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As vezes nos contentamos com o superficial. Isso significa mais ou menos nos contentar com as coisas simples, certo?

Não é bem assim.

As coisas simples nem sempre são superficiais e vice versa.

A profundidade tampouco é garantia de qualidade.

Para examinar melhor tomemos os discursos políticos como exemplo. Eles representam  bem a auto-exaltação das gestões, promessas evazivas, ou as grandes transformações que nunca chegam. 

O recentíssimo exercício de relações públicas do presidente americano no Rio mostrou isso. Nada de novo sob o luar. E assim vamos. Entretanto isso tem que ser feito.

Por que?

As pessoas precisam deste módulo confortador. Vale dizer, é como se todos nós desejassemos que alguém nos conduza, a velha e recorrente falha de autodeterminação que nos leva a falha de instinto: a necessidade de líderes e heróis, a ilusão de que podemos nos dar ao luxo de não sermos reflexivos. 

Parece, simula, de qualquer forma, dá a impressão que confiar nos outros como condutores nos alivia a carga assim como aderir ao conformismo da superficialidade nos faz contornar aquela condição que não será transformada.

Pois a carga, vale dizer, está tão aderida como uma mochila costurada ao corpo. Ela já faz parte do metabolismo e a sua composição, pode-se dizer, já entrou nos nossos metabolismos.

Pois a carga é ter que responder — todos os dias — quem somos e porque nos contentamos ou não com o que temos.

O gosto pelo superficial — e pelos seus pequenos afagos — decorre dessa exaustão. Da impossibilidade de viver com nossos recursos. (pois é no mínimo curioso que quanto mais se espandem mais insatisfeitos ficamos). Da incapacidade — temporaria ou permanente — de saber onde está a justiça. A justiça interior. Aquela tomada como uma condição prévia à liberdade, a justiça como percepção do mundo, a justiça como elo de passagem para que todo e qualquer ofício humano faça sentido.

O gosto pelo superficial é então, talvez, fruto da impotência. Dos programas  televisivos dominicais aos veículos de fofocas nós buscamos alívio no entreterimento rasante. E antes de desligarem notem que não há um pingo de moralismo nisso que escrevo, ainda que o tom seja de um alerta preventivo contra as forças e os sentidos interiores que nos arrastam às diversões sem significado,  à desnecessária depressão. (sobre a depressão necessária falo depois)

Mas o significado não têm que ser dado, construído, atribuído, necessariamente, por cada um de nós?

Claro senhor, por isso mesmo valeu a pena ter escrito isso.