O Céu subterrâneo.

Vício ou virtude de ótica profissional leio, interpreto e julgo um livro nas figuras do Autor e de seus personagens.

As vezes na defesa, outras como promotor e na última instância como juiz.

Pois é assim que venho, volume atrás de volume, primeiro colecionando para uma biblioteca interminável, daquelas descritas em papiros, memórias, recados, correspondências, enfim provas documentais e testemunhais de vidas e mortes.

Este é um tribunal que compartilho talvez à moda do que fez Isaac Bashevis Singer, quando viaja pelas franjas da Côrte rabínica de seu pai.

Nada mais a propósito do que aconteceu quando caiu e, literalmente, trata-se de queda, nas minhas mãos o livro do Paulo Rosenbaum, “O Céu subterrâneo”.

Sim, da queda para a escalada foi um salto só. Conhecia o autor como médico heterodoxo, audacioso em fronteiras humanísticas no campo da doença, nesta visão absolutamente, poética que é a homeopatia. E na abrangência a sedutora pratica da medicina integrativa que suave e liricamente põe o corpo na sinfonia do Espirito, na busca da homeostase ou Céu, extase de bem-estar sem machucado, sem dor, sem sofrimento, ou no subterrâneo, com todas as aflições anestesiadas pelas emoções que o Divino propõe na jornada labiríntica de Adam Kadmom este peregrino que, talvez, eu pudesse enquadrar no antigo código da vadiagem, enquanto crime.

A crise permanente de identidade, suas peripécias pelos caminhos da subjetividade, aquilo que oscila entre uma epopeia, saga ou “conversa fiada”, de um ordenamento místico por Sion, Israel, a Terra Prometida, de leite e mel recuperando o Paraíso Perdido.

O livro de Rosenbaum me remete à Travessia, o percurso literário de Carlos Heitor Cony e também a Dionelio Machado, um gênio da literatura gaúcha que se perde e se acha para se perder numa infindável caminhada que nas páginas deste livro põe de ponta-cabeça a equação filosófica do pecado original.

Afinal para começar o Céu não é o que nos protege das alturas, a morada do Deus-pai e o subterrâneo, o debaixo da terra, aonde se esconde o clandestino, o transgressor, o culpado, mas também o tesouro, tudo, placas tectônicas que o Autor desenha às vezes em traços sutis, às vezes de forma impiedosa.

A leitura se faz pesada, angustiante embora as cenas possam seduzir pelo inesperado que é o fio condutor do romance, esotérico e, paradoxalmente, obvio como um roteiro cinematográfico.

Me dou por satisfeito diante daquilo que pode ser também um processo judicial, em termos do clássico de Franz Kafka.

A sentença fica por conta do leitor, por aqui fico com o relatório do ocorrido. De minha parte, condeno. A eterna condenação de Sisifo, Paulo ou Saulo de Tarsis.