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“A ciência funciona porque se limita a um grupo pequeno de assuntos. Não há ciência com letra maiúscula. Alguns dos cientistas que lidam com as grandes questões são acusados pelos colegas de praticar filosofia. Eu os respeito e minha formação original é em química, não em ciências humanas. Tenho muito mais prazer em falar sobre um tubo de ensaio e testes laboratoriais do que de assuntos filosóficos, mas a ciência faz parte da insanidade. É parte da insanidade quando assume que os assuntos são muito maiores do que eles realmente são. Quando se fala com um cientista, perguntam-se coisas, que se você for sincero responderá: como por Deus eu vou saber? Você me pergunta sobre o destino da humanidade? Eu não saberia responder. Se você me perguntar o que vai acontecer daqui dois dias, como vou saber? Eu posso responder sobre as poucas coisas que eu sei agora. Eu não tento fazer da ciência uma espécie de deus pagão. E ao fazer isto, eu estou fazendo bem à ciência porque é isso que ela é. Quando o sol é um deus, é um deus perigoso, quando o sol é apenas uma estrela no céu é muito mais fácil lidar com ele.”

Adin Steinsaltz, Químico, Filósofo, Crítico Social e Rabino (em entrevista à Globo News em 2016)

Adin foi uma das pessoas mais impactantes que tive a honra de conhecer, eclético e vivaz, cujo espantoso domínio de muitos saberes simultâneos lhe valeu a justa definição de “autêntico homem da renascença”.  Pois ele dizia que o livro que mais o impressionou foi o Talmud. Uma coleção redigida há 1.500 anos cujo trabalho de tradução para o hebraico moderno lhe ocupou 4 décadas. Steinsaltz enfatiza o aspecto dialético e o estilo do livro: segundo ele o Talmud não ensina a sanidade, ele a cria.

Como?

Induzindo o leitor a tomar parte do livro e formular novas perguntas, a curiosidade, o desejo de entender tudo sob um novo olhar. A cada vez que se lê o mesmo texto o sujeito é deslocado: trata-se de um livro único. Um gerador de dúvidas. Um livro anti dogmático que não tem as respostas, nem se limita a fazer narrativas, mas te induz a perguntar. E a se perguntar.

Não é exatamente esta a lacuna da civilização contemporânea ?

Diante da aflição do mundo surgem aqui e acolá artigos que pedem união e reconciliação nacional, e internacional. Louvável, não deixa de ser um apelo à sanidade. Mas reconciliação sem autocrítica é rendição incondicional. Como unificar a sociedade quando um olhar retrospectivo mostra posições cada vez mais cristalizadas? Como se vivêssemos às portas do paraíso e tivéssemos sido expulsos de lá por novos governos, pandemias e aguda falta de diretrizes dos líderes mundiais. Ora, não é de agora, todos nós já reclamávamos de tudo faz um bom tempo. Ou não?

Quantos mensageiros do sétimo selo testemunhamos rondando por ai? Anunciavam de conspirações mundiais à asteroides da extinção, de mega pandemias (uma bem maior do que a atual) à ruptura dos pactos sociais, da Terra inviável ao colapso do capitalismo.  E não é que parte da mídia e dos intelectuais, cujo “que fazer” deveria ser o exemplo máximo de autonomia mental e emancipação, enfileiram-se  a um ou outro lado para exercer o domínio da informação baseada em ideologia?

Esse é o principal ingrediente da insanidade contemporânea.

O grau de certificação das comunicações está comprometido de ponta à ponta pelas posições solidificadas.  E quanto aos consensos? Os consensos foram estão sendo estabelecidos à revelia da opinião pública sob os seguintes slogans hoje já difundidos sem modéstia ou vergonha:  “Os votantes são ignorantes”, “As massas incultas e ignaras não podem decidir o que é bom para elas, mas mãos à obra, nós nos incumbiremos desta nobre e penosa tarefa”, “O povo, infelizmente, ainda não tem o poder de interpretação, nem as informações necessárias, mas nós, as elites pensantes poderemos suprir tais lacunas, e, com sorte, os libertaremos da ignorância e da opressão”. A objeção à esta postura nomeou-se anti intelectualismo, quando, no máximo, seria critica à instrumentalização da ideologia realizada por parcela significativa de pessoas que julgam-se capazes de pensar pelos demais.

Não é possível apontar culpados, mas o diagnóstico é evidente: as instituições vem fracassando. Quanto antes admitirmos, melhor será. Se não tivéssemos os números anuais constantes de uma guerra civil por ano (58.000 homicídios/ano) a pressão e o apoio à posse de armas cairia no esquecimento. Se as correntes extremas não tivessem destruído o centro, não estaríamos reféns dos extremos e extremistas. Se o judiciário estivesse cumprindo seu papel e não tivesse a pretensão de usurpar atribuições e legislar, a constituição ainda estaria sendo respeitada. Se o legislativo tivesse alguma efetividade talvez o Estado pudesse deixar de tutelar a sociedade. Se o Poder instruísse e explicasse melhor em campanhas maciças sobre a importância das medidas de prevenção talvez não precisasse algemar pessoas. Se quem destruiu o País na última década estivesse politicamente neutralizado talvez tivéssemos uma chance de renovação completa e não sermos mais desta vez condenados ao voto útil e apoio crítico nos próximos pleitos. Se cada disciplina entendesse suas próprias limitações não teríamos a desinformação sistemática.

É evidente que foi contra os consensos artificialmente costurados entre quatro paredes que o império das falsas notícias foi erguido. A pós verdade é apenas uma resposta à verdade de gabinete. Ou seja, o falso, não deixa de ser, ele mesmo, o equivalente à uma espécie de contra inteligência. A titulo de corrigir a desinformação ou a informação seletiva responde com mais desinformação. Portanto, a difusão de notícias obscuras não pode ser combatida com “checagem de fatos”, pois este recurso também encontra-se dominado por uma hegemonia disfarçada de pluralismo e usando a retórica de um falso multilateralismo.

É preciso compreender que o disparo de inverdades não passa de um sintoma reativo, não a origem do problema. É como se o monopólio da verdade estivesse guardado à sete chaves em algum recesso ignoto — protegido pela linguagem politicamente janota — que só alguns jornalistas e bem pensantes possuem, e à qual toda população precisa se submeter. Tudo para nos prescrever o significado unívoco de justiça e verdade.  Ora, foram as redes sociais, estas crias bastardas do jornalismo periférico, que acabaram por desnudar os trusts brancos que controlam a informação. Foram elas, com todos seus defeitos e perversões, que expuseram a fragilidade do que era ditado pelos boards corporativos e pelos gabinetes científicos e políticos. Censura-las é um método autocrático de controle que não costuma terminar bem.

O mundo pode ter parado, as pessoas podem ter sido trancadas, mas há algo dentro de nós muito vivo, que recusa a paralisia, e ela atende pelo nomes:  liberdade e criatividade. Ninguém imaginaria que a divisão na sociedade chegasse à insanidade máxima: hoje temos até medicamentos de direita e de esquerda, um fenômeno, digamos, para bem além do inconcebível.

Decerto é muito mais fácil definir a loucura do que a sanidade, mas há uma pista para compreender o conceito de sanidade: como anda nossa capacidade de formular perguntas e estabelecer diálogos?

Já a loucura, bem, nem é preciso sair de casa para capta-la.

Basta prestar atenção no silêncio.