fronteira hostil. E enxerga-la é, já, ultrapassa-la. Ali reencontraremos a leveza da vida privada. A emancipação do peso que nunca foi nosso. Que os eleitores se enganem. Que os atores se desengajem. Que os subsídios sequem. Que os milhões sejam unidade. Que os deslumbrados se observem. Que os cantores, ouçam. Que os diretores sejam regidos. Que a inversão se consolide por um dia. Por dentro e por fora. Que a vida esteja em desenlace. Que a liberdade transforme os ossos. Que o tronco migre à folha. Que os heróis sumam. Que os acordes ressurjam. Que a poesia de transição substitua-os.

Sobre a resistência da laje (Estadão)

Sobre a resistência da laje

Paulo Rosenbaum

13 janeiro 2016 | 13:27

 

Leio colunistas que torcem a pena para encaixar suas teses sobre o problema da militância deste governo contra a política de outras nações. Por mais objeções que alguém tenha à política interna de Israel fica patente a particular má vontade com que esta Nação é tratada por este governo. Claro que nada disso indulta a reatividade imatura da chancelaria israelense, a qual, sempre que pode, morde a isca. Mesmo porque, quando se trata de jogo de cena é impossível competir com o partido.

E aqui o simbolismo digno de apreciação: o que os países livres representam para a perspectiva lulopetista de mundo?

É equivocado nomear a gestão de antissemita: hábeis e múltiplos dissimuladores se escondem hoje sob o manto do antissionismo de ocasião. Para um governo que prefere ditaduras de corte pseudo marxista e autocracia de aiatolás a uma democracia estável, ninguém pode se espantar quando criam indisposições artificiais por diferenças ideológicas com outros países.

O problema central do lulopetismo e de seus apoiadores portanto, é com a liberdade de expressão. E não se pode mais considerar só oportunista o endosso tácito dos intelectuais orgânicos do partido a esta e outras celeumas menores, quase todas destituídas de fatos relevantes.

O fato é que as manobras diversionistas protagonizadas pela atual gestão federal para sair das cordas, atingiram proporções esotéricas. Precisamos ser intransigência quando se trata de tentativas de adulterar as regras em pleno andamento da partida. Pois é exatamente isso que o Partido, simulando legalidade, vem fazendo não só com os dispositivos constitucionais, mas com o uso ilimitado de recursos públicos. Penaliza o contribuinte para cooptar o apoio cada vez mais escasso. Há quem finja não entender que as coisas caminham assim. O abuso e a manipulação com que o executivo vem operando para inabilitar, limitar, de qualquer forma engessar os outros poderes, ferem muito mais do que as normas operativas com o qual a República conta para não arrastada a um novo ciclo autocratico.

É preciso eliminar os meios termos quando se deseja esclarecer aos cidadãos o que se passa numa República temerária. Neste sentido, é que parece ser vital explicitar a fusão entre o sistema e todas as forças que o apoiam, contra os interesses da sociedade civil. Só assim estaremos preparados para que os sinais não sejam tomados como carapaças e as tergiversações de praxe, como carapuças.

Cabe recapitular que a democracia não é apenas um conjunto de normas fixas, baseadas nas escolhas que sufragam nomes em eleições periódicas e sucessivas. O jogo democrático envolve regulações suplementares, sutis, baseadas no bem comum, direitos e deveres das minorias, mediados por acordos intersubjetivos. A transgressão desses dispositivos, coincide com a linha demarcatória entre Estado democrático de direito e outros regimes autoritários de governo.

É sob essa sobrevida selvagem diária, que este governo, desaprovado pela maior parte da sociedade, finge ignorar o próprio estrangulamento.

As pessoas apenas se enganam quanto a provável origem do desmantelamento. Como toda jovem democracia que não se mobilizou preventivamente contra os agentes da perpetuação, a eficaz blindagem que construíram, já atingiu algum grau de irreversibilidade.

Portanto, é razoável especular: de qual horizonte surgiria o defenestramento do mal feito organizado, que, por enquanto, nos administra?

Não virá de Curitiba. Nem das instituições. Muito menos da molecada remunerada que depreda sob demanda. Mesmo que a somatória dos fatores acima possa pressionar o resultado final, quem costuma dar desfecho para uma insustentabilidade política dessa envergadura é um outro fenomeno: autofagia.

O poder, fragmentado por contradições, disputas narcisistas, contravenções pecuniárias, e sobretudo preservação de pescoços, se dividirá progressivamente.

Isso, até que os últimos em condições viáveis despachem os demais. É então, que estes mesmos, num penúltimo ato e sem conflitos existenciais, costumam se arremessar sobre o telhado.

Nosso problema é saber se a laje resiste.

PS- Churrasco só amanhã.

Política não se discute (Estadão)

Política não se discute.

Paulo Rosenbaum

20 janeiro 2016 | 13:13

Não_se_discuteX_

Bom dia, para onde vamos?

Bom dia, toca lá para o centro por favor.

Tem um caminho da sua preferência?

Marginal, a faixa do centro está sempre livre!

Isso ai não posso discutir.

Perdão?

O senhor falou de marginal, faixa do centro livre.

