Sexta-feira, 1 de Março de 2013

Coisas da Política

28/02 às 06h59

Para além dos pleonasmos

Jornal do BrasilPaulo Rosenbaum – médico e escritor

Tudo, menos o pleonasmo. Com palavras similares, Le Corbusier abriu uma palestra pedindo mudanças. De longe, o Brasil e toda a América Latina ainda parecem lugares distantes. Ilhas quentes com as quais sonham os castigados por temperaturas negativas. Há qualquer homogeneidade em curso, e as pessoas, exceção para as pesadas roupas de inverno, usam os mesmos tecidos, as mesmas marcas, os mesmos carros, e os mesmos telefones celulares. A globalização — irreversível, inexorável, inevitável — é um fenômeno com muitos efeitos colaterais, mas talvez o aculturamento provocado por onde ela passa seja sua mais evidente e menos comentada interferência.

Com ou sem crise econômica, estamos muito distantes de qualquer perspectiva de Primeiro Mundo. O Primeiro Mundo não é um paraíso, mas o aspecto central é o processo civilizatório que estas sociedades alcançaram. O respeito sincrônico já é um grande começo. Não há exatamente gentileza e bom humor, em compensação há solicitude e pragmatismo.

Numa sociedade que se mexe quase que exclusivamente pelo sustento isso merece registro. Há também uma cultura da fila. Se o metrô quebra, todos se amontoam esperando a vez. Praticamente, não há depredação ou vandalismo. Há batedores de carteira em todas as cidades, mas não gangues armadas que dominam extensas áreas metropolitanas. Há violência, mas nada comparado com a epidemia que vivemos.

Não se trata de enaltecer a civilização europeia (nem é mesmo o caso; os chineses, por exemplo, consideram os europeus bárbaros pelo comportamento, omissão inclusa, que tiveram na Segunda Guerra). É que numa sociedade tão normatizada, a cultura da transgressão, que tanto conhecemos, é uma raridade.

Os carros dos políticos não têm chapa branca e são encarados — é o que são, afinal — encarados como serviçais. E a premissa é que são incessantemente cobrados pelo que fazem, pelo que dizem que fazem e pelo que não fazem. Enorme distância do que vemos na República Federativa do Brasil.

Claro que existe roubo de dinheiro publico, e deve haver corrupção, muito acima do que os periódicos estampam, mas não há achaque, não há estultilóquios colossais como 14º salário, auxilio vestuário, sobras de verbas de campanha ou desvios trilionários a céu aberto. Referendos e recall são habituais, e a divisão dos poderes ainda faz sentido. E por levarem isso muito a serio, as democracias europeias, destarte todos seus defeitos, funcionam.

Mas o aspecto mais interessante é que praticamente inexiste a bizarrice chamada de patrulhamento ideológico. Cada um vive na sua. Cada um faz o que lhe apraz. Os sujeitos estão imersos em suas próprias necessidades. O que, num julgamento moral, pareceria individualismo insuportável torna-se apenas mais um aspecto da história natural. São frios? Pode ser. E daí? Isso é o que pode acontecer quando problemas sociais estruturais gravíssimos estão solucionados ou bem encaminhados. Mas a crise sustentada anda rondando e ameaçando esta estabilidade.

Os europeus, assim como os norte-americanos, estão desempregados ou sob constante ameaça. Os pequenos negócios minguam, prospera a especulação imobiliária e a construção de redes, monopólios, grandes negócios. Como o capital é invencível e não quer perder nunca, tudo será superado e tudo voltará aos velhos trilhos do desenvolvimento. O capital quer tudo, menos a derrocada total. Ninguém deveria querer isso. Essa incessante engenharia de ciclos de recessão e progresso econômico deixa para trás a única discussão essencial.

Qual é afinal, se é que existe algum, o indicador de felicidade dos povos?

A Revolução Francesa, a americana e muito menos a soviética deram respostas adequadas a essa questão. De qualquer modo, a alegria pode estar desvinculada das palavras igualdade, liberdade, fraternidade. Talvez esteja em uma percepção do si mesmo. Isto é, da qualidade com que cada um usufrui das prerrogativas acima. A humanidade pode ser uma coletividade, mas só se pudermos voltar a viver como sujeitos.

Para isso é vital deixar que os outros também sejam. E para isso precisamos de tolerância. Os intolerantes querem a mordaça, veneram o grito, prezam a censura quando conveniente. Os intolerantes precisam ouvir e ver somente a reafirmação do que lhes serve.

Assim foram as hordas protofascistas de direita na Europa, assim são os atuais fascistas de “esquerda”, que não quiseram deixar a blogueira cubana falar.

Na verdade, preferem pleonasmos.

Vaias, só depois do entendimento. Ou desentendimento.

Paulo Rosenbaum é médico e escritor. É autor de “A Verdade Lançada ao Solo”(Ed. Record)