• Uma entrevista sobre Verdades e Solos
  • Resenha de “Céu Subterrâneo” no Jornal da USP
  • A verdade lançada ao solo, de Paulo Rosenbaum. Rio de Janeiro: Editora Record, 2010. Por Regina Igel / University of Maryland, College Park
  • Resenha de “Céu Subterrâneo” por Reuven Faingold (Estadão)
  • Escritor de deserto – Céu Subterrâneo (Estadão)
  • A inconcebível Jerusalém (Estadão)
  • O midrash brasileiro “Céu subterrâneo”[1], o sefer de “A Verdade ao Solo” e o reino das diáforas de “A Pele que nos Divide”.(Blog Estadão)

Paulo Rosenbaum

~ Escritor e Médico Writer and physician

Paulo Rosenbaum

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Um suspiro quebra o mundo (Estadão)

13 sábado abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Quem transita pela rede não consegue mais conter o suspiro. Eis que na reta final de uma campanha violenta, um fenômeno ocorre sob nossas barbas. Muitos se outorgaram o direito de intimar o próximo. Uma pandemia de justiceiros sociais cobram posição política alheia com perturbadora naturalidade. Cobrando não, exigindo . Exigindo não, coagindo. A patrulha recrudesceu e se tornou vigilância, marcação homem a homem, mulher à mulher, opressão. Ora, dentro da confraria nota-se gente com vocação para inquisidor. Mas não houve um número significativo de pessoas que se manteve calada — ou neutra— nestes 15 anos? Foram inquiridos por isso? Aceitariam ser cobradas? Fizeram algum tipo de autocrítica? Mas, eis que agora, subitamente, imaginam ter direito adquirido ao patrulhamento.

Quem conhece as nossas histórias individuais ? Muitos que colocam agora que os outros estão do “do lado errado” historicamente também se posicionaram contra o arbítrio, a  tortura e a autocracia desde que o País atravessou os anos de chumbo, eu inclusive. Mas isso parece não significa nada para quem se considera um “bem pensante”. Na verdade, o que não perdoam, mas não podem confessar, é que acham inadmissível que tenhamos aprendido com a experiência. O número de pessoas cristalizadas, aditos ao anacronismo, praticada por boa parte do que uma vez já se chamou  esquerda não deixa de ser desolador. A recusa à revisão, o  estoicismo,  a negação, preferindo ignorar a história e apagar a falência do muro de Berlim. Parcela significativa da ideologia que antes fundamentava a idéa de justiça social sucumbiu à distorção neo-populista da administração pública, misturada com um ativismo institucional que esqueceu que não possível nem justo que o Estado pertença ao partido.

Foi a densidade histórica acumulada que nos faz pressentir o perigo da recusa ao rodízio e portanto a perpetuação do lulismo no poder, ainda que ideologia alguma tenha o monopólio do risco ao estado democrático de direito. Como vaticinou o político do nordeste: vão perder. Por que? A pressão nao funciona mais. A chantagem gerou resistência. O estelionato eleitoral, desconfiança. A coação, desonestidade.

Insisto, porém, num ponto. Nenhum dos dois candidatos nos traz paz de espírito, nem à sociedade nem às instituições. Ambos são resultado de uma estratégia construída por uma base que, apesar das aparências, esteve sempre aliada em pelo menos um princípio teleológico: apropriar-se do Estado. A união era em prol do gerenciamento da manutenção do poder, como tentei explicar no artigo neste mesmo blog do Estadão sob o título “Oposição Substituta”

Um estudo epidemiológico viria a calhar agora, quando o grau de inquietude atinge o sistema de alarme biológico dos indivíduos. Vale dizer, as eleições de tornaram importante fonte de patologia. Estão estressando as pessoas em níveis para além de uma mera hipótese teórica. A democracia deveria  amadurecer como um fluxo de consciência, jamais como uma decisão de vida ou morte. Se isso aconteceu é um preocupante sinal de tilt institucional.

No caldo de ideias indistintas o número de informações falsas e verdadeiras se misturaram de forma a confundir o eleitor. Neste contexto é possível compreender uma provável maciça anulação do voto, não como desapreço à democracia, mas como um suspiro de protesto. Protesto tanto inútil como melancólico.

Mas o realmente chamativo é como se encaminha o problema filosófico da assimetria e da equivalência moral diante da incontinência verbal dos  contendores. É inadmissível que um indivíduo enalteça as torturas pregressas, mas é muito mais insuportável que agentes do Estado e, quiçá, o próprio, defenda regimes equivocados como os da Venezuela e da Nicaragua. Regimes vigentes que perpetram crimes contra seus próprios cidadãos. Na tragédia deste contexto, há sim, uma gradação e uma assimetria moral.

O petismo esgotou-se por dentro, está fora de cogitação para a maior parte do eleitorado e para não ter a tentação enunciada por Bertold Bretch  de “mudar de povo” é este ciclo que deve ser superado. Como dizia Millor “ o fracasso lhes subiu à cabeça “ já que acreitam piamente que alcançaram o status de desoneração moral: o que os colocaria como a única opção ética para salvar o País da barbárie. Ora, mas foi exatamente ele, este partido, respaldado por militantes e intelectuais orgânicos, gente que silenciou diante do mal feito associados às hostes pagas do partido que nos fez herdar o atual momento. Se não enxergo qualidade de estadista em Bolsonaro, tampouco enxergo perfil de ditador ou de um fascista, apenas um conservador exacerbado que deve ser contido em seus excessos verbais. No lugar de coagir as pessoas, os fiscais do voto alheio deveriam se concentrar no esforço pragmático para buscar o diálogo com as massas e civilizar as posturas extremadas e promover a paz.

Será que realmente a desejam?

