Conto de notícia

Blog

Conto de notícia

Crônica, política e derivações

O reino amarrotado

Paulo Rosenbaum

12 Novembro 2016 | 12h00

 

O que fazer com povos que não sabem votar? É assim que os fóruns se saem ao deparar com resultados desagradáveis que recusam as previsões. Se for mesmo preciso, troque-se o povo, mantenha-se o governo. Os consensos destes pequenos e poderosos comitês tem repulsa por resultados desfavoráveis ao prognostico. Trata-se de uma clínica peculiar, ninguém mais precisa consultar o enfermo. Basta sair de uma reunião com rumores e deita-los na mesa do chefe da redação. Escrevi faz algumas semanas que a polícia definiria as eleições. Influenciou, mas não foi decisiva.

A democracia serve desde que aqueles que escolhem sigam a trilha exigida pelos que se acostumaram a pensar por todos. A intelligentsia nos proporciona essas e outras benemerências por dó de nossa inconsistência, por compassividade com nossas lacunas intelectuais e penalizada com a ignorância popular que ainda não captou o valor do sacrifício. No dossiê fica claro, a falta de erudição da classe média foi a grande responsável por “franjas de rancorosos” e “bolsões de intolerantes” que não entendem o significado das próprias decisões. Esta elite acadêmica merece respeito pois poupa-nos do desconforto das escolhas que teríamos imensas dificuldade em fazer. Estes facilitadores do voto evidente de bom grado aceitam uma peculiar diversidade: a multiplicidade homogênea de opiniões. Em resumo, não tem tanta certeza de que todos estejamos preparados para a democracia.

Formadores de opinião são todos sócios nesta matéria. A credibilidade dos consultores políticos, cientistas sociais e institutos de pesquisa que analisaram as últimas eleições só não está arrasada porque os critérios para avalia-la evaporaram junto. Uma fumaça incomoda. O vapor penetrou no desejo de escolher pelos outros. Bom mesmo seria a ditadura dos corpos docentes. O wishful thinking que vem ocupando as cátedras. Suas expertises fariam toda a diferença se ao menos tivessem o aval para instalar o cabresto, leve, prático, não incomodaria e  seria descartável.  Mínimo, poderia ser levado até a boca da urna para depois ser descartado em algum beco sem saída. Seria, inclusive, biodegradável.

Decerto que os populistas estão em alta e a vida culta deveria zelar por práticas políticas mais civilizadas. Mas para os titulares da sabedoria, há coisas mais importantes em jogo como, por exemplo, preservar o status quo. Para isso, seria vital convencer todos — sempre se pode recorrer às  campanhas publicitárias com financiamento público — de que o establishment nunca esteve tão saudável. De que está tudo sob controle. É preciso reforçar a tese de que só há um lado enfermo, o resto está nas mãos da neurose, ou dos liberais, tanto faz.

Não foram só analistas, nem cientistas políticos ou a mídia: todos os critérios e instrumentos de predição ficaram em estado de animação suspensa. Isso significa que a escolha num pleito democrático deve prever a histeria da surpresa. E no manual, a saída de emergência está no primeiro parágrafo: “1- Em caso de derrota criar o clima da presunção catastrofista”. A adoção de 1 “repara o terreno” e ajuda a disseminar o item 2:  Afirmar veemente e persistentemente: “nós não dissemos?”.

Mas os dados de solo indicam que a aversão ao populista anti estético explicita como nunca a seletividade intelectual. A análise descarta a realidade e foge com a fabulação daqueles que monopolizaram o bem pensar. Não houve um só que previsse que as escolhas se afunilariam até o drama. Foi então que, num tardo reflexo, perceberam que para negar a trombeta seria necessário santificar o establishment.

Sempre funcionou, mas eis que a velha formula vem perdendo vinco. Que venha o reino amarrotado.

O reino amarrotado