A inconcebível Jerusalém (Estadão)

                                                                      Paulo Rosenbaum

07 Dezembro 2017 | 09h52

(…)vi a circulação de meu escuro sangue, vi a engrenagem do amor e a modificação da morte, vi o Aleph, de todos os pontos, vi no Aleph a terra, e na terra outra vez o Aleph, e no Aleph a terra, vi meu rosto e minhas vísceras, vi teu rosto e senti vertigem e chorei, porque meus olhos haviam visto esse objeto secreto e conjetura) cujo nome usurpam os homens, mas que nenhum homem olhou: o inconcebível universo”

Jorge Luis Borges, O Aleph

Tradução Flávio José Cardozo

 

Não se trata de profecia, nem das miríades de referencias que citam a cidade. E não é só que ela não pode ser monopolizada, seria impossível faze-lo. Destarte é a capital, a Capital de Israel. Cidade Capital para a fronteira das culturas. Hoje um pertencimento foi reconhecido. Não se trata de fulanizar, tanto faz se foi esse Donald ou um outro. É o ato político que se revela interessante. Independentemente do estatuto político, Jerusalém, sempre foi um porto de significados. E para além dos simbolismos atribuídos, ela é, no imaginário dos povos, um dos centros do mundo. O que importa portanto não é a mudança de embaixada, não são as trincheiras, mas observar a convivência entre as tribos. Como morada de pontos múltiplos foi fundada sobre uma pedra. E se sua paz não é feita de pedaços, nem suas muralhas construídas por sedimentos, seu ponto sagrado não se reduz aos últimos vestígios do Templo, no Muro ou no Domo. Todo núcleo está em seus habitantes.

Jerusalém, o ponto mais conflagrado da história humana transcende seus traçados arqueológicos. Jerusalém urbe, contém a vitalidade de um ponto entre todos os pontos, e, como no Aleph de Borges acumula os mundos que ainda não estão descritos. É preciso ter a experiência, vivência e o tato empírico para poder opinar. Não é preciso acreditar, quem caminhar entre suas pedras constata. Suas inflexões são judaicas, mas também drusas, armênias, muçulmanas, cristãs, beduínas e etíopes. Difícil ver um espalhamento tão amplo, uma difusão tão díspar, uma incoerência tão organizada.  Jerusalém é um parque sem homogeneidades. Nunca a cidadania teve um viés tão naturalmente cosmopolita. Um retrato das subdivisões e das uniões instáveis. Um instantâneo eterno de guerra e paz, e principalmente, paradoxo a céu aberto.

E mesmo que não tivessem a amplitude que insistimos em atribuir a ela, sua autodeterminação como território antecede conflitos, colonizações e invasões. Jerusalém, a cidade mais destruída e reconstruída da cartografia, foi também a inspiração da poesia de Isaías e Ezequiel, Torquato Tasso e Willian Blake.

Ao contrário dos alardeamentos jornalísticos das agencias internacionais não será Jerusalém reconhecida como capital a barreira à paz. Ela a personifica. Modular o convívio e superar o vício da disputa é deixar-se levar, através das moradas e dos encontros. Seculares e religiosos, árabes ou judeus, cientistas e místicos, ímpios ou santos. A legislação é passageira, a vida que circula nas ruas, definitiva. Pois quem vive ali?

Não são os capacetes azuis da ONU, os diplomatas, ou os adidos militares. A literatura e a história ali concentrada transcende Washington e Moscou. E, infelizmente, compromissos, culpas e desafios pecuniários ainda não permitiram que se conceba os direitos de Israel a não ser com salvaguardas imorais.

Do ponto de vista estético, nada se compara em densidade e variedades cromáticas.

Quem frequentou seus mercados e testemunhou seu trafego caótico?

Em meio à omissão geral e o silêncio dos jornais a intolerância que cresce contra as minorias pode encontrar respostas mais criativas do que preservar um status quo que já se revelou moribundo. A mudança de uma embaixada tem valor para além do simbólico. Trata-se, antes, de uma exortação para vislumbrar a saída. Conteste-se, mas admita-se: é a renovação que saúda a novidade. Um lance que força a resolução do impasse. O estatuto final da cidade poderá ser sempre incerto, mas ela, a cidade, decerto, nos sobreviverá. A decisão autocrática não é mágica, apenas move uma peça do tabuleiro viciado, bem melhor do que esperar que os dados resolvam dar as caras.

O senso comum da envelhecida diplomacia ainda não percebeu. De todos ou de ninguém ela só deve ser cuidada por quem enaltece o acúmulo de culturas.  Quiçá os homens consigam sentir o Aleph e, para além das ruínas, enxergar o extraordinário universo da cidade fincada entre Ocidente e o Oriente, a inconcebível Jerusalém.

Contra a Neutralidade (Estadão)

Contra a Neutralidade

As vezes, mesmo o justo pode ser trágico. Além de veêmencia a intolerância contra intolerantes precisaria ser normativa. Esqueçam que há, na vizinhança, um País regido por um tirano, que os continentes tornaram-se pródigos em editar regimes de inspiração totalitária, esqueçam até quem financiou e manteve abastecido o sistema político opressor, que os antissemitas encontraram o escoamento ideal no jihadismo político, que as instituições operam como corporações, mas nunca se esqueçam daqueles que sabem e escolheram silenciar.

A omissão é o braço armado do maniqueísmo.

Aqueles que estão no front jamais imaginam o que os antecedeu na luta pela civilização, agem como se não houvesse tempo. Ou como eles a resumissem. É sempre assim. O marco zero, o nunca antes, os inauguradores da história. Portanto, com tantos precursores sem passado, o renascimento da intolerância não é surpresa, nem fruto do acaso. Sua plantação foi fertilizada por boatos sistemáticos, manipulações estratégicas, regada pelo suave gradualismo da neutralidade.

Isso significa que a humanidade sempre cedeu às pressões do injusto. Atendeu às circunstâncias da conveniência. Mas, se houvesse apenas um, decerto este não seria o principal foco do desalento. A verdadeira ironia é  não termos ainda compreendido que o expectador, aliciado, tornou-se conivente. Que o limite do argumento está na concessão exagerada, na civilidade excessiva, no suporte silencioso ao inadmissível. Ou, como antípoda, propagandeando slogans inverossímeis.Teses de ludopatas ideológicos que sempre buscam o “quase acerto” mimetizando a utopia . Talvez não haja solução, e, se houvesse, obedeceria outro sistema de notação. Buscaria outra origem dialógica.

Aceitar que há um destino é resignação, submter-se é renunciar às idiossincrasias. Não há heroísmo em encampar jogo de regras mutantes. Tampouco há mérito em saber respeita-las como se realmente fizessem sentido para o mundo prático. A paciência ainda seria uma virtude caso renunciasse à instrumentalização movida por paixões.

A seletividade parece ser essa norma instável que aceitamos instalar na cultura. Nas redes e na mídia ela filtra causas, delimita o foco da consciência, busca, com a desculpa da catarse anonima, expiar a indignação. Esvaziar o sujeito para inseri-lo no contexto da invisibilidade. A estratégia porfim impregna-se nas comunicações, infiltra-se na linguagem, e, determinada, ascende às palavras. Ninguém mais se assusta com a passividade, com a legião de cordatos que subscrevem o insuportável. Por inércia, descaso ou parceria à revelia, o essencial desaparece do horizonte, afogado, combalido, já submersso ao largo do continente.

Até que, enfim, corroi-se a justiça.

Eis a tragédia: a capacidade de expressão ameaça sumir no fluxo das dispersões e simultaneidades irrelevantes. No cotidiano automático que pulveriza o entusiasmo. Mesmo inaptos para a selva,  herdamos sua violência, aceitando suas imposições,  vivemos pela instintividade anacrônica.

E, assim, por aproximações sucessivas e inconcebíveis concessões empurramos as decisões até que a imposição de acordos e uma perigosa tolerância infinita substitua a paz.

Insurgir-se contra a neutralidade é, ao mesmo tempo, depurar o veneno do mal estar contemporâneo e aceitar o único grande risco que ainda faz sentido: anular a neutralidade e assumir-se.

Hahnemann, humorismo e a ética da razão (Estadão)

Hahnemann, humorismo e a ética da razão

 O prestigiado jornalista Sérgio Augusto trouxe importante informação em sua recente coluna no Caderno Aliás. Evocando os verbetes de um peculiar dicionário imaginário, trouxe, entre tantos tópicos, aquele que me levou a formular o atual artigo.

Ali escreveu: “Homeopata: o humorista da medicina”.  A graça está na brincadeira com a palavra “humor”. Se pensarmos humorista como aquele que conhece bem a antiga terminologia dos “quatro humores” descritos pelo pai da medicina técnica, Hipócrates, ele acertou. Ainda hoje, o aspecto das constituições e temperamentos em medicina pode ter um papel relevante. Um exemplo disso é que a medicina caminha para uma prescrição cada vez mais individualizada — como preconizada pelo médico alemão e fundador da homeopatia Samuel Hahnemann 1755-1843).