Aliás aqueles que abusam da palavra “democracia” em libelos e abaixo-assinados deveriam ter o cuidado de analisar melhor antes de lançar mão do top trend xingamento universal “fascista” contra qualquer dissidência. Nao é infrequente que quem profetiza o ovo da serpente, esteja acomodado dentro do ninho denunciado.  Ninguém mais está comprando a ideia daqueles que acham que pensam melhor do que os demais. Igualmente notável é a homogeneidade programática daqueles que desprezam a percepção da opinião pública. Num outro veiculo jornalístico onde assinei por anos a coluna “Coisas da Política” quem me censurou não foi o candidato do PSL mas o partido do ex prefeito de São Paulo.

É possível que todo sofrimento e os abalos provocados nas relações pessoais causados por este pleito sejam redimidos na noite do dia 28. Ou não. Neste caso teremos que lidar com os danos permanentes. Agora é respirar fundo, e votar com consciência, a tradição já nos ensinou: “um suspiro quebra o mundo”’.

Confesso que quebrei.

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Maiêutica e o vício em doutrinar (Estadão)

13 sábado abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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“Maiêutica – Do grego “maieutitké” – relativo ao parto. Processo utilizado por Sócrates para ajudar a pessoa a trazer ao nível da consciência as concepções latentes em sua mente” 

Dicionário Etimológico. Antonio Geraldo da Cunha.

Em tempos de cultura pop, enquanto a histeria progride. Reduz tudo à posições políticas cartográficas. Vira mania, enquanto a arte pedagógica vital foi relegada. A proposta de ensino socrática conhecida por maiêutica não foi só desprezada. Deformada, hoje ela está a serviço do vício em doutrinar. Das cátedras às redes sociais, das redações aos programas de auditório, um perturbador ruído de fundo constrange o pensamento. A independência intelectual virou artigo inalcançável. Ao sequestrar o exercício da reflexão trocado por engajamentos doutrinários, a vida parece ficar mais fácil, enquanto a educação mingua à sombra de torcidas dispersas. No jogo viciado, leva a melhor quem for mais ruidoso ou cooptar mais público. Nem sempre foi assim. Sem nostalgia, é importante observar que estamos enredados na defensiva. A trincheira está cada vez mais a mão, ainda assim o antônimo desejável de politicamente correto não é o politicamente incorreto, como se tornou comum propagar sem cerimônia ou autocensura. Talvez seja uma outra coisa. Bem menos previsível. Muito mais empírica para estes tempos de legiões de lobos avulsos, onde conspirações secretas de primeira página parecem ser as únicas confluências possíveis. Onde a omissão permissiva vale mais do que a explicitação dolorosa. Será preciso investigar usando todos os serviços de inteligência do mundo porque o establishment faz uso seletivo das palavras, cuidadoso  falseamento da ciência de da realidade. A negação permanente desprotege todos. Ninguém ainda lamentou suficientemente o aparelhamento de uma década. Seria o fundamento da critica. O primeiro da lista. Ao obstar o fluxo de pensamento para o substituir pela ordenha mecânica de vozes eleitas por grupos afins, o convívio foi aniquilado. O novo populismo saído diretamente da causa do saber. De onde nunca emergiu muita coisa além de slogans circulares, discursos peremptórios que mimetizam uma filosofia. O saber não é causa emancipada, que sobrevive sem interpretação. Ocorre que, por acaso, ainda pode-se escolher quem será convocado para executa-la. Se os eleitos forem afilhados locais, nepotismo intelectual. Se escolhidos através da mesma meia dúzia de referencias bibliográficas, monopsismo cultural.  A redução é clara: não se sabe se a escola deve ser dominada por uma linha partidária ou submeter-se à todas. Essa é a verdadeira dúvida, traduzida na linguagem da polêmica irrelevante. Talvez o conhecimento não merecesse destino tão recortado. Nem as instituições tratamento tão afoito. O medo de enfrentar o extremo, é, no fundo, a compensação neurótica de quem não conseguiu encarar o que chegou até nós. A tocha de brilho fosco. Não a olímpica. Mas a mecha do aposto. A aposta no enunciado de um bem único. De uma unificação impensada, porque impossível. Da ética de monopólio. De opiniões respaldadas em círculos fechados. O que foi a mutação da política senão um consenso cozido entre gabinetes herméticos? Não se espantem se testemunharmos os extremos do pavio se desgarrarem em filiais violentas emancipadas da matriz. Democracias mitômanas e autocracias cínicas são espelhos da mesma atuação. Sairemos do enredo circular quando o dialógico aprender a recusar mentiras prudentes.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/maieutica-e-o-vicio-em-doutrinar/

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Alalshak: a-grande-peninsula (Estadão)

13 sábado abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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(foto PR – Glaciar em Juneau)

O Alaska é um caminho, eólico, chuvoso. As geleiras não desaparecem, elas se moveram para o sul. Recuaram.  Escorrem, flocadas, numa lama medicinal formada a partir do esmagamento das rochas por pressão dos glaciares.

Mais ao norte, pouco antes da Península Valdez a corrida ao ouro ainda não terminou. Nossos sonhos de conquista são a de todos os pioneiros, acesso, sucesso, e no fim, não regresso. A vida é mais cara dizem os locais atuais, mas o panorama compensa a decadência financeira. Os aleutas e esquimós são mais difíceis de contactar. Sua língua a inuite é impossível de ser escutada. Justo ela que tem mais de cem definições para a palavra neve.

Os colonos de hoje são pilotos do Arizona, motoristas do Texas, comerciantes de tanzanita de New York, atendentes de bar de Dakota ou garçons da Indonésia. O turismo é impecável, encontra-se um pouco acima da natureza.

Desde que em 1879, o escritor e naturalista John Muir (1838-1914) um dos principais idealizadores de parques e reservas naturais norte americanas, descobriu que as coníferas do Norte estão dispostas lá desde sempre, e a formação dos glaciares parecia  ter sido interrompida.

Hoje se sabe, a rarefação dos cristais aprisionados pelo gelo geraram o brilho azul- estanho, e assim a água vertida para um outro estado de matéria se fixa na imaginação do mundo. A tonalidade turquesa, ilusão de ótica, sem o contrapeso da realidade, sem parâmetros para daltônicos, provoca o choque cromático. Um golpe de vista que leva a cor até o olho, o qual não foi avisado que, persistente, ainda enxerga o que a ciência desconstruiu. Mas lá está ele, azul, poroso, fixo, qualidade indiscutível.

