Resenha do livro Navalhas Pendentes, por Lúcia Blanc Barnea
Minhas Navalhas Pendentes
Homero Arp Montefiore é protagonista e narrador de Navalhas Pendentes, romance policial especulativo com caráter de ficção científica de Paulo Rosenbaum. Alter ego do escritor, o erudito Homero nos conduz por uma trama que se desenrola seja na casa editorial, seja em sua fantasia – ora pelos hiatos de sua memória, ora pelas conjeturas de seu raciocínio célere, de intelecto hábil e cultivado, sempre voraz por compreender, desvendar -, recheado de referências intertextuais de universos os mais distintos. Detetive e/ou autor dos crimes investigados?
Em meio às galopantes transformações por que passa o universo do livro, entre os quais o digital, o audiobook, a literatura em bandas desenhadas, a proteção dos direitos de propriedade intelectual dos autores quando o saber se compartilha gratuitamente (e a verdade se torna relativa), os grandes conglomerados de distribuição de livros, mega livrarias e casas editoriais gigantescas em escala mundial e o polêmico Chat GPT – que, surpreendentemente, e com dois anos de antecedência,o texto de alguma forma antecipou – a ferramenta de inteligência artificial lançada no final de 2022… eis que Rosenbaum incorpora a Navalhas Pendentes a discussão em torno da extinção da cultura e da criatividade humanas, da obra pós-humana, ao aportar à narrativa a inteligência artificial. Seria um algoritmo o autor/reprodutor de fórmulas dos best-sellers da editora Filamentos, membro da editora em formação KGF-Forster, maior conglomerado editorial do mundo? Um enigma que cabe ao autor e ao leitor decifrarem.
A fuga de Homero Arp é, por assim dizer, mais uma camada superposta do livro e se torna necessária à medida que o personagem avança em suas descobertas acerca da identidade do escritor Karel F, do segredo da Filamentos e, principalmente, quando se torna um fugitivo da justiça. Assim, o autor nos convida por um passeio pelo Cone Sul, pela cidade de São Paulo e seu interior, por um balneário de um certo destino no norte do Espírito Santo, Montevidéu, pelos pampas uruguaios, uma quase visita ao paradisíaco Cabo Polônio, finalmente por um povoado na Patagônia… – todos paradeiros nebulosos, os quais, um a um, incitam o narrador a divagar.
Há em Navalhas Pendentes citações notáveis, significativas, com quem nosso protagonista dialoga – de Serveto, Paul Ricoeur, Jorge Luis Borges, Paul Éluard, Yuval Harari, Francis Bacon, do Rei Salomão, de Freud… e de outros autores e pensadores não menos ilustres – um livro que fala sobre livros, um livro de muitos livros. No mesmo fôlego, Homero domina a nomenclatura médica e discorre com simplicidade sobre questões filosóficas existenciais como a solidão, a natureza, a memória, a criação e a literatura, o tempo, a condição humana, enfim.
O livro objeto e sua diagramação gráfica demandam atenção e complementam a experiência visual: as páginas são aeradas, a paginação sai de sua zona de conforto e se desloca para a lateral, as navalhas presentes nas páginas ímpares; as seções e capítulos são bem marcados, aquelas divididas pela anacronismo de uma fotografia em preto e branco de uma máquina de escrever vintage — quiet de luxe Royal –, cuja revelação se torna mais nítida à medida que o texto avança – quiçá em comunicação com as epígrafes de Aldous Huxley e do Rei Salomão? Há também outras presenças inusitadas, que pedem ao leitor atenção.
Algumas elucubrações sobre nosso protagonista Homero Arp Montefiore: seria uma alusão ao criador da Odisseia, ou quiçá o Ulysses de James Joyce a compartilhar com o leitor o jorrar de seu fluxo de consciência? Seria ARP acrônimo de Address Resolution Protocol? Sigla cujo papel fundamental é identificar o endereço físico de uma máquina/placa de uma rede de computadores para então criar uma tabela de correspondência entre os endereços lógicos da internet e os endereços físicos em uma memória secreta? Justamente um componente central do enigma da trama?
Pois está Homero decidido a descobrir a verdadeira identidade e localização do/a grande fabricador/a de sucessos literários Karel F., já que suspeita da manipulação e fabricação de best sellers sequenciais da casa editorial na qual trabalha como leitor de originais e editor. O sobrenome Montefiore confere a identidade judia de nosso protagonista, e nos remete à sua estirpe europeia. Seria ele um descendente de Moses Montefiore, banqueiro e filantropo italiano naturalizado britânico, e um dos expoentes do protossionismo? Seria um estrato adicional: em um livro que discorre sobre ascendência e descendência, nosso Homero – diferente de seu ancestral -, opta por assimilar uma nova identidade, mais próxima à cultura indígena das terras do Extremo Sul para onde imigra, cria raízes e descendência.
Minhas navalhas pendentes das Navalhas Pendentes são as questões filosóficas que emergem texto adentro como pontadas e que por vezes refletem o mal-estar assumido de Homero frente ao Zeitgeist atual.
Confesso que das camadas do livro de Rosenbaum, é essa a que mais me seduz. Por isso, uma vez finda a leitura da narrativa de suspense, recomendo o exercício de atravessá-la em diagonal, com a intenção de repescar as citações e o divagar de ideias, que conferem riqueza e densidade à obra.
Lucia Blanc Barnea, antropóloga, Raanana (Israel)
