Adeus, Machado

Coisas da Política

Hoje às 06h00

Adeus, Machado

Paulo Rosenbaum – médico e escritor

O projeto da moça que quer popularizar as obras de escritores “difíceis” é subsidiado pelo Minc, custeado por todos nós. E isso é só o começo. Com outros autores na fila, mais penas serão escaladas para a simplificação literária.  Descaracterização ou acessibilidade? O que parece óbvio não é simples. O problema é menos o projeto que a chancela do Estado.

A questão de popularizar a literatura tem indignado muitos. Mas isso é popularizar a leitura ou atestar o analfabetismo funcional da maior parte das pessoas? Se é isso, temos que nos perguntar qual terá sido a função do MEC nas últimas décadas. Portanto, a indignação está mal direcionada. O foco de estupefação deveria ser bem outro. E é, mais uma vez, a ideologia que o projeto encerra.

Ninguém, com algum discernimento intelectual, votaria desfigurar, adulterar ou anular as idiossincrasias de um escritor. O que sobraria deles e de qualquer um, se não fossem as palavras e as coisas que só cada um de nós pode falar, fazer ou escrever? Bem que os roteiristas e adaptadores de obras para o cinema usam a literatura, raras exceções, tentando enxugar e filtrar as obras mais difíceis. Mutilações são a regra.

O que interessa nesta análise é o que se esconde atrás desta política. Trata-se de verdadeira reversão do processo pedagógico. Reversão é bem melhor que perversão por representar perigo e gravidade maiores. Ninguém pode dizer que há incoerência. Afinal, a proposta é cuidar do candidato a leitor, tal qual a administração federal costuma tratar os interesses públicos: desprezo à inteligência.

Para que elevar os leitores ao patamar de uma linguagem erudita? Por que se esforçar para produzir uma geração crítica? Que importa trazer às pessoas o discernimento literário que permitiria distinguir Euclides da Cunha de um manual de autoajuda?

É esse, e nenhum outro o foco nevrálgico dessa e de outras iniciativas. A transformação palatável de conteúdos complexos em pasteurização medíocre, ainda que às vezes sutil, subliminar, e sempre com a camuflagem da promoção de equidade, faz parte do decadente projeto de poder. Essa visão estratégica que autoriza pessoas (pulemos o mérito da competência) a reduzirem uma obra de arte a um produto de consumo popular tipifica a índole deste gênero de experimentação com dinheiro público.

Decerto, perguntar-se-ia se valeria a pena continuar a gastar a vida, esforço e tinta, para, no final, ver suas letras pulverizadas para a grande degustação universal. Ele reconsideraria. Por que não aproveitar melhor o tempo?

Consultado, impossível prever a reação de Machado de Assis ao ser apresentado ao projeto. Talvez abrisse mão do uso de palavras sofisticadas. Provavelmente, daria cabo dos contos mais labirínticos. Caso os colegas, aflitos com a proposta, viessem até a sacada aflitos com seu suposto enlouquecimento, ele se ausentaria da escrivaninha para caminhar nas ruas do Cosme Velho, jogar palavras fora na velha adega e enfrentar o dia sem pressão dos fantasmas.

O fundador da Academia Brasileira de Letras convocaria os colegas de fardão para abandonar o ofício, cada vez menos útil.

O Bruxo, que não costumava remoer as vicissitudes, pensaria numa vingança elegante. Desistiria de corrigir o antológico erro tipográfico que atingiu seu livro Poesias. Com gosto, preservaria a palavra “cagara” no lugar de “cegara”.

http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2014/05/15/adeus-machado/

Mãe não é só isso (Blog Estadão)

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Mulheres obtêm na Justiça tratamento para virar mãe

Mãe não é só isso. Toda mãe é filha, neta, berço das genealogias. Falam que só o tempo dirá se será matriarcado. Para mim, é só olhar, já está sacramentado. Mas lembrem-se das não mães. Das que não quiseram, das que não conseguiram, das que perderam, daquelas que nunca puderam escolher. Mães distantes, postiças, prematuras, velhas e das que nunca souberam. Mães futuras e as que já foram. Temos presente, vocês não vêm de hoje.