Quem já provou da agua do degelo? Garanto, não é insípida, incolor ou inodora. A agua do degelo desce como uma destino impreciso, aquele que não sabe se escolherá uma rota até o sal do Pacífico ou deslizará até formar lagos alcalinos providenciais.

Aquele que se impõe pela corredeira, que se exalta por um caráter firme e indisponível às revisões. A realidade corre aqui como os corvos que anunciam aos chilros, o fim da estação. O dia aqui nunca foi o de esquimós no país das sombras longas, mas de um dia que dispõe de brilho efêmero, cortante, e cujo rasante nos retira o sangue da cara. Perplexidade, a única reação possível para um céu que migra amiúde. Mas, dirias, todos os céus migram. Só que este é mais rápido, mais evidente e mais contundente.

Por todo lado, nesta Amazonia de cima, as aguas descem como cronômetros de guilhotinas. E como laminas cansadas deixam-se levar pela gravidade. Levam ao ar multidões de partículas da negantropia, que suspendem o juízo daqueles que tinham tudo planejado. Um ensaio sobre o Alaska não seria sobre ursos e baleias, golfinhos ou salmoes, mas acerca de um vento obliquo, que atrapalha as rotas, que desvia os navios. Que encanta pela exaustão. Seria sobre um lugar sem espaço regular na cartografia.

Tudo que se define como “Passagem de dentro”, o maior corredor natural preservado com mundo, é um destino a ser aspirado. Como turista, visitante ou curioso, num acampamento, num cruzeiro ou dentro de botes salva- vidas o banho que dessaliniza é um pouco da surpresa que ainda há no mundo. O lugar que ainda corre para se opor as elucidações predadoras, aos campo devassáveis por curiosos sem imaginação.

O Alaska peca pelo excesso. De mistério, de inadaptabilidade, uma terra de índios sem emancipação, de uma cultura que foi destruída sem sequer ter sido redescoberta. Um território comprado dos russos, que é hoje um País reduzido a um Estado.

A grande península grita por ser extremo sem nostalgias. Mesmo assim, as saudades já se fazem sentir muito tempo, antes, muito antes de que tudo acabe.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/alalshak-a-grande-peninsula/

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Nação em transe e o risco de acertar (Estadão)

13 sábado abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Qual é o significado de estar à deriva? Quais as analogias possíveis entre um transatlântico e o Brasil? Um barco pode ir adiante, ceder ao extravio. Uma belonave, encontrar o Rochedo, o Farol ou encalhar numa praia deserta sem nunca aportar. O que faremos com um País que parece não se encontrar em lugar algum? De um Estado que age à revelia das pessoas? Que humilha a opinião publica. Será um problema de identidade ou de escrúpulos? De orfandade política ou submissão aos critérios malucos? Seremos uma sociedade inauditavel? Foi a economia que nos cegou para todo o resto? Que nau é essa, que ruma acéfala? Qual tipo de embarcação transita com passageiros apavorados e que sonham apenas com dias menos sobressaltados? E dai que a bolsa subiu se os dividendos morais desceram ao inconcebível? Não é que um País de mandatários inidôneos — ativos ou passivos — pode ser governado adequadamente. Acontece que agora a náusea fina e o enjoo permanente vem assolando incessantemente. Estamos à beira do brejo, com um Paranoá de vantagem, mas calma, ainda não transitou em julgado. Eis que vemos a justiça como uma miragem deformada, com cadeiras elétricas no pedestal.

A justiça que deveria coincidir conosco ainda não examinou as necessidades elementares da sociedade. A justiça prescinde do povo e ao que ele aspira. Compreende-se o desprezo, afinal qual Estado precisa de seu povo passado o período eleitoral? A justiça perdeu-se na forma da norma. E o sentido, mais uma vez, teve que ser sacrificado pelo juízo.

Recém descobrimos que foi lá, na fábrica de heróis, que os vilões foram faturados. Heróis especializados na reforma alheia. Olímpicos ou ordinários trata-se de política de terra espoliada. E, mais uma vez, e de novo, voltamos à lentidão seletiva da justiça. Por sua vez, é ela, a justiça, que guarda potencial para incendiar os cidadãos com a coragem. Daqueles que não temem se expor para sustar a sangria provocada pela facas da inércia. Da vida doada por outrem. Da honra que se esfacelou contra postes indicados. Que tomaram o poder com aval do capital. Dos litigantes mudos que desistiram dos ressarcimentos. Da cassação da voz dos assassinados a sangue frio. Ressentimentos incoesos vem e vão enquanto a sessão senado vai sendo reprisada à tortura. Jagunços veementes em suas retóricas dedicadas ao despiste. Está é uma Nação em transe?

Era.

O crime não compensa, só foi sendo assimilado como tradição. É natural que as organizações criminosas sejam autorreferentes. As regras valem pelo fio da navalha. Hoje vigente, amanha quem sabe, diferente? Duram um átimo, conforme a balança adulterada, o empréstimo estatal subsidiado, o imposto desviado. Não é consolo, mas eles ainda não acordaram para o pesadelo que os espera. Não há nenhuma chance de viver e ser agraciado enquanto teu irmão está cercado por fuzis ou milícias. Enquanto crianças habitam celas de perversos, e seguranças descontentes incineram creches. Se a missão das víboras tem sido produzir veneno, a única ação digna será buscar antídotos.

Eles trabalham com mandingas, nós exigimos ciência. E agora, o que me dizem? Que estamos todos cansados de tudo? De que estaríamos reduzidos a duas soluções: banho de ditadores ou juízes legisladores. Quem sabe um tirano avulso que saiba tratar as ratazanas? Que estamos no fim da estrada e o estado policial nos agraciará com suas mordaças e sombras? Essa é a pior hora para descansar. É o momento para escândalos públicos. De urrar forte contra a tentação da censura. É o timing para convocar ruas que esvaziem palácios. É verdade que, as vezes, temos que nos resignar com o maniqueísmo: a escolha simples entre o beneficio da duvida e os malefícios (reais) das certezas. Se há mesmo um lado bom da polarização, do entrechoque permanente, das colisões frequentes é que, sem alarde, nota-se que brota um subproduto inesperado: uma população de pragmáticos e não ideológicos independentes.