Exato!

Prefeito proibiu assuntos polêmicos.

Que?

Não podemos dar trela para os assuntos políticos.

O Sr. esta bem? Estou falando de transito!

Começa assim, depois ninguém sabe onde vai parar

Céus!

Religião também não pode.

Isso é piada.

Humor pode!

Filho, dirija, prometo que fico em silêncio.

O Sr. é fiscal?

Fiscal?

Dizem que colocaram espiões.

(Sussurra e faz mímica indicando ausculta no veiculo)

Chegamos a isso!

O Sr. me desculpe! Olha aqui.

O que é isso?

O cardápio de assuntos permitidos.

Cardápio?

Desses podemos falar, escolha um.

(murmúrios inespecíficos)

Então este aqui. (suspiros) Já ouviu falar do “Os Lusíadas”?

Literatura? Infelizmente não entendo nada.

Então este aqui!

Bom. Esse é a melhor coisa para fugir desses políticos.

Receita de bolo?

Receita de bolo!

Working class hero : e agora Luiz? (Estadão)

Working class hero: e agora Luiz?

Paulo Rosenbaum

04 março 2016 | 13:51

“Working class hero is something to be”

John Lennon

E agora Luiz? Você estava tranquilo. Nós não. Continuamos apreensivos. Volte aqui e converse. Também discordo. O momento não é de comemoração. Nesse momento, o trágico tem mais vigor que a esperança. Por favor, pode responder? Quem é herói da classe trabalhadora? Você? Lech Walesa? Não há nada muito claro? Por isso mesmo pergunto, suas prerrogativas são infalíveis? Nem heróis estão acima da lei. Talvez nem mesmo existam heróis. E mesmo que algum sobrevivesse, você poderia ter sido banido. Talvez um detalhe te interesse. Heróis são menos lembrados do que vilões. Você já parou para considerar? Não, de jeito nenhum, não é tarde, nunca foi tarde. Ninguém está te pedindo para voltar a ser o que o seu marketing ou os carismáticos te assopraram durante todos esses anos. Por um segundo pense nas pessoas traídas. Ou, quem sabe, mude o foco: observe quem está sofrendo mais. Não, não são só teus ex eleitores. Eu sei, eu sei, é só ligar a TV. De fato, ainda existem aqueles que te defendem. Isso, com unhas e dentes. Pense como o símbolo que você já foi.  Uma parte sua, essa do símbolo, poderia estar a salvo, preservada. Não, não tem nada a ver com delação. Qual? Aquela que um homem simples, desculpe, tem razão, não se pode reduzir a isso. Correto. Um trabalhador. Então prossigo. Um trabalhador ter conquistado tanto apoio e estimulado o orgulho de milhões de outros. Messias do povo? Não, isso sempre foi exagero. E por sinal o Sr. não revolucionou nada. Poderia ter feito, mas não fez. Assim admito, a expressão “promovido algum bem” soa mais modesta. Sim, e por que não? Reconheço, é claro. Mas entenda, não é mais suficiente. Sua trajetória foi tortuosa, e, além disso, sua atitude Sr., contribuiu para nos levar a isso. O Sr., com a ajuda do seu partido nos forçou a uma inédita degradação. Não se trata dessa crise econômica. Por favor, agora estamos só nos dois. Não é externa, nem rápida. Passageira? Também não. O que preciso confessar é que ninguém queria a decadência. Ninguém queria mesmo é que a polícia e o judiciário ditassem os rumos. Certo? A oposição também precisa levar um pito. Vai levar. Qual seria então a degradação? Na cultura, nos costumes, no enaltecimento da ignorância. No País mais superficial e melancólico. O Sr. merece do bom e do melhor? Quem não merece? Engano seu. Não é moralismo burguês. Isso se chama “desejo de civilização” e não, nem adianta consultar o advogado. Sabe por que não está no código penal? Porque este é um desejo do espírito. Isso é mais uma evidencia do seu costume de desviar. Não está vendo nada de errado em ter recebido tanto em troca? Isso seria até perdoável. O que não seria? Romper a democracia e coagir o Estado. Perdão, isso não tem desculpa. Sua postura, caro, nos custou muito mais do que o saque da Petrobrás, do BNDES e dos fundos de pensão, que podem falir ou ser saneados. Prezado, entenda o seguinte: culto a personalidade costuma não dar certo. Sua ambição em ser maior do que o República nos custou a fragmentação da nação. Não, nem pensar, não vou parar agora. Os lados estão preparados, assim como o ambiente: a mini guerra civil agenciada dos devotos contra a convicção maniqueísta do outro. De que lado estou? De nenhum, ou melhor do lado de um outro tipo de Estado e de um outro padrão de democracia. Seu assessor concordou em irmos até o fim. Adaptar-se é uma coisa, apologia do crime outra. Seus porta-vozes, aquelas pessoas que, desesperadas, se sentiram na orfandade com seu exemplo? Sim, então por que no lugar de virar a mesa o Sr. não pensa por um minuto na República?

Ela sangra, mas por enquanto o torniquete bem aplicado resolve.

Ainda dá tempo. Ainda dá. Ainda.