O Filme “O nome do Cuidado”, um ensaio médico-filosófico sobre a relação entre médico e paciente, confira !

“O Nome do Cuidado”, filme que trata sobre a relação entre médico e paciente, a partir da interpretação de um texto médico-filosófico interpretado por Walderez de Barros e Oswaldo Mendes. O LAPPIS, apoiando a divulgação do filme, entrevistou o idealizador do média-metragem, o Dr. Paulo Rosenbaum. O médico homeopata responde à questões sobre o filme e sobre a saúde e sua representatividade na sociedade atual. Assista ao trailer do filme e depois não deixe de ler a exclusiva entrevista !                        

*Em uma das cenas, a personagem vivida por Walderez de Barros reflete sobre a solidão e o grande individualismo presente nos membros da sociedade contemporânea. Como você encara essa tendência e quais as relações que ela tem com a saúde, sobretudo com a homeopatia? Nesta nossa sociedade da informação e relações expressas, a solidão tende a se acentuar dramaticamente, as pessoas vivem mais sós, o número de pessoas que moram sem família segundo os dados do IBGE de 2008 mostram: a tendência explodiu na última década. Isso é mundial. Por outro lado, o individualismo não está só presente nos membros da sociedade, a sociedade é ideologicamente individualista. Isso é: a sociedade – mesmo num regime mais solidário e participativo – produz sua “coesão” em geral às custas de um efeito colateral: a supressão das características pessoais, diluição das unidades irrepetíveis que são os sujeitos individuais. É relativamente simples compreender: para alcançar a média eliminam-se os traços singulares. Há cada vez menos espaço na sociedade para idiossincrasias e as singularidades têm que se adaptar – sob o preço da exclusão, marginalização ou abandono – as normas sociais que são comuns à média. A solidão contemporânea é não só um produto da incapacidade de pertencimento, mas também a rejeição ativa de um meio social que discrimina e segrega as diferenças. Não sei se há solução para este paradoxo. Há ademais uma solidão metafísica, o sofrimento existencial para o qual, talvez, não haja cura. Paul Ricouer fala que a miséria é não coincidir consigo mesmo. Acredito nisso. Mas como recuperar estes valores em uma sociedade anômica e sem critérios justos? A homeopatia e as medicinas integrativas são só meras medicinas, certo? Por que deveriam se propor a ser agentes de uma transformação mais ampla? Que pretensão é essa? Qual sociólogo ou filósofo concedeu esta liberdade para a medicina? Mas o fato é que desempenharam um papel social mais amplo do que só eliminar doenças, tentaram desenvolver critérios para avaliar cada singularidade como essenciais à uma melhor compreensão do processo de saúde e doença e até compreender melhor a sociedade. Benoit Mure pode ser sempre citado como alguém com estas preocupações. Gostemos ou não, pelo menos até aqui, a ampliação do horizonte de atuação da medicina foi um projeto derrotado. Que se choquem os puristas, mas há elementos palpáveis que permitem fazer esta leitura: as áreas não hegemônicas não conseguiram a sustentação, pois nem os médicos que usam as outras racionalidades médicas, as não hegemônicas, se entendem sobre como devem informar à sociedade. Nem sobre os motivos de sua existência, nem quais as novidades que propõem ao resistir ao hardcore das pesquisas padrão-ouro como as únicas que realmente qualificam o que se produz de benefícios. Aliás, a “resistência” que durante muito tempo foi até bem calibrada para fixar e reafirmar um projeto de pesquisa que ainda estava um tanto frouxo hoje virou justificativa para se manter como uma causa anacrônica. Uma ideologia atrasadíssima que divide o mundo entre alopatia e todo resto. Ela, além de não dialogar bem, acha que deve desafiar a corporação médica ou acusar as indústrias de medicamentos no lugar de trazê-los ao debate. Há dificuldades em ter consensos mínimos para dialogar com a comunidade científica e quando o faz paga o preço para executar a desfiguração das características que fundamentam o método. Temos, então, que fazer a pergunta dolorosa: de que vale toda luta pela reafirmação se é para aceitar uma redução que inviabiliza a novidade trazida pela perspectiva de uma prática integrativa, que é, sem ingenuidade nenhuma, um projeto generoso?                                