Também faz sentido se pensarmos em outro aspecto do verbete: que através do senso de humor os médicos que a praticam podem funcionar como uma espécie de superego auxiliar da prática médica. Isso porque cresce pelo mundo a ideia de slow-medecine, (ou medicina com timing) a saber, uma prática que tenta ser mais cuidadosa e menos intervencionista no manejo terapêutico. Isso significa menor grau de “overdiagnosis” ou em tradução livre “superdiagnosticos”, os quais, não infrequentemente, conduzem à práticas e tratamentos invasivos desnecessários, ou, que fazem os pacientes sofrerem riscos aos quais eles não necessariamente precisariam ser submetidos. Considerando que a epidemiologia clínica consiste em colocar numa balança, de um lado o que protege, e, de outro, o que expõe o paciente aos riscos, essa conduta  pode ser a mais racional e adequada para os nossos dias.

Entao, de fato, o jornalista produziu, decerto involuntariamente, um elogio, e ainda prestou uma justa homenagem a  uma especialidade médica reconhecida pelo CFM e usada por milhões de brasileiros e por pelo menos 180 milhões de europeus.

O Prof. Walter E. Maffei, médico neuropatologista e um dos mais eruditos professores de Medicina —cuja docência na PUC e na Santa Casa ajudou a formar gerações de médicos criticos —  ilustrava uma de suas aulas projetando imagens de gatos e afirmando que aqueles que tinham a discrasia alérgica despertada por alguma idiossincrasia poderiam apresenta-las apenas com a “lembrança”desta experiência. Era e é um fato empiricamente constatável para quem quiser reproduzir o experimento que evidencia as relações óbvias porém pouco compreendidas entre as interações mente-corpo.

Ampliando um pouco a abordagem, evoco este aspecto acima diante do excesso de polêmica acerca das práticas integrativas. Às vezes, as pessoas perguntam, diante de sua eficácia e abrangência clinica, especialmente na atenção primária à saúde e no prevenção e tratamento das moléstias crônicas, como se explica que algumas práticas médicas como por exemplo a medicina tradicional chinesa, a medicina Kampô (Medicina japonesa) e a homeopatia nunca tenham se universalizado como formas de atendimento?

Teríamos que lançar mão de uma análise multifatorial. Mas o primeiro e mais importante é a dificuldade para estabelecer núcleos de pesquisa independentes. Sem eles, todo avanço farmacotécnico em medicina fica sujeito à lógica exclusiva dos interesses — e dividendos — ditados pela indústria farmacêutica e seus braços corporativos. Pode parecer, mas esta não é uma tese conspiratória, apenas constatação de fatos que vem se avolumando nas últimas décadas.

E por que a indústria não investiria em um ramo tão promissor e potencialmente lucrativo?

Porque as substâncias medicinais homeopáticas são um bem público, isto é, um conjunto de medicamentos e procedimentos que constituem um patrimônio da humanidade. Isto é, não incidem royalties ou patentes sobre nenhuma substância usada nestes fármacos. Ouso também afirmar que, somadas a estas dificuldades, existe um outro entrave. Trata-se da natureza de uma parte do establishment que defende as integrativas e que se comporta como agremiação futebolística no qual o antagonista é a Big Pharma. O mesmo acontece com aqueles que sempre as atacam com argumentos evasivos “demonstrando”cabalmente sua “ineficiência” ou no fragilíssimo jargão de “ falta de ética.” Trata-se da mesma é repetitiva qualidade de objeção que se faz, por exemplo, à psicanálise.

A compreensível atitude defensiva das práticas integrativas contra as acusações de ineficácia é causa e consequência da relutância em fazer a autocrítica necessária para apontar onde e quando podem atuar, identificando assim suas deficiências e limitações. Para a medicina de inspiração vitalista — cuja tradição remonta à medicina hipocrática — não se pode falar em resultado clinico no singular, mas em ações amplas da terapêutica.

Tanto as correntes que equivocadamente brigam contra o mainframe da ciência, como aquelas que querem uma adaptação absoluta a ponto de abrir mão de seus critérios característicos, se equivocam. Se por um lado ela se apresenta como uma outra lógica médica, de outro, ela precisa assimilar-se à cultura científica corrente se quiser ser levada a sério. Isso significa que a medicina integrativa acaba falhando, pois não consegue nem mudar a chave, nem se fazer entender pela linguagem contemporânea. O erro fundamental está numa recusa inconsciente destas correntes e de seus antípodas  — tanto as que querem se manter como uma casta independente da medicina contemporânea como as que querem se fazer pertencer não importa o sacrifício epistemológico que teriam que fazer — em aceitar que de uma forma ou de outra a única saída para que uma tese seja aceita nas sociedades modernas é sua penetração na cultura através da pesquisa e da discussão. Com a ressalva de que nem toda prática integrativa  apresente legítima consistência para se tornar uma atividade fornecida pelo Estado.

Somente essa distinção epertencimento à cultura garantiria a permanência de uma formulação sofisticada como é a proposta de uma terapêutica pautada, no caso da homeopatia, por exemplo, que usa o princípio dos semelhantes. Aliás o mesmíssimo  princípio usado pela lógica das vacinas para imunizar a populaçao.

Sofisticada, porque pretende inclusive discutir critérios que pouco se discute como, por exemplo, critérios de cura. Uma das mais importante, e, ao mesmo tempo, a mais negligenciada das questões epistemológicas em medicina. Notem que hoje já existem núcleos de pesquisa na medicina que discutem a validade dos protocolos, o cálculo de risco para alguns procedimentos terapêuticos e principalmente o já evocado superdiagnóstico[1].

A homeopatia deve ser apresentada não como uma alternativa com todas suas conotações contra-culturais, mas como um processo que dialoga com a ciência naturais, e, ao mesmo tempo, coloca a necessidade de uma medicina do sujeito descolada da psicanálise, e no centro da discussão das ciências humanas.

Curioso ou apenas idiossincrático que valorizo Samuel Hahnemann mais como filósofo da medicina do que metodólogo da ciência. Isso porque acho que a medicina do sujeito não é um detalhe técnico, mas a base de sua concepção antropológica, a qual, por sinal, adotava uma generosa admissibilidade da diversidade dos homens. Assim ele suprimia, ao mesmo tempo, tanto o caráter moral maniqueísta da visão penitencial do adoecimento, como a redução do corpo ao instrumento objetal que a medicina acabou adotando com uma normatividade perturbadora. É provável que ele desse muitas gargalhadas de tantas teorias a respeito dele e de suas ideias. Talvez devêssemos rir com ele e nos declarar impedidos para fazer afirmações definitivas sobre os misteriosos caminhos da cura. Seria um bom presente de aniversário para quem um dia declarou: “a vida é um clarão”.

[1] Overdiagnose – o superdiagnóstico caracteriza-se em valorizar excessivamente os exames subsidiários e atribuir importância excessiva a distúrbios que talvez não merecessem tratamento, pois seriam patologias inofensivas ou “amigáveis” ou que o custo orgânico e psiquico são demasiadamente elevados para os pacientes.

A penúltima volta do Torniquete (Estadão)

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Um adulto e uma criança brincavam juntos à beira mar.

A areia molhada de praia foi pingando e se acumulando no topo de um castelo pacientemente erguido grão a grão.

O filho perguntou ao pai:

— Ele vai desmoronar?

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Quem sabe quando a opinião pública se fizer ouvir? Quando saírem do mundo virtual e filiarem-se às ruas? Ou quando entrarmos em alienação? Não uma qualquer, refiro-me à catatonia aguda. Uma que nos impeça de considerar atos ilícitos como naturais. Quem sabe um anestésico indolor que não nos faça enxergar o que acontece com os outros? No País da hermenêutica fácil, qualquer um fala com propriedade nas plenárias. Ou, quem sabe ocorre algum milagre monocrático de final de ano? O Congresso também pode reunir-se em sessões suplementares sem jetons para ler, em jograis, a Magna Carta? E então aprender a lição do Rei John, que em 1215, teceu sua ode civilizatória. Segundo o Rei bretão igualdade perante a lei não é, nunca foi, metáfora poética. É o fundamento do legislador.

