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Eis o solidéu.                                          

Paulo Rosenbaum

Ainda impactado pela enxurrada de racismo antissionista-antissemita ou “antizionssemita” (urge o neologismo, pois está provado que são um e o mesmo) que entulham as ruas, as redes sociais, Estados inteiros, todos como justiceiros sociais que agora se ufanam de lutar e fazer guerra aos judeus pela “causa” sic palestina.

Estou convicto de que se trata de uma patologia, que vai da extrema esquerda à extrema direita, passando por “proxys”— como o recente apoio dado aos terroristas fundamentalistas que dominam Gaza quando lançaram 4.300 mísseis sobre civis israelenses. A grande novidade é a xenofobia seletiva em uma extrema esquerda que entende que alguns racismos são mais progressistas que outros.

A suposta irracionalidade dos antissemitas precisa passar por um crivo analítico mais simbólico. Isso significa que judeufóbicos das mais variadas matizes ainda proliferam. E o fazem de forma recôndita, anônima, subliminar, inconfessável e sob omissões tácitas, espalhando sentimentos hostis contra judeus, independentemente de quem será o judeu em questão. Pois para o totalitário o sujeito individual é uma abstração, uma construção social burguesa, portanto desprezível.

Narro então minha mais recente experiência.

Muito recentemente, ministrava uma palestra num curso na área médica e expunha alguns dos resultados das minhas pesquisas médicas e epistemológicas feitas durante minha vida acadêmica na FMUSP. O curso contava com aproximadamente 70 professores da área de saúde, quando ouvi um ruído ao fundo, ruído não, rumor.  E as palavras foram repetidas mais de uma vez “é um judeu ai”. Resolvi esperar, pois poderia muito bem ser uma distorção sonora da plataforma, quem sabe algum espírito cibernético parasita? Ou ainda uma inflexão do ectoplasma do ódio? Dizem que à noite, mais precisamente após a meia noite, eles costumam assombrar o ciber espaço. Admito que pensei em alucinação auditiva. Ajustei o microfone e o fone, e fui em frente na minha exposição sobre temas que envolviam o resgate da relação médico-paciente. Tema especialmente vital em uma época carente de laços solidários, suporte e empatia genuína por aqueles que sofrem pelas doenças, e inépcia generalizada por parte dos homens públicos.

Mas eis que o som se confirmou, uma, duas, talvez três vezes, e não era exatamente uma expressão neutra “é, é um judeu aí”. Parei duvidando do que ouvia. Mas, logo em seguida, “…é judeu mesmo!”. Entonação é tudo quando você lida com conversações no mundo não presencial. A voz da pessoa expressava estas palavras descrevendo para terceiros a identidade étnica ou religiosa de quem fazia a apresentação.

Eu.

Mas vinha ao caso?

Talvez.

Estaria ela deixando o microfone aberto propositalmente para que todos os outros ouvissem? Ou foi apenas um ato falho, à revelia, e as palavras represadas jorraram incontrolavelmente de sua boca? Não saberia dizer. E o que fazer com isso durante uma transmissão ao vivo? Pouco importa se era saia ou calça justa, afinal tratava-se de uma agressão, ainda que minimizada pelo “escape”, e pela casualidade supostamente ingênua de uma captação de áudio fortuita.

Num impulso, entre o ultraje e a necessidade de responder, pedi licença ao grupo. Fui rapidamente até o armário mais próximo e resgatei meu solidéu preferido, feito a mão em Jerusalém. E então voltei à minha apresentação fazendo questão de exibir a indumentária. Então, em frente à câmera, acomodei lentamente a quipá ancestral. Usada para cobrir a cabeça dos judeus desde o período no qual Abrão deixou a cidade e a casa de seu pai em Ur na Caldéia, rompendo com as mitologias e criando uma cultura que geraria um dos primeiros códigos civilizatórios da humanidade.

