Você viu a Peste?

Paulo Rosenbaum

12 de março de 2020 | 19h19

Vi a peste. Vi sua propagação. Vi a velocidade espúria dos boatos. Vi a paranoia coercitiva. Vi que só através das imagens traduziria o que hoje senti andando pelas ruas. Vi orientais tentando disfarçar as feições atrás de enormes óculos. Vi o mercado negro de papel. Vi máscaras inúteis sendo retiradas e descartadas em pilhas insalubres. Vi jornais propagandeando desinformação. Vi gente torcendo pelo fim de tudo. Vi profetas da obscuridade. Vi gente ponderada insistindo no contraponto. Vi gente idosa aflita à espera do pior. Vi rostos de crianças espremidos contra janelas vedadas. Vi a indiferença das commodities. Vi aações volantes. Vi a natureza impassível. Vi o irredutível rumo da vida prosseguir. Vi a ansiedade dos mercados. Vi a peste dentro dos aceleradores de partículas. Vi a peste sendo soprada para dentro das redações. Vi a desinformação como ideologia. Vi a estranha — e perigosa — dependência que os oligopólios geram.  Vi virulência sem infecção e infecção sem microorganismos. Vi a medicina e suas medidas. Vi palavras confortadoras. Vi e ouvi áudios retroalimentando o pânico. Vi a dor dos que sabem que vão sofrer. Vi a maioria sobreviver sem adoecer. Vi solidariedade e inusitado altruísmo. Vi gentileza com desconhecidos. Vi a benevolência de quem cuida. Vi a frieza de quem não sabe aconselhar. Vi o sonho de viagens desfeitas. Vi a arte voando para um adiante. Vi os livros em sua insuficiência. Vi telas sendo esvaziadas. Vi bares desertos e Roma, cidade fechada. Vi as bolsas sendo escavadas por desertores. Vi o petróleo sendo enxugado. Vi terras compradas por oportunistas. Vi a fortaleza dos que sabem resistir às facilidades do fluxo. Vi o som do toque de recolher, o estado de sítio, as internações compulsórias, a polícia arbitrária. Via arrogância do sanitarismo selvagem. Vi a epidemiologia do medo. Vi milhões em prisão domiciliar. Vi as marés de cruzeiros contaminados. Vi portos sem navios. Vi containers sem destino. Vi a passagem para um outro dia. Vi quando o diapasão cessará sua vibração. Vi a deposição da coroa. Vi o sétimo selo sendo acomodado.

Eu ti vi, peste, e sobrevivi.

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