Quem sabe considerar que não faz sentido o Estado de Direito transformar-se no interminável Estado de Deveres? Que os escravos da joint venture Estado & funcionários é que merecem o descanso sabático, a desoneração, e o direito de voltar para casa vivos? Que os partidos deixaram de fazer parte do metabolismo dos cidadãos para virar corpos estranhos. Que há uma diferença fundamental entre patriotas e nacionalistas? Entre os indignados por justiça e os coléricos contra ela? Que os juízes, em seus leitos de morte, também terão suas consciências devassadas? Que os confiscadores serão, eles também, confiscados?  Que quem aceita urnas inauditáveis será obrigado a aceitar candidatos idem?  Que a vida de um País não pode ser interrompida por sucessões de manchetes enganosas? Que as manchetes enganosas não refletem o estado de espírito de quem precisa de informações verdadeiras. Que exceder funções é assinar um procurador geral em branco.  Que não há mais quem acredite em justiça estratégica. De que as epifanias de Brasília não são as nossas. De que a relativização levada ao paroxismo gerou para além das fake news, um fake world. Novas que se sucedem pagas com dinheiro que já foi público. E não há nenhuma solução que seja ao mesmo tempo rápida e indolor. Que bandidos enraizaram sua moral por todas as plantações? E não queriam colher trigo. Nunca pensaram em gerar sementes saudáveis. Qualquer erva daninha dava voto, então por que a preocupação? O desejo por veneno é tão presente que os antídotos nem sequer estão sendo considerados.

O vislumbre e a expectativa de muitos é regredir a um Proto País, policialesco e intolerante. Por outro lado, a justiça passou por todas as provações e quem dirá, hoje, que nela se pode confiar? O atual status quo não tem nada de espontâneo. Foi elaborado como plano C. Este jornal, por exemplo, no seio da ficção das garantias constitucionais que se chama “liberdade de expressão’ encontra-se censurado há 3.000 dias. A solução? Para não consentir usar a palavra “censura”recorreu-se à tarda decisão. Sob o manto de pedidos de golpe de vista. Só eu me comovo quando a linguagem eclipsa a distorção? E referenda o que o consenso de magistrados e cúpulas decidiu que não pode ser dito? Que um terrorista não atende por outros nomes a não ser inimigo público da humanidade? Há uma guerra que, espremida dentro dos bastidores, faz vazar o mal feito e agora tinge a sociedade com desonras e confusão.

O torniquete está em sua penúltima volta, e o sangue pode parar de fluir a qualquer momento. As cidades estão pálidas, perdendo vitalidade para assassinos imunes. Sob gritos de socorro os cidadãos secam sob as duas mais violentas máquinas de tortura: descaso e impunidade. O establishment fez sua escolha: o indefensável está solto e em plena campanha. Promete que ele e sua casta serão preservados junto com a garantia de foro para manter o patrimônio conquistado com o suor da  dilapidação do erário. E quem tolhe o populista que oprime? Quem interdita a omissão dos poderes?  Pseudo heróis afirmam que o crime não é tudo: depende muito mais de quem o comete.  O disparate é popular. A compaixão, seletiva.  O abuso, consumado e bem divulgado nas redes. A tiragem dos jornais lacrada pelos interesses. Fábricas de intenção de voto. Pesquisas direcionadas patrocinam o aumento da aprovação enquanto a lei eleitoral vive de recesso. O gesso expande-se contra a liberdade. Os jornalistas esmagados pelos patrocinadores.

Mas, calma leitor.

Talvez este não seja o fim da história como certa vez quis o acadêmico de Harvard, desmentido e reprovado a golpes do imprognosticável quando as torres vieram ao chão. Podemos desmentir tudo, por um único motivo: o imprevisível faz suas visitas regularmente. Revoluciona sem alarde, com a mais implacável simplicidade.  Como o médico que chega e, sem se intimidar com a pressão por medidas drásticas, apenas abre as janelas para arejar o quarto sufocante. Existem portões que são escancarados por ventos oblíquos, marés que transtornam encouraçados e gente com potencial para chacoalhar uma sociedade letárgica.

Salvar uma jovem democracia da morte súbita requer o Estadista que ainda não apareceu. Não será fácil, e decerto será longo, mas, às vezes, basta um caso. Um único caso tem potencial para remover qualquer paradigma (ou candidato) apodrecido na  linha da história. O trilho está colocado, os vagões posicionados. Mesmo sem maquinista a história costuma dirigir rápido e seus efeitos são mais efetivos que os discursos sobre ela. Em meio às instituições obsoletas guiadas pelo corporativismo, a entropia se acelera. Se vai ser locomotiva, trem bala, Maria Fumaça, ou apenas o colapso em todas as estações ninguém pode prever.

Por hora só há uma certeza, na disciplina engenharia de materiais existe um ponto crítico de desabamento, desencadeado por qualquer grão extra: é assim que, no percurso do tempo, muitos castelos não pararam em pé.

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— Filho, viu? Acaba de desmoronar.

— Então de que adianta fazer se vai cair?

— Porque é assim mesmo, precisamos continuar.

Hesitante, o menino levanta e medita por alguns instantes antes de responder:

— Podemos começar outro?

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/a-penultima-volta-do-torniquete/

Diatribes contra a distorção como sistema filosófico (Estadão)

A verdade é que não há uma pós verdade, assim como não existe uma má filosofia. Existem filosofias bem estruturadas, abrangentes, limitadas, algumas incompreensíveis ou de baixa consistência. Mas já se poder dizer que aquilo que os defensores do ex presidente às vésperas de uma condenação, fazem defende-lo — todos, sem nenhuma exceção — já pode está constituído como um sistema filosófico. Poderíamos chama-lo de muitos nomes, mas o mais adequado seria enquadra-lo na categoria distorção.

O distorcionismo como sistema filosófico consiste na desqualificação sistemática de todos os argumentos da racionalidade vigente e substitui-los por um misto de teorias conspiratórias, culto à personalidade e apego messiânico. Outro item que não pode faltar ao método é manter sempre por perto um arsenal de pedras contra qualquer um que se insurja contra a ideologia da distorção. A técnica da distorção também inclui acusar o mundo de hostilidades e ódio, mas é quem mais protagoniza vingança e dissemina litigância.  É claro que não deixa de causar curiosidade qual tipo de mente é ainda hoje susceptível  à influência e submissão de um líder com as características do ex presidente Lula, hoje visivelmente perturbado e já tendo incorporado a missão de salvador. Salvador de todos aqueles que exerceram conjuntamente o mal feito.

O distorcionismo contumaz tem como principio fundante a ideia de que se o seu argumento não for coincidente com o do seu oponente ele será vandalizado, desconstruído e boicotado. Especialmente nos meios em que existe o prevalece o controle tácito de filósofos militantes ou sindicalistas subsidiados. Há muito tempo a questão central deixou de ser a corrupção — tudo somado até aqui e sem incluir a caixa preta do BNDES, cerca de um trilhão — assim como a ética na política, outrora o principal slogan do partido. Partido que aliás relativizou de tal modo o aforismo, que construiu um verdadeiro universo hermenêutico paralelo com auxilio de magistrados com notório talento, para o legislativo.

Neste mundo especial e bizarro no qual o petismo tenta subsistir incólume, não foi doloroso nem difícil a associação natural, quase inercial,  às forças e pessoas que constituam o que tinha de mais atrasado no País. Isso foi feito para logo depois acusar os demais de conservadores decrépitos. Outro recurso muito utilizado é a ideia de que a prevaricação para acumulo pessoal é muito mais grave do que a o desvio de função do Estado. Idéia marota que parece ter colado em parte da mídia, mas senhores, deveria ser auto evidente que a pilhagem da República para perverter a democracia é uma transgressão da ordem da traição, a outra a dos punguistas de praxe.

Recuso-me a chama-los todos estúpidos, pois há gente inteligente e culta entre aqueles que ainda suspiram ao ouvir o nome do líder.  Também refuto a tese de que existiria uma doença mental de base neuropsiquiátrica para aqueles que defendem e justificam todos esses anos nos quais fomos conduzidos por postes acéfalos.  Muitos analistas, perplexos, desistiram de encontrar uma solução lógica para o fenômeno. Entretanto, advogo outra explicação.

Precisamos aceitar que a raiz filosófica da distorção como método filosófico é de base afetiva. O apego, a paixão por defender por tanto tempo um projeto suicida e não republicano, a falta de critica e de autocritica, são elementos que denotam e reforçam essa hipótese. Mas, talvez a essência do projeto que ludibriou milhões por tanto tempo esteja exatamente em um fenômeno conhecido chamado de ‘quase acerto’. Explico através do flagelo que é o vício em jogos.

O que atrai o viciado em jogos de azar é a perspectiva errônea de que ao final da rodada na roleta ele sairá vencedor, pois “quase deu certo”.  Quem estuda o tema — há um ambulatórios especializados para estas pessoas — já sabe que que a ilusão não é a de ganhar, mas de “quase ganhar”. É esta sensação de “quase acerto” que parece disparar o impulso de excitação neuro sensorial destas pessoas a se lançarem em novas apostas. Não importa quantos salários foram comprometidos, quantas jóias, casas penhoradas e patrimônios o sujeito já tenha deixado na mão dos donos destes cassinos. É, portanto, a ilusão, mas disfarçada de “esperança “, “fome zero” ou ‘país sem pobreza” que  estaria na raiz na defesa apaixonada e violenta dos projetos fracassados.

