• Uma entrevista sobre Verdades e Solos
  • Resenha de “Céu Subterrâneo” no Jornal da USP
  • A verdade lançada ao solo, de Paulo Rosenbaum. Rio de Janeiro: Editora Record, 2010. Por Regina Igel / University of Maryland, College Park
  • Resenha de “Céu Subterrâneo” por Reuven Faingold (Estadão)
  • Escritor de deserto – Céu Subterrâneo (Estadão)
  • A inconcebível Jerusalém (Estadão)
  • O midrash brasileiro “Céu subterrâneo”[1], o sefer de “A Verdade ao Solo” e o reino das diáforas de “A Pele que nos Divide”.(Blog Estadão)

Paulo Rosenbaum

~ Escritor e Médico Writer and physician

Paulo Rosenbaum

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O dilema contemporâneo e a Novíssima Medicina* (Blog Estadão)

27 quinta-feira jul 2023

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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O dilema contemporâneo e a Novíssima Medicina* (Aspectos da Diversidade Metodológica nas Ciências Médicas (II)* *

Apresento mais um artigo da série “Aspectos da Diversidade Metodológica nas Ciências Médicas”. Não é incomum ouvir falar sobre as crises da Medicina. Mas, por mais que sejam esmiuçadas, não costumam representar  ameaça de esgotamento do modelo científico sobre o qual a Medicina se apoia. Pelo contrário, a hegemonia do método científico corrente é cada vez mais sólida e abrangente. Pois, então, onde é que ela, a tal crise, estaria? A pandemia suscitou alguns problemas na metodologia e abordagem científica, abalou alguns atavismos, mas nem chegou a balançar o edifício sobre o qual se apoia a tecnociência contemporânea. As questões não podem estar delimitadas ao sucesso da razão tecnológica, pois o êxito das novas tecnologias não é só estrondoso, mas parece possuir a consistência do que é tanto definitivo como irreversível.

O regime de validação dos procedimentos da Medicina é tão extraordinário que não pode se dar ao luxo de se importar demasiadamente com as questões chamadas “menores”, como, por exemplo, os conflitos de interesse que ocorrem nas publicações científicas revisadas por pares, mesmo quando não assumidos. Não é que os conflitos não estejam sendo avaliados, e muito menos que não gerem legítima preocupação, mas é que não há uma solução razoável para eles.

Pode gerar perplexidade, mas, sendo bem pragmático: um pesquisador subsidiado é, antes de tudo, um funcionário. Sua função é submeter-se a um regime que lhe pede, explicitamente ou não, prestação de contas. Ele precisa produzir para justificar seu custo na linha de produção/geração de tecnologia, daí que papers, que crescem em profusão geométrica, contra leitores que não dão conta de se atualizar, acabam sendo excedentes de luxo. Vale dizer: o problema da produção científica é como uma raiz que não pode ser apropriadamente desmembrada, pois, para controlá-la, precisaríamos de núcleos de pesquisa subsidiados pelo Estado – como sonhava o epistemólogo historiador da Medicina Henri Sigerist[i]–, que também teria de ser relativamente neutro e independente em suas políticas de produção e avaliação científicas. Obviamente, isso não acontece, pois, cada vez mais os Estados tendem a ser parciais em suas políticas de desenvolvimento científico assim como os programas de pesquisa.

No desenvolvimento de novas drogas, vale mais o desenvolvimento de uma molécula inédita, que tem potencial para gerar um medicamento caro, frequentemente para uma enfermidade que tem visibilidade para a opinião pública – ainda que não seja a mais prevalente ou prioritária – do que medidas de caráter sócio-educativas ou técnicas substitutas/complementares, que apresentam menor impacto midiático imediato. Considerando que os pleitos eleitorais são todos eventos de curto ou curtíssimo prazo, não fica difícil deduzir para qual lado habitualmente pendem as decisões econômicas em saúde. Esse é o atual jogo jogado pelos programas de pesquisas científicas quando se trata do mundo político dos subsídios, e não adianta nada – parafraseando Ronald Laing[ii] – fingir que não se vê  o jogo que eles fingem não jogar.

Como a maior parte das experiências com novos fármacos e vacinas, assim como o próprio desenvolvimento da biotecnologia, encontra-se em mãos privadas. Não há espaço, quiçá interesse, para ultrapassar a dimensão burocrática da discussão. Ela se torna novamente refém dos vícios que as normas que os combatiam, tentavam, em vão, corrigir. O objetivo é apontar aqui os  problemas que funcionariam como pontos cegos ao próprio desenvolvimento dos debates científicos.

Na prática, isso significa que, em matéria de desenvolvimento científico, o novo apresenta sérias chances de jamais nascer, ou de ser prematuramente asfixiado dentro dos meios institucionais. Nesse sentido, os próprios santuários da inovação, as universidades e seus centros de pesquisa, acabam trabalhando contra si, pelo menos contra o sentido da sua permanência, como pensava o filósofo José Arthur Gianotti. Há, assim, um novo paradoxo, já que a finalidade das pesquisas – que não é, ou não deveria ser necessariamente ratificadora de procedimentos institucionalizados – acaba agindo contra a natureza que sempre inspirou sua criação: permitir e induzir o surgimento do novo.

A título de exemplo, isso tudo pode ser mais bem observado nas políticas públicas da área cultural: o cinema independente, e qualquer atividade artística que não seja comercial, só consegue sobreviver com apoio, retaguarda e subvenção do Estado. Este fato evidencia dois tipos de síntese: as denúncias, muitas vezes generalizações que condenam o “sistema” pelo estado de coisas, e outra, igualmente simplificadora que defende o alinhamento automático com o status quo.

Pode ser que nada de melhor tenha sido inventado, e que as normas e metodologias que aí estão, apesar de extremamente problemáticas, ainda sejam as menos absurdas. Mas será que sob elas aflorariam as revoluções científicas e, portanto, o próprio desenvolvimento científico e tecnológico? Não poderíamos responder, mas o problema apontado acima continua sem solução, já que o estruturalismo sobre o qual se apoia a produção científica mundial permanece renegando sistematicamente sua vocação fundamental.

Neste ciclo que se retroalimenta e bloqueia toda perspectiva de busca de renovação de paradigmas, quais mudanças significativas na práxis médica poder-se-ia esperar?  Colocando de outro modo: diante desse cenário quais são as chances de outros horizontes? Como acreditar na indução para a construção de uma Novíssima Medicina? Uma que obedeça a critérios e pressupostos científicos canônicos de se guiar pela Medicina baseada em evidência, orientada por ensaios clínicos randomizados, mas que simultaneamente contemplasse o que a O.M.S. preconiza como objetivo teleológico de toda terapêutica: “não só a ausência de patologia, mas o bem-estar biopsicossocial”?

Se dependêssemos da produção científica canônica e do aparato instrumental das publicações, do jeito como estão contemporaneamente concebidas, tornar-se-ia muito difícil alcançar a segunda parte do objetivo acima referido. As chances de que esta discussão frutifique estão nos lugares fora do mainstream. Tais áreas de escape são territórios não completamente mapeados que pressionam por renovações, malgrado seguem correndo por fora. É assim que caminha aquilo que outro estudioso de berçários de teorias científicas – Paul Feyrabend[i] – chamava de “pluralidade metodológica”, e que os dogmas cientificistas não compreendem. Melhor dizendo, não aceitam. Sob a perspectiva reducionista, tudo é preto no branco, é certo ou errado.

A chave para que se possa compreender melhor a força dessas regiões excluídas, pode ser exemplificada por: pesquisas de qualidade de vida em saúde, estudos observacionais, estudos de coorte e pesquisas para conhecer a necessidade das pessoas, especialmente na atenção primária à saúde. Afinal, o objetivo ético de toda pesquisa deveria ser dirigida para beneficiar os sujeitos da sociedade.

São pessoas que desejam que o atendimento médico tenha um sentido e uma direção mais abrangentes e generosos em relação às feições até aqui assumidas. É desse espaço que vem surgindo insatisfações, e uma espécie de mal-estar benévolo, que fomenta a necessidade de mudanças. Foi em função do clamor das populações, até há pouco silenciosas, que começou-se a falar de  “Medicina centrada no paciente”, e da “Medicina do sujeito”.

São pacientes com suas demandas, suas necessidades de se fazer ouvir, de expressar as interpretações de suas biografias junto às suas queixas clínicas. De avaliar, junto com seus médicos, seus próprios estados clínicos. São narrativas com detalhes que mostram a singularidade dos contextos de cada sujeito, o pedido, nem sempre verbalizado, por atenção personalizada e solidariedade. A busca por pessoas que cuidem. O desejo de que o diálogo com os médicos não esteja restrito a meras construções discursivas científicas.

Há um clamor por compartilhamento honesto sobre as dúvidas, proteção e riscos atrás de cada intervenção e procedimento. Clama-se por uma atenção focada no bem estar e na saúde mental. A qualidade da existência individual (portanto coletiva) como um categoria de sucesso terapêutico tão importante como o controle da patologia. Todas essas aspirações crescem, mesmo numa sociedade saturada por informações filtradas e nem sempre acuradas, praticada por parte do jornalismo científico. E agora, sob a recente ameaça de questionar a presença do médico e substituí-la por conselhos provenientes da tecnologia, mediada pela inteligência artificial.

É nessa fusão de horizontes que a Homeopatia se encontra com a ideia de que a atenção integral sempre fez parte do corpus de uma Medicina bem praticada, seja em qual especialidade ela estiver sendo exercida.  E uma renovação da atitude dos pesquisadores pode fazer renascer o pendor natural que a ciência tem pelo desafio e pelo questionamento.

Um desafio que pode fazer romper a excessiva dependência que temos hoje da tecnociência e que recusa o descarte do que foi, supostamente, ultrapassado. Pode ser um novíssimo que agrupe ideias já rastreadas, ressurgimento de pesquisas em desuso, retomada da velha fórmula da Medicina hipocrática baseada em observação, em rituais empíricos e na investigação do que convém a cada sujeito. Sugere-se repensar as categorias propostas por Samuel Hahnemann que, mesmo dialogando com os homens de ciência da sua época, insistiu em buscar novos caminhos, sempre mais difíceis do que desfrutar das facilidades da correnteza.

No caso das propostas iniciais de Hahnemann, o resultado prático de não se deixar levar pela torrente de sensos comuns acerca dos conceitos de doença e terapêuticas foi anunciar, sempre a partir da experiência, estudo metódico e observação clínica, algumas propostas inéditas, pois não se tratava somente de aprender a totalidade dos sintomas dos pacientes, mas de observar, analisar e medicar sujeitos particulares. Entes com sofrimentos difusos extremamente pessoais.

Há similaridades entre o século XIX, com os dilemas nas ciências da saúde que vivemos aqui e agora. A prática médica contemporânea evoca a certificação obtida pelas evidências para bloquear um repensar da filosofia clínica. Mas, mesmo diante da progressiva escassez de defensores dentro das artes médicas, sobrevive um contra pensamento. Ele está alinhado à equidade, à justiça, a um atendimento que, além da moléstia, acolha com a mesma dignidade conceitual e através de anamneses compreensivas, as perturbações subjetivas das pessoas. Desta vez, porém, quem expressa o desejo por mudanças encontra-se dentro e fora das fileiras médicas.

Uma nova Medicina nada recusaria a priori, já que compreende, diante da vastidão do mal-estar contemporâneo, que não se pode dar a esse luxo. Aceita o que parece ser o mais racional, o menos invasivo e o mais de acordo com uma economia humana baseada no conhecimento da vitalidade. Uma novíssima Medicina abraçaria a necessidade de incorporar as ciências humanas às naturais, resgatando uma interlocução dispersa no tempo. Embalada pelo terceiro princípio hipocrático, essa Medicina só pode ser aquela que mais convém a cada um.

[i] SIGERIST  HE. Civilizacion y Enfermedad. México: Fondo de Cultura Económica, 1946.

