Diário do apartamento 3 – nostalgia do nunca vivido

Já são 43 dias. E a coragem para avaliar a pestilência? Sabem por que nunca mais estaremos unidos na melancolia? Porque existe um estado chamado de “nostalgia do nunca vivido”.

Ao descer até a pátio do prédio o que pretendia era esquecer de tudo isso e deixar as dúvidas existenciais de lado.

Jurei que, com a máscara posicionada, passearia ao ar livre disposto à superação. Quando cheguei na entrada do prédio um rapaz, lá da calçada, me perguntou se eu estava bem. Obviamente que não, mas aprendi a  inventar desculpas para poupar aqueles que nos rodeiam:

–Considerando as circunstâncias amigo, vamos levando a vida, respondi, cumprimentado-o com a mão estendida.

Ele saiu do meio fio e foi se aproximando. A tensão cresceu, seria ele um suposto baixo risco disposto a cruzar os limites de segurança?

Enfim ele parou, para me perguntar. Não usei a trena, mas estimo que ele obedeceu a distância regulamentar. Era só uma pergunta, mas soou provocação:

— E isso é vida? Ele gesticulou indignado.

O depoimento confessional é uma saída. Ali, naquele instante, me ocorreram loucuras, quem sabe sair correndo, desafiar a lei,  insultar a ordem e o progresso, vociferar contra o legislador e o saqueadores de plantão. Gente, que de uma forma ou de outra, a pretexto de salvar vidas, está pilhando nosso bem estar. Aliás quem são os protagonistas que estão tiranizando as aspirações de bilhões? E principalmente por quê? Ninguém se pergunta sobre a proporção entre vidas supostamente poupadas e aquelas prestes a ser arrasadas, destituídas, simbolicamente apagadas? O problema não é a quarentena, é o “pega vírus” que tem servido para despistar a inação, a falta de planejamento, o desgoverno.

Criminalizar aqueles que legitimamente se preocupam com o futuro é acelerar a destruição do presente. O vírus é mais um front vazio. Sim, ninguém nega que ele existe, mas é evidente que está a caçoar de todos nós, e é bom lembrar que nem mesmo sabemos se ele é ou não um ser vivo. O que seria se o fiapo de RNA cometesse a imprudência de analisar o que se escreve nas redes sociais e os comentaristas da TV?  Decerto se poria espantado com a magnitude de sua ação.

Fracos como eu estão cada vez menos dispostos a ir para ao sacrifício de uma exposição precoce, e lá no fundo já sabemos, toda postergação será insuficiente. Até a vacina? A imunidade populacional? Até uma terapêutica 100% garantida? Ora, estamos nos enganando? E se não estivermos todos tão enfraquecidos assim?

E é quando estou sem ver os noticiários escatológicos — que limitei a 5 minutos diários — que sobrevém um pouco de clareza mental. A rotina é essa: assim que desligo os entusiastas do catastrofismo, as vezes leio as postagens. Uma delas chamou minha atenção, uma história atribuída a Carl Gustav Jung.  Apesar de me considerar um freudiano intuitivo, esta fez sentido. Ela desafiava o senso comum ao contar que, em função de uma epidemia, um sujeito fora confinado em um navio no século XIX. Reduziu a ração pela metade e até aumentou voluntariamente as privações às quais estava submetido. Segundo ele, era uma forma de melhor sentir — e aproveitar — a vida.

O problema para mergulhar num cenário de esperança é que os discursos instrumentais dos noticiários ficam nítidos. Prevalece a sensação de que sempre estivemos sós. E de que fora de sua unidade familiar com a qual você se encerrou junto, o mundo externo parece ter se esvaziado de sentido. Essa é a jornada de guerra mais obscura jamais percorrida. Não há marinha, aeronáutica nem exércitos, mas no mundo inteiro testemunha-se a fome do poder ,e, um certo esfacelamento da cultura. E então, como metodólogos do empirismo selvagem, usam o “qualquer coisa serve” para consagrar teses que jamais escreverão. Da terapêutica às políticas sanitárias públicas onde a medicina é a que menos importa, o poder insiste em depreciar a subjetividade e o sofrimento dos cidadãos.

Então, que pânico é este?

Olho para os de “menos risco”e penso: gerações em desperdício. Entre vidas ceifadas, e vidas resguardadas — só saberemos adiante o real significado do sacrifício — mas jamais saberemos de vidas que nem vieram à tona. Vidas que não estão acontecendo. Vidas conduzidas ao estado de animação suspensa. E a filosofia da ética insiste em perguntar: quem pode controlar a vida dos cidadãos, com ou sem álibi? Quão oportuno é conseguir nos manter em cárcere privado, enquanto os abusos de poder e legislações de exceção prosperam? O medo é insuperável. Mas, também, o desejo de liberdade. A geração do pânico desorganizador conta com a cumplicidade de muitas forças. Para elas, o terror não é só pedagógico, é um território fértil para pesquisa eleitoral.

Depois da última descida ao pátio, agora só uso as escadas do edifício. Como confessei antes, sou do chamado grupo de risco. Meu risco é ser riscado sem poder voltar a ver o céu.  E meu céu não é o céu comum. Meu céu é uma intuição de horizonte, aquela faixa que lá no fundo, você sempre soube, deveria ser sua, e quem sabe a alcance um dia. A fobia induzida conseguiu ir bem além de restringir a liberdade, coibiu a vida. Antes das pedradas, não pensem que não estou dividido. Há uns dias alguém me criticou “não te basta estar vivo?” Eu nem respondi, mas é óbvio: não. Lembrei da frase de Montaigne quando parodiou Cícero: filosofar é aprender a morrer. Há ocasião mais perfeita para tal empreendimento? Meu lado médico quer preservar os sistemas de saúde, o resto de mim quer mais é romper o lacre do humilhante respiro que nos deixaram. Se as instituições não estão preparadas para emergências servem para que? Se não conseguem educar para a civilidade mínima, o que estamos esperando? Nada mudará, enquanto estivermos fazendo o oposto da única tarefa cabível, aproveitar o dia.

Um vento frio sopra, é a oportunidade para me despedir do vizinho provocador e iniciar meu retorno à solitária. Avanço alguns andares e recorro à janela basculante, já quase sem fôlego. É minha chance de enxergar o um pouco de horizonte os céus. Consigo discernir o azul calmo das nuvens cinza chumbo que viajam em rápida dispersão. Uma tempestade se anuncia.

Rogo pela iminente tormenta, imagino ela levando as ameaças para longe.

É ai que noto, olhando bem mais acima: cheguei ao olho do furação.