Pode dar errado milhões de vezes mas isso não tem a menor importância, os aditos costumam ser crentes resilientes. O desejo de acreditar é, portanto, muito maior do que as experiências empíricas que já cansaram de evidenciar a bancarrota.

Outro ponto caro ao distorcionismo é a cegueira seletiva. Ainda que toda sua vizinhança esteja desempregada é mais do que provável que isso possa ser  atribuído a algum fator circunstancial, de responsabilidade exógena, gerado por uma crise externa, o asteroide destruidor que se aproxima ou o desmatamento do Saara.  Desvios trilionários seriam obras tão ancestrais que ninguém poderia rastreá-los, portanto, ninguém deve ser acusado de nada.

Há, evidentemente, um problema de dosimetria. Recusando de pés juntos que o sequestro do Estado foi fruto de um plano ardiloso é sempre mais conveniente colocar a culpa nos demais. Horrorizados, os intelectuais orgânicos do lulupetismo recusam o que se diz nas redes sociais e apesar dos blogs clandestinos e dos ataques comprados e publicados nas revistas e jornais, acusam as redes de espalharem inverdades do senso comum.  O banner  que andou circulando por ai, “nunca tão poucos pilharam tanto de tanta gente” é dentre todos o mais odiado.

De que outro maneira justificar o comportamento de torcida sectária que apresentam? Ao abandonar a seara analítica os bem pensantes do partido caíram na armadilha, e agora apoiam abertamente demiurgos, que amanhã podem se voltar contra eles. Assim, o distorcionismo avança como um sistema de notação perverso, mas não ilógico, cuja finalidade é a conservação autocrática do poder. E caso não seja possível, o plano é impedir que outra sociedade exista, caso triunfe um modelo social que não é aquele que preconizam.

Neste funk do totalitarismo maquiado de luta social é que o discurso desta neofilosofia repousa. A democracia deveria se preocupar com o avanço de sistemas como esse? Talvez, mas se este ramo da filosofia cresceu sob a vigência dela, da democracia, só o seu aprofundamento poderia salva-la. Clamar sua destruição ou evocar histerias de ocasião não é a resposta que a maioria do povo que sonha com uma vida mais civilizada, aceita. Trata-se de um falso paradoxo explorado por quem quer também suprimi-la do outro lado com ações e respostas truculentas. Estamos então entre a zona cinzenta do populismo e o fio da navalha da opressão e já não se pode esperar que a inspiração para uma concertação geral brote nos gabinetes de Brasília.

Nem mesmo de pessoas que dominam as cúpulas das estruturas partidárias. A sociedade precisa formar um novíssimo consenso, excêntrico, de fora para dentro, à revelia do sistema. Consenso daquilo que não quer para o País. O que ela quer, caso passemos desta fase,  pode ser deixado para quando tivermos assegurado que a política deixe de lado os cassinos.

Monstros e a naturalização (Estadão)

Parece que as sociedades estão desaparecendo aos olhos dos governantes. O poder, uma vez transferido através do voto vira tabu, e uma aura de intocabilidade passa a ungir a cabeça do agraciado no pleito. Está para além da imunidade parlamentar. Segundo o juiz, criaram-se monstros, por acaso ele se referiu ao lado civilizatório da sociedade? Ou estará neutralizando através de engenhosa manipulação da linguagem, e de um inacreditável ataque direto à lava-jato, as barbáries que o petismo infligiu ao País?

O foro e tudo que implica aceita-lo é na verdade o Monstro inominável que o advogado omite. Trata-se de um sistema de autoproteção invencível, pois além de fazer as leis, ainda podem definir como e quem as interpretará. Ora, não é preciso ser minimamente sagaz para perceber que estamos diante de um absolutismo monopsista.  A Constituição federal fica assim reduzida ao tamanho desejado: um ardiloso jogo de palavras.

O professor de Cambridge acaba de vaticinar que o Brasil está sofrendo um processo de descivilizacao. A violência é o pivô da regressão. Não sei se é este o nome, mas parece que o conceito pode não ser mais ser desprezível. Cambridge, senhores. O que os gringos fora da imprensa engajada pró lulopetismo estão detectando é aqulo que a nossa cegueira não consegue admtir.  Estamos morando numa filosofia furada. E nós, todos nós, estamos apáticos com o que o poder se acostumou:  a autoperpetuação fácil, e sua naturalização .

A cadeia de eventos que os defensores da solução defintiva insistem em nos fazer crer é que os problemas do País só se resolverão em bloco. Essa versão da realidade encontra adeptos da imprensa ao alto funcionalismo público, dos políticos aos condenados em segunda instância. Sua síntese é a tese do Estado imobilista nas questões urgentíssimas como, por exemplo, algum controle sobre a selvageria que se espalha pelo Brasil.  Para eles, só se resolvem os problemas se formos a fundo em todas as questões. Esperteza filosófica, sofisma, Ingenuidade ou desonestidade intelectual? De qualquer forma esta é a grande e mais artificial das mentiras com a qual temos sido infantilmente iludidos.

Deixo aos  leitores as reflexões, mas, antes, faço um check list  do que parece insuportávelmente artificial em uma democracia representativa.

É artificial observar que os homens publicos ajam movidos exclusivamente por interesses pessoais.

É artificial que o Estado arrecade um volume de recursos assombroso sem que ninguém fiscalize o como esses recursos são utilizados.

É artificial que o sistem jurídico temha ingressado na política sem autorização da sociedade.

É artificial que os temas de segurança pública urgentes sigam obedecendo uma agenda ideológica.

É artificial ter um parlamento que submete e é submetido à extorsão, chantagem e negociatas de ocasião e se recuse a votar um projeto fundamental como a previdência.

É mais artificial ainda que não o façam por pressões de minorias com Privilégios insustentáveis e lobbies que escolheram o atraso como tática.

É artificial afirmar que as instituições estão funcionando.

É artificial explicar a descivilizacao como um processo que, ao fim e ao cabo, nos guindará à evolução.

É artificial sustentar que os intelectuais estavam cumprindo seus papéis quando avalizaram os 13 anos que corroeram o País.

É artificial divulgar que qualquer medida de saneamento da segurança e da economia deve ser
Criticada por não ter a abrangência universal.

É artificial a aceitação passiva de urnas que não podem ser auditadas.

É artificial que as pesquisas eleitorais não tenham auditoria permanente.

É artificial concluir que nosso futuro esteja nos teclados dos programadores de I.A.

 

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Heráclito e a opacidade da justiça (Estadão)

Heráclito e a opacidade da justiça

“o povo deve bater-se em defesa da lei, como se bate em defesa das muralhas”

Heráclito de Éfeso (séc VI-V A.E.C – fragmento 44)

Opaco – acampto, adiáfano, impérveo à luz, sombrio, turvo, escuro, nublado, fúmeo, fuliginoso, nubífero.

Entraram no mesmo rio diversas vezes, mas, desta vez, contrariando o filósofo, saíram como entraram, iguaizinhos. A defesa do poder para que o poder prossiga, incólume, com o endosso dessa escolta. Para estar completa, a legalidade precisa estar acompanhada de legitimidade. E, tal completude só se (re)conhece pelo exemplo. Pela experiência. O único check in que interessa, caras excelências, é entrar no espaço aéreo dos problemas do País e jogar luz sobre a carta constitucional. Mas, naquela que poderia ser vossa penúltima sessão, parece que o correio não encontrou o destinatário, e a carta, extraviada, ficou à deriva em alguma repartição pública obscura, esperando que uma liminar surgida por geração espontânea subisse à superfície do recinto. Milagroso, pois nao?

Assim como na sábia advertência de Freud de que “toda interpretação fora de análise é um agressão” todo teatralização fora dos palcos representa uma ameaça muito além das aparências. Diante de milhões de testemunhas a sociedade e a opinião pública — que já valiam pouco — foram devidamente ajustadas à sua leiga insignificância.  Enquadradas em uma jaula sem poder expressar a angústia da incerteza. Amordaçadas enquanto viam seus direitos escoarem sob os insultos indignos de uma luta corporativa não explicitada. O conflito de interesse foi abolido e ninguém foi avisado? O que se viu sim, foi que o juízo foi suspenso. O que se esperava da justiça é um pouco mais do que o protocolo e a aplicação mecânica das leis. Ficou patente que o Estado e a sociedade não tem proteção quando se trata de defensores que dominam a francófona.

Afinal, punições deveriam estar atentas ao contexto, assim como os perdões, anistias e habeas corpus. O respeito à hierarquia precisa de um teto. Assim como um jurista requer um piso comum. E a decisão do colegiado exige um efeito vinculante com a moralidade pública. Acima da qual a obediência torna-se omissão, e a distorção, cumplicidade. A hermenêutica de ocasião é fruto de um pleno repleto de parcialidades ideológicas. E o valor das instituições está exatamente em suplantar a fulanização, esquecer, temporariamente, o individual para penetrar no campo dos interesses do conjunto de sujeitos. O gênero de sentimento que se gera no País quando um condenado é menos desigual que os demais está para bem além da perplexidade. O planalto central e seus recintos encastelados ignoram o que se passa nos demais relevos. Nenhum desce ao solo. Não acreditam em erosão. Não detectam o que percorre a alma do homem comum: a sensação de que as regras — contrariando o princípio cartesiano e toda herança iluminista — não podem ser aplicadas de acordo com critérios obscuros e indistintos.