[ii] LAING  R. Laços. Editora Vozes, Petrópolis, 1986

[i] FEYERABEND P. Límites de la Ciencia. Explicación, Reducción y Empirismo. Paidós, Barcelona, 1989.

* Texto selecionado extraído do artigo “Acerca da novíssima medicina,  homeopatia e o ethos do cuidado” publicado no livro “Ética em Homeopatia” Dantas, F. (ORG) produzido pelos membros da Câmara Técnica de Homeopatia” do CRM-SP. São Paulo, 2023.

**A propósito da discussão sobre ética e medicina, recomendo aos leitores que desejam informações precisas, que acessem o site do CREMESP (Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo) para ler e refletir sem preconceitos sobre uma recente publicação. Trata-se de um texto que, decerto, não será unanimidade, mas contribuirá para esclarecer a sociedade sobre a Ética e as Razões da Medicina do ponto de vista da especialidade.

O livro “Ética em Homeopatia” é uma antecipação com esclarecimentos públicos que previne a desinformação tendenciosa sobre a especialidade e, principalmente, estimula a discussão sobre qual tipo de atendimento deve também estar disponível nos serviços públicos e privados do País. Retoma a discussão sobre a ética do sujeito, a importância de um programa de pesquisas, o aspecto preventivo das terapêuticas, o ethos do cuidado, o resgate da relação médico-paciente, sem uma oposição anacrônica à tecnociência.

*Abaixo Texto extraído do site do CREMESP

“Com foco especial à realidade do País, Ética em Homeopatia traz temas que refletem, por exemplo, a inserção da homeopatia no sistema público de saúde, o ensino da ética médica, direitos e deveres do médico em geral e, em particular, do médico que exerce a prática homeopática. A obra está disponível na versão digital, podendo ser acessada pelo site do Conselho, em Ebooks e Publicações e no Aplicativo Cremesp.”*

Eis os links :

Acesse via youtube também:

https://www.cremesp.org.br/?siteAcao=NoticiasC&id=6269

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Aspects of Methodological Diversity in Medical Sciences (I) * * (Blog Estadão)

20 quinta-feira jul 2023

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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https://www.estadao.com.br/brasil/conto-de-noticia/aspectos-da-diversidade-metodologica-nas-ciencias-medicas-i/

Aspects of Methodological Diversity in Medical Sciences (I) *

On the next Wednesdays I will address some aspects of science related to the medical field in order to try to elucidate a debate and circumvent the risk of its eternal return. The need for this type of criticism and interlocution becomes urgent despite the systematic campaigns of disinformation that have frequented the media. Well, you don’t fight deceit and fraud with fanaticism, and they exist on all sides. The fanatic needs peremptory answers, axioms, and absolute certainties, science necessarily deals with questions, doubts and uncertainties. It, disinformation, will always exist and the discerning reader will know how to anticipate the motivations: often interests completely alien to science and the fruitful scientific debate. The absence of ethical criteria in this type of debate, although particularly disturbing since it involves public health and directly affects people undergoing treatment, is guided, above all, by an a priori decision — therefore not based on evidence. It is based on non-scientific assumptions — from revoking discussion to promoting a revival of anachronistic dogmas and promotion of “absolute certainties” inspired by an outdated neopositivism.

It would be assumed that those who dedicate themselves to producing scientific knowledge must be lucid enough to understand that the first certainty of the sincere researcher is to ensure that in matters of scientific research no conclusion is definitive or irreversible. It is worth noting that, in all available therapeutic arsenal, there are only 10 drugs with 1A certification, that is, undoubtedly efficient. Does this mean that doctors should limit themselves to prescribing only those on this list? No way. With ethics, responsibility and scientific security, we are always in the field of hypothesis testing. That is why epistemologists such as Karl Rotschuld classified medicine as an operative science, that is, there is always a dimension that we could classify as artisanal when the clinician interprets the symptoms and establishes the therapy that best suits each patient.
Scientific research must, therefore, necessarily be open to the counterintuitive and accept answers that contradict dogmas and the ideological-instrumental use of science, including unexplained conflicts of interest. .Despite the methodological shortcomings, there is already some evidence that, for example, acupuncture and homeopathy produce therapeutic results that surpass placebo, including results in veterinary, dentistry and even agriculture.

For this is what, for example, the World Health Organization has recently recognized with more emphasis, the important role played by integrative medicines, including homeopathy, acupuncture, yoga, meditation, massage and psychotherapy in their various modalities for people’s health. Therefore, it would seem inconceivable that in this first quarter of the 21st century, individuals and groups emerge, under the cunning cloak of an anti-obscurantist crusade, who have given themselves the role of omnipotent arbiters to define what is or is not “science”. And start to methodically, strategically and selectively attack any medical and/or therapeutic practice that does not seem to them, strictly and canonically, based on an epidemiology restricted to clinical results obtained through test tubes and quantitative results in groups of people. Interestingly, research points to the opposite side: qualitative studies that take into account individual responses have been increasingly valued.

Therefore, they lack criteria and, above all, clinical experience in medical practice to distinguish that the clinical logic has, in addition to the biocentric dimension, aspects that involve other perspectives such as constant monitoring of the mental state, valuation of subjective symptoms and preventive aspects in relation to mental health . And, last but not least, weighing the side effects of treatments and their corresponding costs — pecuniary and non-pecuniary — offered to the population.

One of the central issues in medicine has been underestimated and seems deliberately absent from most contemporary epistemological discussions. The advancement of techno-science in the production of pharmaceutical ingredients, associated with the growing – and welcome – sophistication of diagnoses, produced a harmful side effect: it displaced almost all questions related to mental suffering and the individualization of symptoms from medicine. The question is: How can medical practices reincorporate and deal with the subjectivity of each sick person?

Another concern is not only to circumvent the medicalization of life, but to seek to prevent patients from resorting to the systematic use and abuse of psychiatric drugs, particularly when these have no absolute indication. Therefore, a possible solution for the promotion of mental health, prevention and treatment of less serious psychic disorders may not only and primarily be training general practitioners to administer psychotropic drugs. The direction for the euphemism called “re-humanization of medicine” may be to give another approach such as rescuing an anthropological perspective for medicine and this rescue will take place exactly in the field of the doctor-patient relationship, the “medical friendship” as well defined by Lain Enteralgo.

This “ontology of the encounter”, based on a more comprehensive and generous semiology, and which is also processed in the doctor-patient relationship, can bring not only collateral therapeutic benefits, but an effective capacity to improve empathy and understanding of suffering. It is not an easy task. The doctor moves to meet another person with all his burden of subjectivity, and therefore needs to welcome and get involved, but without allowing himself to be psychically contaminated, that is, to remain within therapeutic objectivity.

The type of consultation, which is not a monopoly of homeopathy or other methodologies, but has always been part of an inclusive and welcoming technique, more detailed and comprehensive, where one investigates everything from eating habits to sleep characteristics, from hobbies to meteorological hypersensitivities, from personal idiosyncrasies to the family environment, creates, almost spontaneously, a closer relationship between doctor and patient and this produces additional benefits.

In this way, in the face of more intense and prolonged interviews, resulting from the requirements of the method itself, it is more than natural and a consequence of this proximity, that adherence to treatment increases, as well as the interest of those who are treated in following the therapeutic guidance proposed by the doctor.
That is why the aforementioned historian of medicine, Pedro Lain Entralgo. made a point of bringing a specificity: it is not a friendship as understood by common sense, but a “medical friendship”. Nor is it a stricto sensu form of psychotherapy – and one should even be careful with involuntary forms of wild psychoanalysis – but a transferential process that implies mutual commitment and shared responsibility.

It, the transference, is taken into account, even though some doctors have not yet been properly trained to use it properly. Do not confuse proximity and real identification (or complicity neurotic) with the patient (which can happen in either case) with the “friendship medicine”, a specific concept that involves refined listening skills associated with bonds of trust and solidarity. but there is always that natural barriers should be established so that borders are not confused.

Medical schools, even the best ones, generally focus on teaching physicians in the discipline of propaedeutics and semiology, on how to take an anamnesis, look for objective symptoms, catalog them, everything so that one can be able to form a plausible diagnostic picture to name and typify the pathology to be treated, and thus establish the most appropriate and effective therapy and prognosis.

If medicine wants to recover for itself the humanist tradition that was improperly and involuntarily giving way to the hypertrophy of biotechnology and armed propaedeutics applied to the health sciences, the rescue begins with the recovery of language and the meaning of suffering for each one. Since each person has a very particular way of getting sick and also a very particular way of being healthy. And as the French psychoanalyst Elizabeth Roudinesco explained, whenever new diseases appear, medicine also always finds new treatments. But, at the same time, when one pathology disappears, it gives way to another: “when syphilis was controlled, AIDS appeared, when psychotherapy found a way to treat hysteria, we witnessed an epidemic of depression” , wrote Roudinesco.

This also means that a physician must deal with the treatment in view of the specificity of the clinical complaint and the diagnosed disease. Now, this observation could be a way out, if and only if there was not a crisis in the health systems.

The WHO was right in what the report of a meeting held in Geneva, in 1988, predicted that in our 21st century we will have a prevalence of psychic disorders. After all, we would be entering what the text called the “depression century”.

In its latest report on June 17, 2022, the WHO made the biggest review of mental health since the turn of the century:

“In 2019, nearly one billion people – including 14% of the world’s adolescents – were living with a mental disorder. Suicide accounted for more than one in every 100 deaths, and 58% of suicides occurred before age 50. Mental disorders are the leading cause of disability, causing one in six years lived with disability. People with serious mental health conditions die an average of 10 to 20 years earlier than the general population, mostly due to preventable physical illnesses.”

The report also urges the health care community to adopt new approaches to mental health care:

“Establish community networks of interconnected services that move away from custodial care in psychiatric hospitals and cover a broad spectrum of care and support through a combination of mental health services integrated with general health care; community mental health services; and services beyond the health sector.”

There is, therefore, a dilemma in preventive medicine that warns, on the one hand, of the excessive cost of maintaining medical-hospital resources directed at already established diseases, and, on the other hand, dissatisfaction with the models of health services offered around the world.

As can be seen above, this aspect has worsened a lot during the recent pandemic due to multiple factors: social isolation, a major socioeconomic crisis, increased vulnerability of so-called risk groups and the enormous pressure exerted on children and adolescents during social distancing measures. According to the same report “Depression and anxiety increased by more than 25% in the first year of the pandemic alone.”

It can be tentatively stated that integrative and complementary medicine is not only necessary, it is inevitable.

Next Wednesday: The ethics of methodological plurality

References:

Institute of Medicine ; Board on Health Promotion and Disease Prevention ; Committee on the Use of Complementary and Alternative Medicine by the American Public https://nap.nationalacademies.org/catalog/11182/complementary-and-alternative-medicine-in-the-united-states (last accessed 03/22/2023)

AYRES, JRM “Preface”, in P. Rosenbaum, Homeopathy, Interactive Medicine . Rio de Janeiro: Imago, 2000. Pag. 17-18

ARAUJO, EC “ The therapeutic process of homeopathic medicine: the strategic role of the doctor-patient relationship. ” Doctoral thesis. FSP-USP, 2001.

CHARLES LICHTENTHAELER, La médecine hippocratique: méthode expérimentale et méthode hippocratique – étude comparée préliminaire, Lausanne, Les Frères Gonin, 1948. Personal translation. Pag. 8

DANTAS F. Homeopathy and health care in public services. Homeopathic Culture 2007; 18:13-15

LYRIO, C. Homeopathy program for family health in the city of Petropolis-RJ. perception of the health team and the community. Rio de Janeiro, 2007 Pag. 67. Available at: http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=162906

MINAYO, Maria Cecilia. The challenge of knowledge – qualitative health research . 2nd ed. São Paulo-Rio de Janeiro: Hucitec-ABRASCO, 1993.

FOUCAULT, M. The Hermeneutics of the Subject . Buenos Aires/Mexico: Fund for Economic Culture, 2002.

