Ninguém precisa de poesia. Como apontam pragmáticos e inimigos da subjetividade, talvez ela não sirva para nada. Ainda assim, palavras tem o potencial para nos livrar de uma trama sinistra, da qual o senso comum nem desconfia.
Por trás de toda fanfarra totalitária está o elemento que ninguem previu. Para que um Estado totalitário se instale é preciso contar com algo além da cegueira das maiorias. Tampouco bastam ideólogos e intelectuais de arrimo, os sustentáculos acadêmicos do regime. No debate numa grande Universidade sobre os recentes protestos pode-se perceber o mal estar quando alguém da plateia perguntou:
–E os intelectuais? Como se posicionam nesta história toda? (das manifestações maciças por todo País)
Entre pigarros e acenos para o chão, a sala se encheu de constrangimento. Tudo devidamente racionalizado com as indevidas evasivas.
A rigor só há uma função decente para intelectuais, assim como para a imprensa: vigiar e cobrar o poder de suas responsabilidades. Não importa quem governe. Aliás, o vigor da academia e da informação está na crítica, não na aquiescência, jamais na cumplicidade. Tudo que deviam evitar é chapa branca e uniformes dos partidos.
Mesmo agora, depois da perplexidade inicial o núcleo duro que dá respaldo ao governo não parece arredar pé. Escolheram sustentar o engano a consentir e proceder uma revisão vital. Para muitos deles, assumir erros é capitular, examinar erros é fraqueza e a autocrítica não passa de punição. Mas qual é a ciência que se sustenta sem elas?
A reação da legião uniformizada surpreende mesmo os mais pessimistas. Esperava-se que diante da claríssima contestação popular, pudessem conceder que houveram desvios graves. A flexibilidade doutrinária seria enxergar que todos fomos grosseiramente ultrapassados pelos fatos.
Sempre que bem pensantes se alinharam a projetos hegemônicos de poder a história os desmascarou. Salvo exceções, a análise retrospectiva mostrou que estavam do lado errado: muitos deram legitimidade para o uso do poder contra a população e a sociedade. Os que resistiram aos conluios não sobreviveram inteiros.
Sem generalizar, ninguém se exime de omissão. Estiveram respaldando os partidos que agora negam tudo para se livrar dos apuros em que nos meteram.
Por intuição, sabíamos que o poder esteve tentado a usurpar direitos individuais a fim de atender supostas necessidades coletivas. Para tanto foi necessário que se criasse o sentimento de servidor da pátria. Só que a ousadia vêm ultrapassando todos os limites razoáveis. Promulgou-se o decreto de que doravante categorias profissionais serão escaladas para a semi-escravidão. É muito significativo que tenham escolhido estudantes de medicina para suprir inépcias crônicas de seguidas administrações federais. No mínimo, há flagrante violação da constituição federal e das leis do trabalho escravo sancionada pela OIT do qual o Brasil é signatário. Em teoria, o servidor, antes de ser reduzido pelos administradores a uma unidade vigiável com RG, teria sido um cidadão de carne e osso, com direito à liberdade, autodeterminação e privacidade.
Isso significa mais ou menos o seguinte; a educação totalitária – a qual testemunhamos — precede o estado totalitário – cuja instalação está sendo cozida no vapor.