A insensatez não merece solidariedade (Estadão)

A insensatez não merece solidariedade
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O mundo está pontilhado. não só por polaridades sem consistência — que alguns ainda entendem por direita e esquerda — mas pela descontinua marcha da insanidade que parece ter a velocidade das infecções. Sim, a peste emocional descrita por Willien Reich é uma anterioridade cronológica que não é uma inferioridade lógica. Se não tenho uma analise melhor a oferecer do que o preciso editorial de ontem deste Estadão que os leitores permitam a exposição de tópicos. A democracia deveria ser consenso, mas populocratas perceberam que surfam melhor na adversidade. Isso é, faturam mais quando conseguem o enfraquecimento institucional para, ao final, desmilingui-las, remodelando-as ao gosto. Com tal feito os de sempre esperam poder governar — isso é o que imaginam que fazem — sem fiscais por perto. Já vivemos o Estado policial, e, para quem reparar bem, ele só pode existir quando todos os outros mecanismos deixaram de operar. A resposta à falta cívica e à corrupção jamais poderia ser a abolição seletiva das leis.

Todo tirano pode dizer que faz isso, revogar leis para promover justiça, com a melhor das intenções. O desafio é exatamente organizar o Estado sem desarticular o que a sociedade levou séculos construindo. Apesar da estética duvidosa a ascensão de um novo gênero de político — que são tudo menos apolíticos —  não é só um sintoma isolado da falha grave dos antecessores. Esta nova classe de políticos representam o protesto, inútil, contra a ideologia de um funcionalismo viciado, que por sua vez gerou distorções em cadeia: no papel decisivo da divisão de poderes, criando importantes reflexos nos meios de comunicação. A mídia organizada precisa recuperar a neutralidade se pretende não ser substituída.

O risco é chegarmos ao futuro somente com acusações de fake news de parte a parte. Filtros aplicados à realidade dependem, hoje, do viés com que o furo editorial é dado. Uma mesma notícia sofre com manchetes à moda da casa. A verdade não foi só interditada. Sob o pretexto de desmistifica-la ela acabou vitima do excesso de interpretações. De nenhuma forma foi um caso isolado. Quando a cautela condenou virtudes para coroar vicissitudes — desde que declamassem ideologias — a verdade foi demonizada sem chances de defesa. Seus advogados destituídos para dar lugar a dativos despreparados para redigir um simples habeas corpus.

Corre-se o risco de que quando enfim terminarem de passar o País a limpo, ninguém mais saberá como redesenha-lo. A sede por justiça — que nunca foi tão tarda — passou a ser substituída por linchamentos eletrônicos. Por que ninguém ainda concebeu um sentido mais amplo e sofisticado de justiça do que a privação da liberdade? Por exemplo, os políticos que fossem condenados por provas incontestáveis? O que será que as cortes poderiam ordenar como penas alternativas: prestação de serviços à comunidade? Não foi exatamente ai que falharam? Isso seria pedagógico para os casos considerados recuperáveis? Uma pena alternativa seria faze-los viver a experiência de não serem adequadamente governados, desta vez sem poder, sem carros blindados e sem auxílio moradia.  Não seria vingança. A submissão de legisladores corruptos à maus legisladores seria uma experiência sobretudo didática.

Os procuradores tem razão que prejuízo à economia não é razão suficiente para frear investigações.  O mal feito recorrerá e voltaremos ao circuito do horror fiscal liderado desta vez liderado por algum tipo de neo lulopetismo com novos e velhos associados. Mas que estas corajosas pessoas também aceitem frear o ímpeto voluntarista, importante como motor inicial, mas completamente dispensável em fases mais adiantadas como as atuais. A indução geral ao clamor de uma justiça que passa por cima dos preceitos constitucionais vai contra o principio geral que nortearia à aspiração por condições mais justas e equânimes. Se a alegação é de muitos políticos e alguns empresários construiram alianças estratégicas para legislar em causa própria, a generalização só interessa aos que desejam se safar em meio ao oceano coalhado de denúncias.