Querem saber qual é o problema? Querem saber o que assola, melancolicamente, o homem comum? A ideia de que ele tem doravante algum dever para com um Estado que não lhe concede direitos. Ou, se concede, os arbitra com rigorosas imposições e pitadas de tirania. Um Estado que lhe caça a voz para empresta-la — com batedores oficiais remunerados pelo erário — a quem deveria tê-la perdido. É isso, prezada corte, que sente o homem comum. Não estamos a falar do militante médio. Ou do filiado graúdo do partido. Nem de um inimputável que parece ostentar as hastes para instrumentalizar marionetes infláveis. Falamos do povo, que com dificuldades, acha incompreensível — porque de fato é — que a alta magistratura exceda-se, justo ela que deveria ser o parâmetro da justa medida, da coisa imparcial, do meio termo em prol da vida das pessoas.

Sim, perfeitamente, sabemos que vocês não jogam para a grande plateia — destarte não deveriam jogar também à pequena — isso ficou claro. O que não ficou claro é por que a transparência virou um segredo de Estado? Um acordo de decisões monocráticas? Nem precisavam declarar, é evidente que os excelentíssimos não acham relevante a opinião pública.  Entretanto, pergunto se lhes ocorreu um detalhe importante, o qual, talvez, merecesse vossa atenção: a opacidade da justiça tende ou não a transforma-la em uma outra coisa?

E se essa coisa não for nem a justiça, nem o direito?  E se for apenas a aplicação das regras a uma conveniência política que sacrifica a paz social por um conluio que, já se vê,  não só nao cicatrizará como exporá a chaga a completa degeneraçao? Chega de sigilo. A vossa revelia todo enigma estará às claras. Aprendam que nada, literalmente nada pode pressionar mais o homem comum do que a incerteza sobre sua liberdade.

Especialmente quando a liberdade de um significa prisão para os demais.

A travessia de Moisés II (Estadão)

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A Travessia de Moisés II

Hagadah – narrativa, contar a história

Desenho digital

— Senhor?

–Sim?

–O Senhor perdoe, mas assim não vai dar pé…

–Achei que tinha te explicado tudo, o mar de juncos se abrirá e vocês passarão, incólumes, sequinhos, vai dar tudo certo. Eu avisei, evite Schopenhauer. Qual jornal você assina?

(Risos abafados)

— Qual é a graça filho?

— Moisés na língua local, Yekusiel em hebraico.

–Não, não é isso. Perguntei por que você riu?  Seu nome está sempre na ponta da língua.

–Perdão Onipotente. Era só uma força de expressão, sabe, uma dessas metáforas da língua portuguesa.

–Compreendo, lá do….

— Brasil Altíssimo, Brasil.

(Murmúrios desconfiados)

— Ah sei, aquele País lindo, imenso, gente boníssima. Aliás, não foi lá que me conferiram até a cidadania?

— Exato Senhor.

— Aquele pessoal achava mesmo que eu era natural de lá, mas isso foi até acontecer aqueles 6 X 1

— Perdão Senhor, essa foi a Argentina, lembra do Messi?

–Vagamente. Mas não foi depois daquela goleada…que o pessoal

–Isso mesmo, mas foi 7 X 1

— Argentina, Argentina, o que é mesmo?

— Aquele lugar lá embaixo, onde tem até um bom churrasco. Tinha aquele jogador pretensioso que se achava igual ao Pelé, e agora…bom, agora eles tem o papa

— Sei!

— E coitados, os Hermanos gozavam os brasileiros direto até esse cala-boca de 6X1

–Filho, futebol gosto, não é bem nosso foco, diga logo o que quer, sou Eterno, mesmo assim o tempo urge.

–Tenho vergonha! No fundo, no fundo sou um tímido, me falta oratória. Vejo aquele pessoal da tribuna do Senado, falam por horas. Altíssimo, escolhe outro, que tal fazer uma prévia…

–Prévia não. Nem pesquisas de opinião. Falam para quem? Eu mesmo que não prego olho nunca, já dormi várias vezes ouvindo aquelas aporrinhações.

— Senhor, mas é que

–Estou acompanhando, vendo a quantidade de populistas que aparecem todo dia, no começo fiquei preocupado, mas agora percebi que aquele slogan — detesto slogans — rede de tv alguma coisa, o povo não é bobo.

–O Senhor é conservador, progressista, de centro?

— Sou o que Sou.

— Pode parecer insolente mas isso é muito vago. Rei do Universo, por aqui o pessoal só trabalha com código de barras, carimbo, patrulhamento.

(Assobios e vaias)

— Então coloque ai na súmula: acordo conservador, ao meio dia viro progressista e fim do dia sou de centro.

(Estrondosas risadas celestiais, Moisés sorri encabulado)

–Fico sem jeito para contar

–Entre nós não existem segredos, recorda que lá na Terra Santa me abri com você?

–Altíssimo, com toda vênia, D.R. agora não…

–Fale filho, desembuche, tenho todo um Multiverso para cuidar. Agora mesmo recebi mensagem de que tem um buraco negro querendo sugar uma galáxia inteira.

— É que a coisa esta encrespando aqui embaixo

–Sou todo ouvidos!

(Risos celestiais vindos da direção sul)

–Primeiro, essa coisa do gordinho da Corea, a Hillary, o Topete, os aitolás, o ditador sírio, o tirano da Venezuela, o louco das Filipinas, o estado islâmico e agora tem a Putin que o

–Alto lá, perdeu o respeito?

–Perdão, mas esse é de fato o nome dele

–Prossiga

–Não faz nem oitenta anos e o antissemitismo e a intolerância de todos os tipos cresceram assustadoramente. O Senhor já deve ter visto, parece que nenhum destes líderes tem muito amor pelo mundo nem pelas sociedades que governam.

(Trovões e chuva torrencial, granizo ocasional do tamanho de bolas de golfe)

— O que você quer que eu faça?Isso é coisa entre vocês. Que se entendam, ou chamem um psicanalista. Posso recomendar alguns.

— Entendi bem? O Senhor está perguntando para este seu humilde servo?

— Deixa de modéstia. Aqui em cima tivemos tempo para treinar, exatos 15,3 bilhões e anos, e hoje somos todos co-participativos, economia colaborativa, já superamos o materialismo dialético, o fascismo, o marxismo. E vocês pararam no tempo de direita-esquerda. Aqui não aceitamos nenhuma forma de totalitarismo. Você acha que é fácil gerenciar a multidão de seres celestiais? Eu já mandei muito, hoje tenho um sistema enxuto de comando.

–É que a democracia anda rateando aqui embaixo. Preferem ditadores do que a dureza de uma democracia brigada, os jogos de poder viraram cassinos.

–Engraçado, aqui hoje funciona bem de Alfa ao Omega. As vezes, tem uma ou outra supernova que sai do controle, mas no geral a coisa toda anda. Será que eles nunca leram “Escuta Zé Ninguém” do Wilhelm Reich? É o livro que mais recomendo por aqui.

–Vou anotar.E a Netflix?

–Estava proibido, o pessoal largava tudo e ficava hipnotizado em frente da tela. Mas já faz uns dias ouvi rumores de que aquela ex-presidente impedida detestou uma série. Todo mundo veio fazer pressão. Liberei na hora, pedi para todo staff assistir. Sempre considero educativo liberar coisas proibidas.

— Mas rogo que me responda, o que devo fazer?

–Não sei, mas vocês dão muito trabalho.

(Suspiros com ventania)

–É porque ai em cima tem o Altíssimo na direção, aqui, temos o STF. Céus.

(Palavras fortes ininteligíveis cuja rima final parecia ser …ões)

–O Senhor é o Único que pode nos salvar. A única coisa que peço é um Salvador da Pátria.

–Estou te estranhando, agora deu para puxar Moisés? Só…te escolhi porque você não queria e não indicou nenhum parente para cargo em Estatal.

–É que o Todo Poderoso não pode nem imaginar o que se passa naquele País, dizem que no dia 04 de abril o bicho vai pegar

–Ah, agora saquei, é o Todo Poderoso Timão não é filho?

(hino entoado com louvor e gaitas escocesas)

–O Senhor também é da Fiel?

–Tento ser imparcial, mas vai me dizer que nunca percebeu? Aqui é… (Estrondo)

— Então, continuando, como vou dizer?  O Senhor já deve saber que tem um cara aqui que acha que pode concorrer com o Senhor

–Sério? Olha que é tentador. Aposentadoria, justo agora que querem mexer na previdência. Nem brinca com isso….

