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O prestigiado jornalista Sérgio Augusto em sua recente coluna no Caderno Aliás evocou verbetes de um peculiar dicionário imaginário, ali ele trouxe, entre tantos tópicos, aquele que me levou a formular o atual artigo.

Ali escreveu: “Homeopata: o humorista da medicina”.  A graça está na brincadeira com a palavra “humor”. Se pensarmos humorista como aquele que conhece bem a antiga terminologia dos “quatro humores” descritos pelo pai da medicina técnica, Hipócrates, ele acertou. Ainda hoje, o aspecto das constituições e temperamentos em medicina pode ter um papel relevante. Um exemplo disso é que a medicina caminha para uma prescrição cada vez mais individualizada — como preconizada pelo médico alemão e fundador da homeopatia Samuel Hahnemann 1755-1843.

Também faz sentido se pensarmos em outro aspecto do verbete: que através do senso de humor os médicos que a praticam podem funcionar como uma espécie de superego auxiliar da prática médica. Isso porque cresce pelo mundo a ideia de slow-medecine, (ou medicina com timing) a saber, uma prática que tenta ser mais cuidadosa e menos intervencionista no manejo terapêutico. Isso significa menor grau de “overdiagnosis” ou em tradução livre “superdiagnosticos”, os quais, não infrequentemente, conduzem à práticas e tratamentos invasivos desnecessários, ou, que fazem os pacientes sofrerem riscos aos quais eles não necessariamente precisariam ser submetidos. Considerando que a epidemiologia clínica consiste em colocar numa balança, de um lado o que protege, e, de outro, o que expõe o paciente aos riscos, essa conduta  pode ser a mais racional e adequada para os nossos dias.

Entao, de fato, o jornalista produziu, decerto involuntariamente, um elogio, e ainda prestou uma justa homenagem a  uma especialidade médica reconhecida pelo CFM e usada por milhões de brasileiros e por pelo menos 180 milhões de europeus.

O Prof. Walter E. Maffei, médico neuropatologista e um dos mais eruditos professores de Medicina —cuja docência na PUC e na Santa Casa ajudou a formar gerações de médicos criticos —  ilustrava uma de suas aulas projetando imagens de gatos e afirmando que aqueles que tinham a discrasia alérgica despertada por alguma idiossincrasia poderiam apresenta-las apenas com a “lembrança”desta experiência. Era e é um fato empiricamente constatável para quem quiser reproduzir o experimento que evidencia as relações óbvias porém pouco compreendidas entre as interações mente-corpo.

Ampliando um pouco a abordagem, evoco este aspecto acima diante do excesso de polêmica acerca das práticas integrativas. Às vezes, as pessoas perguntam, diante de sua eficácia e abrangência clinica, especialmente na atenção primária à saúde e no prevenção e tratamento das moléstias crônicas, como se explica que algumas práticas médicas como por exemplo a medicina tradicional chinesa, a medicina Kampô (Medicina japonesa) e a homeopatia nunca tenham se universalizado como formas de atendimento?

Teríamos que lançar mão de uma análise multifatorial. Mas o primeiro e mais importante é a dificuldade para estabelecer núcleos de pesquisa independentes. Sem eles, todo avanço farmacotécnico em medicina fica sujeito à lógica exclusiva dos interesses — e dividendos — ditados pela indústria farmacêutica e seus braços corporativos. Pode parecer, mas esta não é uma tese conspiratória, apenas constatação de fatos que vem se avolumando nas últimas décadas.

E por que a indústria não investiria em um ramo tão promissor e potencialmente lucrativo?

Porque as substâncias medicinais homeopáticas são um bem público, isto é, um conjunto de medicamentos e procedimentos que constituem um patrimônio da humanidade. Isto é, não incidem royalties ou patentes sobre nenhuma substância usada nestes fármacos. Ouso também afirmar que, somadas a estas dificuldades, existe um outro entrave. Trata-se da natureza de uma parte do establishment que defende as integrativas e que se comporta como agremiação futebolística no qual o antagonista é a Big Pharma. O mesmo acontece com aqueles que sempre as atacam com argumentos evasivos “demonstrando”cabalmente sua “ineficiência” ou no fragilíssimo jargão de “ falta de ética.” Trata-se da mesma é repetitiva qualidade de objeção que se faz, por exemplo, à psicanálise.