Um autor contemporâneo acaba de propor : basta de eleições – para ele estatisticamente a fonte de quase toda desgraça e corrupção – que tal escolher através de sorteio, as pessoas que nos governam? Para ele, teríamos mais chances. É claro que gera desconfiança mas há pelo menos uma vantagem: colocar toda culpa no lance dos dados. Imagino que, teimosos, insistiremos mais um tanto nesse empirismo eleitoral inventado pelos gregos — ir errando até correr o risco de, um dia, acertar.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/nacao-em-transe-e-o-risco-de-acertar/

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Há uma razão que nos destrói (Estadão)

13 sábado abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Há uma razão que nos destrói.

27 Outubro 2017 | 19h54

 

Há um metabolismo que nos percorre as artérias por fora. Paralelo aos corpos. Há um modo de ver as coisas que não é discutível. Que nos impõe seu fluxo pelo ritmo aflitivo com que anda. Pela dor que vem em salvas. Pelo eclipse das passagens. E para que? O alcance da vida sem mundo interno vinga-se das certezas precárias. Por isso, e só por isso, o dia precisa de deslizes, de pequenas amnésias, de traumas curativos, de excentricidades regulares. E não, não é só as ofensas da irracionalidade que precisam de combate. Há uma razão que nos destrói. As avalanches psíquicas da Terra não justificam o encolhimento das impressões. Nem a hipertrofia do mundo objetivo contra a arte e os artistas. Ou a síntese da matéria contra o análise dos romances.   Seria isso se o senso comum não tivesse a priori definido o que devemos ou não sentir, se a ordenação pratica não tivesse determinado os limites à imaginação. Estamos sem  horizonte e não é só por falta de lideres. Nem porque esta safra de estadistas não nos diz mais nada. Ou porque os magistrados nos mostraram dosimetrias maniqueístas. Estamos sós, mas não é essa a dificuldade. O trágico é não conseguir assumir que nos isolamos das responsabilidades, pelos atalhos que nos enfiamos, pelos desvios que nunca enfrentamos. A culpa, não é da nossa civilização, nem da cultura que forjamos. Se há uma, culpa, deve ser exclusiva e intransigentemente individual. Mas sonhamos acordados com um principio do prazer assoprando de que isso nunca acabará. É só ao outro que podemos contar nossas histórias.  Só um outro para poder ouvir que não temos direito à paralisia. Nem nos é dado ficar à mercê dos governos, dos tiranos ou das prisões de antanho. Exigiríamos mais de nós mesmos se soubéssemos que tudo termina, já, agora, neste instante? Se o varejo das relações sumir teremos só atestado mais um isolamento. Nossa vida impregnada com a obsessão terminal. Nosso impacto mínimo na galáxia. Nossa irrelevante missão no cosmos em qualquer coletivo que se imagine. Mas, e se antes soubermos que há uma fala, um argumento e uma mão que nos desfragmenta? Que nos segura e sustenta sobre o abismo e seus resumos? Que nos apoia quando nem sonhávamos com amparo. Seremos sempre atentos aquelas sombras que nos iludiram, mas não aprendemos a reconhecer a escuridão que as escondia. Por isso há um dedo que dirige – invisível que seja — os apontamentos dos destinos. As desatenções com que singramos os caminhos. O esquecimento do fim e da morte com vinho. Estamos a um só passo de saber que nosso lugar nunca foi este, e mesmo assim, contra tudo e contra todas as evidencias, persistimos na esperança.  Esperança de que tanto a salvação como o completo extravio não nos expulse da condição humana. E que, perder-se no afeto, não é muito distinto que encontrar-se com a redenção. Alguma delas.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/ha-uma-razao-que-nos-destroi/

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A história e seus efeitos não mais se erguerão contra aqueles que a constroem. (Estadão)

13 sábado abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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A história e seus efeitos não mais se erguerão contra aqueles que a constroem.

Aqui ou acolá, você poderá encontrar neo czaristas estáticos ou nostálgicos do muro de Berlim intacto. Os lados ainda não perceberam: só existe o presente contínuo, só vale o daqui em diante. E não importa muito como fazer valer o daqui em diante. Se há uma certeza é que, desta vez, não nos deixaremos paralisar. Recusaremos branco ou vermelho, esquerda ou direita: aprendamos a recusar todo código binário. Daqui em diante a inércia deixará de ter o monopólio da força. Prometemos dissidência às hegemonias, aos partidarismos, à militância, às ilhas de ideologias. Daqui em diante, observaremos movimento a movimento, a direção das árvores, as palavras inarticuladas, o subtexto dos contextos. Daqui em diante não permitiremos que a vida esteja cercada, encarcerada pelo obscuro. Não prometo, mas daqui em diante, tua sombra será assimilada por outra, mais dura, mais opaca, mais resistente. Daqui em diante, e por que não dizer já, as concessões serão revogadas. Daqui em diante, sem entrar no jogo que eles fingem não jogar, serão outras regras.  A partir daqui ,desligaremos a chave mestra que te sustentava. Será a dimensão e a geração que andará ao largo do “nós e eles”. Sim, é isso, apagaremos os registros da tua presença. Nada a ver com intolerância. Trata-se de uma calma que desconhecíamos. Um renitente sentimento, de coragem, que só hoje percebemos. Daqui em diante tua voz não nos consumirá, nem tua imagem nos sondará em círculos. Hoje, mas principalmente daqui em diante, a determinação superará teu escárnio. E teu deboche estratégico, nos abrirá uma clareira no sossego. Teu sumiço trará de volta a fusão de horizontes. Superar o fantasmagórico da tua imagem será alivio suficiente. Abolir o culto à personalidade é que nos comoverá. Sem saudades, embarcaremos numa plataforma na qual você será obsoleto. Daqui em diante – me  convenço sem esforço – seremos mais fortes que tua capacidade de explosão, menos emocionais para sucumbir à sedução. Negaremos teu estado de negação.  Tudo pode ruir ao teu redor agora que seguiremos adiante. Doravante, ou daqui em diante. Mudaremos de casa em casa, de rua em rua, mar ou campo, tempo frio ou ensolarado.  Ninguém mais será ofuscado. Irmãos farão as pazes nas praças. Daqui em diante nossa casa não será mais tua. Nos mercados, nas inspirações, nos passeios públicos, nossas vidas afirmarão a variedade que jamais toleraste. Por isso, nenhuma revolução nos serve. Tua voz efêmera, despencará no vazio. No registro irrelevante. A história — e seus efeitos — não mais, não mais se erguerão contra aqueles que a constroem.  Seja como barricada, pólvora, ou combustão inata. Daqui em diante, e para sempre, será esta a marcha que te acordará dos sonhos impostos. O sucesso de estima não será mais rima.