A civilidade com a canalha é essencial. A elegância política, um estilo a ser preservado. Não podemos morder a isca cuidadosamente preparada nas águas rasas da República. O anzol está preparado para que, em nome de alguma virtude abstrata, aceitemos banimentos, apoiemos discriminação, difundamos intolerância e espalhemos ódio gratuito com clicks impensados. Nossa vingança será recusar enlouquecer junto com todos eles. A insensatez não merece solidariedade.

Viagens alienantes (Estadão)

Seria preciso lavar tudo. Busquei refugio no maior rio do mundo. Sai do Amazonas, desci o Madeira e, do nada, de uma folha circular, boiando, saiu a libélula em zigzag. Arrastada pelo vento, ficou paralela ao rio e as asas beliscaram as águas. Estranho foi ter sido fisgado pela melancolia. Algum sinal de morte ali? Mudei o ritmo do remo e quando enxerguei já estava do outro lado. Na margem esquerda. A Floresta é o último reduto de origem, não há nada mais inicial, primevo, vestigial.  Não há nenhum lugar que o homem não tenha pisado. A mata virgem é a exceção. Ali só há tempo incólume. Por que mesmo vim? Em um País no qual tudo virou policia e bandido, tribunais e cadeia, passear de canoa foi uma resposta à vida.  Viver, ou, dar sentido para o fim. Nenhum desespero é definitivo. Deixar que o medo vigore é perder-se na vigência permanente. Mas, por favor, que ninguém tolha nossa hermenêutica. Reinterpretar o mundo milhares de vezes ao dia não é consolo, é salvação. A única remanescente. O Negro já tem igarapés coloridos. Graves e coloridos. Escolhidos a dedo pelo destino caudaloso. Então, virei à direita quando o riacho emborcou na mata. Mergulhei a cabeça na água. Era morna como o gelo tímido. Submergi as mãos e a pele saiu com a oleosidade de maré.  A maré doce dos afluentes. Fluido dos milênios, a água leve e dura se espalhou através do leito úmido das milhões de eras. Bilhões de florações. Aqui, números falam de outras cifras. Desci com a galocha ensopada e parei: estava diante do primeiro caule. O Paraíso, terá sumido?  Quando foi que o perdemos? Lembrei da prosa, da transiberiana, da sombra das sequoias americanas, das encostas secas dos desertos orientais, dos povos sumidos, de índios escondidos. Planícies de areia, outrora também, selvas. Outrora éramos todos selva. Muito antes das erosões. E todos erravam sem saber. Vagaram sem conhecer. Não sabiam o que já tinham e desconheciam o pertencimento. Só tomamos noção do equilíbrio quando o perdemos. Também é assim com a liberdade.  Pensei nas jaulas e gaiolas. Nas trancas e nas travas. Imaginei os bilhões sem ar. Os cubículos daqueles que não podem mais sentir as imensidões.  Risquei o cobertor seco de folhagem úmida para ver terra. Preta. Negra como o rio Negro. Era tinta pura, degradada como o solo, que imanta nossos olhos.  Enxuguei a  testa que passou a exalar memórias. O caminho progredia sob meu remo enquanto tentava esquecer dos jornais, desassimilar livros, impedir que a flutuação dos mercados não me cegasse para os instantes dentro daqueles caules gigantescos. A civilização deve acordar só depois de estar alheia a tudo. Descobri a alienação, o perdão irrefletido, o desvio de todos os sistemáticos. Quem me dera obter a amnésia das analises, e descansar com as sínteses do instinto. Mas as imagens urbanas e quotidianas ainda me perseguiam. Nem percebi o calor, que transpirava de dentro. Tateei seringueiras maciças com suas seivas abandonadas. Vi a ferrugem das motosserras mutiladas. Remexi no artesanato jogado nos ribeirões, e, senti o talento em potencia. Notei o barulho da respiração, abafado pelos grifos de pássaros, pássaros que agudos, injetavam seus perfis atravessando as nuvens. O Céu só é visível de cima, ou, do leito dos rios. As sombras seguiam em camadas sem assombrar as copas. Sem relógio ou bússola pensei em erguer ali, na hora, uma novíssima fundação. A humanidade de um só. A consciência compactada em um. Estacionei perto de um formigueiro suspenso. O aroma adocicado mudou o ar. A história só se desembrulha no desfecho. Sentei sem perceber que pequenos animais me rodeavam. Lembrei de gente que nunca mais voltou das expedições. Dos embrenhos sem retorno. Dos indícios de mateiros sem orientação. Dos sinais de galhos que cicatrizaram para confirmar que não há retorno. Soube que já não voltaria. E que, de agora em diante não vou torcer pelas regras, que o curso siga sua natureza e os campos se encharquem. Só assim a floresta sobreviverá para os habitantes. Pela penúltima vez olhei as margens: extraviar-se é a melhor forma de bendizer.

