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  • Resenha de “Céu Subterrâneo” no Jornal da USP
  • A verdade lançada ao solo, de Paulo Rosenbaum. Rio de Janeiro: Editora Record, 2010. Por Regina Igel / University of Maryland, College Park
  • Resenha de “Céu Subterrâneo” por Reuven Faingold (Estadão)
  • Escritor de deserto – Céu Subterrâneo (Estadão)
  • A inconcebível Jerusalém (Estadão)
  • O midrash brasileiro “Céu subterrâneo”[1], o sefer de “A Verdade ao Solo” e o reino das diáforas de “A Pele que nos Divide”.(Blog Estadão)

Paulo Rosenbaum

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Três garotos (Blog Estadão)

19 quinta-feira jun 2014

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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conto de notícia, Hebron, Sequestro de três garotos em Israel, Três garotos

Garotos, não sei com quem vocês estão, nem se ainda estão, nem como estão. Se, por alguma desventura do papel, esta carta chegar até vocês, peço para que a leiam juntos, até o fim. O motivo pelo qual escrevo de tão longe? Pedir perdão. Por que eu pediria desculpas? Por ser adulto. Por não ter […]

Garotos, não sei com quem vocês estão, nem se ainda estão, nem como estão. Se, por alguma desventura do papel, esta carta chegar até vocês, peço para que a leiam juntos, até o fim. O motivo pelo qual escrevo de tão longe?

Pedir perdão.

Por que eu pediria desculpas? Por ser adulto. Por não ter feito nada para impedir que as coisas chegassem a esse ponto. Está confuso? Vou explicar.

Sei que pode estar muito frio ou muito calor. Sei do medo e da fome. Como qualquer um que é arrancado dos pais, vocês estão aflitos, descuidados e perdidos. Mas é bom que saibam, vocês não estão órfãos.

Estamos todos aqui, vigília total. E não só rezando, nem pedindo, nem implorando. Estamos naquele estado no qual acreditamos mais ainda numa proteção sobrenatural. Parece maluquice, mas não é sobre isso que queria falar. Queremos que vocês saiam logo daí. Sei que é fácil falar. Mas é preciso que vocês saibam que uma hora dessas vocês sairão da caverna, da toca, do buraco. O destino de todos os cativeiros é a liberdade.

Por isso, preciso contar que quando vocês voltarem, além de cobertores, comida preferida de cada um e roupas frescas, nós vamos nos esforçar como nunca.

Como nunca, porque precisamos reconhecer que nós não fizemos o máximo. Não só por não poder enxergar e proteger vocês, mas, principalmente, por não termos chegado à paz. Sem paz, tudo acaba sendo distorcido, como, por exemplo, eles terem levado vocês para longe de nós.

Não sabemos se eles são uma organização, terroristas ou milicianos. Nem mesmo se são aqueles homens que geralmente vivem disfarçados de gente religiosa para justificar o injustificável.

Não sabemos se eles estão deixando que vocês vejam os jogos, ouçam notícias, ou recebam jornais. O que importa mesmo é não esquecer, nem por um minuto, que vocês estão aqui, conosco, grudados em nossos corações e mentes. E mesmo que o mundo ainda não tenha feito o devido esforço para encontra-los, e que muitos se esqueçam do que está acontecendo, é bom que vocês entendam que a maior parte de nós pensa em vocês, dia e noite.

Já li que o mundo só terá nova cara quando os filhos dos outros tiverem a mesma importância que os nossos. Vejam como é importante não generalizar: saibam que um garoto palestino escreveu e organizou uma petição para que quem levou vocês, entenda que não conta com o apoio dele.

Ele não pertence à vossa etnia, não é da mesma classe social, provavelmente não é nem mesmo dessa região. Sua tribo não poderia ser mais distante. Olhando de longe, talvez até pudesse ser confundido com um inimigo.

Por que fez isso? Por que se arriscou? Por que correu o risco de ser a voz que discorda? Porque sabe o valor da liberdade? Pode ser. Mas arrisco dizer que é porque ele enxerga vocês como iguais, crianças, adolescentes como ele, jovens como ele.

Ele, mais do que os povos contaminados pelo ódio e viciados na guerra, sabem que vocês não tem nenhuma culpa pelo jogo que os adultos escolheram jogar. De algum modo, ele compreendeu que tudo isso é uma grande insanidade. Para ele não importa que a maioria ao seu redor ache natural sequestrar crianças. E por ter compreendido isso talvez ele tenha feito o que milhões deveriam fazer sempre que gente inocente sofre: recusar a loucura. Mesmo aquela que parece sensata para a maioria.

É óbvio que não significa que possamos nos dar ao luxo da ingenuidade. As vezes, para conter os loucos, temos que usar força, pelo menos até que a crise passe. Até que eles não ofereçam mais risco para os outros, nem para eles mesmos.

Ainda assim precisei escrever isso para vocês e explicar: impressionante o número de amigos que aparecem numa hora dessas.

Deixo meu abraço, minha carta, e renovo meu pedido de perdão. Para que vocês saibam que não importa o que estejam fazendo, nem para onde estejam levando vocês: têm muita mais gente aí do que vocês podem enxergar.

Não vai demorar. Muitos outros vão se unir a nós. Muitos outros vão saber. Milhões terão coragem de escrever. Diversas nações e torcidas. Incontáveis gritarão por aí que nenhuma religião, tribo ou País, vai ser capaz de manter para sempre os argumentos que destroem a paz. Fiquem conscientes que vocês hoje a representam. A liberdade de vocês pode significar mais que o alívio do reencontro, pode representar a abolição de maus decretos e prisões. A liberdade de vocês pode movimentar o que está parado há muito tempo.

Posso sentir daqui. Percebo que seus corações estão pesados. Sei que choram, que soluçam, que pedem pelos seus pais. Se há algum bom motivo para que vocês se alegrem? Daqui em diante redobraremos os esforços para que nenhuma criança do mundo sofra pelos erros dos adultos.

Forte abraço e shalom

Para comentar usar o link:

http://blogs.estadao.com.br/conto-de-noticia/tres-garotos/

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