A série jornalística sobre a homeopatia na Rede Globo de Televisão terminou. Não se pode ficar impassível diante de alguns aspectos levantados pelo programa Fantástico. Pudemos constatar uma série de afirmações seriadas, em que pesquisadores, um mágico e médicos falaram contra e a favor da homeopatia. Tivemos que suportar o clima caricaturesco do programa em forma de duelo, até que no domingo anunciou-se o previsível veredicto de que a homeopatia falhara no teste proposto pela BBC, que incluía o mago James Randy no ‘corpo de jurados’.

A redação final era que não se poderia falar que funciona nem que não funciona. Se funciona, não é pelo que se supõe que seja.

O que foi insuportável não foi a Globo abordar um assunto com este potencial de interesse, nem ter monitorado a reportagem – nada de novo – desde o início, para ao final deixar como legado as seguintes impressões explicitas ou subliminares:

1) Que tudo que não tem uma explicação cabalmente demonstrável pelo monopólio metodológico não pode ser possível, sob nenhuma outra metodologia ou circunstâncias. Tudo isto reduzido à máxima: tudo que não pode ser explicado não acontece.

2) Que os ensaios in vitro, isto é, os ensaios das reações testadas com tubos inertes, podem ser arbitrariamente extrapolados para testes in vivo ou seja, no ser vivo.

3) Que todos os que se tratam parecem estar seduzidos pela ação pitiática, ou seja, sob o domínio da sugestão, não importa quão curiosa e inusitada pareça a evolução clínica favorável. Isto inclui os animais.

Outra forma de medicina

Afinal, sabe-se que milhões de seres humanos se tratam pelo método homeopático no Brasil, e 21% da população européia também. O verdadeiramente insuportável foi terem desprezado o mainframe da pesquisa homeopática no mundo e sob o manto da superficialidade terem introduzido mais preconceitos do que informações, mais ceticismo do que esclarecimento, e por último, e pior, terem mostrado que há de fato um fundamentalismo cientificista – tão obtuso quando seus correlatos políticos ou religiosos –, que opera na base do ‘acredito ou não’, ‘gosto ou detesto’, típicos, portanto, de uma crença monológica que caracteriza a velha ciência.

A boa notícia é que, apesar de tudo e de todos eles, uma nova ordem científica está em curso. Nela, o novo e o inexplicável podem ser investigados com liberdade e julgados pelas pessoas, já que a ciência é, ou deveria ser, para elas.

Por uma questão de coerência espero ter preservado meu direito de opinar.

Passado portanto o primeiro impacto da exposição da Globo, os desdobramentos já merecem ser provisoriamente avaliados. Alguns aspectos se destacam e o mais evidente deles é a repercussão social imediata. O Fantástico é um programa exibido aos domingos em horário ‘nobre’, concentrando boa parte dos telespectadores. É, além de tudo, o sucedâneo da novela. Como as pessoas precisam descansar delas um dia dos enredos circulares, montam-se outros, também fictícios.

O impacto social e na imagem da homeopatia foi razoável e funcionou como uma epidemia, com contágio de opiniões desencontradas.

Vejam alguns trechos de depoimentos coletados nas últimas semanas:

‘Fui gozado no trabalho porque eu me trato por homeopatia. O meu patrão me disse: veja se começa a tomar remédios de verdade, garoto!’

Um jornalista – que se trata por homeopatia – foi interpelado na redação por um colega que lhe disse: ‘Olha, se você precisar de substitutos para seus medicamentos homeopáticos eu conheço um website que vende de tudo!’

Uma senhora cujo filho foi curado pela homeopatia por uma bronquite crônica entra chorando na Associação de Moradores do seu bairro porque lhe disseram que ela arriscou a saúde do menino.

Para falar as coisas de uma forma mais clara e objetiva: a homeopatia é uma forma de fazer a medicina. Uma outra forma. Ela é feita – em nosso país – por médicos que passam por toda a formação normal e somente depois é que podem ser treinados em escolas e institutos apropriados para poder exercer a prática clínica homeopática. A homeopatia foi por muito tempo chamada de uma ‘recaída’ romântica da medicina. Por quê?

‘Amizade médica’

O que dizer, em tempos de ditadura da eficácia e da produção sob a batuta do relógio, de uma medicina que ouve pacientemente toda a narração que o paciente têm para fazer? Mas, ora, em medicina isto se chama anamnese (do grego recordar, relembrar). E todos sabem que um bom clínico, homeopata ou não, deve estar sempre atento a este aspecto. Toda consulta deve ser longa e minuciosa. Uma boa anamnese, diziam acertadamente nossos professores, equivale a uma boa chance de fazer um bom diagnóstico, afinar o olho clínico e proporcionar um bom tratamento. É, portanto, desejável que qualquer médico faça desta forma.

A homeopatia, por recomendação de Samuel Hahnemann (1755-1843), vai um pouco além disto. Como Hahnemann achava que precisávamos traçar a história biográfica do doente – e não somente a história das doenças – e da relação com suas enfermidades. Os médicos homeopatas portanto se excederam voluntariamente na já referida anamnese em busca de detalhes, pistas de contextos e circunstâncias da vida das pessoas. Buscam significados pessoais para cada aspecto do sujeito. Mas não se trata de psicoterapia strictu senso – que os homeopatas não fazem, salvo aqueles que se especializaram nesta área –, e sim de conhecer cada individualidade, cada particularidade da pessoa. Isto faz parte da estrutura íntima do seu modelo científico.

O leitor poderá se perguntar: mas como isto pode ser útil? O objetivo da medicina não é o de detectar e destruir as doenças? Não é conhecer o comum de cada doença?