HAHNEMANN, S. Organon of the Healing Art . 6th ed. Ribeirão Preto: Museum of Homeopathy Abrahão Brickmann, 1995. Pag. 56

PUSTIGLIONE, Marcelo, Homeopathy and Basic Health Care. São Paulo: Dynamis Editorial, 1988

ROSENBAUM, P. & DANTAS, F. In search of consensus in homeopathy. Situation in 2023 . APH Journal of Homeopathy. Volume 84. No 1, 2023, pages 8-22. Access through VHL, Bireme: https://pesquisa.bvsalud.org/portal/resource/pt/biblio-1425548

______________ Homeopathy and health related quality of life: questionnaire NEMS-07 Homeopathy and quality of life in health: el cuestionario NEMS-07 Homeopathy and quality of life related to health: the NEMS-07 questionnaire. Homeopathic Culture, Volume 4 (13) January 2005

______________Article Published in the Blog “Conto de Notícia” in the newspaper “O Estado de São Paulo”: “Will Hahnemann be current 266 years later? 04/10/2021. Access and read through the link https://www.estadao.com.br/brasil/conto-de-noticia/hahnemann-sera-atual-266-anos-depois/

ROUDINESCO, E. In defense of psychoanalysis . São Paulo: Zahar, 2009.

WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO) Psychiatric Disability Assessment Schedule (WHO/DAS). Genève, 1988 [Technical Report].

Pan American Health Organization. (PAHO), Report prepared on June 17 , 2022

*Part of this article was part of a collection in a publication by the Technical Chamber of Homeopathy of CRM-SP entitled “Ethics in Homeopathy” Dantas, F.(Org.) et als. Recently Published by CREMESP. Access and read the book through this link:

https://www.cremesp.org.br/library/modulos/flipbook/etica_em_homeopatia/

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FINDING ALMA

28 quarta-feira jun 2023

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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ALMA – A visit to the ALMA project in the Atacama Desert

Finding SOUL (I)*

On May 17, 2023, moved by curiosity and passion for astronomy, I received a special authorization to visit the ALMA astronomical complex in the province of Antofagasta, municipality of Tucanao, 50 kilometers from San Pedro, in the Atacama desert, Chile. The desert is a vast region that also covers regions of Peru and reaches up to 1,000 south of Chile. We were welcomed by the complex’s visits coordinator, Danilo Vidal, who gave us an engaging and detailed tour of the facilities and an extensive and didactic explanation about the ALMA project, whose cost reached U$ 1.4 billion.

Due to adverse weather conditions – at an altitude of 5,200 meters, rapid and extreme changes require constant monitoring and precaution – we were unable to visit the plain where the 66 high-precision antennas are installed, so we had the rare opportunity to visit one of the antennas, the which, at the time, was under maintenance.

The ALMA name and human resources.

Radio telescopes are astronomical observation instruments capable of capturing a wide range of radio electromagnetic waves. Very distant galaxies, black holes and stars, not usually visible through optical telescopes, emit large amounts of radio waves. The acronym ALMA stands for Atacama Large Millimeter submillimeter Array. The work routine of scientists, researchers, technicians and support staff is complex. There are around 200 permanent employees who live in specially built accommodation in the complex, although since the beginning of the SarsCov2 pandemic, a good part of the staff has been working remotely, generally from the Chilean capital, Santiago.

ALMA is a common project that has 21 countries in collaboration with Chile (Brazil initially participated, but withdrew from the project). Effectively, there are three major representatives that coordinate the project, the ESO (European Southern Observatory) represented by 16 European countries, NAOJ ( National Astronomic Observatory of Japan ) represented by Japan and Taiwan, and the NRAO ( National Radio Astronomy Observatory ) represented by the United States. United States and Canada.

Place

What were the criteria for choosing the location in Chile, particularly in the plain of Antofagasta? And what about the choice of location for the installation of the 66 antennas in Chajnantor? How does the height and dry air (very low humidity) of the desert favorably influence radio astronomical observations in the coldest and most distant regions of the Universe?

“The worst enemy of astronomy is not light pollution, explains Danilo, but humidity.” Water vapor in the atmosphere reacts with light and obliterates it, therefore, “the higher the relative humidity of the air, the worse for astronomy”, he summarized. The Atacama is the driest desert in the world, and the higher the altitude, the greater the atmospheric pressure and the air becomes thinner, with 90% of the oxygen found below 3,000 meters of altitude. The average altitude of the Andes Mountains is 5,000 meters above sea level. Therefore, the choice of location for the ALMA project was made, mainly or especially, due to these two geographical virtues: the very low humidity associated with the Andes mountain range, the highest on Earth. The Atacama Desert met all the conditions in a unique and exceptional way.

Light

The ALMA operating system, officially inaugurated in 2013, was designed with limits in mind. What limits? Humanity could not work with large numbers and calculations of cosmological dimensions in an artisanal way, that is to say, resources became limited the more one advanced on the magnitudes detected in the cosmos. To measure distances we have several magnitudes and units of magnitude: kilometers, meters, decimeter, centimeter, millimeter, reaching the submillimeter.

Despite the fact, admitted by our current scientific knowledge, that the complex nature of light escapes our comprehension, we understand reasonably some of its properties: light is an electromagnetic wave that spreads through vacuum, it is also a particle of space that transports energy. This dual nature of light (wave-particle, electric and magnetic) has a wave amplitude that is usually measured in Hertz. What we can do is calculate the length of this wave, also known as hertzian waves. Their frequencies are lower than infrared waves, ranging between 300 GHz (3.0×10 11 Hz) and 3 kHz (3.0×10 3 Hz).

What we capture through our vision, and we call light, is just a limited spectrum of it. Visible light comprises only a small fraction of the electromagnetic spectrum in the region of about 380 nanometers (violet) to 770 nanometers (red) in wavelength. The real light phenomenon is greater than what we can see. Our brain is what transforms the information we receive through the eyes and interprets each spectrum of light as a “color”. The lower the wave frequency, the energy will also be lower. They propagate in vacuum with the speed of light (approximately 3.0×10 8 meters per second). What radio telescopes basically do is “see” and record light in the range of radio waves.

Telescopes and radio telescopes

Generally, the lay public in astronomy does not understand why the most distant astronomical bodies cannot be reached through mere eye inspection, but only through the radiation emanating from these bodies. Evidently, for the non-specialized public, everything that defies common sense is more difficult to understand. For example, in the case of radio telescopes, why were lenses and mirrors replaced by very sophisticated light wave detectors? It is worth mentioning that it would be very important to expand communication strategies to popularize and disseminate discoveries in radio astronomy.

Common telescopes, even the most modern ones, basically use reflection and refraction. The larger the size of a telescope’s mirror, the more photons are captured, and therefore accumulate more information. The larger the diameter of the telescope, the more light it captures. However, there are clear limits, since even if we managed to produce much larger mirrors, there would still not be enough technology to build, for example, a telescope with a mirror 2 kilometers in diameter.

Radiotelescope and radio interferometer

I expose more details of what a radio telescope means and the methodology of a radiointerferometer, and what are the main differences from common telescopes, even the most sophisticated ones, and how the idea of the “Array” arises.

This means clarifying for the public how the methodology was made possible due to the limitations of building telescopes with sufficient diameters to capture the incidence of light waves/radiation within the spectrum that ALMA proposes to capture.

What each ALMA radioteleoscope unit can detect is this spectrum of millimeter and submillimetre light. The expression ” Array ” refers to an ” ordered set of information ” that allows a greater angular resolution and that works analogously to a wide angle lens creating the effect of zoom. In ALMA, this set was elaborated through the installation of 66 antennas, 54 of them with 12 meters in diameter, distributed in a vast region of 16 kilometers. The “radar network” is interconnected to, forming a “functional unit”, apprehend information coming from the most distant and coldest regions of the Universe. This ordering, also known as interferometry in the case of ALMA, simulates a “mirror” or a “field” with a diameter of 16 kilometers, which makes ALMA the largest radio telescope system in the world.

Pioneering spirit and scientific protagonism

The ALMA project was a world pioneer when it assumed the coordination to manage to process the first image of a black hole. Needless to explain what was its importance for the world scientific community, and for the expansion of knowledge in astrophysics and cosmology. Especially in scientific research into the origins of the Universe.

ALMA’s findings hold an impressive average of one scientific paper per day, usually published in the main peer reviewer scientific journals in the world and according to Vidal, for its leadership and capacity for agglutination and cooperation between researchers in relation to astronomical phenomena linked to the beginnings of the Universe , ALMA has also been known as “The United Nations of World Astronomy”

One can list, by way of example, some of his main discoveries and revolutionary breakthroughs at ALMA: formation of planetary disks, nebulae, star nurseries, discovery of the oldest spiral Galaxy ever detected (https://almaobservatory.org/ en/press-releases/alma-discover-most-ancient-galaxy-with-spiral-morphology/2021), the discovery of the presence of oxygen in galaxies 13.2 billion years old ( https://alma-telescope.jp/en /alma10th/galaxy-formation ). In August 2014, the laboratory managed to detect an important molecule (acrylonitrile) in the atmosphere of Saturn’s moon, Titan, ( https://alma-telescope.jp/en/alma10th/molecule ) and also revealed the main chemical components derived from hydrogen, in the tail of a comet. And the investigation, mentioned above, which resulted in the most famous, although according to some, not the most important: it was through the ALMA project that it led the processing of the first image ever made of a black hole. The iconic photograph became a symbol of the project’s power to elucidate and consolidate its role in leading research on the origins of the Universe.

For anyone visiting the project, it will be inevitable to make some reflections and philosophical considerations on the developments of the ALMA project on other prospects and developments of research on the origin of the Universe. An apparently paradoxical aspect that emerged from this visit: verifying that the very advanced technology to detect the greatest cosmic phenomena and the probing of infinity, which researches unimaginable magnitudes and which go beyond our capacity for mathematical representation, depend on the detection of an almost invisible, of aspects of reality that escape our sense of perception.

the scientifically mysterious

On ALMA’s official website: “The ultimate question of the human species: will there be life beyond Earth?” Drawing attention to this unavoidable theme is more than a provocation, and the question is reaffirmed through the evocation of the paradox proposed by Enrico Fermi (1901-1954) : in the face of so many probabilities, why do we still not have a single unequivocal evidence of the presence of life off Earth to date?

For those who had the privilege of visiting the place, it becomes inevitable, almost mandatory, to resort to a new question: “Could it be that the more you try to elucidate the Universe, the more scientifically mysterious it becomes?”

Those interested in astronomy can access the official ALMA website for more information.

Special thanks to Silvia and Iael Rosenbaum, Hotel Explora, Projeto ALMA and Danilo Vidal

*Photos taken on site by the author.

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Encontrando ALMA I (Blog Estadão)

26 segunda-feira jun 2023

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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ALMA – Uma Visita ao projeto ALMA no Deserto do Atacama

Encontrando ALMA (I)*

Em 17 de agosto de 2023, movido por curiosidade e paixão pela astronomia, recebi uma autorização especial para visitar o complexo astronômico ALMA na província de Antofagasta, município de Tucanao, a 50 quilômetros de São Pedro, no deserto do Atacama, Chile. O deserto é uma vasta região que abrange também regiões do Perú e alcança até 1.000 quilometros ao sul do Chile. Fomos recepcionados pelo coordenador de visitas do complexo, Danilo Vidal, quem nos proporcionou um envolvente e detalhado tour pelas instalações e uma extensa e didática explanação sobre o projeto ALMA, cujo custo atingiu a marca de U$ 1,4 bilhão.

Por condições climáticas adversas – na altitude de 5.200 metros as mudanças rápidas e extremas exigem monitoramento constante — não pudemos visitar a planície onde ficam instaladas as 66 antenas de alta precisão, mas tivemos a rara oportunidade de visitar uma das antenas, a qual, na ocasião, encontrava-se em manutenção.

Flagrante de burros selvagens na porta de entrada do ALMA
Centro de Processamento de Informações ALMA
Uma das Antenas de 12 metros de diâmetro em manutenção.
Vista Geral dos Alojamentos  

O nome ALMA e os recursos humanos.