  • Na contemporaneidade, a saúde assumiu a definição de “não estar doente”, ao invés da definição clássica de “ser saudável”. Em uma passagem, Oswaldo Mendes questiona o paciente sobre o que ele imagina ao sentir dor. A expressão visual é a explosão de uma bomba, mas como você a definiria em palavras?A bomba é uma metáfora cuja idéia foi do diretor do filme o Leo Lama e que o Paulo Prestes Franco captou e inseriu muito bem na película. Ela é eficiente para dizer uma coisa que se reafirma ao longo do filme. Uma bomba é a violência máxima, as vezes indiscriminada, a maioria das vezes irracional, que pode ser a síntese simbólica do estatuto moderno da falta de delicadeza. É a antítese absoluta do cuidado. Só o que vale é produzir “efeitos” e “ver” fatos. O testemunho, a narrativa só aparecem e só podem ser validados pelas imagens. Ela tem a força para dizer aos que estão em volta que ele é um alvo. Um alvo da injustiça, um refém da impaciência, um objeto a ser pulverizado. Assim muitas vezes as áreas das ciências da saúde infelizmente objetificam as pessoas que precisam de tratamento. A metáfora tem, neste sentido, uma tripla hermenêutica: destruição da coisa “doença”, o “alvo” sofre uma ação indiscriminada contra tudo que está em volta. A bomba, na verdade uma cena de míssil teleguiado atingindo um alvo, também representa a intensidade desesperada do sofrimento, e finalmente uma metáfora para comparar o que às vezes é de difícil verbalização no caldo da pobreza da linguagem. Enfim, a imagem da destruição que, para quem adoece, não faz nenhum sentido. Mais para frente, durante um diálogo, o paciente diz para o médico reagindo a uma generalização que aquilo que ele fala é um problema da sociedade e não da medicina e o médico contesta: “os problemas da sociedade explodem na cara da medicina”.   
  • As medicinas integrativas, particularmente a homeopatia preconizam um atendimento individualizado, dando ao paciente a atenção necessária para que a cura seja obtida com maior qualidade. Em sua opinião, esse tipo de relação entre paciente e médico deveria ser integralizada ou deveria se restringir apenas à homeopatia? Se o que você entende por “relação integralizada” for uma relação radical onde o médico capture o estado do doente e o contextualize e a partir desta perspectiva, onde ele pode entrar em sintonia dialógica com quem está cuidando e vice versa, sim. Vice versa, pois a relação dialógica pressupõe que os dois sejam sujeitos na consulta. A homeopatia é uma especialidade que tem esta característica estrutural em sua episteme e por mais que os pesquisadores tentem dissecá-la não é possível emancipar o efeito terapêutico medicamentoso da ação e da força da ação nos rapports terapêuticos. Eles estão casados e condenados a uma fidelidade eterna para desgosto de muitos. É um grande equívoco subestimar o valor da conversação. O atendimento individualizado não é só estar atento e disponível para o sujeito enfermo, mas valorizar as idiossincrasias não só como detalhes positivos para identificar sintomas, mas para compreender e fundir horizontes com o autor dos sintomas. Neste caso a fusão de horizontes é com o paciente. Esta apreensão não é só importante naquele momento já que uma orientação ou aconselhamento sempre poderão ter como base aspectos muito particulares de determinada pessoa. Se a medicina standard pudesse reaprender a ouvir as histórias biográficas e clínicas dos pacientes isso seria um enorme avanço científico e institucional. O cuidado se aproximaria de uma prática mais cuidadosa e médicos e pacientes seriam progressivamente desobjetificados e isso, poderia funcionar como uma reformulação geral da própria noção da clínica. Mas isso é só uma esperança.                                                                                 
  • A escolha do metrô como cenário da interpretação representa a coletividade que é responsável por igualar os cidadãos, oprimindo as características individuais. Em uma cena o paciente grita, desesperadamente, que está passando mal. Enquanto ele demonstra o seu desespero, fica claro que ninguém, entre as muitas pessoas que o cercam, é capaz de ajudá-lo. Em sua opinião, a sociedade carece de solidariedade? Qual a relação desse sentimento com as práticas de saúde? Essa é uma colocação instigante. De fato, o grito da dor é um grito no vazio, além de surdo ele é um grito inoperante. Ele emite seu desespero para quem? Há quem ouça? Há quem cuide? O desamparo é um estado grave; ele é a voz do abandono e da falta de cuidado. Ele é o parente por afinidade da solidão. Por isso ela grita tão alto e insiste em se fazer ouvir. O filme busca acolher e examinar o mal-estar. Como disse acima a sociedade não é, por natureza, solidária. Muito menos o Estado que em geral é violento, repressivo e ao dizer que se preocupa com o cuidar das “massas” talvez não promova nada além de medidas homogêneas para pessoas com necessidades completamente diferentes, não importa o protocolo aplicado. A epidemiologia está apenas começando a aprender o valor prático da diversidade. Às vezes, a maioria delas, sacrifica-se o individual