Coisas da Política

O romancista e pensador Milan Kundera considera que é a escrita, e não a ciência ou a filosofia, particularmente o romance, a forma mais abrangente de assumir quão pouco sabemos sobre quase tudo. O velho provérbio judaico de que o O homem pensa e Deus ri nunca fez tanto sentido. Deus ri porque achamos que sabemos a verdade e ignoramos por completo seu caráter escorregadio, maroto, inapreensível.

Impossível avaliar tudo ao mesmo tempo, por isso a academia inventou aquele termo. Horrível, reducionista, limitado. O nome dessa maravilha se chama “recorte”. Ele permite e dá endosso científico para que o especialista se detenha num só objeto de estudo — em nome da pseudodivindade contemporânea chamada metodologia.

A próxima etapa é fazer-se uma espécie de reserva de mercado da área estudada. São os feudos, ultraespecíficos, fronteiras cercadas por gente disposta a combater invasões. Ai daquele que se atrever a falar do assunto sem consultar as bases. Em geral, bases autoproclamadas, autorreferentes e erguidas sob consenso. Os conselhos? Feito de curadores escolhidos a dedo. A matéria fica então simplificada aos nichos de especialistas, que se debruçam sobre o tema até metabolizarem o assunto de cabo a rabo.

Ai,  em seguida, aparecem com seus papers,  que comprovam tudo o que disseram de cabeça. Soltam opiniões para a imprensa, que, em geral os acata e propaga acriticamente o que os doutores concluíram ou consultam contra especialistas que vão para a réplica. Muito provavelmente não porque desejam o esclarecimento ou amam as verdades claras e distintas, mas porque se sentiram ofendidos ao não serem citados ou consultados.  Como ousam?

Não é necessário erudição para sentir que não é por ai. Por outro lado, a realidade é evidente: vivemos —  numa expertocracia. 

Existimos numa época em que, ou não se julga para dar a aparência de que tudo serve ou se julga com critérios da tribo, do clube ou do time. Partidos estão perigosamente fora de moda. Vale dizer, vivemos com tantos critérios de julgamentos que na prática ficamos sem julgamentos válidos. Isso é péssimo. Só para citar o exemplos da hora: Snowden é herói? Traidor? Mistura dos dois? Temos déficit de leis, ou elas estão em descompasso com nossos tempos? Quantas vezes reformaremos a Constituição até que ela seja enxuta o suficiente para que os três poderes possam aplicá-la e não estudar maneiras de contorná-la?

Para termos alguma chance de buscar aproximações sucessivas até a verdade, precisamos achar os critérios que permitam saber ao menos onde está a verossimilhança.  O trabalho talvez não esteja em acelerar mas em parar. Parar tudo para reinventar a arte do diálogo. Onde foi que a perdemos? No Iluminismo? Durante a Revolução Francesa? Ou foi bem antes disso, quando começamos a acreditar que tínhamos mais respostas que perguntas?

Ninguém se refere a esta conversa fiada de ajeitar as coisas na base dos conselhos do marqueteiro “Empurre com a barriga”, “Torça pelo status quo” até que a onda passe. Não é esta a forma de conduzir as coisas onde tudo é para ontem, onde não há planejamento e o plano vira obra urgente? A caça aos votos virou instrumento antirrepublicano. Afogadilho já é nome pouco estético, pois insinua pressão, feito nas coxas, precipitação que vai acabar rimando com embromação.

A boa notícia é que os especialistas podem estar entrando em decadência. Boa noticia, porque se os especialistas são mesmo necessários — da medicina à engenharia —, jamais poderiam ter prioridade sobre os generalistas, os que se especializaram no contexto e não nos detalhes.  Aqueles que enxergam o horizonte e conseguem compartilhá-lo com quem não chegou cedo e não encontrou um bom lugar. Basta de furadas. Não adianta culpar a mídia, a burguesia, a direita, o bode. A tecnologia não é culpada de nada, mas da forma como a usamos não será impensável que o futuro a acuse como coautora dos próximos crimes.

Assim como conhecemos uma época onde o conhecimento está fragmentado e cego à sua missão, temos algo a mais para aprender com a arte. Um saber viável para os nossos tempos pode ser a revolta contra o previsível. Imaginem só assumir que o pensamento não é tudo e que chegou a hora de compartilhar o bom humor de Deus.

Jornal do Brasil – Coisas da Política