A República em Apuros (Estadão)

A República em Apuros

Não é só pela pedrada

nem pela divisão artificial

nem as barricadas induzidas

Por bloqueios de petróleo,

mas pela recorrência mitômana

pela insistência fanática

em políticas erráticas

pelo engodo de sempre

Violações da constituição

contra o cidadão

Em vias obstruídas,

o saque das liberdades

Sob prisões urbanas

de entulho ordinário

até que a linguagem

entre em deformação

e a defesa de quem trabalha

desmistifique a trapaça do narrador

e a perversão das notícias,

a sina, de que, no limite

da margem, estreita

para além de esquerda-direita

no abismo de sofismas

no trilho das encostas

nas apostas sem futuro

nos trens sem carros

que abusam do silencio

da concessão passiva

ao ciclo de perigos

na suspeição de amigos

estamos a idolatrar

o demérito

enxergar as cortinas de fumaça

até nos convencer da astúcia

da trapaça

Para enxergar o solo da República

E retirar a democracia

do apuro

Será preciso defenestrar déspotas

desmanchar suas auras

suas retóricas avidas

de poder a todo custo

diluir o embuste das palavras

reconstituir o diálogo

exigirá interlocutores

sem medo das pautas

sem coação dos mitos

eleitos sem o vício

dos pleitos

Salvar

Salvar

Eis o Rascunho (Estadão)

Rascunhar: “fazer um esboço” XVI, Do cast Rascuñar. Rascunho XVII.  Do cast Rascuño. ( Cunha, Antonio G. Dicionário Etimológico)

O filosofo vaticinou a era: a do desaparecimento dos rascunhos. De fato, pareciam mortos, moribundos. Os note books, i-pads, processadores de texto, laptops e enfim os i-phones com seus aplicativos e parafernálias parecem tê-lo sepultado sem as devidas honras. Também descobriríamos — como acabamos de ouvir do Ministério Público — a face sinistra dos rascunhos. A mandatária que deveria ter usado os canais apropriados como instrumentos legais para manter os assuntos sigilosos do Governo usava rascunhos para acobertar a pilhagem do Estado. Evidentemente as páginas não oficiais já foram usadas na forma de bilhetinhos para encomendar assassinatos, geração de intrigas, lista de inimigos, obstrução à justiça, crimes comuns e outras morbidades políticas.

Mas o mais importante talvez não esteja, ainda que inestimável para discernimento, no caráter policial dos rascunhos. É que, sem eles, seriamos privados de notas em cadernos de campo, poemas rabiscados em guardanapos, ideias esboçadas em folhas avulsas com e sem pauta, anotações marginais em livros e versões prototipais muitas vezes surpreendentes. Tudo isso estaria perdido nos lixões.

Nos conformaríamos em ler somente as teses prontinhas, livros acabados, edições bem cuidadas, sem erros, sem lacunas, e principalmente sem atos falhos. Não perceberíamos tão bem  as metáforas obsedantes que perseguem a cabeça dos escritores, os equívocos depois reprocessados dos ensaístas, a permanente incerteza dos pesquisadores. Sem os rascunhos, não teríamos os cadernos de Darwin, os escritos secretos de Newton, as anotações de Gauguin, os desenhos criptográficos de Da Vinci, as duas preciosas versões do Grande Sertões de Guimarães Rosa (visite-os na impressionante Brasiliana Usp) ou os diários de Kafka.  A extinção do rascunho pode ter sido um golpe letal no que Carlo Guizburg certa vez nomeou como paradigma indiciário. Ele nos conta que a elucidação de autoria de obras nas pinturas nas antigas galerias italianas — levada adiante através de uma metodologia proposta pelo médico forense Morelli e usada por Freud — estaria mais nos pequenos detalhes quase inimitáveis do que no “jeitão”, ou seja na tipicidade do óleo sobre tela. Tanto o  falsificador como o imitador esmeravam-se em copiar o estilo, vale dizer o estereótipo, e raramente se preocupavam com minúcias como sombra, brilho dos olhos, unhas, disposição das sobrancelhas.  Tivéssemos só tipografias limpinhas e impecáveis desconheceríamos livros com anotações e desenhos rabiscados dentro e fora do texto. Um dos mais recentes e importantes achados foi feito por George Koppelman e Daniel Wechsler e publicado sob o título “Shakespeare’s Beehive” (Colméia de Shakespeare) — ainda inédito em português — quando encontraram num depósito leiloado no Canadá um impressionante dicionário, o “Alviare” de 1580, com prováveis anotações manuscritas de Shakespeare.