É fato que precisamos também saber o nome da doença, mas isto de forma nenhuma circunscreve ou delimita o campo de atuação de qualquer médico. Vide o clássico juramento hipocrático. A ação médica excede isto, a ponto dos gregos terem pensado o termo ‘amizade médica’ como a empatia (transferência, diria Freud) necessária entre dois seres humanos para que o proceder médico seja feito com esmero.

Impacto na qualidade de vida

Tudo isto está certo, e para o historiador da medicina Henry Sigerist na boa medicina, seja ela de qualquer tendência ou filiação, estão colocados não um, mas vários objetivos simultâneos: compreender a relação que o doente tem com sua doença, avaliar qualidade de vida, pesquisar as motivações e percepções individuais, prevenir, promover a saúde, reabilitar, reduzir danos, diminuir riscos, aplacar sofrimentos e curar. A epidemiologia tem considerado isto, as ciências humanas que examinam a saúde, também. A homeopatia tem uma lógica histórica de lutas em saúde e conservou, para o bem de toda medicina e dos pacientes, sua peculiar forma de tratar pessoas.

Neste último programa afirmou-se que a homeopatia ‘funciona’ por três razões, não necessariamente científicas. Passemos em revista cada um deles:

1) A história natural da doença se encarregaria de corrigir o distúrbio.

De fato, uma grande porcentagem de patologias cura-se espontaneamente graças a um sistema imunológico integro que coloca em marcha a os mecanismos para devolver a homeostasia (o equilíbrio orgânico). Mas faltou complementar que este é um fenômeno universal e serve para quaisquer terapêuticas examinadas. Agora ou no futuro. Basta que se consulte a ‘bíblia’ da farmacologia clínica mundial dos autores Goodman e Gilman. No entanto, em patologias como doenças crônicas, a que mais atormenta nossa era, esta explicação não cabe, pois o sujeito não consegue debelar a doença a não ser cronificando-a. Assim como o chamado ‘decurso de prazo’ não é um argumento pertinente para desqualifica-la uma vez que a homeopatia tem resultados muito favoráveis em muitos destes casos. Não em todos, mas quem os tem?

2) O efeito placebo, ou seja a ação medicamentosa, é pura sugestão.

O remédio não é um detalhe. O medicamento é encontrado a partir de todos estes dados. E ele age de forma muito rápida e muitas vezes surpreendente. Pode ser o efeito placebo? Pode ser. O efeito placebo é poderoso e pode – ao contrário do que o senso comum apregoa – ser observado inclusive em animais. Mas há um detalhe fundamental habilmente omitido: o efeito placebo é universal. Sabe-se que ele ocorre em todo ato terapêutico, vale dizer faltou dizer que ele não é uma propriedade exclusiva da medicina homeopática. O uso de placebo nas experimentações homeopáticas registrada em seres humanos têm exatamente esta função: distinguir o que é uma simples sugestão do que é a ação de um medicamento verdadeiro. E as análises mostram e demarcam bem as diferenças.

3) As consultas aprofundadas é que geram as melhoras relatadas.

Segundo alguns pesquisadores boa parte das pessoas sente-se melhor pelo simples ato de uma consulta médica (homeopática ou não) e é a mais pura verdade que a homeopatia também está entre as práticas que se beneficiam deste efeito colateral positivo. Mas o que dizer do fato de que ela também produz impacto sobre a qualidade de vida das pessoas, retarda crises e cura quadros considerados complexos ou difíceis pela biomedicina, como patologias auto-imunes, imunodeficiências, hipertensões, dependências químicas, intoxicações, depressões e toda sorte de enfermidades metabólicas. Quem dera que todos fizessem as consultas aprofundadas que os homeopatas fazem. Conjeturando, se as consultas pudessem produzir um efeito placebo duradouro do teor imaginado por alguns dos pesquisadores entrevistados, a anamnese homeopática deveria ser hegemonicamente adotada, pois boa parte dos problemas clínicos sanar-se-iam sem qualquer necessidade de remédios.

A saúde para cada um

O que é impressionante é que de novo o programa não discutiu as questões vitais da tecnologia que envolve a homeopatia. E uma vez que se optou novamente pelo superficial, incumbimo-nos de dar uma ajuda no mergulho necessário.

Esta tecnologia sobrevivente de 200 anos tem levado organismos como OPAS e OMS a recomendarem formalmente que a homeopatia seja assimilada como uma forma válida e oficial para cuidar das pessoas.

Falamos da questão fármaco-econômica e econômica: a redução de custos que a homeopatia produz é impressionante. Impressiona qualquer administrador público responsável. Dados preliminares indicam relação custo-eficácia muito favorável ao tratamento homeopático tanto na ponta do custo dos medicamentos (cerca de U$ 3 por dose) quanto no de racionalizar os custos com os exames laboratoriais e a propedêutica armada.

Referimo-nos também à questão de atendimento primário em saúde, pois sendo o clínico homeopata antes de tudo um clínico geral, sua capacidade de acolher as queixas e tratá-las sem necessariamente encaminhar é algo digno de menção. Ainda, por último, mas não menos importante, me refiro à capacidade de gerar redes de benefícios sociais com um posicionamento menos intervencionista, ordenador e às vezes orientador na vida das pessoas sob tratamento.

A homeopatia é enfim popular porque, acolhendo a diversidade, coloca questões antropológicas, socioambientais e culturais que vão bem além de mera ação medicalizadora da vida: entra na questão do que é a saúde para cada um de nós. E isto não tem preço, ou prêmio.