Hiatos de guerra

Jornal do Brasil Paulo Rosenbaumhttp://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2011/12/08/hiatos-de-guerra/Escritores e compositores pop acham que devem opinar sobre tudo. O antissemita Tariq Ali não fugiu à regra. Acaba de explicar a um jornalista na última Fliporto, em Olinda, que o atual clima contra o Irã envolve Israel porque este não quer ver ameaçado seu monopólio nuclear. Além das exaltações ao ditador do Irã, endossou a montagem do arsenal nuclear do regime persa “cercado de potências nucleares como Paquistão, Índia, Coreia do Norte e, um pouco mais distante, China (sic)”. Quem sabe Ali poderia esclarecer se afinal estamos diante de monopólio ou se, nos arredores, já existem armas nucleares em abundância? De quem fala? Quem prometeu varrer Israel do mapa? Uma hora dessas o paquistanês precisará abandonar a ficção e trazer argumentos verdadeiros para prosseguir sua campanha contra “conspiradores sionistas” e “inimigos imperialistas”.

Não faz preocupação quando alguém dispara tantas atrocidades isoladamente. O problema é o coro. Legiões inteiras fazem brotar jargões anacrônicos em suas vitrolas acríticas. Entre nós, há gente que perdeu a timidez e hasteou bandeira a favor do acúmulo de armas de destruição em massa. Bizarro ativismo: pacifistas atômicos sonhando com democracia nuclear.

Segundo especialistas em segurança internacional, o fundamentalismo adicionou à análise fatores imponderáveis. Há muita gente interessada em guerra, a começar pela atual administração do Irã, que, para sobreviver como regime, sabe que precisa expandir a influência xiita pelos arredores. A exportação da revolução islâmica de Teerã (bem sucedida no Líbano, Iraque e Síria) hoje está sendo acelerada e, dissipada toda euforia, seus braços visíveis despontam em vários segmentos da Primavera Árabe. No frontinterno precisam contornar a guerra civil iminente.

Uma frente de defensores da teocracia de Teerã – que conta com inacreditável rede de jornalistas esclarecidos, intelectuais militantes e chanceleres – se inflama a favor do país persa, mas curiosamente jamais para denunciar crimes de Estado, opressão contra mulheres, situação dos presos políticos ou apelos em favor das minorias chacinadas pelas milícias revolucionárias. Até nosso ex-presidente chegou a chamar a brutal repressão que se seguiu frente aos protestos das últimas eleições – entenda-se colégio eleitoral com lista de candidatos escolhidos pelos aitolás – de “protestos de quem perdeu”.

Afinal, num mundo tão fraturado, quem precisa de coerência?

Mais uma vez, o mundo se curva às duas grandes religiões contemporâneas: o antiamericanismo e o antissionismo, esta última, conhecida sinonímia de antissemitismo e judeofobia.

A única coisa que interessa é reconhecer a emergência: somente persistentes e radicais negociações de paz restabeleceriam acordos mínimos para a região. E só fariam sentido se fossem compreensivos o suficiente para ir bem além da solução política de dois Estados e envolvessem o povo iraniano. Mesmo vivendo em tempos de comunicações instantâneas não custa consultar a velha professora em vias de se aposentar. A História ensina que há milênios o mundo desconhece paz duradoura. O que existe são hiatos de guerra. Por ser discreta e impessoal, não se pode tachá-la de pessimista.

Então, por que justamente nossos tempos teriam o privilégio desse testemunho de pacificação mundial? Pode até ser que estejamos em época especial, no interregno do instinto guerreiro do homem. Quem dera! Precisamos aprender a conviver com a ideia de que não haverá acordo definitivo em parte alguma. E não vivem há muito, em contenciosos crônicos, Índia e Paquistão, Coreias, China e Taiwan, Rússia e Geórgia?

Por outro lado, é exatamente a permanência destas aproximações sucessivas, contando com distensão política, desarmamento e projetos de paz, que reduziram muitos conflitos às rusgas fronteiriças,