–Ele desafia Deus e o mundo e tem se achado acima do bem e do mal

(Murmúrios sarcásticos)

–Coitado. Deve ter tido aulas com filósofos fracos. Pode ir lá e explicar que ninguém está acima da Lei? Será que ele ouviu falar da Magna Carta?

–Foi exatamente o que o Moro disse, o Senhor sabe que ele…

–Sei exatamente, e em tempo real, minha contra-inteligência é show!

–Altíssimo. Todos conhecemos sua Onisciência, mas agora o Senhor me pegou de surpresa: também conhece o Moro? Já sei, foi no twitter?

–Que decepção. Ainda não sabe da minha agenda? Não tenho tempo para estas distrações. Mas já vieram buzinar na minha orelha que o sujeito tem aquela Luz do justo. Esse era o cara. O Obama, que ajudei no começo, era bom de papo mas não entendia nada de caráter alheio.

— E o que me diz dessa fake news que se espalha, o que será da mídia?

(Relâmpagos incendiários)

— Filho, o problema é que vocês são muito crentes, acreditam em tudo. Entrei e sai do orkut no primeiro dia. Hoje só vejo insta e face de vez em quando. Mas as redes me agradam. Sabe por que? Elas são o contraponto do domínio. Sempre lembro do saudoso Isaiah Berlin “liberdade para os lobos significa morte para os cordeiros”

— O mundo está de ponta cabeça mesmo, O Senhor, justo o Senhor, quer que a gente duvide? Deduzo que não há mais esperança?

–Quero que vocês aprendam a arte de fazer autocritica, mas vejo como é doloroso para vocês educarem-se com os erros. Liberdade é isso. Não ser obrigado a nada. Não obrigar ninguém a nada que seja aviltante.

— Altíssimo, o senhor não é anarquista, é?

— Só as quartas feiras.

(ruídos de tapas na mesa seguidos de gargalhadas intermitentes)

–Mas ainda temos o problema Supremo! E como fica aquele Todo Poderoso que quer ser teu rival? O cara é um encrenqueiro. Pode afundar o País só para salvar a pele.

–O Supremo já anotei, vou tomar providências.

— Mas e aquele que diz que é seu rival, o mais honesto da Via Láctea? Ele se acha, é como dizemos, o rei da cocada preta.

— Parece que tem um pouco de gordura insaturada, até que é saudável.

–O Senhor está me gozando?

(Bocejos )

(Grunhidos reprimidos)

–Você está muito sério Moisés. Relaxe. Permite um conselho médico? Ria.

–Não entendo, vendo tudo isso que está acontecendo pelo mundo e o Senhor me recomenda Rir?

–Rir de si mesmo, garanto, é o melhor remédio. Faço isso pelo menos uma vez por milênio.

–E o que fazer com essas pessoas que apostam no tudo ou nada?

–Você se refere aquele ex-presidente? Faz tempo que ouvi o clamor, uma pena, ela era uma esperança, e é triste o que ele fez com seu próprio povo. Mas ele não me interessa mais, vocês é que dão muita importância para essa gente. Já vi tudo daqui, ele vai espernear, mas, no final, pode escrever, ele morre na praia.

— O que é isso Senhor?

— Desculpa, indelicadeza minha, metáfora da língua portuguesa. Bingo!! Quero dizer que ele vai sofrer as consequências de seus atos e não vai mais impor seus caprichos para a sociedade.

— Então rogo, que tal o Senhor dar uma dura pessoalmente? Falar com Ele cara a cara?

— Vou mandar um recadinho pelas urnas. Nada de plim-plim, só voto impresso.

— Agora querem impor só voto digital

–Como assim urnas inauditáveis? Nem por aqui aceitaríamos mais isso.

— Altíssimo, vai uma dica: se for falar não mande recado pelos advogados, — a bolada que estão faturando — mas, se for através deles, o Senhor terá que gastar seu francês

–Depois daquele vexame dos entreguistas de Vichy fiquei com bode, também dei um tempo no alemão.

— “Eles estão totalmente acovardados” “Vou te mandar o Bessias” “Tem que manter isso, viu?”

— O que?

–Foi um ato falho, é que às vezes essas frases vem na minha cabeça. Na verdade, o que eu quis dizer é que o Senhor quem terá que resolver isso.

–O pessoal ainda está vaiando políticos? Se não me engano começou na copa do mundo, com aquela senhora. Lembro de ter notado que ela não levava nada na esportiva. Isso muito me irrita.

–Sim, e agora o povo perdeu a paciência com todos eles e estão jogando omeletes na caravana.

–Pena, vaia é divina, ovo frito só na manteiga e não adianta tentar justificar, eu não aceito nenhuma forma de violência e proíbo vingança.

–E o que me aconselha? Estou perdido e essa noite tenho um povo inteiro para libertar da escravidão.

–Entra na fila rapá.

–Como?

— Aguarde em linha, confie, sua vez chegará.

— Ah, já vi tudo, então o Senhor também é a favor do politicamente correto?

–E não fui eu quem inventou o conceito de correto?  Já a parte do politicamente é coisa de vocês.

— Mas o que devemos fazer? Estão falando em conflagração, guerra civil, hecatombe, fim da humanidade. Estou realmente desesperado Altíssimo.

–Sabe quanto tempo ouço essa lenga-lenga catastrofista?

–Então, só me responda mais uma coisa, pode ser?

(Bocejo ensurdecedor)

–Desde que não seja parecida com aquela entrevista que fizeram com o Serginho.

— O Sr. não gostou?

–Não fosse o juiz teria sido maçante. O que a imprensa fez com a criatividade que doei? Ninguém perguntou sobre os planos de destruir a democracia. E teve aquele que quis explorar fatos banais quando haviam tantas prioridades para perguntar ao homem.

–E a lei sobre o abuso de autoridade?

— Por conflito de interesse, não opino sobre isso . Você sabe que já sofri acusações nessa linha.

–Mas é que essa constituição, vou te contar Senhor

— Constituição, para dar certo, tem que ser curta. Há quase três milênios atrás Eu te soprei aquele decálogo, e Ah, se todo mundo usasse, o Paraíso seria aí mesmo.

— Parece que estão dizendo que não existe inferno.

–Acho que ele existe, na imaginação dos homens, ou, como queria Sartre, o inferno são os outros.

— E a hermenêutica para decifrar essa constituição?

–Filho, sempre recomendo uma carta curta como a americana. Pensa que só conversei com você? Expliquei passo a passo para o Thomas Jefferson. Copie e cole. Concorda que já deu?

–Ok, posso fazer só mais uma pergunta, juro.

— Quer mesmo sacudir esse parlamento?  De um jeito de propor a seguinte emenda constitucional: doravante nenhuma lei nova será criada enquanto aquelas que existem não forem cumpridas.

–Eles vão pirar.

(Risos sarcásticos contidos)

(Moisés levanta a mão para perguntar)

–Posso fazer uma última pergunta?

–Manda.

–O mundo vai acabar?

–Moisés querido, toca prá frente, o mundo mal começou.

Feliz pessach, feliz páscoa.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/pessach-e-a-travessia-de-moises-ii/

Do extremo centro e de um efeito colateral chamado felicidade (Estadão)

Em 2013 comecei a contribuir com este valioso jornal. Um dos primeiros artigos publicados no blog “Conto de Noticia” comentava a marcha do movimentos de rua que pediam “Tarifa Zero”. A perplexidade tomou conta da sociedade e ali gerava-se uma reação em cadeia que, ao fim e ao cabo, culminou, três anos depois, com o impeachment e o início do combate à corrupção e aos desvios de função do Estado.

De lá para cá colhemos os frutos dos desmandos do petismo e associados. As forças se reagruparam, novos atores chegaram, mas nenhuma delas mudou essencialmente sua índole oportunista.  O resultado das benesses populistas não tardaria em aparecer. Mais uma vez os habitantes do País marcham para que o Estado assuma responsabilidades indevidas: seremos viciados em subsídios? No País perturbado pelo verdadeiro sítio imposto pelo anarco-sindicalismo, detecta-se a mesma acefalia nas lideranças políticas, a polarização fulanizada e a inação do poder. Sob a maior recessão de sua história republicana o País emudeceu sem um porta-voz razoável.

Ou devemos assumir a esclerose e propor que a solução para a crise institucional que o conjunto de erros criou é abandonar o País à regressão?  Se não for um “Ministério do Desabastecimento” a opção pode ser ‘Gestão baseada em Incompetência’. E apesar de tudo isso, é o que temos. Quem insiste em atropelar o governo com caçambas colocaria quem no lugar? Pois é, por incrível que pareça — à luz da combalida constituição federal — fora o vácuo, não há ninguém melhor à vista.

E todos nos perguntamos:  será preciso inventar o que ninguém pensou para escapar do cerco e do impasse crônico? Qual será a origem da profunda insatisfação que nos assola?

Neste contexto a única novidade aceitável seria uma mobilização apartidária e pluri institucional que gerasse uma cultura comprometida com o bem estar como premissa fundamental.

