O uso da Narrativa como falsificação da História.
Por Paulo Rosenbaum
“Liberdade para os lobos significa morte para as ovelhas”
Isaiah Berlin
A palavra antissemita, foi um termo cunhado por um jornalista alemão em 1879 para contornar a palavra judenhass, ódio aos judeus, e, ao mesmo tempo, manter o conceito mais vago e brando. O termo que reuniu as palavras “anti” e “semita” foi elaborado dar um contorno mais asséptico para se referir à atitude racista de um modo mais confortável e técnico.
Após os ataques terroristas de 07/10 contra civis no sul de Israel, onde 1.200 pessoas a maioria de civis, entre os quais bebes, crianças e mulheres, foram massacradas e 253 pessoas foram sequestradas por um exército composto de inimigos da humanidade, os antissemitas mudaram de tática: escolheram ser transparentes.
Pois este sentimento misojudaico (misos-ódio em grego) ressurgiu de forma inaudita pelo mundo antes mesmo que as forças de defesa retaliassem contra os tiranos que governam a faixa de Gaza.
No entanto, podem economizar perplexidade. Já que o que se seguiu aquele acontecimento não passou de uma previsível e lógica progressão da atitude misojudaica: complos, assassinatos coletivos, e crimes praticados contra individuos e coletividades ao redor do mundo. Mísseis balísticos atirados sobre cidades israelenses a esmo, diariamente, contra populações civis. Proxies bem articulados, com apoio e financiamento do regime dos aiatolás para invasões ao norte ao sul.
A reativação do sentimento misojudaico chegou com a modernidade, e, mais recentemente, sob a pós-modernidade tardia. Sob distintos álibis e contextos, a lógica que os guia se tornou cada vez mais dificil de despistar: a necessidade de encontrar pretextos para forjar acusações contra um carrasco polivalente: a estrela de David.
E, em cada espirito do seu respectivo tempo, esta tarefa tem sido cumprida à risca por distintos agentes. Como hoje é possível opinar sob o anonimato de codinomes e senhas digitais, o esperado aconteceu: ataques contra as comunidades judaicas ao redor do mundo floresceram. Mensagens de odiadores e seus cúmplices inundaram as redes sociais e uma correspondente e desproporcional audiência potencializada pela repercussão nas coberturas das mídias. Em geral seguindo acriticamente a tendência do barulho. Uma parte delas se tornou repentinamente muito leniente e preguiçosamente seletiva para acionar seus mecanismos de checagem de fake news e desinformação.
Ouviu-se que descendentes do povo que atravessou o Sinai há 3334 anos, portanto em 1.312 antes da era civil, talvez não sejam os sujeitos ideais para denunciar o estado da arte alcançado pelo misojudaismo de nosso tempo. Decerto soaria mais crível se o protesto chegasse através de gente que está fora da bolha. Assim o sistema criou uma fórmula até certo ponto eficaz para reforçar a mordaça de quem quer resistir às calunias. Mas calar quem vem sendo hostilizado diariamente nas ruas, de forma direta ou indireta, seria como pedir para um médico não lutar pelo seu paciente apenas porque ambos compartilham dos mesmos pontos de vista. Não há conflito de interesse, nem atitude partisã quando se advoga pela legitima defesa.
Vale também ressaltar uma outra categoria de misojudeus, são aquelas pessoas que estrategicamente se afirmam geneticamente pertencentes à categoria de “judeus” os quais, junto com seus associados, simulam uma peculiar espécie de “objeção de consciência”. A “objeção”, é, evidentemente, uma manifestção cabotina uma vez que consiste em acusar unilateralmente o estado judaico de exercer a legitima defesa de forma relativamente eficaz.
Importante salientar o abuso do termo “narrativa” como se houvesse uma forma de falsificar a história. E essa tendência pode ser desmascarada, analisando o número de argumentos incoerentes e contraditórios usados para criminalizar não apenas o Estado de Israel, mas a própria existência dos judeus.
Um dos motivos desta confusão é de que talvez a motivação central da intolerância não pode ser explicitada de forma consciente. Sim, pois o monoteísmo também se refere simbolicamente à singularidade de cada sujeito. Trata-se de uma concepção intolerável para determinadas concepções mentais que elevam o Estado à altura de uma deidade substituta onde o sujeito é apenas um resíduo, que precisa ser anulado, eclipsado, reduzido a um papel insignificante.
