A liberdade sem expressão.

9 de maio de 2012

Ouviam-se rumores de governo iria enfrentar o poder da imprensa, mais
genericamente “os meios de comunicação”. Pois foi o que sintetizou esta
semana o ex-coordenador da campanha presidencial. Numa enquete sobre delírios
de hegemonia, em Brasília, deu disparado em primeiríssimo lugar o controle
social da imprensa a la chinesa, em segundo, dobradinha Putin-Medelev – e sua
capacidade de desbaratar a oposição — em terceiro a blindagem total ao mundo
externo do sistema político da Coreia do Norte. Por motivos óbvios deste
último não se conhece todos os detalhes.
No final das contas o delírio é o mesmo: controlar a mídia, internet
inclusive, com mão de ferro. Ninguém esconde mais o sonho totalitário de uma
imensa mordaça vedando a boca dos cidadãos. Para que tanta liberdade de
expressão?
Um porta-voz está de bom tamanho.
Mais uma vez a análise da linguagem traiu as intenções do poder. Nenhum
governo gosta de imprensa. E é para ser assim mesmo. Trata-se de uma
arqui-inimizade desejável. A ideia da República prima pela diversidade de
vozes e pontos de vista. É o que tornaria o permanente jogo democrático, um
sistema mais civilizado que outros.
O proposital uso do futuro do pretérito sugere condicionalidade, pois o jogo
estaria sendo jogado, se as regras fossem claras. Mas cadê o regulamento?
Para quem está sendo criticado e não vê a liberdade como valor absoluto a
tentação do controle é permanente. Isso não significa que a imprensa não
cometa falhas e excessos. Muitas vezes seu poder é desproporcional e
arbitrário: destrói, calunia, injuria ou incensa, adula e promove. Mas é
sempre melhor correr este risco com possibilidade de retificação, que
sacrificar a liberdade de expressão.
Segundo a ANJ 29 jornalistas foram assassinados em 2011, quatro deles
brasileiros. Muito blogueiros, radialistas, comentaristas e analistas
políticos estão na lista negra somente à espera que seus desafetos promovam o
acerto de contas. Isso sem contar o número de juízes ameaçados. Um horror,
não concordam? E por que ninguém se escandaliza? Porque estamos nos
acostumando à barbárie política como procedimento legítimo. Se os ameaçados
fossem mais pragmáticos deveriam fazer como num filme de Hollywood, em que o
sujeito acidentalmente descobre crimes públicos e privados e vendo que
ninguém poderá protege-lo, negocia sua vida com o submundo criminoso. Ótimo
negócio, sua vida contra segredos resguardados.
A ideia de calar as pessoas – com ameaças, assassinatos ou censura – não
parece insensata para os defensores do estado totalitário.
Isso nos leva ao mundo das ficções, onde, no futuro, só teremos imprensa
mascarada, com autores e articulistas devidamente protegidos por pseudônimos
e anonimato.
Quem denunciará ou enfrentar o poder?
Por isso mesmo cresce no Brasil e no mundo uma imprensa altamente
domesticada, boazinha, que sobrevive dos subsídios e benesses do Estado. Para
garantir a boquinha parte da sociedade se cala. Essa nao é a dignidade que se
espera jornalismo A imprensa subordinada à opinião popular não pode ser
chamada de jornalismo. Insubmissa, sua missão deve ser informar e ajudar
construir uma opinião pública mais crítica. Muitas vezes deve arcar com o
peso de ser a voz dissonante. Não se constrói cidadãos mais críticos com
sensacionalismo ou cooptados por quem governa. Independência e a liberdade
caminham juntas. A verdade é que poucas cabeças ficam incólumes ao arrastão
ufanista- populista
O vazamento de fotos da atriz famosa ocupou páginas centrais dos jornais e
quase um terço de tempo dos telejornais mais assistidos. Perdão aos
otimistas, mas isso reflete o estado de miserabilidade psíquica. Não foi um
décimo do tempo dado aos jornalistas emboscados ou ao repórter que para
provar como tudo é devassável comprou on-line dados bancários sigilosos e
fiscais, inclusive de ministros de estado.
Pois a imprensa adesista que não pode ser oposição é conivente com os
pistoleiros que fazem o serviço de remoção das pedras nos sapatos de gente
poderosa. A imprensa branca é tão ou mais nociva que as outras porque
enquanto estas podem ser acusadas de buscar o lucro fácil das manchetes a
primeira tem sido diretamente instrumentalizada pelo dirigismo partidário.
Infelizmente vivemos uma espécie de patrulhamento, organizado por um poderoso
aparelhamento, que despista todos com a perigosa cortina da eliminação
gradual de autonomia dos três poderes. Mesmo quando a legítima defesa pode
ser juridicamente evocada, ela não pode ser o abono intelectual para
acobertar os abusos do Estado.

Paulo rosenbaum è mèdico e escritor. Autor de ‘A verdade lançada ao solo’
(Ed. Record)

Paulorosenbaum.wordpress.com