Se o País assumiu o perfil de ingovernável, a criação de uma nova cultura pode ser uma forma de ultrapassar os ditames da sociologia tradicional, que, como se vê — também se esgotou como instrumento de análise e estabelecimento do mínimo de previsibilidade política. O mais revolucionário de todos os caminhos não será extrema esquerda ou direita. Se houver saída será encontrar os atalhos até o extremo centro. Para tanto, será preciso observar alguns pontos:

Em oposição aos clamores das ruas, dispensaremos populistas condenados, golpes militares, eleição de sujeitos fortes, vigorosos e violentos.

Só um contundente caminho do meio que seja ideologicamente fraco — pois flexível —  traduzido por um comportamento intolerante com toda radicalidade politicamente correta. Destarte, trata-se da própria sobrevivência da democracia. Pois a obsessão com o politicamente correto não examina, oculta. Não dialoga, decreta. Não amplia, reduz. É o próprio berço que embala as Fake News. Desprovida de curiosidade intelectual a postura de que possam existir itens do pensamento que são inegociáveis petrificam a vida e a política. Aparente paradoxo? Esta acusação desfaz-se ao verificarmos quantos assuntos estão “cientificamente” decididos peremptoriamente pelos formadores de opinião que editam os slogans e os estamentos do Poder. E isso também acontece nas redações dos jornais e no Congresso, nas Universidades e nas militâncias partidárias, nas ruas e nas casas. O que naturalizamos como o monitoramento manipulador do que é o correto nada mais é que senso comum racionalizado pelo maniqueísmo. É o tutorar que trava todas as pautas, uma vez que a busca por consenso pressupõe ceder à argumentação e não odiar mortalmente o interlocutor.

Só uma visão plástica e sensível pode mudar a política que se acostumou a contemplar a realidade à luz da convicção. Há mais homens coerentes e de opiniões fortes nos gabinetes produtores de catástrofes sociais do que podemos supor.

Por que será que o atual suspiro da sociedade é por um líder que seja um político não profissional —  que por uma incompreensão ou preguiça intelectual fez a mídia traduzir por antipolítico? Porque a política tradicional expandiu a dissonância entre o poder e as necessidades das pessoas (eufemismo para povo) e já há a percepção clara de que a super especialização de um profissional do voto pode ser insuficiente para captar as reais necessidades e os problemas contemporâneos. No imaginário coletivo só alguém “externo” poderia compreender e encaminhar essas demandas.

Plausível ou não é assim que a fantasia cresce na opinião publica.

Precisamos de mais homens e mulheres tanto maleáveis como refinados, que só consigam trabalhar em equipe. Será preciso dispensar lideranças carismáticas que monopolizam decisões, poder e impostos. O sempre lúcido Roberto Romano escreveu: só a descentralização dará conta de amenizar a corrupção. Mesmo que prendam todos aqueles que afundaram a economia, que as empresas sejam penalizadas, o Estado Policial para o qual hoje caminhamos pode apenas suprimi-la provisoriamente. Por outro lado, se ainda somos uma federação, será necessário fortalece-la através da pulverização da concentração da arrecadação, a medida teria o potencial para encaminhar uma solução de longo prazo.

Esta é a diferença entre medidas paliativas temporárias e soluções estruturais através de políticas de estado.

Aqui vem a segunda parte. Nenhum Estado laico pode imaginar que seus políticos podem prescindir de algum aprendizado filosófico e psicológico sobre si mesmos. Obviamente existe um entrave chamado delta tempo. Reformar o legislador é uma tarefa que requer séculos e paciência. O espírito de conciliação que alguns vem propondo para apaziguar o País só poderia ser alcançado se todos assumissem suas responsabilidades.

Sem autocritica, a reconciliação não passa de recalque.

O famoso psiquiatra austríaco Viktor Frankel, ex prisioneiro em quatro campos de concentração da Alemanha nazista, explicou a um entrevistador perplexo que ele proporia abolir o item da constituição americana que preconizava a “busca da felicidade”*

Com o ar intrigado do jornalista o psiquiatra afirmou que se desejamos alcançar a felicidade e o bem estar eles não devem ser buscados. Os discursos de autoajuda que provém do exterior são um blefe, um engodo institucionalizado. Finalmente, Frankel entende felicidade e bem estar como “efeitos colaterais da auto transcendência do homem”, isto é, promover o bem estar e servir a sociedade sem esperar reciprocidade ou benefícios. Não se trata de principio religioso nem de um estamento político, mas de um mergulho em sua experiência pessoal que reemergiu como percepção das muitas dimensões do homem.

Não seria a índole perfeita para o político? Será muito exigir isso de um homem público?

Possivelmente.

Mas podemos começar a exigir de nós mesmos.

*”And hold these truths to be self-evident, that all men are created equal, that they are endowed by their Creator with certain unalienable Rights, that among these are Life, Liberty and the pursuit of Happines”

Despertar para a noite (Estadão)

Despertar para a noite

No recém lançado livro “Despertar para a noite e outros ensaios” (Quixote-Do, Belo Horizonte, 2018, 178p.) Lyslei Nascimento faz uma abordagem multifacetada sobre a Shoah (extermínio de judeus pelo regime nacional socialista alemão, também conhecido pelo nome Holocausto) e, ao mesmo tempo, lança um facho de esclarecimento sobre o retorno (ou o fim de uma curta hibernação?) do antissemitismo.  Nas palavras do prefaciador, Wander Melo Miranda, “na forma de vestígios, rastros ou resíduos, a reminiscência se constitui no intervalo entre  o não contar para esquecer e o narrar para sobreviver”.

Ao analisar livros e filmes, Nascimento atravessa um vertiginoso painel de autores e cenas que não só impressionam pela amplitude e erudição, mas por trazer à vida uma literatura não solicitada. Isto é, a apresentação cultural, das vozes não audíveis, as escassas, aquelas ainda — e para sempre — indizíveis, que – numa era na qual, erroneamente, considerava-se sepultado o espectro de intolerância étnico-racial –  não encontram mais lugar para testemunhar. Como afirma a ensaísta no capítulo em que evoca dois poetas brasileiros que se ocuparam do tema da Shoah, Vinicius de Moraes e Jorge Amado:

“A imperiosa necessidade de se revisitar o episódio da Shoah, delinea-se, para o escritor e para o leitor, como um empreedimento impossível de ser apreendido e contornado, mas nunca soterrado”.

Isso significa que a escavação se processa em camadas e , assim como o arqueólogo, autor e leitor recolhem, por intermédio do paradigma indiciário daquele que foi um dos mais abomináveis eventos, para, enfim reconstituir aquilo que Carlo Ginzburg chamou de “micro-história”.

Ela prossegue: “Cercar o fato histórico em sua barbárie e contorná-lo pela palavra ou pela arte, costurando textos e registros infames, é sobretudo, lançar-se numa tarefa que, de antemão, já se anuncia como incompleta, residual, bárbara”.

Nascimento passeia com leveza e destreza no seu campo de análise que é o da  literatura comparada e consegue, por meio das muitas referências culturais e historiográficas, situar o leitor para além do campo da indignação pura e da perplexidade paralisante: nos faz pensar nos aspectos multifacetados da Shoah, investindo de um lado na “voz dos vencidos” e, de outro, situando a catástrofe no campo de uma fenomenologia ainda incompreensível.

Sem ceder ao obscurantismo e tal qual a metodologia das discussões talmúdicas, a autora se recusa ao reducionismo: não existe um “à guisa de uma conclusão”, nem mesmo uma insinuação de desfecho.  É que a extensão da terra devastada do que também já foi chamado de “o maior drama da história ocidental” e as repercussões transgeracionais do genocídio organizado pelos nazistas sempre impedirão qualquer síntese, e, provavelmente, obnubilarão a tentação da explicação única, cabal.

Um livro essencial, sólido, concebido e escrito em um período histórico no qual até a busca pela verdade tornou-se estéril e rarefeita.

Abaixo o Blog fez uma entrevista com a autora*:

Como te ocorreu a ideia deste conjunto de textos?

– A Shoah (Holocausto) é um tema caro aos Estudos Judaicos aos quais tenho me dedicado desde o início de minha carreira, nos idos de 1990, na UFMG. Na Literatura e nas Artes em geral, o tema é especialmente importante porque põe em xeque nossa capacidade de reagir em momentos em que o mal e a violência parecem obliterar o que há de humano em nós. Refletir sobre a arte em condições adversas como foi a Segunda Guerra Mundial sempre me estimulou à pesquisa, ao estudo e à reflexão. O livro Despertar para a noite e outros ensaios sobre a Shoah apresenta, assim, a seleção de algumas de minhas reflexões sobre esse tema.

Há muito material relacionado aos registros da Shoah, qual foi o critério para fazer esta seleção?