A compreensível atitude defensiva das práticas integrativas contra as acusações de ineficácia é causa e consequência da relutância em fazer a autocrítica necessária para apontar onde e quando podem atuar, identificando assim suas deficiências e limitações. Para a medicina de inspiração vitalista — cuja tradição remonta à medicina hipocrática — não se pode falar em resultado clinico no singular, mas em ações amplas da terapêutica.

Tanto as correntes que equivocadamente brigam contra o mainframe da ciência, como aquelas que querem uma adaptação absoluta a ponto de abrir mão de seus critérios característicos, se equivocam. Se por um lado ela se apresenta como uma outra lógica médica, de outro, ela precisa assimilar-se à cultura científica corrente se quiser ser levada a sério. Isso significa que a medicina integrativa acaba falhando, pois não consegue nem mudar a chave, nem se fazer entender pela linguagem contemporânea. O erro fundamental está numa recusa inconsciente destas correntes e de seus antípodas  — tanto as que querem se manter como uma casta independente da medicina contemporânea como as que querem se fazer pertencer não importa o sacrifício epistemológico que teriam que fazer — em aceitar que de uma forma ou de outra a única saída para que uma tese seja aceita nas sociedades modernas é sua penetração na cultura através da pesquisa e da discussão. Com a ressalva de que nem toda prática integrativa  apresente legítima consistência para se tornar uma atividade fornecida pelo Estado.

Somente essa distinção e pertencimento à cultura garantiria a permanência de uma formulação sofisticada como é a proposta de uma terapêutica pautada, no caso da homeopatia, por exemplo, que usa o princípio dos semelhantes. Aliás o mesmíssimo  princípio usado pela lógica das vacinas para imunizar a população.

Sofisticada, porque pretende inclusive discutir critérios que pouco se discute como, por exemplo, critérios de cura. Uma das mais importante, e, ao mesmo tempo, a mais negligenciada das questões epistemológicas em medicina. Notem que hoje já existem núcleos de pesquisa na medicina que discutem a validade dos protocolos, o cálculo de risco para alguns procedimentos terapêuticos e principalmente o já evocado superdiagnóstico[1].

A homeopatia deve ser apresentada não como uma alternativa com todas suas conotações contra-culturais, mas como um processo que dialoga com a ciência naturais, e, ao mesmo tempo, coloca a necessidade de uma medicina do sujeito descolada da psicanálise, e no centro da discussão das ciências humanas.

Curioso ou apenas idiossincrático que valorizo Samuel Hahnemann mais como filósofo da medicina do que metodólogo da ciência. Isso porque acho que a medicina do sujeito não é um detalhe técnico, mas a base de sua concepção antropológica, a qual, por sinal, adotava uma generosa admissibilidade da diversidade dos homens. Assim ele suprimia, ao mesmo tempo, tanto o caráter moral maniqueísta da visão penitencial do adoecimento, como a redução do corpo ao instrumento objetal que a medicina acabou adotando com uma normatividade perturbadora. É provável que ele desse muitas gargalhadas de tantas teorias a respeito dele e de suas ideias. Talvez devêssemos rir com ele e nos declarar impedidos para fazer afirmações definitivas sobre os misteriosos caminhos da cura. Seria um bom presente de aniversário para quem um dia declarou: “a vida é um clarão”.

[1] Overdiagnose – o superdiagnóstico caracteriza-se em valorizar excessivamente os exames subsidiários e atribuir importância excessiva a distúrbios que talvez não merecessem tratamento, pois seriam patologias inofensivas ou “amigáveis” ou que o custo orgânico e psiquico são demasiadamente elevados para os pacientes.