Teu discurso será apenas destroços, distantes e frios, secos e inúteis. Daqui em diante nenhum homem te depreciará, será melhor: perceberemos que conseguiremos viver sem tua dependência. Respirar sem tua anuência, sem as tuas falsas condescendências. Seremos apenas o resultado benéfico de outra compreensão. Até que diremos sim. Sim à natureza vivaz que se compraz no que é veraz.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/daqui-em-diante/

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A inconcebível Jerusalém (Estadão)

13 sábado abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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                                                                      Paulo Rosenbaum

07 Dezembro 2017 | 09h52

(…)vi a circulação de meu escuro sangue, vi a engrenagem do amor e a modificação da morte, vi o Aleph, de todos os pontos, vi no Aleph a terra, e na terra outra vez o Aleph, e no Aleph a terra, vi meu rosto e minhas vísceras, vi teu rosto e senti vertigem e chorei, porque meus olhos haviam visto esse objeto secreto e conjetura) cujo nome usurpam os homens, mas que nenhum homem olhou: o inconcebível universo”

Jorge Luis Borges, O Aleph

Tradução Flávio José Cardozo

 

Não se trata de profecia, nem das miríades de referencias que citam a cidade. E não é só que ela não pode ser monopolizada, seria impossível faze-lo. Destarte é a capital, a Capital de Israel. Cidade Capital para a fronteira das culturas. Hoje um pertencimento foi reconhecido. Não se trata de fulanizar, tanto faz se foi esse Donald ou um outro. É o ato político que se revela interessante. Independentemente do estatuto político, Jerusalém, sempre foi um porto de significados. E para além dos simbolismos atribuídos, ela é, no imaginário dos povos, um dos centros do mundo. O que importa portanto não é a mudança de embaixada, não são as trincheiras, mas observar a convivência entre as tribos. Como morada de pontos múltiplos foi fundada sobre uma pedra. E se sua paz não é feita de pedaços, nem suas muralhas construídas por sedimentos, seu ponto sagrado não se reduz aos últimos vestígios do Templo, no Muro ou no Domo. Todo núcleo está em seus habitantes.

Jerusalém, o ponto mais conflagrado da história humana transcende seus traçados arqueológicos. Jerusalém urbe, contém a vitalidade de um ponto entre todos os pontos, e, como no Aleph de Borges acumula os mundos que ainda não estão descritos. É preciso ter a experiência, vivência e o tato empírico para poder opinar. Não é preciso acreditar, quem caminhar entre suas pedras constata. Suas inflexões são judaicas, mas também drusas, armênias, muçulmanas, cristãs, beduínas e etíopes. Difícil ver um espalhamento tão amplo, uma difusão tão díspar, uma incoerência tão organizada.  Jerusalém é um parque sem homogeneidades. Nunca a cidadania teve um viés tão naturalmente cosmopolita. Um retrato das subdivisões e das uniões instáveis. Um instantâneo eterno de guerra e paz, e principalmente, paradoxo a céu aberto.

E mesmo que não tivessem a amplitude que insistimos em atribuir a ela, sua autodeterminação como território antecede conflitos, colonizações e invasões. Jerusalém, a cidade mais destruída e reconstruída da cartografia, foi também a inspiração da poesia de Isaías e Ezequiel, Torquato Tasso e Willian Blake.

Ao contrário dos alardeamentos jornalísticos das agencias internacionais não será Jerusalém reconhecida como capital a barreira à paz. Ela a personifica. Modular o convívio e superar o vício da disputa é deixar-se levar, através das moradas e dos encontros. Seculares e religiosos, árabes ou judeus, cientistas e místicos, ímpios ou santos. A legislação é passageira, a vida que circula nas ruas, definitiva. Pois quem vive ali?

Não são os capacetes azuis da ONU, os diplomatas, ou os adidos militares. A literatura e a história ali concentrada transcende Washington e Moscou. E, infelizmente, compromissos, culpas e desafios pecuniários ainda não permitiram que se conceba os direitos de Israel a não ser com salvaguardas imorais.

Do ponto de vista estético, nada se compara em densidade e variedades cromáticas.

Quem frequentou seus mercados e testemunhou seu trafego caótico?

Em meio à omissão geral e o silêncio dos jornais a intolerância que cresce contra as minorias pode encontrar respostas mais criativas do que preservar um status quo que já se revelou moribundo. A mudança de uma embaixada tem valor para além do simbólico. Trata-se, antes, de uma exortação para vislumbrar a saída. Conteste-se, mas admita-se: é a renovação que saúda a novidade. Um lance que força a resolução do impasse. O estatuto final da cidade poderá ser sempre incerto, mas ela, a cidade, decerto, nos sobreviverá. A decisão autocrática não é mágica, apenas move uma peça do tabuleiro viciado, bem melhor do que esperar que os dados resolvam dar as caras.

