A revolução científica e a era digital trouxeram benefícios que todos conhecemos e usufruímos (até para os ranzinzas que, no breu, consultam as últimas na rede), entre os quais a libertação da informação que a internet proporcionou ao mundo. Ao mesmo tempo, os efeitos colaterais. Quem é traidor da pátria pode estar sendo útil à liberdade das pessoas, e quem governa precisa assegurar que os critérios de liberdade não serão traídos pela necessidade de controle da sociedade. O equilíbrio nunca foi tão complexo, a ambiguidade nunca esteve tão presente. O número de calúnias e a velocidade de boatos maledicentes ficou sem qualquer chance de controle institucional. Reze alto para não ser alvo. Se você, leitor, já sofreu com o maior maquinário de assédio moral inventado, sabe que o máximo ao seu alcance é redução de dano. As máculas virtuais serão perpétuas pelo menos enquanto houver energia elétrica, antenas e radares.

Ai está o papel da imprensa. Oferecer à opinião pública elementos para formar uma consciência crítica. Por isso jornalismo é serviço público essencial. Uma imprensa sem independência — liberta dos governos e do domínio econômico — é como um teste medicamentoso conduzido e validado pela indústria farmacêutica. Não têm muito mérito, vale dizer, quase nenhum. Conflito de interesses em curso anulam a essencial neutralidade que a análise requer.
“É papel da imprensa oferecer à opinião pública elementos para formar uma consciência crítica”

O vácuo de poder no qual caímos abriu espaço para bravatas daqueles que foram ultrapassados pelo tempo mas não ainda em popularidade. Como assim? Isso se explica pelo fenômeno estudado pela física de que existe um delta tempo até que a massa se adeque à mudança da energia, sempre mais célere e disposta a ir para frente e buscar o novo.

Ah, sim, existem os chamuscados. Conforme o clássico filme “Z” do diretor Costa Gravas, usam o resíduo de poder e caem na tentação — sempre estrondoso equívoco — de fomentar o conflito entre as massas para assegurar sobrevida da reinação. Mas essa nossa velha conhecida, a história, já tentou ensinar que o poder não tem a propriedade de autofomento, pelo menos não para sempre. Cai de velho, teimoso, ou porque já nem existia.

Se há mesmo uma imprensa golpista e tendenciosa, ela está do lado de quem quer se agarrar aos benefícios da hegemonia. Interesses e ambiguidades sempre existirão. Admissível a existência de uma imprensa mais criteriosa e menos criteriosa. Por isso mesmo, também temos visto as ruas com gente de todo tipo: do beócio vândalo com os molotovs nas mãos ao professor que exige receber um retorno digno pelo trabalho essencial que desenvolve. É que quando some a representação precisamos agir para reconquistá-la. Trata-se de questão de vida ou morte, literalmente.

Seria muito mais fácil se estivéssemos num Estado contando com três poderes autonômicos, com plena clareza nos critérios de mérito e competência. Mas isso tornou-se raridade não só por aqui. É poesia numa terra autocrática, onde os autoprivilégios que os políticos se concedem encobrem os benefícios, que às vezes, quase eventualmente, eles nos proporcionam.

Podem-se caçar as vozes, mas por um capricho dos céus há mais bocas que mordaças!

http://www.jb.com.br/coisas-da-politica/noticias/2013/07/04/vozes-e-mordacas/

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