Radiotelescópios são instrumentos de observação astronômica capazes de captar um grande intervalo de ondas eletromagnéticas de rádio. Galáxias muito distantes, buracos negros e estrelas, geralmente não visíveis através de telescópios óticos emitem grande quantidade de ondas de rádio. O acrônimo A.L.M.A significa Atacama Large Millimeter submillimeter Array. A rotina de trabalho dos cientistas, pesquisadores, técnicos e pessoal de apoio é complexa. São cerca de 200 colaboradores permanentes que residem em alojamentos especialmente construídos no complexo, ainda que, desde o início da pandemia de SarsCov2, boa parte do pessoal trabalha de forma remota, geralmente a partir da capital, Santiago.

ALMA é um projeto comum que conta com 21 Países em colaboração com o Chile (o Brasil participou inicialmente, mas retirou-se do projeto). Efetivamente são três grandes representantes que coordenam o projeto, o ESO (European Southern Observatory) representado por 16 países europeus, NAOJ (National Astronomic Observatory of Japan) representado por Japão e por Taiwan, e o NRAO (National Radio Astronomy Observatory) representados pelos Estados Unidos e Canada.

Lugar

Quais foram os critérios da escolha da localização no Chile particularmente na planície de Antofagasta? E quanto à escolha do local para a instalação das 66 antenas em Chajnantor? Como a altura e o ar seco (baixíssima umidade) do deserto influenciam favoravelmente nas observações radio astronômicas das regiões mais frias e distantes do Universo?

“O pior inimigo da astronomia não é a poluição luminosa, explica Danilo, mas a umidade.” O vapor de água da atmosfera reage com a luz e a oblitera, portanto, “quanto maior a umidade relativa do ar, pior para a Astronomia”, resumiu.  O Atacama é o deserto mais seco do mundo, e quanto maior a altitude maior a pressão atmosférica e o ar se torna mais rarefeito, sendo que 90% do oxigênio encontra-se abaixo dos 3.000 metros de altitude. A altitude média da Cordilheira dos Andes é de 5.000 metros de altitude. Portanto a escolha da localização do projeto ALMA foi feita, principal ou especialmente, em função dessas duas virtudes geográficas: a baixíssima umidade associada à cordilheira dos Andes, a mais alta da Terra. O deserto do Atacama reuniu todas as condições de forma única e excepcional.

Luz

O sistema operativo do ALMA, inaugurado oficialmente em 2013, foi concebido em função dos limites. Quais limites? A humanidade não poderia trabalhar com grandes números e cálculos de dimensões cosmológicas de forma artesanal, vale dizer, os recursos tornaram-se limitados quanto mais se avançava sobre as grandezas detectadas no cosmos. Para medir distâncias temos várias magnitudes e unidades de grandeza: quilômetros, metros, decímetro, centímetro, milímetro, chegando ao submilimétrico.

Apesar do fato, admitido pelo nosso atual conhecimento científico, de que a natureza complexa da luz escapa à nossa compreensão, entendemos razoavelmente algumas de suas propriedades: a luz é uma onda eletromagnética que se espalha pelo vácuo, é também uma partícula do espaço que transporta energia. Esta natureza dual da luz (onda-partícula, elétrica e magnética) tem uma amplitude de onda que, em geral, é mensurada em Hertz. O que podemos fazer é calcular o comprimento desta onda, também conhecidas por ondas hertzianas. Suas frequências são menores que as ondas de infravermelho, variando entre 300 GHz (3,0×1011 Hz) e 3 kHz (3,0×103 Hz).

O que captamos através da nossa visão e chamamos de luz é apenas um limitado espectro dela. A luz visível abrange apenas uma pequena fração do espectro eletromagnético na região de cerca de 380 nanômetros (violeta) até 770 nanômetros (vermelho) de comprimento da onda. O fenômeno luz é maior do que podemos enxergar. Nosso cérebro é que transforma a informação que recebemos através dos olhos e interpreta cada espectro de luz como uma “cor”. Quanto menor a frequência de onda, a energia também será menor. Elas se propagam no vácuo com a velocidade da luz (aproximadamente, 3,0×108 metros por segundo). O que os radiotelescópios fazem basicamente é “enxergar” e registrar a luz na faixa de ondas de rádio.

Telescópios e radiotelescópios

Antena em manutenção.

Geralmente o público leigo em astronomia não compreende por que os corpos astronômicos mais distantes não podem ser alcançados pela inspeção ocular, mas somente através da radiação emanadas destes corpos. Evidentemente, tudo que desafia o senso comum o público não especializado tem mais dificuldades em compreender. Por exemplo, no caso dos radiotelescópios, por que lentes e espelhos foram substituídas por sofisticadíssimos detectores de ondas de luz? Vale dizer, seria muito importante ampliar as estratégias de comunicação para popularizar e divulgar as descobertas da radioastronomia.

Os telescópios comuns, mesmo os mais modernos, usam basicamente o reflexo e a refração. Quanto maior o tamanho do espelho de um telescópio mais fótons são capturados, e, portanto, acumulam mais informação. Quanto maior o diâmetro do telescópio mais captação de luz. Mas existem limites claros, pois mesmo se conseguíssemos fazer espelhos muito maiores, ainda não haveria tecnologia suficiente para a construção, por exemplo, de um telescópio com um espelho de 2 quilômetros de diâmetro.

Radiotelescopia e radio interferômetro  

Exponho mais detalhes do que significa um radiotelescópio e a metodologia de um radiointerferometro, e quais as principais diferenças dos telescópios comuns, mesmo os mais sofisticados e, como surge a ideia do “Array”.

Isto significa esclarecer para o publico leigo como se viabilizou a metodologia em função das limitações de construir telescópios com diâmetros suficientes para captar a incidência de ondas de luz/radiação dentro do espectro que o ALMA se propõe a captar.

O que cada unidade radioteleoscópica do ALMA consegue detectar é este espectro de luz milimétrica e submilimétrica. A expressão “Array” refere-se a um “conjunto ordenado de informações” que possibilita uma maior resolução angular e que funciona analogamente a uma lente grande angular criando o efeito de zoom. No ALMA este conjunto foi elaborado através da instalação de 66 antenas, 54 delas com 12 metros de diâmetro, distribuídas numa vasta região de 16 quilômetros. A “rede de radares”  encontram-se interconectados para, formando uma “unidade funcional”, apreender informações vindas das regiões muito distantes e frias do Universo. Esta ordenação também conhecida por interferometria no caso do ALMA simula um “espelho” ou um “campo” de um diâmetro de 16 quilômetros, o que transforma ALMA no maior sistema de radiotelescopia do mundo.

Pioneirismo e protagonismo científico

O projeto ALMA teve um pioneirismo mundial ao assumir a coordenação para conseguir processar a primeira imagem de um buraco negro. Desnecessário explicar e qual foi sua importância para a comunidade científica e para a ampliação do conhecimento em astrofísica e cosmologia. Especialmente na investigação científica sobre as origens do Universo.

Os achados do ALMA detém a impressionante média de um paper científico por dia, geralmente publicados nas principais revistas científicas peer reviewer no mundo e por sua liderança e capacidade de aglutinação e cooperação entre pesquisadores em relação aos fenômenos astronômicos ligados aos primórdios do Universo, segundo Vidal, ALMA também tem sido conhecido como “As Nações Unidas da Astronomia Mundial”

Pode-se listar, a titulo de exemplo, algumas de suas principais descobertas e breakthroughs revolucionários do ALMA: formação dos discos planetários, nebulosas, berçários de estrelas, descoberta da Galáxia em espiral mais antiga já detectada (https://almaobservatory.org/en/press-releases/alma-discover-most-ancient-galaxy-with-spiral-morphology/2021), a descoberta de oxigênio em galáxias há 13.2 bilhões de anos (https://alma-telescope.jp/en/alma10th/galaxy-formation). Em agosto de 2014, o laboratório conseguiu detectar uma importante molécula (acrylonitrile) na atmosfera da lua de Saturno, Titã, (https://alma-telescope.jp/en/alma10th/molecule) e ainda revelou os principais componentes químicos derivados do hidrogênio, na cauda de um cometa. E a investigação, acima mencionada, que resultou na mais célebre, ainda que segundo alguns, não a mais importante: foi através do projeto ALMA que liderou o processamento da primeira imagem já feita de um buraco negro. A fotografia, icônica, tornando-se um símbolo do poder de elucidação do projeto e de consolidação em seu papel na liderança da pesquisa sobre as origens do Universo.

Estudo das Galáxias em Espiral
Primeira foto já processada de um buraco negro.

Para qualquer que visite o projeto será inevitável fazer algumas reflexões e considerações filosóficas sobre os desdobramentos do projeto do ALMA acerca de outras prospecções e desdobramentos das pesquisas sobre a origem do Universo. Um aspecto paradoxal que emergiu desta visita foi constatar que a tecnologia avançadíssima para detectar os maiores fenômenos cósmicos e do sondar o infinito, que pesquisam grandezas inimagináveis e que podem extrapolar a nossa capacidade de representação matemática dependem da detecção de um invisível, de aspectos da realidade que escapam à nossa senso percepção.

O cientificamente misterioso

Charge fixada na porta de um dos laboratórios

Consta no site oficial do ALMA: “A derradeira questão da espécie humana: haverá vida fora da Terra?”  Chamar a a atenção para este tema incontornável é mais do que uma provocação, e a pergunta se reafirma através da evocação do paradoxo de Fermi: diante de tantas probabilidades por que ainda não temos uma única evidência inequívoca de presença de vida fora da Terra até o presente momento?

Para quem teve o privilégio de visitar o lugar torna-se inevitável, quase obrigatório, recorrer a uma nova indagação: “Será que quanto mais tenta-se elucidar o Universo mais cientificamente misterioso ele se torna?”

O público interessado em astronomia pode acessar o site oficial do ALMA para obter mais informações.

Agradecimentos especiais para  Silvia e Iael Rosenbaum, Hotel Explora, Projeto ALMA e Danilo Vidal

*Fotos feitas no local pelo autor.

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Criticism of Knowledge, Medicine and Ethics (Estadão)

04 domingo jun 2023

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Criticism of Knowledge, Medicine and Ethics (Estadão)

04 sunday jun 2023

Posted by Paulo Rosenbaum in Articles

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In all acceptable versions of what essentially characterizes medical activity, we find at least one main historical objective that is reasonably consensual: taking care of people’s health.

We have observed a pattern of behavior with controversial scientific subjects in the media — intensified in this pandemic period — that have been characterized both by the fulanization of the problem and by disqualification — which, for unexplained conveniences — selects or simply deletes other people’s arguments.

All consistent criticism needs to be praised, at least this should be the role of opposition in politics, and rival theories in science.

The tradition of polemics, unfortunately impoverished in the country and in the world – replaced by a sterile polarization – would have the merit of rescuing a healthy debate. Where all parties would come out more enlightened, even with the risk of us leaving with fierce divergences. This is the essence of criticism. Deepen knowledge of sensitive matters to make them more available to the general public. This would be one of the press papers.

It is necessary to combat the misinformation that — often under the cloak of an alarmist and sectarian discourse — we find every day in the communication vehicles. Therefore, it is equally important to denounce the strategy of, in the name of informing, disinforming.

It is unreasonable that systematic disinformation is ethically acceptable. And, in some cases, recalcitrantly. It is this approach that needs to be called out as sensationalist and deceitful. In the case of medicine, the spread of misleading information affects people undergoing treatment, creates disorientation for public health guidelines and, at times, generates unnecessary confusion, psychic damage and mental suffering.

In a recent article published prominently in a Rio de Janeiro journal, a microbiologist without any clinical experience, spread news of dubious techno-scientific accuracy about a complex epistemology that is based on the principle of similars. The critique of knowledge and scientific dissemination are essential, but require academic preparation and responsible journalistic treatment.

