Despertar para a noite

No recém lançado livro “Despertar para a noite e outros ensaios” (Quixote-Do, Belo Horizonte, 2018, 178p.) Lyslei Nascimento faz uma abordagem multifacetada sobre a Shoah (extermínio de judeus pelo regime nacional socialista alemão, também conhecido pelo nome Holocausto) e, ao mesmo tempo, lança um facho de esclarecimento sobre o retorno (ou o fim de uma curta hibernação?) do antissemitismo.  Nas palavras do prefaciador, Wander Melo Miranda, “na forma de vestígios, rastros ou resíduos, a reminiscência se constitui no intervalo entre  o não contar para esquecer e o narrar para sobreviver”.

Ao analisar livros e filmes, Nascimento atravessa um vertiginoso painel de autores e cenas que não só impressionam pela amplitude e erudição, mas por trazer à vida uma literatura não solicitada. Isto é, a apresentação cultural, das vozes não audíveis, as escassas, aquelas ainda — e para sempre — indizíveis, que – numa era na qual, erroneamente, considerava-se sepultado o espectro de intolerância étnico-racial –  não encontram mais lugar para testemunhar. Como afirma a ensaísta no capítulo em que evoca dois poetas brasileiros que se ocuparam do tema da Shoah, Vinicius de Moraes e Jorge Amado:

“A imperiosa necessidade de se revisitar o episódio da Shoah, delinea-se, para o escritor e para o leitor, como um empreedimento impossível de ser apreendido e contornado, mas nunca soterrado”.

Isso significa que a escavação se processa em camadas e , assim como o arqueólogo, autor e leitor recolhem, por intermédio do paradigma indiciário daquele que foi um dos mais abomináveis eventos, para, enfim reconstituir aquilo que Carlo Ginzburg chamou de “micro-história”.

Ela prossegue: “Cercar o fato histórico em sua barbárie e contorná-lo pela palavra ou pela arte, costurando textos e registros infames, é sobretudo, lançar-se numa tarefa que, de antemão, já se anuncia como incompleta, residual, bárbara”.

Nascimento passeia com leveza e destreza no seu campo de análise que é o da  literatura comparada e consegue, por meio das muitas referências culturais e historiográficas, situar o leitor para além do campo da indignação pura e da perplexidade paralisante: nos faz pensar nos aspectos multifacetados da Shoah, investindo de um lado na “voz dos vencidos” e, de outro, situando a catástrofe no campo de uma fenomenologia ainda incompreensível.

Sem ceder ao obscurantismo e tal qual a metodologia das discussões talmúdicas, a autora se recusa ao reducionismo: não existe um “à guisa de uma conclusão”, nem mesmo uma insinuação de desfecho.  É que a extensão da terra devastada do que também já foi chamado de “o maior drama da história ocidental” e as repercussões transgeracionais do genocídio organizado pelos nazistas sempre impedirão qualquer síntese, e, provavelmente, obnubilarão a tentação da explicação única, cabal.

Um livro essencial, sólido, concebido e escrito em um período histórico no qual até a busca pela verdade tornou-se estéril e rarefeita.

Abaixo o Blog fez uma entrevista com a autora*:

Como te ocorreu a ideia deste conjunto de textos?

– A Shoah (Holocausto) é um tema caro aos Estudos Judaicos aos quais tenho me dedicado desde o início de minha carreira, nos idos de 1990, na UFMG. Na Literatura e nas Artes em geral, o tema é especialmente importante porque põe em xeque nossa capacidade de reagir em momentos em que o mal e a violência parecem obliterar o que há de humano em nós. Refletir sobre a arte em condições adversas como foi a Segunda Guerra Mundial sempre me estimulou à pesquisa, ao estudo e à reflexão. O livro Despertar para a noite e outros ensaios sobre a Shoah apresenta, assim, a seleção de algumas de minhas reflexões sobre esse tema.

Há muito material relacionado aos registros da Shoah, qual foi o critério para fazer esta seleção?

– A Shoah, apesar do vasto e importante material produzido pela história, pelo cinema, pela literatura e artes em geral, ainda sofre reveses de discursos revisionistas e negacionistas. No mundo e, infelizmente, também no Brasil. Nesse sentido, o critério para a seleção desses ensaios foi, basicamente, estudar alguns escritores e artistas que, à contrapelo dessa tentativa de esquecimento e de soterramento contemporâneos, produzem suas obras como alertas à valorização e ao respeito à vida.