– A Shoah, apesar do vasto e importante material produzido pela história, pelo cinema, pela literatura e artes em geral, ainda sofre reveses de discursos revisionistas e negacionistas. No mundo e, infelizmente, também no Brasil. Nesse sentido, o critério para a seleção desses ensaios foi, basicamente, estudar alguns escritores e artistas que, à contrapelo dessa tentativa de esquecimento e de soterramento contemporâneos, produzem suas obras como alertas à valorização e ao respeito à vida.

Muito interessante e oportuno o resgate feito por Vinicius e Jorge Amado, qual foi sua primeira impressão? Por outro lado, há uma certa escassez de registros fílmicos sobre o Holocausto produzidos no Brasil, concorda? Ao que atribui essa escassez?  

Há muitos artistas brasileiros não judeus que contribuíram não só com ações, mas com um olhar lúcido sobre a Shoah a partir da arte. Tanto Amado quanto Vinícius, nas imagens da Judia de Varsóvia e dos mortos no campo de concentração, empreendem uma reação a certo silêncio de artistas e intelectuais, naquele período, por intermédio da força expressiva da palavra poética. Nenhum dos dois textos é passivo, omisso ou produz um elogio do soterramento e do esquecimento. As metáforas utilizadas por esses poetas brasileiros são terríveis, porém, elas revelam a necessidade de, mais do que um fantasma ou de um esqueleto, termos, sempre, diante de nós, que nossa capacidade de indignar-se diante da violência deve ser um aprendizado e uma tarefa contínuos do humano. Há textos fundamentais de Carlos Drummond de Andrade e Guimarães Rosa (ambos com atuação política importante no período), Hilda Hilst, Maria José de Queiroz, só para citar alguns escritores, que esperam que os leitores e pesquisadores os visite em nossos tempos sombrios. Minha intenção, assim, foi trazer aos leitores dos grandes romances de Jorge Amado e aos admiradores das canções de Vinicius de Moraes, uma face esplêndida ainda a se descobrir desses autores. Sobre os filmes, eu diria que o impacto da Shoah sobre os nossos realizadores ainda está por acontecer. Há inúmeras e inspiradoras histórias a serem contadas, principalmente, a dos sobreviventes e dos refugiados que vieram para o Brasil.

O que descobriu de interessante na relação entre ciganos e judeus (filme Trem da vida, de Radu Mihaileanu). A questão do humor na Shoah merece cuidados extras ou como você escreve “não é fácil fazer humor muito menos com a catástrofe”.

– Ciganos, judeus, homossexuais, adversários políticos e outras tantas vítimas do Nazismo foram massacrados por um regime totalitário que intentava abolir diferenças como uma política violenta de Estado. No caso dos ciganos, a maioria ágrafos, o drama histórico é especialmente grave. O recurso à memória dá-se, muitas vezes, pela escrita. Assim, a valorização das histórias de vida, da oralidade e do posterior registro desses relatos é de suma importância. No filme de Mihaileanu, é revelador que os ciganos sejam aproximados aos judeus, tradicionalmente considerados “o povo do Livro”. Na Shoah, no entanto, ficou evidente a igualdade da condição humana, independente de quaisquer fatores culturais ou religiosos. No filme, a música e a dança ilumina essa igualdade e não é a diferença que se faz presente. Acredito que essa é lição de Mihaileanu para o nosso tempo: buscar as aproximações, não as divergências.

Qual o aspecto mais relevante e que destacaria na sua análise do romance de Richard Zimler Os anagramas de Varsóvia?

– De toda a produção ficcional contemporânea que tem a Shoah como tema, esse romance de Zimler é um dos mais instigantes. A trama policial marcada pela contingência da segregação, a experiência do gueto, põe o leitor diante da crueldade estampada na tortura, no assassinato sumário e na violação de todos os direitos do indivíduo, a série de crimes contra crianças dentro do gueto, reafirma a quase onipotência do mal e sua materialidade, no entanto, apesar de tudo, nesse espaço, pode surgir uma luz. No romance de Zimler, afirma-se que todos os templos são metáforas do corpo humano, logo, é o corpo que dá origem a um conceito de sagrado. O crime e o assassinato são, no romance, uma forma de desarranjar o mundo, retirar dele tudo o que haveria de sagrado. A ficção de Zimler é, nesse sentido, humanística, no desafio de se aproximar do limite dessa expressão.

 Por que, como escreveu David Grossman, os escritores que escrevem e escreverão sobre o Holocausto “estão de antemão fadados ao fracasso”?

– Talvez porque estejamos diante de uma violência tão inimaginável que a linguagem não consiga abarcá-la por completo. A partir desse ponto de vista, a situação-limite da Shoah é sombria. No entanto, não estamos num vazio, mas entre fragmentos, ruínas e cinzas, “coisas” em estado de dicionário, como queria Carlos Drummond de Andrade, que parecem trazer de longe, ou de não tão longe na história, “entre o ser e as coisas”, vozes que não podem ser apagadas. Talvez Grossman esteja dizendo ao leitor que o escritor torna-se, quando se trata da memória da Shoah, um razoável copista em meio a um mundo que não faz mais sentido se tomado em uma imaginária grandeza. Por isso, a aproximação entre poesia, narrativa e enciclopédia, em suas formas mais contemporâneas, parece por em xeque não só uma teoria da poesia pós-Auschwitz e a sentença adorniana que sobre ela recai, mas uma possibilidade de leveza, a da imagem do romancista que, como queria Italo Calvino, sobreleva o peso do mundo. Nesse sentido, mesmo sabendo que não conseguirá tudo, o escritor, o artista, e nós, os leitores, devemos ser incansáveis. O fracasso, portanto, em Grossman, é o nosso mote para a tarefa infinita de se estar atento ao mal e aos seus efeitos sobre a humanidade.

No caso de Moacyr Scliar e de suas repercussões sobre o microcosmos de um bairro de Porto Alegre: qual é o papel do regional na percepção da Catástrofe?

– A máxima atribuída a Leon Tolstoi de que quando se está falando da aldeia está-se falando do mundo pode ser aproximada a toda obra de Scliar. Quando o escritor constrói o bairro judaico do Bom Fim, no romance A Guerra no Bom Fim, muito das aldeias pintadas por Marc Chagall também estão ali evocadas. Então, o microcosmos, a “aldeia”, que é o bairro do Bom Fim, no Brasil, é um modelo literário em miniatura do que ocorre no mundo. Primorosamente, a Segunda Grande Guerra é o que emoldura o pequeno país do Bom Fim. Entremeados à notícias do front, os jogos de guerra encenados pelas crianças reproduzem, em escala menor, os desastres ocorridos na Europa. Scliar, nesse sentido, é um mestre da microficção que espelha e desloca, pela fantasia, a macro-história.

Seu texto que dá nome ao livro atravessa a obra de Primo Levi e Elie Wiesel e o pensamento de Walter Benjamin, especialmente, quando este grafou “nunca houve um Monumento da cultura que não tenha sido também um monumento da barbárie”. Então, qual seria o leitmotiv de um autor para narrar um fato histórico – sob a ficção ou fora dela – se ela sempre será “incompleta, residual e bárbara”?

– A necessidade de acordar para a “noite”, como sugere Wiesel, em A noite, é uma lição para os nossos tempos. Não é possível atravessar os dias como se estivéssemos num sono profundo. Há que se despertar, há que se sonhar, mas, de olhos abertos. Por força de valorizarmos, em extremo, a cultura, por vezes, esquecemos de nossa humanidade. Estar atento à barbárie do excesso de racionalidade também é um desafio. Não podemos nos esquecer que o Nazismo foi possível numa nação que produziu os mais sensacionais escritores, músicos e artistas de todos os tempos, a Alemanha. Equilibrar-se, portanto, entre o sono (o sonho) e a vigília é fundamental. Vivemos num tempo de monumentos estéreis, nesse sentido, os “pequenos relatos” que escapam à grandiloquência devem ser trazidos à luz, sem mistificações.

Após teu valioso levantamento historiográfico, depois de Auschwitz ainda existe espaço para a presença cotidiana da transcendência e da mística ou o mundo judaico ficou impregnado pelo ceticismo?

– Sempre haverá espaço para a poesia, para a ficção, para a arte. Disso depende a nossa sobrevivência. O ceticismo é, também, uma forma de ficcionalizar a própria incredulidade, não é? A transcendência vazia ou a mística que oblitera a razão, a meu ver, devem ser sempre questionadas. Sobre a presença judaica no mundo, gostaria de citar o Rabino Henry Sobel. Para ele, a missão do judeu não é tornar o mundo mais judaico, mas tornar o mundo mais humano.

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*Lyslei Nascimento é doutora em Letras: Literatura Comparada pela Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG, onde é, atualmente, professora de Teoria da Literatura e Literatura Comparada, editora da Arquivo Maaravi: Revista Digital de Estudos Judaicos da UFMG e coordenadora do Núcleo de Estudos Judaicos da UFMG.Paulo Rosenbaum