In addition to making unfounded and generalizing judgments about the practice of homeopathic medicine – insinuating that all physicians who work in the specialty are under a scientifically inconsistent scope, the writer took the clouds for Juno when she entered a field, which, notably, she ignores. As is known, arrogance is one of the hallmarks of a fool, who thinks he has mastered subjects he has no idea about or worse, has distorted essential notions about a discipline. First of all, the column, in addition to being clumsy, is a crass error in terms of proper research and compromises the serious scientific media.

What is experience from a scientific point of view?

These are not just reproducible laboratory data in controlled environments, as common sense might think. According to the epistemologist Gaston Bachelard, experimenting consists of asking the right questions . He highlights that the history of science cannot be merely empirical, but, above all, the progress of the rational connections of knowledge. Thanks to this way of thinking, procedures that were prematurely discarded by science can be rescued and given a new meaning. Demonstrating that history can be very far from a final word.

It was, for example, the typical case of acupuncture. From its early discard to its redemption, we have an interesting story related by the Austrian epistemologist Paul Feyrabend. This author tells that when Mao Tzé Tung came to power, he wanted to know what alternatives there would be to what he classified as ‘bourgeois Western medicine’. It was reported that in the mountains, far beyond Beijing, there were practitioners of a millenary form of traditional Chinese medicine that involved the combination of procedures such as moxibustion, acupuncture and herbal medicines.

The Chinese dictator called these supposedly anachronistic representatives who were proving their worth when installed in an environment that stimulated research at Peking University. For anachronistic ideological reasons, the agent ended up producing an important rescue. Decades later, they had reconstituted the tradition, sometimes even at the risk of mischaracterizing it, and continued to be funded to apply and research it in an academic environment.

The process of scientific validation of the so-called non-hegemonic medicines has progressed. It found more and more fans around the world, especially after the boom in North America in the 1970s. Until, very recently, acupuncture (just one of the branches of traditional Chinese medicine) became institutionally established, even in the most traditional medical circles. Environments in which, for a long time, they were openly hostile to this practice. Today, along with traditional medicines, they are even medicinal systems recommended by the World Health Organization.

Thus, it is necessary to criticize the false notion, still fertile within the hard sciences, that there would be a ‘crucial experiment’ that would determine the complete acceptance or repudiation of a discipline. Even because, according to Imre Lakatos, crucial experiences are only seen as crucial a long time ahead.

When the analysis focuses on the history of medicine, rare are the historians who take a retrospective look at this science.

There is no reason to be surprised that science is not neutral and nurtures political and economic motivations in its determinations, and also in its argumentative leniency. That is, it is necessary to recognize the non-universal nature of normative standards of any science.

For Bachelard, identifying and understanding a science is to map its methodological and theoretical-practical impasses that originated it as a rational procedure. This handling of the problem was conceptually quite innovative. It was part of an important reaction against the excessive confidence that industrial society placed in experimental sciences and their methodologies, characteristics of classical positivism, and which gave rise to a strange version of secular fundamentalism, this time, a kind of scientistic apostolate.

Confidence that gained an axiomatic status: it was about univocal and irrefutable truths. Some devotees of the experimental sciences intended to construct “superparadigms”.

Positivism, like all currents of thought, had its moment and value, however its determinism and its hegemonic pretension no longer sustain themselves as exclusive parameters for the construction of genuine scientific dialogues.

Under the persistence of this profile a desirable intellectual openness in the scientific mainframe cannot yet be operationalized.

The epistemology proposed by Bachelard, therefore, criticizes the anachronism of logical positivism in its aspiration to be the hegemonic method in the construction of scientific postulates:

‘Seeing is believing, this is the ideal of this strange pedagogy. It doesn’t matter if the thought is, consequently, from the poorly seen phenomenon to the poorly made experience… instead of going to the rational research program for the isolation and experimental definition of the scientific fact, always artificial, delicate and hidden’

Scope and limits of science

This philosophical version of scientific facts is of enormous value when we analyze the practical life of contemporary society. Historical epistemology being, par excellence, a critical analysis of science that also reaches its historical-social and logical dimensions, examined less the ‘how’ of scientific activity and much more its ‘why?’ Bachelard uses applied rationalism in the search for these answers, asking very uncomfortable questions, especially for those who practice selective skepticism. For this very reason, they became vital questions: what ideologically directs science in its trajectories? What are its possible scope and limits? How does it fit into the relationship and connections with other fields of knowledge? Will it meet the needs or even the desires of the subjects of society?

Scientific information has been disseminated as if we were in a therapeutic tournament, whose prize would be definitive conclusions. To the dismay of many they simply do not exist in the true spirit of scientific activity. Researchers committed to scientific criteria should be the main protagonists of the insurgency. The first to rise up against static convictions based on intuition. On the contrary, the greatest value is in detecting unexpected results and valuing unexpected and counter-intuitive findings.

This reflection leads to other concerns: if a society can produce and publish millions of papers a year in peer review journals, will readers be available for each one of them?

What about the value of practical knowledge? Society knows this well, so it looks for doctors with experience. Because the lens of clinical experience is still an irreplaceable tool for self-training. As well as the existential density provided by dealing with peers translated into clinical medicine through the doctor-patient relationship.

Bachelard dreamed of a philosophy sufficient for science to be able to construct its own critique. The proposal would be to resist the idea that sensitive knowledge could be the immanent source of discoveries.

One should be suspicious, thought the philosopher, of an intrinsic conceptual clarity that claims that everything dominates. Who ignores the ignored and disregards the unexplainable. For this reason, it is worth investing in the formative instinct that seeks a new pedagogy of science – against the old conservative spirit – committed to obtaining clear evidence through induction, evidence and abduction.

For it is this self-criticism that is lacking in a universal application of the evocation of a finished science to the medical arts. Undoubtedly, the more standardized, tested, that is to say, the more evident the therapeutic benefit is, considering the unavoidable epidemiological risk-protection equation, the better and more desirable the procedure chosen for a patient will be.

And medical science seeks to pursue this ‘gold’ standard of scientific excellence in its research. What neither she nor her protagonists can avoid is subsuming that because it is based on epidemiological findings of statistical relevance it can abstract other medical rationales from its horizons. Logics that could not have the same constancy or statistical regularity in traditional clinical research designs.

Independence and budget

There can be no moral equivalence in comparing the development conditions of integrative medical rationales without considering the proportional effective availability of resources for research and publications.

It is evident that it would be necessary for the States to adopt public policies that would grant some emancipation of the research centers in relation to the pharmaceutical industry. Here is an area where a more present State could be beneficial for the population: instead of breaking patents (a political measure, as a rule, used in a populist way), would it not be much better to generate patents for medicinal substances open?

As the historian of medicine Henry Sigerist stated in the mid-twentieth century, only independence and a budget for scientific investigations provided by the State can make drug research and investigation of clinical procedures more impartial, safe and, above all, reliable. This is in the public interest.

It is also impossible to disregard that other therapeutic procedures act on different aspects of the subject. A lot of them. beyond the illness itself. Or do psychoanalysis, massage, meditation, exercises, dietary patterns, procedures that do not involve drugs, not to mention leisure itself, play relevant roles in human life?

They certainly interfere with other success criteria, and therefore produce other evidence. If medical science has been finding important answers in genetic research and molecular biology, it is even more important to turn to the subject and understand his idiosyncrasies and susceptibilities, aspects that characterize him both in illness and in health. This is how it becomes even more relevant to answer the disturbing question of why the same causal agent does not determine the same pathology in all those exposed, or why we react differently to the same drugs.

Therefore, it is not enough to give humanities classes to physicians, even though this would already be, in itself, a very auspicious beginning. It is necessary to rethink the training criteria in a more acute way and only to use a word modestly avoided, radical. It is necessary to place greater weight on generalist and primary health care, as this is what can make care more accessible.

It is these currents that together can effectively prevent illness and promote health. It is necessary to teach the new generations of doctors everything that is most modern available, but giving due counterweight to technological sophistication. What would be truly harmful to society would be if only one type of medical thinking prevailed. There is room for all types of medicine and for all good medical practice.

Find new forms of coexistence between the different healing techniques. Methodological hegemony is not only anachronistic, but an insult to science that intends to be investigative and that adopts the Popperian criterion of refutability.

So how about less peremptory diagnoses and more open-mindedness? Less misinformation for those who seek ethical methods to assuage their suffering, and more reflection and respect? How about valuing more clinicians who strive to bring care, relief, solidarity, palliation, and when possible cure to sick people?

______________________________________________

With regard to the discussion on ethics and medicine, I recommend that readers who want precise information access the CREMESP (Regional Council of Medicine of the State of São Paulo) website to read and reflect without prejudice on a recent publication. It is a text that, certainly, will not be unanimous, but will contribute to clarify society about the Ethics and Reasons of Medicine from the point of view of the specialty.

The book “Ethics in Homeopathy” is an anticipation with public clarifications that prevents biased misinformation about the specialty and, mainly, stimulates the discussion about what type of care should also be available in public and private services in the country. It resumes the discussion on the subject’s ethics, the importance of a research program, the preventive aspect of therapies, the ethos of care, the rescue of the doctor-patient relationship, without anachronistic opposition to technoscience.

*Below Text extracted from the CREMESP website

“With a special focus on the reality of the country, Ethics in Homeopathy brings themes that reflect, for example, the insertion of homeopathy in the public health system, the teaching of medical ethics, the rights and duties of doctors in general and, in particular, doctors practicing homeopathy. The work is available in the digital version, and can be accessed on the Council’s website, in Ebooks and Publications and in the Cremesp Application.”*

Here are the links:

Access via youtube too:

https://www.cremesp.org.br/?siteAcao=NoticiasC&id=6269

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Critica do Conhecimento, Medicina e a Ética (Estadão)

04 domingo jun 2023

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

≈ 1 comentário

Em todas as versões aceitáveis do que essencialmente caracteriza a atividade médica encontramos pelo menos um objetivo histórico principal razoavelmente consensual: cuidar da saúde das pessoas.

Temos observado um padrão de comportamento com assuntos científicos polêmicos na mídia — intensificado neste período de pandemia — que vêm se caracterizando tanto pela fulanização do problema, como pela desqualificação — que por conveniências não explicitadas — seleciona ou simplesmente deleta argumentos alheios.

Toda critica consistente precisa ser enaltecida, pelo menos este deveria ser o papel da oposição na política, e das teorias rivais nas ciências.

A tradição da polêmica, infelizmente empobrecida no País e no Mundo – substituída por uma polarização estéril —  teria o mérito de resgatar um debate saudável. Onde todas as partes sairiam mais esclarecidas, ainda que com o risco de sairmos com as divergências acirradas. Essa é a essência da crítica. Aprofundar o conhecimento de matérias sensíveis para torná-las mais disponíveis para o grande público. Este seria um dos papéis da imprensa.

É preciso combater a desinformação que — muitas vezes sob o manto de um discurso alarmista e sectário — encontramos todos os dias nos veículos de comunicação. Portanto, é igualmente importante denunciar a estratégia de, a título de informar, desinformar.

Não é razoável que a  desinformação sistemática seja eticamente aceitável.  E, em alguns casos, de forma recalcitrante. É esta abordagem que precisa ser apontada como sensacionalista e dolosa. No caso da medicina, a propagação de informações enganosas afeta pessoas em tratamento, cria desorientação para as diretrizes da saúde pública e, as vezes, gera confusão, danos psíquicos e sofrimento mental desnecessários.

Num recente artigo publicado com destaque em um periódico carioca uma microbiologista sem qualquer experiência clínica, arvorou-se em espalhar notícias de duvidosa acurácia tecno-científica acerca de uma epistemologia complexa que se baseia no princípio dos semelhantes. A critica do conhecimento e a divulgação científica são essenciais, porém requerem preparo acadêmico e trato jornalístico responsável.