Muito interessante e oportuno o resgate feito por Vinicius e Jorge Amado, qual foi sua primeira impressão? Por outro lado, há uma certa escassez de registros fílmicos sobre o Holocausto produzidos no Brasil, concorda? Ao que atribui essa escassez?  

Há muitos artistas brasileiros não judeus que contribuíram não só com ações, mas com um olhar lúcido sobre a Shoah a partir da arte. Tanto Amado quanto Vinícius, nas imagens da Judia de Varsóvia e dos mortos no campo de concentração, empreendem uma reação a certo silêncio de artistas e intelectuais, naquele período, por intermédio da força expressiva da palavra poética. Nenhum dos dois textos é passivo, omisso ou produz um elogio do soterramento e do esquecimento. As metáforas utilizadas por esses poetas brasileiros são terríveis, porém, elas revelam a necessidade de, mais do que um fantasma ou de um esqueleto, termos, sempre, diante de nós, que nossa capacidade de indignar-se diante da violência deve ser um aprendizado e uma tarefa contínuos do humano. Há textos fundamentais de Carlos Drummond de Andrade e Guimarães Rosa (ambos com atuação política importante no período), Hilda Hilst, Maria José de Queiroz, só para citar alguns escritores, que esperam que os leitores e pesquisadores os visite em nossos tempos sombrios. Minha intenção, assim, foi trazer aos leitores dos grandes romances de Jorge Amado e aos admiradores das canções de Vinicius de Moraes, uma face esplêndida ainda a se descobrir desses autores. Sobre os filmes, eu diria que o impacto da Shoah sobre os nossos realizadores ainda está por acontecer. Há inúmeras e inspiradoras histórias a serem contadas, principalmente, a dos sobreviventes e dos refugiados que vieram para o Brasil.

O que descobriu de interessante na relação entre ciganos e judeus (filme Trem da vida, de Radu Mihaileanu). A questão do humor na Shoah merece cuidados extras ou como você escreve “não é fácil fazer humor muito menos com a catástrofe”.

– Ciganos, judeus, homossexuais, adversários políticos e outras tantas vítimas do Nazismo foram massacrados por um regime totalitário que intentava abolir diferenças como uma política violenta de Estado. No caso dos ciganos, a maioria ágrafos, o drama histórico é especialmente grave. O recurso à memória dá-se, muitas vezes, pela escrita. Assim, a valorização das histórias de vida, da oralidade e do posterior registro desses relatos é de suma importância. No filme de Mihaileanu, é revelador que os ciganos sejam aproximados aos judeus, tradicionalmente considerados “o povo do Livro”. Na Shoah, no entanto, ficou evidente a igualdade da condição humana, independente de quaisquer fatores culturais ou religiosos. No filme, a música e a dança ilumina essa igualdade e não é a diferença que se faz presente. Acredito que essa é lição de Mihaileanu para o nosso tempo: buscar as aproximações, não as divergências.

Qual o aspecto mais relevante e que destacaria na sua análise do romance de Richard Zimler Os anagramas de Varsóvia?

– De toda a produção ficcional contemporânea que tem a Shoah como tema, esse romance de Zimler é um dos mais instigantes. A trama policial marcada pela contingência da segregação, a experiência do gueto, põe o leitor diante da crueldade estampada na tortura, no assassinato sumário e na violação de todos os direitos do indivíduo, a série de crimes contra crianças dentro do gueto, reafirma a quase onipotência do mal e sua materialidade, no entanto, apesar de tudo, nesse espaço, pode surgir uma luz. No romance de Zimler, afirma-se que todos os templos são metáforas do corpo humano, logo, é o corpo que dá origem a um conceito de sagrado. O crime e o assassinato são, no romance, uma forma de desarranjar o mundo, retirar dele tudo o que haveria de sagrado. A ficção de Zimler é, nesse sentido, humanística, no desafio de se aproximar do limite dessa expressão.

 Por que, como escreveu David Grossman, os escritores que escrevem e escreverão sobre o Holocausto “estão de antemão fadados ao fracasso”?