Chilique conservador (Blog Estadão)

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Examinando minhas referencias especulei: hoje o que é ser conservador? Não gostar de pichação, estranhar ônibus queimado, deprimir-se com avenidas interditadas, imaginar organização, cidades limpas, uma direção que guie ao sonho. O populismo deforma os espelhos. Inverte as leituras. Esqueçam formação. Não preparem pessoas. Qualquer coisa serve. Reescrevam Machado, Alencar e Joyce. Daqui em diante e para todo sempre, tudo será mastigado, achatado, pré metabolizado. Renda, saúde e educação. Abaixo critérios estéticos. Acabem com todo esse rodeio ético. Incorporem a bagunça. A anomia, norma. O crime como forma. Mídia que desinforma. O desvio como rotina. A vida como defesa. O País está demente. Linchem a granel. Bruxa ou inocente. Esfolem a vontade. Não há mais ninguém imune num mundo impune. Comprar consciências está moleza. A campanha está no papo. Obras sem fim. Inacabadas. O marketing bombado nos partidos alugados. Pesquisa de intenção. Está na mão. O rendimento no regaço. Funcionalismo no inchaço. Trabalho, conceito burguês. Política, gosto do freguês. O discurso do mestre. Precisamos de ajustes? Maquie os embustes. Esforço é elitista. Mérito, golpista. Aparelhamento está na meta. Pau na classe média. Poesia virou funk. Cultura, descarte. Esqueçam o cerrado, destaque ao senado. Viram no que deu? Entra a turma do despiste. Se a fraude é contumaz. Escondam na Petrobras. E nada de mensalistas. Escolham diaristas. Criem regras flutuantes. Limites redundantes. E viva o balão de ensaio. O Bolão da República. Ele está de volta. Criticar virou golpismo. A esquerda, direita. O materialismo, liberalismo. O capitalismo, socialismo. Ainda bem, fala baixo, não descobriram o niilismo. A última saída do abismo.

http://blogs.estadao.com.br/conto-de-noticia/chiliques-conservadores/

Mais humanos (Blog Estadão)

Entidade rebate crítica de Dilma a médicos brasileiros

Jorge Luis Borges cotava da sabedoria oriental que a felicidade, vem do menos. O advérbio mais é perigoso. Sempre foi. Do latim magis, designa aumento, superioridade, ou comparação. Não só porque a palavra comporta armadilhas, mas porque ela, inevitavelmente, envolve medições. As medições, comparações. As comparações, dificilmente atendem a justiça. Afirmar os médicos cubanos são “mais humanos” estabelece um diagnóstico generalizante, precoce e duvidoso. Especialmente para uma atividade complexa e individualizante como é a medicina. Mais humano? Comparado com quem? Sem dúvida, a frase avulsa já levantaria a boa discussão. Isso se não estivéssemos em meio ao pathos de uma campanha política.

Portanto, o que será que define o grau de humanismo em um atendimento médico? Raça, nacionalidade, cor da pele, dos olhos, escola que cursou, etnia, incidência de raios ultravioleta, classe social? E se disséssemos que ainda não há escala padronizada e consensual para contabilizar o teor humano de cuidado despendido às pessoas por profissionais de saúde? Há anos estudos e pesquisas tentam tornar o atendimento menos mecânico, confortador e oferecer estímulos para o estabelecimento de vínculos próximos com quem precisa de tratamento.

Não seria extraordinário se todos que se dispõem a cuidar dos outros buscassem também ser sujeitos nos atendimentos? E isso se ensina numa Escola de Medicina? O historiador da medicina Pedro Lain Entralgo, consciente do fenômeno da transferência, preferiu chamar a proximidade curativa com o paciente de “amizade médica”. Mas há também outros ingredientes a serem considerados como o talento, a disponibilidade, a geração de empatia. Capacidade de escuta é uma síntese feliz. Mas há um item, que, subtraído das discussões, anda em esquecimento: condições de trabalho.

A ideia geral de prover médicos em maior número para regiões desassistidas é basicamente justa. Mas o tratamento e as circunstâncias com que os médicos estrangeiros foram contratados são aviltantes. Sob quaisquer perspectivas. Não importa o viés com que se analisa a matéria. Só uma visão ideológica que aspira a hegemonia pode considerar naturais a falta de liberdade e salários humilhantes a que essas pessoas estão sendo submetidas. Estas sim, condições sub humanas.

Será que a mandatária geral quis dizer que os brasileiros que praticam medicina, na hora de cuidar, são menos humanos do que seus colegas cubanos? Se é isso seria bom que nos explicasse para que conhecêssemos as razões de sua afirmação. Teria ela experiência com a realidade de solo? Dos hospitais, dos centros de saúde, das clínicas e ambulatórios, dos consultórios públicos e privados? Meu palpite é que ela não pretendeu ofender ninguém. Só quis exaltar o slogan num período eleitoral. A infelicidade é novamente o contexto com o qual se faz propaganda. De qualquer modo, todo cuidado é pouco com o mais. Ele não é, nunca foi, sinônimo de qualidade. Pelo contrário. Jamais foi critério para assegurar decência.

Prometo não usar a palavra mais para não parecer incoerente, mas não seria má ideia que essa administração tivesse qualquer consideração com quem cuida da saúde das pessoas: menos marketing, alguma efetividade. Menos é mais!

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