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Invisíveis

Paulo Rosenbaum

20 agosto 2015 | 14:58

Invisíveis,_ou_quase_

Nada parece crível, mas, mais uma vez, estamos invisíveis. Difícil saber o que ou quem nos apagou, o que nos tirou do circuito, o que nos varreu do mapa. Talvez nada, nem ninguém. Mas há uma suspeita. Ela sopra sem desvio. De frente. Dizem que depois de certa altura o naufrago, para enfrentar a onda como destino, só consegue obedecer a maré. O instinto, desqualificado pela realidade. A intuição, esmagada por sal e sede. Entregar-se é o último recurso. Se o poder emana do povo, a impressão é que o poder esta sendo exercido, apesar dele. A vida avança como se só nos precisássemos reclamar. Os outros vigoram como relações instrumentais. Para que recobrar o sentido individual, se estamos em feroz processo de divisão? É bem mais do que nós contra eles. Todos contra todos encerra o ciclo sem apresentar qualquer desfecho. Liberdade e igualdade sem fraternidade apresentam fórmulas vencidas. Nenhum filósofo, ideólogo, nem mesmo Marx poderia ser o operador lúcido de sua própria doutrina. Enquanto capitalismo e socialismo totalizam a pauta falsa no falso debate, um materialismo inquestionável tremula, alheio, soberbo, encantado com sua hegemonia. Instalou-se confortavelmente no sofá e só é perturbado por quando soam alarmes agudos. Sem contextualizações, estamos à mercê dos fatos. Uma realidade que não escolhemos nos controla. Por que precisa ser assim? A democracia depende do voto. E o voto é fruto da inconstância. De quem já controla o poder, ou qualquer fração dele. Por isso não conseguimos mudar. A maldição das comunicações instantâneas é um registro do abuso do tempo. Abreviações de processos, sínteses apressadas, e juízos bate-pronto atuam contra a paz. A paz que perdemos. Ou o Estado e seus agentes precisam colonizar nossas vidas? As demandas de bens e coisas devem prevalecer para comandar os projetos? O amor que falta pode não estar nos objetos, em deuses substitutos, ou na vida eficiente. Também não estará no espírito de uma democracia que se enganchou em frivolidades e dispersão. A preocupação entre nós, e uns com os outros, deveria ser prioritária, disruptora, impulsiva e inadiável. Não se trata de religião. Não se trata de conceitos abstratos. Não se trata de caridade ou tolerância, mas de justiça e cuidados, revigorados em leis compreensivas. Em novos códigos que nos elevem ao altruísmo possível. Que leve em conta a debilidade humana e não enalteça só a vigilância e a punição. Para a hermenêutica não existem fatos puros, apenas reinterpretações. O giro, portanto, cabe exclusivamente às nossas cabeças. E para quem acha que a generosidade é uma excentricidade, nossos monitores não serão regimes políticos, professores, líderes ou a política. A natureza mostrará seus caminhos. Se der certo, nossas marcas não serão desperdiçadas em pegadas sem significado.

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