O solidéu todo bordado, feito com um tecido poroso, negro. Na estampa, uma estrela que nos acompanhou desde o rei David, passando pelas amarelas dos guetos e campos nazistas, para enfim chegar ao símbolo azul da liberdade das forças de defesa de Israel. Aquela que tornou o povo hebreu menos vulnerável aos séculos de imolações impunes num mundo repleto de omissões.

Só depois de encerrada a palestra parei para refletir. Cheguei a conclusão que minha resposta foi instintiva e irracional, mas ao mesmo tempo, desafiadora, e até corajosa. Afinal, perscrutei, qual foi meu real incomodo? Difícil explicar, mas há uma sonoridade inaudível que persegue a nação mosaica que ninguém pode subestimar. Especialmente para um neto de sobreviventes da Shoah.

Aqui no Brasil, diferentemente dos judeus atuais da Europa, Reino Unido, e mesmo em muitas cidades norte americanas, ainda é possível mostrar sinais exteriores de judaísmo sem ser ameaçado ou linchado. Mas, se dependesse de parte significativa dos veículos de comunicação talvez o quadro fosse diferente, uma vez que é auto evidente o viés anti-Israel. Exagero? Não para aqueles que estão sendo intimidados.

Evidentemente, as causas do atual estado de coisas não podem ser analisadas num artigo jornalístico como este. Como afirmou o excelente advogado e professor de direito em Harvard, Alan Dershowitz, numa matéria publicada há menos de dois meses, o recrudescimento do antissemitismo – não ressurgimento, já que ele nunca deixou de existir —  na Europa e pelo mundo tem múltiplas e complexas raízes.  Mas há uma constante: está sempre acobertada por uma política baseada em hipocrisia e na necessidade de mostrar neutralidade, enquanto neo-pogroms — esse é o nome — tem se repetido diariamente em várias partes do mundo.

Voltando ao nosso microcosmos, ali, no calor da minha perplexidade, já que durante a apresentação não se tratava de uma pessoa com forma e trajes característicos, afinal, como me disse um amigo rabino, sou o que ele considera um “ortodoxo não observante” seja lá o que isso significa. Ali se tratava antes de incorporar algo do imaginário, algum estereótipo projetado, um álibi qualquer para mostrar o alcance da entonação maliciosa daquela voz que se escondia na multidão virtual.

Alguns participantes do encontro mostraram curiosidade pela situação inusitada. Para conter o mal estar? Ou simplesmente solidários com aquele que parecia ser um enredo inconveniente encenado num teatro improvisado.  Busquei de forma quase automática, converter o evento em uma experiência lúdica, afinal precisava assumir a identidade exigida pelo clamor da voz fantasma. E nada  chancelaria mais a expressão “… judeu mesmo” do que o uso do “chapeuzinho”.

Relembrei então da biografia de Freud, escrita por Peter Gay. Ele relatou um episódio que ocorreu dentro do trem, antes de Freud deixar Paris, rumo ao exílio em Londres. O humor sarcástico do médico se revelou quando os nazistas lhe exigiram por escrito uma declaração de que havia sido bem tratado pelos nazistas

Freud escreveu mais ou menos a seguinte frase em um bilhete

“Eu recomendo a Gestapo!”

A analogia é desproporcional? Provavelmente. Mas trago essa última passagem não como curiosidade, mas para mostrar que a história se revela por indícios. É através deles que as micro histórias individuais podem nos dar pistas para rastrear as tendências do presente e do futuro. O fomento da intolerância, do racismo, da censura e parcialidade da mídia, junto com a novíssima caça às bruxas em curso, é um fenômeno que deveria nos servir como alerta. Infelizmente isso não acontecerá, o recorrente vício em erros históricos antigos é mais forte do que o desejo de cura.

Tirando a melancolia, o saldo desta experiência é ainda desconhecido em mim. A análise e o julgamento do episódio deixo para aqueles que nos leem.

Já havia optado reduzir-me ao silêncio estoico e deixar este episódio pessoal no passado, mas acordei para o pesadelo entendi que talvez valesse a pena compartilha-lo.

Eu então repito o gesto:  eis o solidéu