Horizontes Substitutos – Mutação da linguagem III

Yon Hazikaron e Yon Haatzmaut

Paulo Rosenbaum

Ao contrário da pregação dos revisionistas o testemunho e as testemunhas são os únicos documentos irrefutáveis da história. Escutamos, aqui e agora,  desejando ou não, admitindo ou não, que a longa marcha da intolerância ainda tem sua voz garantida. Dentro e fora dos Estados Nacionais. Está nos indivíduos, encontra-se nas instituições. Uma das provas deste amarga repetição é a metáfora obsedante de teor anti judaico e anti sionista que vem tomando conta dos discursos e das narrativas.

Ora, agora para justificar uma operação evoca-se a proporção de “sangue judeu” do carrasco e suas equivalências. A máquina de propaganda inclui um gigantesco lapso de análise crítica por parte da mídia. E agora ousa culpabilizar a vítima pela agressão como confirmou o candidato em entrevista à uma revista americana outrora expressiva. Não se trata apenas do uso temerário da linguagem que vem assumindo contornos alarmantes. É torná-la o avesso do trabalho de construção da liberdade e da justiça. É a perversão dos significados e quiçá um crime contra a literatura decente. Não que ela deva tornar-se prescritiva, mas deveria abster-se de associar-se à perfídia ideológica e datada.

Parece persuadir a vida que erros assim vigorem como regras contra acertos de exceção. Indo adiante, a evocação maligna emitida por políticos e líderes ancora-se no medo. Assim tem sido quando exortam a demonização. Notícias que espalham-se nos mesmos ares comuns e com o mesmo vigor fantasmagórico. Insinua-se, como nos recentes ondas de pestilência, através de uma energia invisível e indecifrável, a despeito de ser constrangedoramente palpável. Encontra-se na intragável boca dos chanceleres do oriente e na didática pouco corajosa do ocidente. O ocidente cuja neutralidade ricocheteia nas vítimas para terminar alojada no colete à prova de solidariedade dos gabinetes decisórios. Que encontra na estratégica omissão as mesmas devastações das cidades abertas em guerras recentes.

Agora já aprendemos, todos. A linguagem é um berço selvagem. Que em tempos bélicos deixa apenas sulcos sem sentido. As acusações contra Israel costumam vir das generalizações, organizadas pela língua que trama e confunde. Apesar da polissemia artificial que o termo vem assumindo recentemente na boca do antissemitismo histórico, os verdadeiros nazistas e seus cúmplices ideológicos  ainda sabem instrumentaliza-lo como poucos. Eles vem como enxames erráticos para disseminar uma polinização fanática entre flores acríticas. “Vocês é que são nazistas” tornou-se uma espécie de slogan-álibi garantido para praticar as ações que tipificaram o III Reich.

Qual seria então o nosso horizonte substituto? Aquele que ainda, atônitos, não vimos. Aquele que substituirá as promessas de aniquilação por processos de integração. Nosso povo, vale dizer nenhum povo que não seja maioria aceitará doravante emendas relativas. Tampouco aceitará mortes injustificáveis. Não acatará imputações manipuladas. As vezes, o descanso semanal, o Shabat, não basta para pautar o descanso, nem o luto para treinar o sofrimento.

Nosso horizonte substituto? Ficar à deriva? Render-se à passagem de um tempo que não progride? Capitular diante do mar de injustiças e das calamidades previsíveis? Sem uma enorme carga de objeção ao volume de ataques, o futuro indicaria a repetição de uma tragédia de proporções da Shoah. E como devemos agir? Contemplativos?  Adotando a imperturbabilidade estoica? Sob um andar lento e majestoso deslizar entre os ladrilhos alaranjados de Jerusalém? Ou nas intermitências de uma fé que oscila entre o nascer e o por do sol? Entre um mar incognoscível que nunca será completamente atravessado?

O que me ofereces horizonte? Além de Nada, além das promessas de posteridade? De aceitação cordial de um destino não escolhido? Ou será mais um dos enigmas que ninguém ousa perscrutar? O que nos desvela horizonte? A calma inapropriada de dias sem sentido? Ou a certeza de que tudo não passa das mesmíssimas experiências com revezamento dos protagonistas?

O que pode nos dizer horizonte? Que somos um mero palco para tua atuação? Hoje as cinzas de uma mortalha desavisada chovem sobre nós. E não molha só os exauridos judeus  Meu pai estava na mesma tempestade. assim como todas as gerações ancestrais, e parecem reivindica-la.

Não se trata mais de um amanhã, o transe se impôs hoje, violento como só a invisibilidade pode proporcionar. A vulnerabilidade é uma sequela impertinente. O transe se impõe por uma ausência arbitrária, refém de uma peste.

Prevejo que não será um solo comum, ou uma vida de alegrias imotivadas. Antes, tu tecerás uma rede de amarras para criar a sensação de fim. Mas o que eles não contavam é com este pequeno imponderável. Não sabemos bem a quem pertence o horizonte. A nós, que sem a pretensão de alinhamentos estamos coesos?. Sei que não és oráculo, nem pode ou deves predizer o que nos falta.

E por isso suspeitamos que a fusão de horizontes não passe de uma quimera se o prumo não estiver disposto em solo plano. Um desfecho de ficção para quem esperava realidade. Por que então ainda nos acossa com esperança, horizonte? Com expectativas que jamais surgirão e com promessas traídas pela realidade?

Se pudesse arriscar responderia que nossa visão te incorporou sem entender bem o que significa o grande panorama. Aquele que nos retirará da vulgaridade do senso comum para nos mostrar um novíssimo pertencimento.

Sem partidos, sem fundamentos rígidos, num horizonte maleável que interponha sua coluna de proteção. Que simplesmente separa milagrosamente os tiranos dos justos.

Eleito, seria este o horizonte substituto: quem sabe assim conheceríamos o sentido esférico da palavra shalom?

Que sob sirenes, ou violinos, teu aniversário de 74 anos de existência seja assim!

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