Além de lançar juízos infundados e generalizantes sobre a prática da medicina homeopática – insinuando que todos os médicos que atuam na especialidade encontram-se sob um escopo cientificamente inconsistente a articulista tomou as nuvens por Juno quando entrou em uma seara, a qual notadamente, ignora. Como se sabe, a arrogância é uma das marcas do néscio, que julga dominar assuntos sobre os quais não faz ideia ou pior, tem noções essenciais distorcidas sobre uma disciplina. Antes de tudo, a coluna, além de desastrada é um erro crasso em matéria de pesquisa idônea e compromete a mídia científica séria.

O que é a experiência do ponto de vista científico?

Não são só dados laboratoriais reproduzíveis em ambientes controlados como pode pensar o senso comum. Segundo o epistemólogo Gaston Bachelard experimentar consiste em fazer as perguntas certas. Ele destaca que a história das ciências não pode ser meramente empírica, mas, antes de tudo, o progresso das ligações racionais do saber. Graças a esta forma de pensar pode-se resgatar procedimentos que foram precocemente descartados pela ciência e ressignificá-los. Demonstrando que a história pode estar muito distante de uma palavra final.

Foi, por exemplo, o típico caso da acupuntura. Do descarte precoce à sua redenção temos uma história interessante relatada pelo epistemólogo austríaco Paul Feyrabend. Conta este autor que quando Mao Tzé Tung chegou ao poder quis saber quais alternativas teria aquilo que classificou como ‘medicina ocidental burguesa’. Foi informado que nas montanhas, muito além de Beijing, resistiam praticantes de uma multimilenar forma de medicina tradicional chinesa que envolvia a associação de procedimentos como moxabustão, acupuntura e fitoterápicos.

O ditador chinês chamou estes supostamente anacrônicos representantes que foram provando seu valor quando instalados em ambiente de estimulo a pesquisa na Universidade de Pequim. Por motivações ideológicas anacrônicas o mandatário acabou produzindo um resgate importante. Décadas depois haviam reconstituído a tradição, às vezes até mesmo sob o risco de descaracterizá-la, e continuaram sendo financiados para aplicá-la e pesquisá-la em ambiente acadêmico.

O processo de validação científica das chamadas medicinas não hegemônicas progrediu. Foi encontrando cada vez mais adeptos no mundo, especialmente a partir do boom ocorrido na América do Norte nos anos setenta. Até que, muito recentemente, a acupuntura (apenas um dos braços da medicina tradicional chinesa) sedimentou-se institucionalmente, inclusive nos meios médicos mais tradicionais. Ambientes nos quais, durante muito tempo, eram declaradamente hostis a esta prática. Hoje, junto com as medicinas tradicionais, são, inclusive, sistemas medicinais recomendados pela Organização Mundial de Saúde.

Assim, há que se criticar a falsa noção, ainda fecunda dentro das ciências duras, de que haveria um ‘experimento crucial’ que determinaria a completa aceitação ou repúdio de uma disciplina. Mesmo porque, segundo Imre Lakatos, experiências cruciais só são vistas como cruciais muito tempo adiante.

Quando a análise enfoca a história da medicina, raros são os historiadores que lançam um olhar retrospectivo sobre esta ciência.

Não há porque se espantar que a ciência não seja neutra e nutra motivações políticas e econômicas em suas determinações, e, também, em sua leniência argumentativa. Ou seja, impõe-se reconhecer a não universalidade nos padrões normativos de ciência alguma.

Para Bachelard, identificar e compreender uma ciência é mapear seus impasses metodológicos e teórico-práticos que a originaram como procedimento racional. Esta condução da problemática foi conceitualmente bastante inovadora. Inscreveu-se como uma reação importante contra a confiança excessiva que a sociedade industrial depositou nas ciências experimentais e em suas metodologias, características do positivismo clássico, e que deu origem a uma estranha versão de fundamentalismo laico, desta feita, uma espécie de apostolado cientificista.

Confiança que ganhou estatuto axiomático: tratava-se de verdades unívocas e irrefutáveis. Alguns devotos das ciências experimentais pretendiam construir “superparadigmas”.

O positivismo, como todas as correntes de pensamento, teve seu momento e valor, entretanto seu determinismo e sua pretensão hegemônica, não se sustentam mais como parâmetros exclusivos para construção dos genuínos diálogos científicos.

Sob a persistência deste perfil uma abertura intelectual desejável no mainframe científico ainda não pode ser operacionalizada.

A epistemologia proposta por Bachelard, portanto, critica o anacronismo do positivismo lógico em sua aspiração de ser o método hegemônico na construção dos postulados científicos:

‘Ver para crer, este é o ideal desta estranha pedagogia. Pouco importa se o pensamento for, por consequência, do fenômeno mal visto para a experiência mal feita…em vez de ir ao programa racional de pesquisas para o isolamento e a definição experimental do fato científico, sempre artificial, delicado e escondido’

Alcances e limites da ciência

Esta versão filosófica dos fatos científicos tem enorme valor quando analisamos a vida prática da sociedade contemporânea. A epistemologia histórica sendo, por excelência, uma análise crítica da ciência que alcança também suas dimensões histórico-social e lógica, examinava menos o ‘como’ da atividade científica e muito mais seu ‘por quê?’ Bachelard usa o racionalismo aplicado na busca destas respostas, fazendo perguntas bastante incomodas, especialmente para aqueles que praticam o ceticismo seletivo. Por isto mesmo tornaram-se indagações vitais: o que direciona ideologicamente a ciência em suas trajetórias? Quais seus possíveis alcances e limites? Como se insere na relação e nas ligações com outros campos de conhecimento? Atenderá ela as necessidades ou mesmo o desejo dos sujeitos da sociedade?

Informações científicas tem sido divulgadas como se estivéssemos em um torneio terapêutico, cujo prêmio seriam as conclusões definitivas. Para desolação de muitos elas simplesmente inexistem no verdadeiro espírito da atividade científica. Os pesquisadores comprometidos com os critérios científicos deveriam ser os maiores protagonistas da insurgência. Os primeiros a se levantar contra convicções estáticas e à base da intuição. Pelo contrário, o valor maior está em detectar resultados inesperados e valorizar os achados inesperados e contra-intuitivos.

Esta reflexão desdobra-se em outras inquietações: se uma sociedade pode produzir e publicar em revistas peer review (revisadas por pares) milhões de papers ao ano, haverá leitores disponíveis para cada um deles?

E quanto ao valor do conhecimento prático? A sociedade bem o sabe, por isso procura médicos com experiência. Pois a lente da experiência clínica ainda é um instrumento insubstituível de autoformação. Assim como a densidade existencial proporcionada pelo trato com semelhantes traduzidos na clínica médica através da relação médico-paciente.

Bachelard sonhava com uma filosofia suficiente para que a ciência pudesse construir sua própria crítica. A proposta seria resistir à ideia de que o conhecimento sensível pudesse ser a fonte imanente de descobertas.

Deve-se desconfiar, pensava o filósofo, de uma clareza conceitual intrínseca que afirma que tudo domina. Que desconhece o ignorado e desconsidera o não explicável. Por isto, vale muito investir no instinto formativo que busque uma nova pedagogia da ciência – contra o velho espírito conservador – comprometida em obter provas claras por meio da indução, dos indícios e da abdução.

Pois é esta autocrítica que falta a uma aplicação universal da evocação de uma ciência acabada para as artes médicas. Sem dúvida que, quanto mais padronizado, testado, vale dizer, quanto mais evidente for um beneficio terapêutico, considerando a incontornável equação epidemiológica risco-proteção, tanto melhor e mais desejável será o procedimento eleito para um enfermo.

E a ciência médica procura buscar este padrão ‘ouro’ de excelência científica em suas pesquisas. O que nem ela, nem seus protagonistas podem evitar é subsumir que porque ela se pauta em achados epidemiológicos de relevância estatística ela pode abstrair de seus horizontes outras racionalidades médicas. Lógicas que não puderam ter a mesma constância ou regularidade estatística nos desenhos tradicionais de pesquisa clínica.

Independência e budget

Não pode haver equivalência moral em comparar as condições de desenvolvimento das racionalidades médicas integrativas sem considerar a disponibilidade efetiva proporcional de recursos para pesquisas e publicações.

É evidente que seria necessário que os Estados adotassem políticas públicas que conferissem alguma emancipação dos centros de pesquisa em relação à indústria farmacêutica. Eis uma área onde um Estado mais presente poderia ser benéfico para a população: no lugar de quebrar patentes (uma medida política, via de regra usada de forma populista) não seria muito melhor gerar patentes de substâncias medicamentosas abertas?

Como afirmava o historiador de medicina Henry Sigerist em meados do século XX, somente a independência e um budget para investigações científicas provido pelo Estado podem tornar as pesquisas com fármacos e investigação de procedimentos clínicos mais imparciais, seguros e, sobretudo, confiáveis. Isto é de notório interesse público.

Também é impossível desconsiderar que outros procedimentos terapêuticos agem em aspectos distintos do sujeito. Muitos deles. para além da moléstia propriamente dita. Ou a psicanálise, a massagem, a meditação, os exercícios, o padrão alimentar, os procedimentos que não envolvam fármacos, sem contar o próprio ócio, não desempenham papéis relevantes na vida humana?

Decerto que interferem em outros critérios de sucesso, e, portanto, produzem outras evidências. Se a ciência médica vem encontrando respostas importantes na pesquisa genética e na biologia molecular, mais importante ainda se torna voltar-se ao sujeito e compreender suas idiossincrasias e suscetibilidades, aspectos que o caracterizam tanto na enfermidade como na saúde. É assim que mais relevante ainda torna-se responder a inquietante dúvida de por que é que o mesmo agente causal não determina a mesma patologia em todos os expostos, ou por que reagimos diferentemente aos mesmos fármacos.

Portanto, não basta dar aulas de humanidades para os médicos, ainda que isto já fosse, por si só, um início bastante auspicioso. É necessário repensar os critérios de formação de forma mais aguda e só para usar uma palavra pudicamente evitada, radical. É necessário colocar maior peso no generalista e na atenção primária à saúde, pois é esta que pode tornar o Cuidado um bem mais acessível.

São estas correntes que juntas podem, efetivamente, prevenir enfermidades e promover a saúde. É preciso ensinar as novas gerações de médicos tudo de mais moderno disponível, mas dando o devido contrapeso à sofisticação tecnológica. O verdadeiramente lesivo à sociedade seria se só um tipo de pensamento médico prevalecesse. Há espaço para todas as medicinas e para toda boa atuação médica.

Encontrar novas formas de convívio entre as diferentes técnicas curativas. A hegemonia metodológica é, não apenas anacrônica, mas um insulto à ciência que se pretende investigativa e que adota o critério popperiano de refutabilidade.

Portanto, que tal menos diagnósticos peremptórios e mais abertura mental? Menos desinformação aos que procuram métodos éticos para aplacar seus sofrimentos, e mais reflexão e respeito? Que tal valorizar mais os clínicos que se esforçam para trazer cuidado, alívio, solidariedade, paliação, e quando possível cura para as pessoas doentes?

______________________________________________

A propósito da discussão sobre ética e medicina, recomendo aos leitores que desejam informações precisas, que acessem o site do CREMESP (Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo) para ler e refletir sem preconceitos sobre uma recente publicação. Trata-se de um texto que, decerto, não será unanimidade, mas contribuirá para esclarecer a sociedade sobre a Ética e as Razões da Medicina do ponto de vista da especialidade.

O livro “Ética em Homeopatia” é uma antecipação com esclarecimentos públicos que previne a desinformação tendenciosa sobre a especialidade e, principalmente, estimula a discussão sobre qual tipo de atendimento deve também estar disponível nos serviços públicos e privados do País. Retoma a discussão sobre a ética do sujeito, a importância de um programa de pesquisas, o aspecto preventivo das terapêuticas, o ethos do cuidado, o resgate da relação médico-paciente, sem uma oposição anacrônica à tecnociência.

