O livro foi lançado ontem e foi uma festa muito concorrida. Desenhei muito com a ajuda da Iael e acho que todos ficaram felizes. É sempre bom estar em livrarias. Os livros têm um apelo pela mera presença. São objetos com muita energia e, as vezes, ariscos. Mas olhando para as estantes ali — enquanto assinava e desenhava nos exemplares — cheias, sem buracos, vi uma biblioteca, uma biblioteca artificial. E então cai num delírio que reparto com voces:
Livros são como objetos a espera de quem os escolha. Se os livros tivessem vida objetiva como se comportariam? Saltariam e escolheriam leitores. Recusariam outros? Vi um ator em uma novela jogar alguns volumes numa mesa da livraria depois de retira-los da mão da outra atriz. Não acho que a cena foi escrita assim, foi decupada assim. Por que? Porque imagino que o ator estivesse confortável e familiarizado com maus tratos aos impressos.
Voltei a minha digressão mestra: o que define a consistência de um livro? Ele como objeto gráfico? A editora que o patrocina? O autor e sua rede de inserções? O que está escrito? Talvez uma mistura desses elementos. “Mas isso é completamente insatisfatório” disse para mim mesmo. O livro pode ser consistente e não estar, publicado, o autor pode ser amplas inserções, um tremendo network e ser insuficiente como redator, o que está escrito — supondo que esteja bem escrito — pode não ser de interesse de muitas pessoas. Maiorias se interessam pelas mesmas coisas.
Assim a consistencia poderia ser guiada para um outro caminho. Foi o que fiz.
Testando outra hipótese, esqueçamos consistência: o livro deve ser de fácil leitura. Esperem! Caímos em um problema pior. Nem sempre a literatura pode, ou deve, ser fácil. Pelo contrário. Muitas vezes é a leitura que cobra mais exigência aquela que pode trazer mais impacto. Mas é impacto que os autores buscam? De novo: um livro não pode ser bom só porque é de árdua leitura. Pode ser, frequentemente é, um disfarçe para a improbidade literária. Numa tese ficaria bem (mesmo assim por vários motivos acho que teses deveriam ser redigidas como ficções). Pode ser uma fórmula para conversar com os leitores do futuro que, esses sim, entenderão o gênio incompreendido. Esqueçam.
Um bom livro não é bom a não ser quando escapa de todas as especulações e adquire vida experimental nas mãos e olhos do leitor.
— Livros, escolham bem seus eleitos.

Paulo, tu bem sabes que a palavra pode ser escrita irresponsavelmente. Grandes irresponsabilidades ou pequenas, aquelas que diriam “vou ler teu livro”, colocar um ponto final e ninguém saberia o que aconteceu de fato. Eu diria que as grandes irresponsabilidades tem seu alicerce nas pequenas, pois essas são pessoais e caracterizam as condutas de cada um no trato das coisas. O justo é justo porque sente no coração.
No meu caso (certamente no de outros justos também) podes ter a certeza de que lerei teu livro, como já li outros vários teus. Em se tratando de romance, então, é certo. Digo isso porque trilho caminhos ao mesmo tempo diferentes e semelhantes ao teu: também sinto a necessidade de transformar palavras e mostrá-las de modo inusitado, nunca ditas daquele modo usual ao se referirem ao que se sente e vê.
Na construção de um personagem o autor segue a vida que deu a ele. Muitas vezes, o autor simplesmente descobre maneiras mais belas de dizer aquilo que que o personagem vivo nas páginas do livro. É impressionante a liberdade que essas figuras criadas e construídas pelo autor tem, mesmo aprisionadas em páginas e mais páginas, em definir suas próprias histórias contadas. às vezes mesmo à revelia de quem escreve.
Parabéns pelo parto. Nascer um livro dentro da gente e pari-lo com vida própria com a perfeição de nossos filhos é obra de uma vida.
Tu sabes, mas quem lê essa mensagem não: moro em Porto Alegre e já procurarei na Saraiva meu auto-presente de Natal.
Um abraço,
Renato.
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“teses deveriam ser redigidas como ficções” – que alívio!!… não estamos sós!!…
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Onde está o minério fundamental que queremos encontrar? A livraria é uma mina em péssimas condições. Soterrado no Atacama de sua busca, nem tudo que cobre o leitor é cobre. A literatura é um solo carente de verdades ficcionais. Eis que surge uma ficção de verdade. Está salvo o minerador.
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não, não estamos. é um barco semi vazio, mas ainda há remos.
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Renato amigo, te absolvo de responsabilidades, só te convoco para dizer o que achou do livro. abração.
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as minas vertem e se apagam
nós as descobrimos, explorando
e a cada página que descemos
um novo vai sendo vertido
mas o que não sabemos, ainda
é quem vai nos trazer, de volta
se há, isso é garimpo.
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