Fração ideal

Paulo Rosenbaum

04 setembro 2015 | 12:04

O Jogo

Não é só imaginação ou interpretação. Devemos estar vivendo uma das eras mais idiossincráticas desde a segunda guerra mundial. São tantas peculiaridades e tantas arestas para aparar que — entre melindres e chiliques — preciso te dizer, senhor, deu para pressentir a nervura do subsolo. Só uma visão estoica do mundo pode nos apartar dos textos inflamados, manchetes e chamadas. De que outro modo escapar da obtusidade do politicamente correto? É que o consenso sempre foi senso comum disfarçado de diálogo. Por isso, tanta gente interessada em manter esquerda e direita, nós e eles, bons e maus. Quer coisa melhor que um maniqueísmozinho para ocultar a complexidade? Quer solução mais caseira de garfar a subjetividade e, em seu lugar, colocar estabilizante de humor ou reduzir tudo ao “jeito certo” e “jeito errado” de olhar o mundo?  O exagero sempre foi um recurso didático. Improvável? Pois acompanhem: o reino jurídico sempre será frustrante e como só a justiça traria paz, esqueçam paz, equanimidade, isonomia, meio termo, equilíbrio, caminho do meio. Tudo desceu à obliquidade. Déspotas locais e déspotas internacionais encontraram a fórmula mágica para se livrar das responsabilidades: populismo baseado em nonsense. Avanços sucumbiram à desorganização do Estado.  E por que persistimos? Por que não nos damos por vencidos? Que força misteriosa é essa que nos faz prosseguir em marcha? Numa vigília automática. Num antagonismo assombroso ao uníssono. O que nos faz imaginar que o calejamento, enfim, amolecerá o mundo? Como pudemos sonhar com tanta liberdade? Só encontro uma resposta: é a idealização que nos mata. É que, para além da interpretação, mas antes da perfeição, há um mundo, maior, mais vasto e não limitado às acareações silenciosas. Há um atmosfera onde ninguém precisa compartilhar o ar viciado dos bastidores. Há um campo, livre e limpo, das ideias claras e distintas que pode nos devolver a respiração, ainda que curta. E se você é como eu, e resiste em aceitar que o milagre é possível, não será preciso ir muito longe. Estarmos aqui e agora não prova tudo, mas diz muito. Se somos apenas uma fração do ideal, é por isso mesmo que estamos ligeiramente adaptados ao mundo das imperfeições, e, quem sabe aptos à mutação benévola. Que seja em breve, ainda nossos dias!

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