em nome de um bem coletivo. Ninguém está querendo negar o valor da bioestatística nem da eficácia. Por exemplo, não se pode colocar em ônibus públicos bancos individualizados de um modo que cada um seja respeitado no modo como gostaria de se sentar. Mas a ação médica é diferente e os cuidados em saúde precisam de uma atenção que enfoque o modo particular de como a pessoa adoece e se cura. Não é possível a padronização ainda que se possa aceitar os protocolos e suas taxas de eficiência. Isso é só uma faceta da interferência terapêutica. A outra cara da moeda é que se um protocolo de tratamento é eficaz numa indiscriminada aplicação de uma diretriz exitosa sobre determinada patologia, imaginem quão mais eficaz ele seria se pudesse ao mesmo tempo avaliar o impacto geral em cada sujeito e um ajuste fino pessoa a pessoa? Esse é o grande e maior trunfo de uma concepção correta de integralidade. A maneira singular e única com que cada expressa o que só ele pode expressar. Quem sabe assim não teríamos que estar discutindo à exaustão um pleonasmo como “humanização da medicina”. Decerto há segmentos de pesquisa no mainframe científico que já se ocupam apropriadamente desta questão, mas o percurso é lento e comprido. Como dizia a música: it is a long way!                                   
  • A cena em que a personagem expressa não querer saber sobre o diagnóstico, seja ele certo ou errado, representa o descaso do indivíduo pelo processo médico, desejando a cura imediata, sem se importar com as causas da doença. Essa é uma tendência geral da sociedade atual?                                                                                       A homeopatia, por possuir uma abordagem voltada para o indivíduo, pode servir de exemplo como solução para essa tendência? Não sei se eu leria dessa forma embora essa seja exatamente a riqueza do filme. Um documentário hermenêutico como “O nome do Cuidado” pretende mostrar que esta fusão se dá com as diferentes perspectivas de quem o vê e assim pode ser mais bem explorada em debates públicos. E esse é nosso esforço. Por sinal, nos chamou a atenção para a falta de apoio quase absoluto para esta iniciativa que tivemos que bancar com recursos pessoais e com a ajuda de amigos. Nenhuma associação, universidade ou grupos de pesquisa se engajou no projeto. Não reclamo. Apenas tento constatar como uma questão vital como essa está encapsulada e preterida. O que para mim só aumenta o desejo de divulgar o documentário e partir para uma segunda investigação fílmica. É uma discussão não efetivada e que exatamente por não despertar interesse institucional, devemos insistir em discutir “por que é que causa tanto incomodo este assunto? O que ele suscita? Renunciamos a qualquer denuncismo tosco, para adotar a linguagem da arte, metafórica e poética para dar voz aos problemas. Aplicar centenas de milhões de reais para implantar postos de atendimento, programas de humanização e a regulamentação das medicinas integrativas no estado brasileiro pode não ser o suficiente. Sem uma discussão levada as últimas consequências de qual é o tipo de medicina desejável e o que é o mais prioritário e de como está se dando a formação de recursos humanos para esta demanda imensa — tanto no SUS como na prática médica privada – e sem ainda levar em consideração o gênero de mal-estar que se amplia na sociedade contemporânea não me parece que podemos ir muito longe. Há um momento no filme que o médico diz “há uma patologia social gigante e parece que as pessoas não percebem que estas coisas também são sintomas”.                                            
  • Por fim, o trailer do filme, logo no início, levanta uma pergunta: “De qual medicina a sociedade precisa?”. Você poderia respondê-la? Acho que é a sociedade que precisa discutir qual medicina deseja. É uma pergunta e ninguém pode ter a pretensão de dar respostas sozinho. Mas tenho uma intuição e é disso que vou falar. Acho que as pessoas pelo menos a maioria não sabem o que é a medicina nem que ela tem várias possibilidades de intervenção. Quem dirá o que são as medicinas de corte integrativo. Se há uma medicina modelo? Se há um modelo que deveria ser hegemônico?

Não acredito. Precisamos urgentemente transcender a ideia de que uma      fórmula substituirá outra. As várias formas de intervenção fazem sentido e dizem respeito a modelos específicos de culturas e diversidades: étnicas, raciais, religiosas, geográficas. Há, entretanto alguns tópicos genéricos: acredito em levar a ideia para os usuários e consumidores de que é bom um atendimento em que a qualidade da presença esteja em evidência. Uma medicina em que a escuta seja mais generosa e que o paciente não seja objeto passivo, mas sujeito interativo que esteja também presente colocando todos os seus instrumentos à sua própria disposição. Tudo para que se possa alcançar estados mais próximos da felicidade. Um gestor de saúde poderia torcer o nariz e dizer: isso é impossível. Enquanto for médico, ainda posso – ou desejo -me dar ao luxo de acreditar. 

Para contatar o Dr. Paulo Rosenbaum, envie um e-mail para rosenbau@alumni.usp.br.