O senso comum da envelhecida diplomacia ainda não percebeu. De todos ou de ninguém ela só deve ser cuidada por quem enaltece o acúmulo de culturas.  Quiçá os homens consigam sentir o Aleph e, para além das ruínas, enxergar o extraordinário universo da cidade fincada entre Ocidente e o Oriente, a inconcebível Jerusalém.

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Contra a Neutralidade (Estadão)

13 sábado abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Contra a Neutralidade

As vezes, mesmo o justo pode ser trágico. Além de veêmencia a intolerância contra intolerantes precisaria ser normativa. Esqueçam que há, na vizinhança, um País regido por um tirano, que os continentes tornaram-se pródigos em editar regimes de inspiração totalitária, esqueçam até quem financiou e manteve abastecido o sistema político opressor, que os antissemitas encontraram o escoamento ideal no jihadismo político, que as instituições operam como corporações, mas nunca se esqueçam daqueles que sabem e escolheram silenciar.

A omissão é o braço armado do maniqueísmo.

Aqueles que estão no front jamais imaginam o que os antecedeu na luta pela civilização, agem como se não houvesse tempo. Ou como eles a resumissem. É sempre assim. O marco zero, o nunca antes, os inauguradores da história. Portanto, com tantos precursores sem passado, o renascimento da intolerância não é surpresa, nem fruto do acaso. Sua plantação foi fertilizada por boatos sistemáticos, manipulações estratégicas, regada pelo suave gradualismo da neutralidade.

Isso significa que a humanidade sempre cedeu às pressões do injusto. Atendeu às circunstâncias da conveniência. Mas, se houvesse apenas um, decerto este não seria o principal foco do desalento. A verdadeira ironia é  não termos ainda compreendido que o expectador, aliciado, tornou-se conivente. Que o limite do argumento está na concessão exagerada, na civilidade excessiva, no suporte silencioso ao inadmissível. Ou, como antípoda, propagandeando slogans inverossímeis.Teses de ludopatas ideológicos que sempre buscam o “quase acerto” mimetizando a utopia . Talvez não haja solução, e, se houvesse, obedeceria outro sistema de notação. Buscaria outra origem dialógica.

Aceitar que há um destino é resignação, submter-se é renunciar às idiossincrasias. Não há heroísmo em encampar jogo de regras mutantes. Tampouco há mérito em saber respeita-las como se realmente fizessem sentido para o mundo prático. A paciência ainda seria uma virtude caso renunciasse à instrumentalização movida por paixões.

A seletividade parece ser essa norma instável que aceitamos instalar na cultura. Nas redes e na mídia ela filtra causas, delimita o foco da consciência, busca, com a desculpa da catarse anonima, expiar a indignação. Esvaziar o sujeito para inseri-lo no contexto da invisibilidade. A estratégia porfim impregna-se nas comunicações, infiltra-se na linguagem, e, determinada, ascende às palavras. Ninguém mais se assusta com a passividade, com a legião de cordatos que subscrevem o insuportável. Por inércia, descaso ou parceria à revelia, o essencial desaparece do horizonte, afogado, combalido, já submersso ao largo do continente.

Até que, enfim, corroi-se a justiça.

Eis a tragédia: a capacidade de expressão ameaça sumir no fluxo das dispersões e simultaneidades irrelevantes. No cotidiano automático que pulveriza o entusiasmo. Mesmo inaptos para a selva,  herdamos sua violência, aceitando suas imposições,  vivemos pela instintividade anacrônica.

E, assim, por aproximações sucessivas e inconcebíveis concessões empurramos as decisões até que a imposição de acordos e uma perigosa tolerância infinita substitua a paz.

Insurgir-se contra a neutralidade é, ao mesmo tempo, depurar o veneno do mal estar contemporâneo e aceitar o único grande risco que ainda faz sentido: anular a neutralidade e assumir-se.

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Hahnemann, humorismo e a ética da razão (Estadão)

13 sábado abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Hahnemann, humorismo e a ética da razão

 O prestigiado jornalista Sérgio Augusto trouxe importante informação em sua recente coluna no Caderno Aliás. Evocando os verbetes de um peculiar dicionário imaginário, trouxe, entre tantos tópicos, aquele que me levou a formular o atual artigo.

Ali escreveu: “Homeopata: o humorista da medicina”.  A graça está na brincadeira com a palavra “humor”. Se pensarmos humorista como aquele que conhece bem a antiga terminologia dos “quatro humores” descritos pelo pai da medicina técnica, Hipócrates, ele acertou. Ainda hoje, o aspecto das constituições e temperamentos em medicina pode ter um papel relevante. Um exemplo disso é que a medicina caminha para uma prescrição cada vez mais individualizada — como preconizada pelo médico alemão e fundador da homeopatia Samuel Hahnemann 1755-1843).

Também faz sentido se pensarmos em outro aspecto do verbete: que através do senso de humor os médicos que a praticam podem funcionar como uma espécie de superego auxiliar da prática médica. Isso porque cresce pelo mundo a ideia de slow-medecine, (ou medicina com timing) a saber, uma prática que tenta ser mais cuidadosa e menos intervencionista no manejo terapêutico. Isso significa menor grau de “overdiagnosis” ou em tradução livre “superdiagnosticos”, os quais, não infrequentemente, conduzem à práticas e tratamentos invasivos desnecessários, ou, que fazem os pacientes sofrerem riscos aos quais eles não necessariamente precisariam ser submetidos. Considerando que a epidemiologia clínica consiste em colocar numa balança, de um lado o que protege, e, de outro, o que expõe o paciente aos riscos, essa conduta  pode ser a mais racional e adequada para os nossos dias.

Entao, de fato, o jornalista produziu, decerto involuntariamente, um elogio, e ainda prestou uma justa homenagem a  uma especialidade médica reconhecida pelo CFM e usada por milhões de brasileiros e por pelo menos 180 milhões de europeus.

O Prof. Walter E. Maffei, médico neuropatologista e um dos mais eruditos professores de Medicina —cuja docência na PUC e na Santa Casa ajudou a formar gerações de médicos criticos —  ilustrava uma de suas aulas projetando imagens de gatos e afirmando que aqueles que tinham a discrasia alérgica despertada por alguma idiossincrasia poderiam apresenta-las apenas com a “lembrança”desta experiência. Era e é um fato empiricamente constatável para quem quiser reproduzir o experimento que evidencia as relações óbvias porém pouco compreendidas entre as interações mente-corpo.

