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Coisas da Política

Hoje às 06h44 – Atualizada hoje às 06h49

Vagas abertas para Estadistas

Jornal do Brasil Paulo Rosenbaum

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Quem ainda não sabe que o mensalão é só o topo da sujeira? Veio junto com impunidade e os escândalos mal esclarecidos de arrecadação de verbas, cuja fiação, se puxada até o fim, pode remontar à eliminação do prefeito de Santo André há dez anos.
A culpa é toda nossa. Idealizamos demais e, provavelmente, não aprendemos a lição. Passados mais de 40 anos da geração libertária de 68, ainda sonhamos com utopias e alguma decência. É que é muito tentador: e se no lugar dos políticos típicos que ficam se justificando pelo indesculpável, tivéssemos verdadeiros Estadistas? Digamos uns trinta e seis espalhados pelo mundo? Vá lá, dez, que mostrassem a diferença que podem fazer.

Enquanto o político deveria dominar a arte de governar, o Estadista não pende ao miúdo nem à satisfação de grupos privados, sectários dos partidos, consultorias municiado por informações privilegiadas ou fisiologismo das coalizões. O Estadista não se ocupa do varejo, não porque despreza os sujeitos singulares da sociedade. Pelo contrário, sabe que um Estado benévolo só sobrevive ser for bem sucedido em sua tarefa de ajudar a emancipar seus cidadãos. O Estado precisa existir para que, assegurada a liberdade, o cidadão consiga enfim viver sem Estado e Estadista. Hoje vivemos, apesar do estado. Ou como a velha raposa política de Minas Gerais sintetizou: “o Brasil cresce de noite, quando os políticos dormem”.

O Estadista não se rende ao óbvio. O óbvio seduz beócios e oportunistas que vivem emplacando candidaturas e cargos para enriquecer e contemplar maiorias sem identidade, vale dizer, ninguém. O Estadista pode até ter medo da impopularidade, mas sabe que só deve obediência à visão estratégica do solidário e justo.

A doutrina de um Estadista é a defesa – muitas vezes às custas de terrível solidão – dos direitos fundamentais da pessoa. Não importa se algum déspota qualquer o apoiou antes – quem não tem incoerências ou máculas? — sua lealdade pende ao torturado, à liberdade nunca a censura, mesmo aquela bem disfarçada de “controle social”.

Para o Estadista tanto faz se a política externa de seu País tenha sido dominada pelo pragmatismo econômico ou por doutrinas retrógradas que emulam simpatias pessoais ou afinidades ideológicas de ocasião. O Estadista, sempre que possível – e por vezes trazendo até prejuízo econômico à própria República – irá usar sua voz contra a opressão das mulheres, o aviltamento das minorias e o abandono da infância.

O político ordinário apertará a mão de qualquer um, o homem ou mulher de Estado selecionará previamente quem serão seus interlocutores e preferirá visitar prisões com dissidentes políticos em greve de fome – e ouvi-los a ver o que procede — a ser recepcionada no pátio bem maquiado com bandeirinhas aclamatórias.

O Estadista comprará as brigas certas e não cederá à ambiguidade dos equívocos de tradução como desculpas para ocultar mentiras. Sim, há tortura em Cuba. Os direitos humanos são sistematicamente violados na maior parte dos países árabes e o ocidente faz vistas grossas com lentes especiais oriundas dos petro-derivados. No Brasil, os avanços sociais concorrem com instituições enfraquecidas graças à gula fiscal e à sobreposição do executivo aos outros poderes. Inexiste liberdade de imprensa na China, há trabalho escravo infantil na Índia e a Rússia infelizmente não se livrou da cultura KGB. Os europeus tem nostalgia apenas do seu colonialismo e o capitalismo nos EUA é truculento e autofágico. A África é um continente esquecido pelo mundo e vivemos a reciclagem de uma guerra fria pulverizada. O processo de paz no Oriente Médio – e a solução urgente de dois Estados — precisa de novos e criativos interlocutores.

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