É essa a voz? E por que ela parece ser uníssona? É isso que ouço? Como se todas as agencias noticiosas tivessem uma fonte única, e viessem de um central mundial de jornalismo. Alguma analogia com o centralismo partidário? E quanto à diversidade de pareceres? Por isso mesmo somos muitos esperando por homens que viessem de fora. De fora dos perfis pre-estabelecidos. Outsiders da política que se define por esquemas de antevéspera. Esquecíamos de um tópico: a engrenagem tem os seus procedimentos: o processo de auto-regulação que sustentam os desvios.

Somos desinformados enquanto o intelectuopólio avança como um tabu. Ele vêm através de consensos que ninguém pediu, acordos insustentáveis que foram impostos sem consulta prévia, opiniões que se reúnem na forma de um bloco de pensamento único. Um regime singular de informação que agora dita os acontecimentos. Pagens eletrônicas que podem afirmar se há um fato ou é a apenas a versão divergente de um deles. E estes são marcados como “falsos” ou parcialmente falsos”, o que no fundo dá no mesmo. Não se trata apenas de espernear, o sistema pactou com quem — evocando a democracia — vem acenando para tiranos e ditaduras de conveniência. Como se explica o silêncio dos democratas sobre a opressão na Venezuela? A mansidão pusilânime com a irresponsabilidade do Partido que comanda a China? Como se explica, sobretudo, a conivência com o regime teocrático misógino e homofóbico dos aiatolás e suas aspirações nucleares?

Eles chegaram com o complô pronto, enquanto bilhões se distraiam com a multiplicidade de teorias conspiratórias. A democracia agoniza e não tem nada a ver com polarização — um efeito tomado por causa — trata-se antes de uma nada inocente arquitetura costurada pelo status quo. Nesta perspectiva só um lema é prevalente, o establishment não pode perder.  Enquanto as emissoras decidiam quem venceu, lá, onde a justiça ainda pode prevalecer, cálculos estão sendo refeitos. Podem ou não mudar o resultado, mas o que se partiu foi mais do que uma disputa eleitoral, A confiança nos sistemas de informação que já se encontrava instável, despencou mais alguns degraus e o comportamento demarcará para sempre uma era. A era da instrumentalização da informação que antes era característica dos regimes totalitários.

A democracia que funciona não deve ser confusa, ao contrário dos seus representantes. A nova linguagem abusa dos artifícios de linguagem: quando a oposição se organiza o consórcio chama de polarização, quando o ódio encontra vias para se expressar ele nunca é responsabilidade de movimentos violentos. A história é pródiga em mostrar arquivos de manchetes que hoje expostas deveriam inculcar arrependimento, como, por exemplo, “Hillary Ganhou”e Al Gore é o novo presidente”. Se a mídia jornalística ainda deseja preservar o status de instituição — e deveria mesmo ser considerada uma — é urgente que ela revise seus critérios de partisãn. Que torçam ou distorçam como indivíduos. Pode ser apropriado para apresentadores de talk show ou humoristas, mas decerto não é razoável para comentaristas que não conseguem controlar suas emoções em público ou simulações e projeções precoces que, há apenas 4 dias já haviam anunciado vitória para um dos candidatos.

De quem será a responsabilidade se, em função de adiantamentos inconsequentes mais divisões na sociedade forem instigadas? Ou isso não importa? Ora, a polarização passa por este tipo de torcida de veículos que deveriam conter e encarnar a neutralidade tácita e sóbria de quem se espera rigor analítico. Isto, sem que o cada vez mais raro analista não ideológico tenha a oportunidade de expressar sua opinião, desde que ele a explicite como tal.

A imprensa livre só se torna efetivamente “livre” quando a consciência de seu papel institucional estiver acima das paixões de interesses ou de viés ideológico. 

Sem estes cuidados, teremos cada vez mais comitês de redação partisans instalados nas mídias — e fora delas — e menos espaços de reflexão.    

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