Ampliando um pouco a abordagem, evoco este aspecto acima diante do excesso de polêmica acerca das práticas integrativas. Às vezes, as pessoas perguntam, diante de sua eficácia e abrangência clinica, especialmente na atenção primária à saúde e no prevenção e tratamento das moléstias crônicas, como se explica que algumas práticas médicas como por exemplo a medicina tradicional chinesa, a medicina Kampô (Medicina japonesa) e a homeopatia nunca tenham se universalizado como formas de atendimento?

Teríamos que lançar mão de uma análise multifatorial. Mas o primeiro e mais importante é a dificuldade para estabelecer núcleos de pesquisa independentes. Sem eles, todo avanço farmacotécnico em medicina fica sujeito à lógica exclusiva dos interesses — e dividendos — ditados pela indústria farmacêutica e seus braços corporativos. Pode parecer, mas esta não é uma tese conspiratória, apenas constatação de fatos que vem se avolumando nas últimas décadas.

E por que a indústria não investiria em um ramo tão promissor e potencialmente lucrativo?

Porque as substâncias medicinais homeopáticas são um bem público, isto é, um conjunto de medicamentos e procedimentos que constituem um patrimônio da humanidade. Isto é, não incidem royalties ou patentes sobre nenhuma substância usada nestes fármacos. Ouso também afirmar que, somadas a estas dificuldades, existe um outro entrave. Trata-se da natureza de uma parte do establishment que defende as integrativas e que se comporta como agremiação futebolística no qual o antagonista é a Big Pharma. O mesmo acontece com aqueles que sempre as atacam com argumentos evasivos “demonstrando”cabalmente sua “ineficiência” ou no fragilíssimo jargão de “ falta de ética.” Trata-se da mesma é repetitiva qualidade de objeção que se faz, por exemplo, à psicanálise.

A compreensível atitude defensiva das práticas integrativas contra as acusações de ineficácia é causa e consequência da relutância em fazer a autocrítica necessária para apontar onde e quando podem atuar, identificando assim suas deficiências e limitações. Para a medicina de inspiração vitalista — cuja tradição remonta à medicina hipocrática — não se pode falar em resultado clinico no singular, mas em ações amplas da terapêutica.

Tanto as correntes que equivocadamente brigam contra o mainframe da ciência, como aquelas que querem uma adaptação absoluta a ponto de abrir mão de seus critérios característicos, se equivocam. Se por um lado ela se apresenta como uma outra lógica médica, de outro, ela precisa assimilar-se à cultura científica corrente se quiser ser levada a sério. Isso significa que a medicina integrativa acaba falhando, pois não consegue nem mudar a chave, nem se fazer entender pela linguagem contemporânea. O erro fundamental está numa recusa inconsciente destas correntes e de seus antípodas  — tanto as que querem se manter como uma casta independente da medicina contemporânea como as que querem se fazer pertencer não importa o sacrifício epistemológico que teriam que fazer — em aceitar que de uma forma ou de outra a única saída para que uma tese seja aceita nas sociedades modernas é sua penetração na cultura através da pesquisa e da discussão. Com a ressalva de que nem toda prática integrativa  apresente legítima consistência para se tornar uma atividade fornecida pelo Estado.

Somente essa distinção epertencimento à cultura garantiria a permanência de uma formulação sofisticada como é a proposta de uma terapêutica pautada, no caso da homeopatia, por exemplo, que usa o princípio dos semelhantes. Aliás o mesmíssimo  princípio usado pela lógica das vacinas para imunizar a populaçao.

Sofisticada, porque pretende inclusive discutir critérios que pouco se discute como, por exemplo, critérios de cura. Uma das mais importante, e, ao mesmo tempo, a mais negligenciada das questões epistemológicas em medicina. Notem que hoje já existem núcleos de pesquisa na medicina que discutem a validade dos protocolos, o cálculo de risco para alguns procedimentos terapêuticos e principalmente o já evocado superdiagnóstico[1].

A homeopatia deve ser apresentada não como uma alternativa com todas suas conotações contra-culturais, mas como um processo que dialoga com a ciência naturais, e, ao mesmo tempo, coloca a necessidade de uma medicina do sujeito descolada da psicanálise, e no centro da discussão das ciências humanas.

Curioso ou apenas idiossincrático que valorizo Samuel Hahnemann mais como filósofo da medicina do que metodólogo da ciência. Isso porque acho que a medicina do sujeito não é um detalhe técnico, mas a base de sua concepção antropológica, a qual, por sinal, adotava uma generosa admissibilidade da diversidade dos homens. Assim ele suprimia, ao mesmo tempo, tanto o caráter moral maniqueísta da visão penitencial do adoecimento, como a redução do corpo ao instrumento objetal que a medicina acabou adotando com uma normatividade perturbadora. É provável que ele desse muitas gargalhadas de tantas teorias a respeito dele e de suas ideias. Talvez devêssemos rir com ele e nos declarar impedidos para fazer afirmações definitivas sobre os misteriosos caminhos da cura. Seria um bom presente de aniversário para quem um dia declarou: “a vida é um clarão”.

[1] Overdiagnose – o superdiagnóstico caracteriza-se em valorizar excessivamente os exames subsidiários e atribuir importância excessiva a distúrbios que talvez não merecessem tratamento, pois seriam patologias inofensivas ou “amigáveis” ou que o custo orgânico e psiquico são demasiadamente elevados para os pacientes.

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A penúltima volta do Torniquete (Estadão)

13 sábado abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Um adulto e uma criança brincavam juntos à beira mar.

A areia molhada de praia foi pingando e se acumulando no topo de um castelo pacientemente erguido grão a grão.

O filho perguntou ao pai:

— Ele vai desmoronar?