Nem valeria elencar os argumentos usados com destaque para a infundada acusação de neocolonialismo, passando pelo risivel revisionismo histórico de que os judeus nunca foram escravos no Egito, o holocausto nunca aconteceu, além de outros malabarismos pseudo historiográficos. Sob este ponto de vista, o déficit de honestidade intelectual não tem sido mais considerado uma aberração por algumas academias, destarte pode ser indultado e até premiado, especialmente se a ideologia estiver a serviço da causa: uma boa causa vale uma boa fraude.
Perdidos, buscam recorrer ao desesperado recurso de que a “narrativa” pode não apenas substituir fatos, mas modelá-los e instrumentalizá-los de tal forma que, ao fim e ao cabo, qualquer traço da informação verdadeira seja obliterado. Notem que quem se alinhou ao eixo dos devotos da cólera são aqueles que até há pouco autointitulavam-se progressistas. Progressismo deveras peculiar este que apoia ditaduras sanguinárias, defende governos autocratas, e exalta teocracias homofóbicas e misóginas. Neste caso, a virtude moral estaria em perfilar-se ao reacionário como sugeriu o iracundo Schopenhauer.
Uma palavra sobre o papel representado pelo atual chefe do executivo brasileiro, que deveria obedecer a histórica e eficiente tradição diplomática do Itamarati e tomar a frente na proteção das minorias, pautar-se pelo respeito aos direitos humanos. Infelizmente deixou-se seduzir pelo misojudaísmo para sacrificar o direito e a análise equilibrada no altar das conveniencias de ocasião.
É direito constitucional garantido que as pessoas possam expressar os seus pontos de vista, inclusive os preconceituosos. Ao mesmo tempo, historicamente, o policiamento da linguagem costuma terminar em tirania. Mas estes direitos foram muito além de possibilitar a expressão dos preconceitos.
Esta marcha da ideologia vazia caminha, mas não sem slogans como os recentes, “guilhotina”, e “mortezinhas” que escapam da boca daqueles que não conseguem suprimir o que realmente pensam. Ao engajar massas ora desinformadas, ora possuidas pelo espirito de manada, o projeto locupleta-se com democracias populistas intolerantes, geralmente regidas por autocratas decadentes.
Neste caso, minorias estridentes sentiram-se encorajadas a adotar os slogans e senhas para as várias modalidades de linchamento, censurando, empunhando cartazes raivosos, além de facas, tochas e finalmente morteiros e bombas incendiárias. E é assim que se obtém uma tolerancia seletiva que serve ao propósito e que deu origem ao projeto: criar uma formula universal que funcione como um motor de unificação de todas as forças parasitas e ociosas oriundas de uma geração acrítica.
Por outro lado, como deveriam se comportar os judeus que, testemunhando a inércia da maioria, vem sendo hostilizados por minorias que se impõem aos Estados com uma pregação aberta de intolerância e violência?
Devem seguir estoicos? Ou viver em negação? Como se fosse apenas mais uma das milhares de vezes que aturam e sobrevivem às perseguições? Ou formular novas estratégias de autodefesa para além das já existentes?
Seja lá quais forem as respostas, a luta contra o racismo misojudaico, não pode prescindir de ninguém, precisa de todos, como já havia antecipado o sobrevivente do holocausto e prêmio Nobel da paz, Elie Wiesel. De todos aqueles que apreciam não apenas o status quo de um mundo livre, o qual visivelmente está encolhendo, mas dos que intuíram que o totalitarismo geralmente começa com este tipo de sentimento contra uma cultura, e termina de forma generalizada, aglutinando intolerância e belicosidade.
Oxalá que as guerras estejam mesmo perto do fim, mesmo que seja um fim provisório. Destarte, o que foi testemunhado não pode mais ser ignorado. Precisaremos dar sequência ao grande serviço: impedir que as sociedades sigam contaminadas e regidas pelo instinto do ódio, afinal este seria a consagração do grande objetivo dos fanáticos em seu longo e sistemático trabalho de sabotar a civilização.
O momento é decisivo e a demanda por coragem será exigida daqueles que pressentem que há um lado justo da história. Sentem, porque a racionalidade está comprometida pela desinformação e pelo dogmatismo doutrinário das ideologias.
Pois bem, esse dia chegou.
Seremos os pioneiros para implementar essas transformações.
Não há mais espaço para neutralidade, e uma vez que a esperança não tem autonomia para se impor, ela exige determinação e pessoas dispostas a viver por ela.
Nós estamos. E vocês?
