• Uma entrevista sobre Verdades e Solos
  • Resenha de “Céu Subterrâneo” no Jornal da USP
  • A verdade lançada ao solo, de Paulo Rosenbaum. Rio de Janeiro: Editora Record, 2010. Por Regina Igel / University of Maryland, College Park
  • Resenha de “Céu Subterrâneo” por Reuven Faingold (Estadão)
  • Escritor de deserto – Céu Subterrâneo (Estadão)
  • A inconcebível Jerusalém (Estadão)
  • O midrash brasileiro “Céu subterrâneo”[1], o sefer de “A Verdade ao Solo” e o reino das diáforas de “A Pele que nos Divide”.(Blog Estadão)

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Um suspiro quebra o mundo? (Blog Estadão)

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Um suspiro quebra o mundo?

“Um suspiro quebra o mundo“

Talmud

Por que um suspiro quebraria o mundo?

Eu, por exemplo, continuo suspirando sem ainda ter detectado movimentos na crosta terrestre. Alguns estalos ouvi, mas nunca os comprovei empiricamente. O suspiro tem poder para quebrar o mundo porque a audição do mundo tem uma atenção flutuante. Somos como antenas direcionadas que prolongam a inspiração diante das emoções.

Conhecido também como expressão de lamentos, soluços de Jó e trenos de Jeremias. É possível testemunha-los no dia a dia e é importante registar que trata-se de conceito ambivalente: pode significar lamento ou interesse, pena ou desejo.

Basta alguma atenção para testemunhar sua frequência nas ruas, nos mercados, na solidão dos gabinetes, nos transeuntes que trabalham ininterruptamente, e em estudantes sobrecarregados por aulas desinteressantes.

O suspiro tem uma incidência epidemiológica máxima durante processos prévios às decisões vitais. Existem um sem número de modalidades: pode ser prolongado, curto ou ininterrupto. Afável ou agressivo. Penetrante ou raso. O mais comum é o suspiro rápido, aquele que nem percebemos, camuflado numa respiração mais ligeira. O mais vulgar é o suspiro inconsciente que aflige os usuários de redes sociais diante de imagens e textos infames e que geralmente precedem bloqueios sumários. Eles vem como avalanches, e, muitas vezes mesmo com os aparelhos desligados é impossível detê-los e aos seus efeitos colaterais.

O suspiro que aprendemos a admitir quase à normalidade é um suspiro de alívio, sob o “ufa” que sai de nós quando um susto ou o pior já passou. E é quando nos perguntamos se o pior já passou mesmo? Nem sempre, é que, da mesma forma que negamos a morte para escapar da tanatofobia, nos iludimos com a postergação das tempestades e dos tempos obscuros. Há um suspiro quase obrigatório, aquele que sempre ocorre quando diante da dúvida e da interrogação que vai logo ali adiante.

Existem suspiros de euforia seguidos de decepção. Segundo relatam os historiadores coube a Alexandre III, o mais logo e intenso suspiro do qual se tem notícia. Foi quando consultou o famoso oráculo de Delphos. O comandante em chefe queria saber o prognóstico e o destino de seus exércitos. Após um breve momento de empolgação, o suspiro rapidamente transformou-se em hesitação até ser compactado em pânico brando. Segundo testemunhas, com o suspiro foi contido na garganta e ele nunca mais falou no assunto como também nunca se recuperou, até sua morte precoce aos 32 anos.

Há também uma categoria especial do suspiro que é o do resmungo. Camões bem retratou bem em “Os Lusíadas” ao se referir os refrões mal humorados dos velhos do Restelo. Mais contemporaneamente foi reativado aos milhões diante de uma promessa grandiosa que virou um campanha esportiva pífia e humilhante realizada em um País distante. Numa categoria análoga estão os suspiros ocos, os que perderam o significado, os expressos por instinto ou vicio.

Outra curiosidade sobre suspiros: eles podem vir em salvas e chegam a atrapalhar a oxigenação do sangue. A suspirose é um quadro que denota ansiedade (vale dizer, inquietude) acerca do nosso devir. Há ainda o suspiro arrogante dos que imaginam que tudo compreenderam. Nesta modalidade de suspiro a hubris manifesta-se como um déficit cronico de autocritica. Também se incluem nesta categoria o suspiro diante daqueles que detém o monopólio da benevolência, dos filósofos que abandonaram a dúvida, dos literatos que encontraram o elixir do senso comum, dos tecnocratas que, por hora, determinam o que pode e o que não pode ser exibido em horário nobre, pelas injustiças que o povo sofre diante dos bullyings de Estado.

Um dos mais comoventes contudo é o suspiro por pessoas desaparecidas prematuramente, suspiro por pessoas que deixaram insanáveis vazios, e aqueles que emitimos no escuro por todas as faltas, mesmo aquelas que nem desconfiamos. Um dos mais dolorosos é decerto o maladie du pays, que significa as saudades que os expatriados tem de sua terra natal. Alguns relatam que ele é acompanhado por uma dor física atroz, que se assemelha um ardor no peito e descrita como “um espeto de metal em brasa”.

O suspiro do desejo. Este se transforma em um ato infinito e é quase impossível recobrar a respiração. Por um bom prato, diante de causas políticas perdidas, por utopias, pelo tempo perdido.

O suspiro amoroso estranhamente tornou-se cada vez mais raro — substituído ou não pelas paixões políticas, portanto indevidas. Suspeita-se que pode estar sendo praticado longe dos olhos públicos. Especula-se também que talvez esteja sendo estocado para épocas mais estimulantes.

Já o grande suspiro, o suspiro que não racha o mundo, mas o reaglutina, e regenera as partes fendidas. Deplorar ou bendizer, talvez na referida ambivalência resida sua maior virtude: ao quebrar o mundo um suspiro pode, enfim, romper o silêncio que nos cerca para aguçar a benevolência do Universo, ou, nos tornar menos invisíveis.

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