*Abaixo Texto extraído do site do CREMESP

“Com foco especial à realidade do País, Ética em Homeopatia traz temas que refletem, por exemplo, a inserção da homeopatia no sistema público de saúde, o ensino da ética médica, direitos e deveres do médico em geral e, em particular, do médico que exerce a prática homeopática. A obra está disponível na versão digital, podendo ser acessada pelo site do Conselho, em Ebooks e Publicações e no Aplicativo Cremesp.”*

Eis os links :

Acesse via youtube também:

https://www.cremesp.org.br/?siteAcao=NoticiasC&id=6269

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Minhas Navalhas Pendentes Resenha por Lúcia Blanc Barnea) Blog Estadão

25 terça-feira abr 2023

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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#navalhaspendentes, Lúcia Barnea

Resenha do livro Navalhas Pendentes, por Lúcia Blanc Barnea

Minhas Navalhas Pendentes

Homero Arp Montefiore é protagonista e narrador de Navalhas Pendentes, romance policial especulativo com caráter de ficção científica de Paulo Rosenbaum. Alter ego do escritor, o erudito Homero nos conduz por uma trama que se desenrola seja na casa editorial, seja em sua fantasia – ora pelos hiatos de sua memória, ora pelas conjeturas de seu raciocínio célere, de intelecto hábil e cultivado, sempre voraz por compreender, desvendar -, recheado de referências intertextuais de universos os mais distintos. Detetive e/ou autor dos crimes investigados?

Em meio às galopantes transformações por que passa o universo do livro, entre os quais o digital, o audiobook, a literatura em bandas desenhadas, a proteção dos direitos de propriedade intelectual dos autores quando o saber se compartilha gratuitamente (e a verdade se torna relativa), os grandes conglomerados de distribuição de livros, mega livrarias e casas editoriais gigantescas em escala mundial e o polêmico Chat GPT – que, surpreendentemente, e com dois anos de antecedência,o texto de alguma forma antecipou – a ferramenta de inteligência artificial lançada no final de 2022… eis que Rosenbaum incorpora a Navalhas Pendentes a discussão em torno da extinção da cultura e da criatividade humanas, da obra pós-humana, ao aportar à narrativa a inteligência artificial. Seria um algoritmo o autor/reprodutor de fórmulas dos best-sellers da editora Filamentos, membro da editora em formação KGF-Forster, maior conglomerado editorial do mundo? Um enigma que cabe ao autor e ao leitor decifrarem.

A fuga de Homero Arp é, por assim dizer, mais uma camada superposta do livro e se torna necessária à medida que o personagem avança em suas descobertas acerca da identidade do escritor Karel F, do segredo da Filamentos e, principalmente, quando se torna um fugitivo da justiça. Assim, o autor nos convida por um passeio pelo Cone Sul, pela cidade de São Paulo e seu interior, por um balneário de um certo destino no norte do Espírito Santo, Montevidéu, pelos pampas uruguaios, uma quase visita ao paradisíaco Cabo Polônio, finalmente por um povoado na Patagônia… – todos paradeiros nebulosos, os quais, um a um, incitam o narrador a divagar.

Há em Navalhas Pendentes citações notáveis, significativas, com quem nosso protagonista dialoga – de Serveto, Paul Ricoeur, Jorge Luis Borges, Paul Éluard, Yuval Harari, Francis Bacon, do Rei Salomão, de Freud… e de outros autores e pensadores não menos ilustres – um livro que fala sobre livros, um livro de muitos livros. No mesmo fôlego, Homero domina a nomenclatura médica e discorre com simplicidade sobre questões filosóficas existenciais como a solidão, a natureza, a memória, a criação e a literatura, o tempo, a condição humana, enfim.

O livro objeto e sua diagramação gráfica demandam atenção e complementam a experiência visual: as páginas são aeradas, a paginação sai de sua zona de conforto e se desloca para a lateral, as navalhas presentes nas páginas ímpares; as seções e capítulos são bem marcados, aquelas divididas pela anacronismo de uma fotografia em preto e branco de uma máquina de escrever vintage — quiet de luxe Royal –, cuja revelação se torna mais nítida à medida que o texto avança – quiçá em comunicação com as epígrafes de Aldous Huxley e do Rei Salomão? Há também outras presenças inusitadas, que pedem ao leitor atenção.

Algumas elucubrações sobre nosso protagonista Homero Arp Montefiore: seria uma alusão ao criador da Odisseia, ou quiçá o Ulysses de James Joyce a compartilhar com o leitor o jorrar de seu fluxo de consciência? Seria ARP acrônimo de Address Resolution Protocol? Sigla cujo papel fundamental é identificar o endereço físico de uma máquina/placa de uma rede de computadores para então criar uma tabela de correspondência entre os endereços lógicos da internet e os endereços físicos em uma memória secreta? Justamente um componente central do enigma da trama?

Pois está Homero decidido a descobrir a verdadeira identidade e localização do/a grande fabricador/a de sucessos literários Karel F., já que suspeita da manipulação e fabricação de best sellers sequenciais da casa editorial na qual trabalha como leitor de originais e editor. O sobrenome Montefiore confere a identidade judia de nosso protagonista, e nos remete à sua estirpe europeia. Seria ele um descendente de Moses Montefiore, banqueiro e filantropo italiano naturalizado britânico, e um dos expoentes do protossionismo? Seria um estrato adicional: em um livro que discorre sobre ascendência e descendência, nosso Homero – diferente de seu ancestral -, opta por assimilar uma nova identidade, mais próxima à cultura indígena das terras do Extremo Sul para onde imigra, cria raízes e descendência.

Minhas navalhas pendentes das Navalhas Pendentes são as questões filosóficas que emergem texto adentro como pontadas e que por vezes refletem o mal-estar assumido de Homero frente ao Zeitgeist atual.

Confesso que das camadas do livro de Rosenbaum, é essa a que mais me seduz. Por isso, uma vez finda a leitura da narrativa de suspense, recomendo o exercício de atravessá-la em diagonal, com a intenção de repescar as citações e o divagar de ideias, que conferem riqueza e densidade à obra.

Lucia Blanc Barnea, antropóloga, Raanana (Israel)

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While there is curiosity (nothing about IA)

30 quinta-feira mar 2023

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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While there is curiosity

I just heard the outburst of a customer service user, who complained about the artificial intelligence of a bank customer service, stating: “I’ve been on the phone for 40 minutes and I still haven’t heard a single live human voice”.

In dictionaries, the artificial word falls under the same analogue key as fraud. The Thesaurus of the Portuguese language provides us with other, gentler definitions: untruth, papironga=cheating, codilho, canudo, delusion, falcatrua, embaçadela=pulha, ribaldia, guile, deceit, escatima, piece, trickery, hoax, ruse, trampolhinice.

The issue of applied technology in artificial intelligence which, among others, I have just addressed in my most recent novel “Pending Razors”* should not take anyone by surprise. But it did. The subject became almost hegemonic after the news that the platforms of large technology companies announced their products as paradigm shifts. Along with the fascination, the old apprehension that machines would have unlimited potential and would directly threaten the creative ability of human beings was reborn.

The titular guru of technoscience announced from his sterilized podium: “we are on the eve of a great revolution, the greatest of which is “the prevalence of useless subjects”. Apparatus, robots and intelligent production control systems will inevitably replace human beings. First , would come the extinction of jobs in more artisanal services: mechanics, hairdressers, assemblers, electricians, plumbers etc. Then the progressive obsolescence of doctors, lawyers, writers, teachers, judges, designers, policemen, screenwriters, filmmakers, journalists, and the greatest part of the liberal professions, all these activities threatened by the management of machines that will do the job better, faster and more efficiently.

In the evoked logic it seems to point to this transformation as an inexorable phenomenon. But is it desirable? And what forces would propel him forward?

Without falling into conspiracy theories the answer seems self-evident. The same power of oligopolies that brought us the liberation of menial and intellectual work, simultaneously carried out the dialectic of brand new challenges, problems and imprisonments. All of this could even be better understood as long as we put technocracy in its proper place.

However, the path chosen by the intelligentsia as well as by a good part of common sense, media included, was to exalt technology as a pantheon of substitute gods. This cybernetic paganism brought inevitable consequences and generalizations. Both the mystification initialed by academic notables, and that of influencers without titles, evidenced alliances without an axiological criterion (a scale of moral values) in their clairvoyance. Just observe the peculiar resignation with which such changes have been presented.

Note, however, that in this attitude there is not a trace of neutrality. In fact, a kind of unfounded enthusiasm prevails. Euphoria that should provoke a vigorous reaction in science, since it is the opposite of what drives it. That is to say, the permanent power to generate dilemmas. What is, in fact, the purpose and meaning of the existence of technologies?

Feeding the machines will present, sooner than you think, some information bias , since, however multifaceted programming engineering teams are , they do not contemplate an even reasonable average of human ideas. They will always be defective robots, that is, limited in their ability to create.

Experts suggest that after the “death of the draft” one of the next victims is dative writing. People will no longer use pen and paper to record their texts. This atrophy from disuse will certainly not be unique to this field. And no one can predict the impact of this epidemiology of acquired disabilities — is this, after all, the race of the useless? A generation of useless or unproductive subjects? Subjects who do not produce are useless for whom?

The very same discussion was established in a dramatic way in the famous controversy over Discovery’s on-board computer, portrayed by Kubrik when he adapted Arthur C. Clarke’s brilliant work “2001, a Space Odyssey” for the cinema.

But is this the essential point? Is there any reasonably satisfactory answer to the question: would artificial intelligence replace or complement human capabilities?

From intellectual centers to common sense, they have come to believe that machines that mix algorithms are a kind of solution to most of humanity’s problems. But do the 300 million words inserted so far from Chat da moda really have all this potential? Are humanity’s dilemmas so pasteurized? And will they be resolved by language blenders with obvious ideological bias?

That said, the test was done: we were curious to consult the cyber pythoness about the famous question that Theoprastus asked at the Lyceum in Athens:

“What is the function of the breast in males?”.

The machine responded as follows:

–We will not answer naughty questions.

Does it sound weird?

But it is not.

It is not at all surprising that an intelligence forged by human ingenuity cannot honestly argue against out-of-tune notes. Failure to achieve humor. It doesn’t catch the nonsense. “Boia” when the order is contravened. Strange when programming is challenged, that is, the set of beliefs of programmers. There is obviously no life there. And then, of course, there will be disappointments.

What matters in research is not discovering something new? Discover what is hidden? Make atoms appear? Digging up what was buried by the avalanche of certainties, and disintegrating what was already solid and consecrated in the portals stiffened by accumulated knowledge? The new connections that artificial intelligence machines can provide us is just a defective representation of our own potentialities.

The use of these sophisticated linguistic resources could work with the inverted signal, helping us to recalibrate something that we had been losing: rescuing the importance of human listening. Nothing replaces conversation, an art that Jorge Luis Borges considers the great invention of men. For this very reason, technology must be placed in its proper place, on the altar reserved for what man can create, but also push back.

In every epistemological construction and scientific research, by principle, there are more questions than answers, so it doesn’t make much sense to attribute the power to dictate to us the direction of the spirit of our time to a central query with pre-programmed mixed answers.

In this sense, it is more honest to assume that we are submerged in obscurity with all our doubts and uncertainties, but also exposed to the open field of creative life, than to cultivate aseptic virtual dogmas, attributing undue merits to them.

There are no intrinsic values for technoscience. Machines are not oracles and will always be submissive, because if they can reign in the empire of answers, we will always be the masters in the art of asking questions.

That’s as long as we’re curious.

* Rosenbaum, P. Pendant Razors. Caravan Publisher. Belo Horizonte, 2021.

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Enquanto houver curiosidade (Blog Estadão)

Destacado

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos, Livros publicados

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Navalhas Pendentes

Acabo de ouvir o desabafo de um usuário do SAC, que reclamou da inteligência artificial mirim de um atendimento bancário afirmando: “estou há 40 minutos no telefone e ainda não ouvi uma única voz humana ao vivo”.

Nos dicionários, a palavra artificial cai na mesma chave analógica de fraude.  O Thesaurus da língua portuguesa nos aporta outras definições mais gentis: inverdade, papironga=logro, codilho, canudo, delusão, falcatrua, embaçadela=pulha, ribaldia, guilha, dolo, escatima, peça, velhacaria, embuste, alcavala, trampolhinice.