__________________________________________________________

Quem sabe quando a opinião pública se fizer ouvir? Quando saírem do mundo virtual e filiarem-se às ruas? Ou quando entrarmos em alienação? Não uma qualquer, refiro-me à catatonia aguda. Uma que nos impeça de considerar atos ilícitos como naturais. Quem sabe um anestésico indolor que não nos faça enxergar o que acontece com os outros? No País da hermenêutica fácil, qualquer um fala com propriedade nas plenárias. Ou, quem sabe ocorre algum milagre monocrático de final de ano? O Congresso também pode reunir-se em sessões suplementares sem jetons para ler, em jograis, a Magna Carta? E então aprender a lição do Rei John, que em 1215, teceu sua ode civilizatória. Segundo o Rei bretão igualdade perante a lei não é, nunca foi, metáfora poética. É o fundamento do legislador.

Quem sabe considerar que não faz sentido o Estado de Direito transformar-se no interminável Estado de Deveres? Que os escravos da joint venture Estado & funcionários é que merecem o descanso sabático, a desoneração, e o direito de voltar para casa vivos? Que os partidos deixaram de fazer parte do metabolismo dos cidadãos para virar corpos estranhos. Que há uma diferença fundamental entre patriotas e nacionalistas? Entre os indignados por justiça e os coléricos contra ela? Que os juízes, em seus leitos de morte, também terão suas consciências devassadas? Que os confiscadores serão, eles também, confiscados?  Que quem aceita urnas inauditáveis será obrigado a aceitar candidatos idem?  Que a vida de um País não pode ser interrompida por sucessões de manchetes enganosas? Que as manchetes enganosas não refletem o estado de espírito de quem precisa de informações verdadeiras. Que exceder funções é assinar um procurador geral em branco.  Que não há mais quem acredite em justiça estratégica. De que as epifanias de Brasília não são as nossas. De que a relativização levada ao paroxismo gerou para além das fake news, um fake world. Novas que se sucedem pagas com dinheiro que já foi público. E não há nenhuma solução que seja ao mesmo tempo rápida e indolor. Que bandidos enraizaram sua moral por todas as plantações? E não queriam colher trigo. Nunca pensaram em gerar sementes saudáveis. Qualquer erva daninha dava voto, então por que a preocupação? O desejo por veneno é tão presente que os antídotos nem sequer estão sendo considerados.

O vislumbre e a expectativa de muitos é regredir a um Proto País, policialesco e intolerante. Por outro lado, a justiça passou por todas as provações e quem dirá, hoje, que nela se pode confiar? O atual status quo não tem nada de espontâneo. Foi elaborado como plano C. Este jornal, por exemplo, no seio da ficção das garantias constitucionais que se chama “liberdade de expressão’ encontra-se censurado há 3.000 dias. A solução? Para não consentir usar a palavra “censura”recorreu-se à tarda decisão. Sob o manto de pedidos de golpe de vista. Só eu me comovo quando a linguagem eclipsa a distorção? E referenda o que o consenso de magistrados e cúpulas decidiu que não pode ser dito? Que um terrorista não atende por outros nomes a não ser inimigo público da humanidade? Há uma guerra que, espremida dentro dos bastidores, faz vazar o mal feito e agora tinge a sociedade com desonras e confusão.

O torniquete está em sua penúltima volta, e o sangue pode parar de fluir a qualquer momento. As cidades estão pálidas, perdendo vitalidade para assassinos imunes. Sob gritos de socorro os cidadãos secam sob as duas mais violentas máquinas de tortura: descaso e impunidade. O establishment fez sua escolha: o indefensável está solto e em plena campanha. Promete que ele e sua casta serão preservados junto com a garantia de foro para manter o patrimônio conquistado com o suor da  dilapidação do erário. E quem tolhe o populista que oprime? Quem interdita a omissão dos poderes?  Pseudo heróis afirmam que o crime não é tudo: depende muito mais de quem o comete.  O disparate é popular. A compaixão, seletiva.  O abuso, consumado e bem divulgado nas redes. A tiragem dos jornais lacrada pelos interesses. Fábricas de intenção de voto. Pesquisas direcionadas patrocinam o aumento da aprovação enquanto a lei eleitoral vive de recesso. O gesso expande-se contra a liberdade. Os jornalistas esmagados pelos patrocinadores.

Mas, calma leitor.

Talvez este não seja o fim da história como certa vez quis o acadêmico de Harvard, desmentido e reprovado a golpes do imprognosticável quando as torres vieram ao chão. Podemos desmentir tudo, por um único motivo: o imprevisível faz suas visitas regularmente. Revoluciona sem alarde, com a mais implacável simplicidade.  Como o médico que chega e, sem se intimidar com a pressão por medidas drásticas, apenas abre as janelas para arejar o quarto sufocante. Existem portões que são escancarados por ventos oblíquos, marés que transtornam encouraçados e gente com potencial para chacoalhar uma sociedade letárgica.

Salvar uma jovem democracia da morte súbita requer o Estadista que ainda não apareceu. Não será fácil, e decerto será longo, mas, às vezes, basta um caso. Um único caso tem potencial para remover qualquer paradigma (ou candidato) apodrecido na  linha da história. O trilho está colocado, os vagões posicionados. Mesmo sem maquinista a história costuma dirigir rápido e seus efeitos são mais efetivos que os discursos sobre ela. Em meio às instituições obsoletas guiadas pelo corporativismo, a entropia se acelera. Se vai ser locomotiva, trem bala, Maria Fumaça, ou apenas o colapso em todas as estações ninguém pode prever.

Por hora só há uma certeza, na disciplina engenharia de materiais existe um ponto crítico de desabamento, desencadeado por qualquer grão extra: é assim que, no percurso do tempo, muitos castelos não pararam em pé.

_________________________________________________________

— Filho, viu? Acaba de desmoronar.

— Então de que adianta fazer se vai cair?

— Porque é assim mesmo, precisamos continuar.

Hesitante, o menino levanta e medita por alguns instantes antes de responder:

— Podemos começar outro?

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/a-penultima-volta-do-torniquete/

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