Cartilha prática para caudilhos populistas latino-americanos

Jornal do Brasil PAULO ROSENBAUM 

Nossa América do Sul assiste a um momento realmente glorioso e contagiante. A União dos Caudilhos da América Latina tem orgulho de anunciar o lançamento de sua cartilha oficial: Caudilho —  Origem etimológica na palavra coudel, capitão de cavalaria, mas também em sentido figurativo, manda-chuva.

A maioria de nós cresceu em meio à insatisfação popular com a condução da economia e com o desmantelamento das instituições. O caudilho moderno não precisa necessariamente ter viés ideológico. Em caso de pressão sempre se pode encomendar uma nova ideologia (que será batizada com seu nome). A alternativa mais em conta é provar que correm em seu sangue traços de DNA de algum libertador nacionalista.

Para discursos públicos procure não ultrapassar sete horas e apresente oratória tosca.  Em caso de lapso levante os dedos e gesticule fazendo ameaças vagas. Importante: quando vierem aplausos dê a entender que você não os merece. A qualquer acusação mais acintosa peça tempo e diga que irá apurar com rigor – acrescente “doa a quem doer” para dar mais veracidade – ou diga apenas que não sabia de nada.

Quando conceder coletiva passe a impressão de ser vítima da grande imprensa. Despache assessores para redigir artigos nas revistas que recebem publicidade oficial. Nunca perca a oportunidade de converter o vácuo de liderança em culto à sua personalidade. É só uma questão de tempo até ser reconhecido como a única solução da pátria. Se possível, anuncie que os avanços sociais começaram em seu governo. Produza fatos e defenda a população da agressão ianque, mas mantenha o fluxo comercial intacto. Se a commodity for petróleo, faça agrados dando abatimento no preço do barril. Promova privatizações em leilões confusos e, quando algo der errado, coloque a culpa na democracia liberal. Insista na tese de que ela está defasada em relação aos anseios populares (nunca os nomeie com precisão). Se houver espaço, afirme que o sistema eleitoral representativo faliu e precisa de uma grande limpeza. Quando alguém perguntar quem se incumbirá, anuncie, relutante, que aceita a missão de ser o faxineiro-mor!

Em caso de resistência à revisão da Carta constitucional que garanta mais autocracia, ataque o sistema capitalista e associe a democracia a fantasias colonialistas espúrias. Se houver reação da opinião pública, não se abale. Conte com o apoio da burguesia arrependida e dos ideólogos do partido.  Não tenha medo de adaptar discursos para cada plateia e, sempre que defender os pobres, aproveite para, de leve, fomentar o ódio entre classes sociais. Líderes companheiros do Equador ao cone subantártico devem ser unidos e solidários. Associe-se a países que têm ditadores confiáveis. Se cobrado por essas associações, afirme que questões como violação dos direitos humanos, massacres e fraudes eleitorais em outros países são “problemas internos”.

Em caso de emergência interna, aperte o botão de desvio de foco  e, se houver ameaça grave ao controle, declare guerra ou provoque incidente bélico com alguma superpotência. Sem pudor apoie-se no grande capital. Não há instabilidade quando o assunto são negócios e megaempreendimentos com o Estado. Recorde-se que é o dinheiro que financia as promessas que você não cumprirá. E quem é que precisa de coerência? Se precisar escolher um alvo, sempre mire na classe média ou nas minorias. Costuma dar certo! Promova pesado assistencialismo de Estado em troca de apoio político e governe com coalizações. Se a avidez por cargos sair do controle, faça a divisão superestimando as concessões e use laranjas para vazar dossiês incriminadores. De vez em quando finja moralismo e diga que as questões éticas são inegociáveis e apadrinhamentos não serão tolerados. Se houver falha no sistema de mordaças, embargue o papel (se for um jornal impresso) ou acione o sistema jurídico (qualquer coudel bem sucedido sempre soube transformá-lo num apêndice legitimador do regime) e deixe que ele se encarregue de deter ou processar insatisfeitos.

Cumpridas estas condições, a América está garantida.

* Paulo Rosenbaum é médico e escritor. – paulorosenbaum.wordpress.com