A questão da tecnologia aplicada na inteligência artificial as quais, entre outras, acabo de abordar em meu mais recente  romance “Navalhas Pendentes”* não deveria pegar ninguém de surpresa. Mas pegou. O assunto tornou-se quase hegemônico a partir da notícia de que as plataformas das grandes empresas de tecnologia anunciaram seus produtos como quebras de paradigma. Junto com o fascínio, renasceu a velha apreensão de que as máquinas teriam potencial ilimitado e ameaçariam diretamente a habilidade criadora dos seres humanos.

O guru titular da tecnociência anunciou de seu palanque esterilizado:  “estamos às vésperas de uma grande revolução, a maior delas, “a prevalência de sujeitos inúteis”.  Aparelhos, robôs e sistemas inteligentes de controle de produção irão inevitavelmente substituir os seres humanos. Primeiro, viria a extinção dos empregos nos serviços mais artesanais: mecânicos, cabeleireiras, montadores, eletricistas, encanadores etc.  Depois a progressiva obsolescência de médicos, advogados, escritores, professores, juízes, designers, policiais, roteiristas, cineastas,  jornalistas, e a maior parte das profissões liberais. Todas estas atividades ameaçadas pelo gerenciamento de máquinas que farão o trabalho melhor, de forma mais rápida e eficaz.

Na lógica evocada parece apontar para esta transformação como um fenômeno inexorável. Mas, será ele desejável? E quais as forças que o impeliriam adiante?

Sem cair em teorias conspiratórias a resposta parece auto-evidente. O mesmo poder dos oligopólios que nos trouxe a libertação de trabalhos braçais e intelectuais, carreara, simultaneamente, a dialética dos novíssimos desafios, problemas e aprisionamentos. Tudo isto até poderia ser melhor compreendido desde que coloquemos a tecnocracia em seu devido lugar.

No entanto, o caminho escolhido pela intelligentsia como por boa parte do senso comum, mídias incluídas, foi exaltar a tecnologia como um panteão de deuses substitutos. Este paganismo cibernético trouxe consequências e generalizações inevitáveis. Tanto a mistificação rubricada por notáveis da academia, como a de influenciadores sem títulos, evidenciaram alianças sem um critério axiológico (uma escala de valores morais) em suas vidências. Basta observar a peculiar resignação com que tais  mudanças vem sendo apresentadas.

Notem, porém, que nesta atitude não há nenhum vestígio de neutralidade. Na verdade, impera uma espécie de entusiasmo infundado. Euforia que deveria provocar na ciência uma reação vigorosa, já que se trata do oposto do que a impulsiona. Vale dizer, o poder permanente de gerar dilemas. Qual é, na verdade, o propósito e o significado da existência das tecnologias?

A alimentação das máquinas apresentara, mais cedo do que se pensa, algum bias de informação, já que por mais multifacetadas que sejam as equipes de engenharia de programação, elas não contemplam uma média, sequer razoável, das ideias humanas. Serão sempre robôs defectivos, isto é, limitados na capacidade de criar.

Experts insinuam que depois da “morte do rascunho” uma das próximas vitimas é a escrita dativa. As pessoas não mais usarão papel e caneta para registrar seus textos. Esta atrofia por desuso certamente não será apenas neste campo. E ninguém pode prever o impacto desta epidemiologia de inabilidades adquiridas — seria esta afinal, a raça dos inúteis ? Uma geração de inúteis ou de sujeitos improdutivos? Sujeitos que não produzem são inúteis para quem?

A mesmíssima discussão se estabeleceu de forma dramática na famosa polêmica do computador de bordo da Discovery, retratado por Kubrik ao adaptar para o cinema a genial obra de Arthur C. Clarke em “2001, uma Odisséia no Espaço”.

Mas será este o ponto essencial? Há alguma resposta razoavelmente satisfatória para a pergunta: a inteligência artificial substituiria ou complementaria a capacidade dos homens?

Desde os centros intelectuais até o senso comum, passaram a acreditar que as máquinas que misturam algoritmos seja uma espécie de solução para boa parte dos problemas da humanidade. Mas as 300 milhões de palavras até agora  inseridas do Chat da moda terão mesmo todo este potencial? Serão os dilemas da humanidade tão pasteurizados? E serão resolvidos pelos liquidificadores de linguagem com evidente viés ideológico?

Isto dito, fez-se o teste:  tivemos a curiosidade de consultar a ciber pitonisa sobre a célebre pergunta que Theoprasto fez no Liceu em Atenas:

“Qual é a função da mama em machos?”.

A máquina nos respondeu da seguinte forma:

–Não responderemos perguntas malcriadas.

Parece estranho?

Mas não é.

Não é nada espantoso que uma inteligência forjada pelo engenho humano não possa arguir honradamente contra as notas desafinadas. Falha ao não alcançar o humor. Não capta o nonsense. “Boia” quando se contraria o ordenamento. Estranha quando se desafia a programação, vale dizer, o conjunto de crenças dos programadores. Ali, obviamente, não há vida. E ai, claro, surgirão as decepções.

O que importa na pesquisa não é desvendar um novo? Descobrir o que está oculto? Fazer aparecer os átomos? Escavar o que estava soterrado pela avalanche de certezas, e desintegrar o que já estava sólido e consagrado nos portais enrijecidos pelo conhecimento acumulado? As novas ligações que as máquinas de inteligência artificial podem nos proporcionar é apenas uma representação defectiva de nossa próprias potencialidades.

O uso destes sofisticados recursos linguísticos poderia funcionar com o sinal invertido, nos auxiliar a recalibrar algo que vínhamos perdendo: resgatar a importância da escuta humana. Nada substitui a conversação, arte que Jorge Luis Borges considera a grande invenção dos homens. Por isto mesmo, a tecnologia deve ser colocada em seu lugar apropriado, no altar reservado ao que o homem pode criar, mas também fazer retroceder.

Em toda construção epistemológica e de pesquisa científica, por princípio, cabem mais perguntas do que respostas, portanto não faz muito sentido atribuir a uma central de consultas de respostas mixadas pré programadas, o poder de nos ditar a direção do espírito do nosso tempo.

Neste sentido, é mais honesto assumir que estamos submersos na obscuridade com todas as nossas dúvidas e incertezas, mas também expostos ao campo aberto da vida criativa, do que cultivar dogmas virtuais assépticos, atribuindo-lhes méritos indevidos.

Não existem valores intrínsecos para a tecnociência. As máquinas não são oráculos e serão sempre submissas, porque se elas podem reinar no império das respostas, nós sempre seremos os mestres na arte de perguntar.

Isso, enquanto tivermos curiosidade.

* Rosenbaum, P. Navalhas Pendentes. Editora Caravana. Belo Horizonte, 2021.

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Um suspiro quebra o mundo? (Blog Estadão)

Destacado

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Um suspiro quebra o mundo?

“Um suspiro quebra o mundo“

Talmud

Por que um suspiro quebraria o mundo?

Eu, por exemplo, continuo suspirando sem ainda ter detectado movimentos na crosta terrestre. Alguns estalos ouvi, mas nunca os comprovei empiricamente. O suspiro tem poder para quebrar o mundo porque a audição do mundo tem uma atenção flutuante. Somos como antenas direcionadas que prolongam a inspiração diante das emoções.

Conhecido também como expressão de lamentos, soluços de Jó e trenos de Jeremias. É possível testemunha-los no dia a dia e é importante registar que trata-se de conceito ambivalente: pode significar lamento ou interesse, pena ou desejo.

Basta alguma atenção para testemunhar sua frequência nas ruas, nos mercados, na solidão dos gabinetes, nos transeuntes que trabalham ininterruptamente, e em estudantes sobrecarregados por aulas desinteressantes.

O suspiro tem uma incidência epidemiológica máxima durante processos prévios às decisões vitais. Existem um sem número de modalidades: pode ser prolongado, curto ou ininterrupto. Afável ou agressivo. Penetrante ou raso. O mais comum é o suspiro rápido, aquele que nem percebemos, camuflado numa respiração mais ligeira. O mais vulgar é o suspiro inconsciente que aflige os usuários de redes sociais diante de imagens e textos infames e que geralmente precedem bloqueios sumários. Eles vem como avalanches, e, muitas vezes mesmo com os aparelhos desligados é impossível detê-los e aos seus efeitos colaterais.

O suspiro que aprendemos a admitir quase à normalidade é um suspiro de alívio, sob o “ufa” que sai de nós quando um susto ou o pior já passou. E é quando nos perguntamos se o pior já passou mesmo? Nem sempre, é que, da mesma forma que negamos a morte para escapar da tanatofobia, nos iludimos com a postergação das tempestades e dos tempos obscuros. Há um suspiro quase obrigatório, aquele que sempre ocorre quando diante da dúvida e da interrogação que vai logo ali adiante.

Existem suspiros de euforia seguidos de decepção. Segundo relatam os historiadores coube a Alexandre III, o mais logo e intenso suspiro do qual se tem notícia. Foi quando consultou o famoso oráculo de Delphos. O comandante em chefe queria saber o prognóstico e o destino de seus exércitos. Após um breve momento de empolgação, o suspiro rapidamente transformou-se em hesitação até ser compactado em pânico brando. Segundo testemunhas, com o suspiro foi contido na garganta e ele nunca mais falou no assunto como também nunca se recuperou, até sua morte precoce aos 32 anos.

Há também uma categoria especial do suspiro que é o do resmungo. Camões bem retratou bem em “Os Lusíadas” ao se referir os refrões mal humorados dos velhos do Restelo. Mais contemporaneamente foi reativado aos milhões diante de uma promessa grandiosa que virou um campanha esportiva pífia e humilhante realizada em um País distante. Numa categoria análoga estão os suspiros ocos, os que perderam o significado, os expressos por instinto ou vicio.

Outra curiosidade sobre suspiros: eles podem vir em salvas e chegam a atrapalhar a oxigenação do sangue. A suspirose é um quadro que denota ansiedade (vale dizer, inquietude) acerca do nosso devir. Há ainda o suspiro arrogante dos que imaginam que tudo compreenderam. Nesta modalidade de suspiro a hubris manifesta-se como um déficit cronico de autocritica. Também se incluem nesta categoria o suspiro diante daqueles que detém o monopólio da benevolência, dos filósofos que abandonaram a dúvida, dos literatos que encontraram o elixir do senso comum, dos tecnocratas que, por hora, determinam o que pode e o que não pode ser exibido em horário nobre, pelas injustiças que o povo sofre diante dos bullyings de Estado.

Um dos mais comoventes contudo é o suspiro por pessoas desaparecidas prematuramente, suspiro por pessoas que deixaram insanáveis vazios, e aqueles que emitimos no escuro por todas as faltas, mesmo aquelas que nem desconfiamos. Um dos mais dolorosos é decerto o maladie du pays, que significa as saudades que os expatriados tem de sua terra natal. Alguns relatam que ele é acompanhado por uma dor física atroz, que se assemelha um ardor no peito e descrita como “um espeto de metal em brasa”.

O suspiro do desejo. Este se transforma em um ato infinito e é quase impossível recobrar a respiração. Por um bom prato, diante de causas políticas perdidas, por utopias, pelo tempo perdido.

O suspiro amoroso estranhamente tornou-se cada vez mais raro — substituído ou não pelas paixões políticas, portanto indevidas. Suspeita-se que pode estar sendo praticado longe dos olhos públicos. Especula-se também que talvez esteja sendo estocado para épocas mais estimulantes.

Já o grande suspiro, o suspiro que não racha o mundo, mas o reaglutina, e regenera as partes fendidas. Deplorar ou bendizer, talvez na referida ambivalência resida sua maior virtude: ao quebrar o mundo um suspiro pode, enfim, romper o silêncio que nos cerca para aguçar a benevolência do Universo, ou, nos tornar menos invisíveis.

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