– Talvez porque estejamos diante de uma violência tão inimaginável que a linguagem não consiga abarcá-la por completo. A partir desse ponto de vista, a situação-limite da Shoah é sombria. No entanto, não estamos num vazio, mas entre fragmentos, ruínas e cinzas, “coisas” em estado de dicionário, como queria Carlos Drummond de Andrade, que parecem trazer de longe, ou de não tão longe na história, “entre o ser e as coisas”, vozes que não podem ser apagadas. Talvez Grossman esteja dizendo ao leitor que o escritor torna-se, quando se trata da memória da Shoah, um razoável copista em meio a um mundo que não faz mais sentido se tomado em uma imaginária grandeza. Por isso, a aproximação entre poesia, narrativa e enciclopédia, em suas formas mais contemporâneas, parece por em xeque não só uma teoria da poesia pós-Auschwitz e a sentença adorniana que sobre ela recai, mas uma possibilidade de leveza, a da imagem do romancista que, como queria Italo Calvino, sobreleva o peso do mundo. Nesse sentido, mesmo sabendo que não conseguirá tudo, o escritor, o artista, e nós, os leitores, devemos ser incansáveis. O fracasso, portanto, em Grossman, é o nosso mote para a tarefa infinita de se estar atento ao mal e aos seus efeitos sobre a humanidade.

No caso de Moacyr Scliar e de suas repercussões sobre o microcosmos de um bairro de Porto Alegre: qual é o papel do regional na percepção da Catástrofe?

– A máxima atribuída a Leon Tolstoi de que quando se está falando da aldeia está-se falando do mundo pode ser aproximada a toda obra de Scliar. Quando o escritor constrói o bairro judaico do Bom Fim, no romance A Guerra no Bom Fim, muito das aldeias pintadas por Marc Chagall também estão ali evocadas. Então, o microcosmos, a “aldeia”, que é o bairro do Bom Fim, no Brasil, é um modelo literário em miniatura do que ocorre no mundo. Primorosamente, a Segunda Grande Guerra é o que emoldura o pequeno país do Bom Fim. Entremeados à notícias do front, os jogos de guerra encenados pelas crianças reproduzem, em escala menor, os desastres ocorridos na Europa. Scliar, nesse sentido, é um mestre da microficção que espelha e desloca, pela fantasia, a macro-história.

Seu texto que dá nome ao livro atravessa a obra de Primo Levi e Elie Wiesel e o pensamento de Walter Benjamin, especialmente, quando este grafou “nunca houve um Monumento da cultura que não tenha sido também um monumento da barbárie”. Então, qual seria o leitmotiv de um autor para narrar um fato histórico – sob a ficção ou fora dela – se ela sempre será “incompleta, residual e bárbara”?

– A necessidade de acordar para a “noite”, como sugere Wiesel, em A noite, é uma lição para os nossos tempos. Não é possível atravessar os dias como se estivéssemos num sono profundo. Há que se despertar, há que se sonhar, mas, de olhos abertos. Por força de valorizarmos, em extremo, a cultura, por vezes, esquecemos de nossa humanidade. Estar atento à barbárie do excesso de racionalidade também é um desafio. Não podemos nos esquecer que o Nazismo foi possível numa nação que produziu os mais sensacionais escritores, músicos e artistas de todos os tempos, a Alemanha. Equilibrar-se, portanto, entre o sono (o sonho) e a vigília é fundamental. Vivemos num tempo de monumentos estéreis, nesse sentido, os “pequenos relatos” que escapam à grandiloquência devem ser trazidos à luz, sem mistificações.

Após teu valioso levantamento historiográfico, depois de Auschwitz ainda existe espaço para a presença cotidiana da transcendência e da mística ou o mundo judaico ficou impregnado pelo ceticismo?

– Sempre haverá espaço para a poesia, para a ficção, para a arte. Disso depende a nossa sobrevivência. O ceticismo é, também, uma forma de ficcionalizar a própria incredulidade, não é? A transcendência vazia ou a mística que oblitera a razão, a meu ver, devem ser sempre questionadas. Sobre a presença judaica no mundo, gostaria de citar o Rabino Henry Sobel. Para ele, a missão do judeu não é tornar o mundo mais judaico, mas tornar o mundo mais humano.

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*Lyslei Nascimento é doutora em Letras: Literatura Comparada pela Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG, onde é, atualmente, professora de Teoria da Literatura e Literatura Comparada, editora da Arquivo Maaravi: Revista Digital de Estudos Judaicos da UFMG e coordenadora do Núcleo de Estudos Judaicos da UFMG.Paulo Rosenbaum