A verdade é que, sem os rascunhos, estaríamos condenados à indesejável utopia que Jorge Luis Borges chamou de “la pagina de la perfeccion“. Ela não existe, mas não é que a pasteurização das edições tornou isso quase possível. Os exemplares saem já prontos, triplamente revisados. A indústria editorial e seus agentes esforçaram-se para torná-los inquestionáveis, assépticos, e sua higienização virou o símbolo de um produto quase perfeito.

Mas e se quiséssemos conhecer não só o item acabado? E se disséssemos que gostaríamos de saber mais das etapas, do processo mental de elaboração, de como os originais emergiam de forma bruta das cabeças dos autores? E se precisássemos de uma visão panorâmica das palavras desencaminhadas, das ideias perdidas, dos extravios  iniciáticos de cada artista? Seria uma imperdoável indiscrição? Uma curiosidade ilícita? Ou a inquietude intelectual nos autorizaria a investigar as referencias culturais que afinal nos forjou até o limite? E se a chave para entender a história realmente estivesse nos detalhes, nas omissões voluntárias, nos textos descartados ou destruídos nas lareiras e trituradoras de papel? Sem o rascunho estaríamos todos cegos aos devaneios, aos atalhos descartados, à intimidade desconhecida, à faceta oculta da imaginação.

De toda forma parece que O Rascunho insiste em sobreviver. E é por essa notável e contra-intuitiva persistência que recomendo a leitura e assinatura de um importante e resiliente Jornal de Literatura publicado desde 2000 em Curitiba chamado exatamente de “Rascunho”, eis uma amostra : http://rascunho.com.br/o-direito-ao-silencio/.

PS- Acabo de salvar este texto como rascunho.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/eis-o-rascunho/

Eis o Rascunho ( Estadão)

Rascunhar: “fazer um esboço” XVI, Do cast Rascuñar. Rascunho XVII.  Do cast Rascuño. ( Cunha, Antonio G. Dicionário Etimológico)

O filosofo vaticinou a era: a do desaparecimento dos rascunhos. De fato, pareciam mortos, moribundos. Os note books, i-pads, processadores de texto, laptops e enfim os i-phones com seus aplicativos e parafernálias parecem tê-lo sepultado sem as devidas honras. Também descobriríamos — como acabamos de ouvir do Ministério Público — a face sinistra dos rascunhos. A mandatária que deveria ter usado os canais apropriados como instrumentos legais para manter os assuntos sigilosos do Governo usava rascunhos para acobertar a pilhagem do Estado. Evidentemente as páginas não oficiais já foram usadas na forma de bilhetinhos para encomendar assassinatos, geração de intrigas, lista de inimigos, obstrução à justiça, crimes comuns e outras morbidades políticas.

Mas o mais importante talvez não esteja, ainda que inestimável para discernimento, no caráter policial dos rascunhos. É que, sem eles, seriamos privados de notas em cadernos de campo, poemas rabiscados em guardanapos, ideias esboçadas em folhas avulsas com e sem pauta, anotações marginais em livros e versões prototipais muitas vezes surpreendentes. Tudo isso estaria perdido nos lixões.

Nos conformaríamos em ler somente as teses prontinhas, livros acabados, edições bem cuidadas, sem erros, sem lacunas, e principalmente sem atos falhos. Não perceberíamos tão bem  as metáforas obsedantes que perseguem a cabeça dos escritores, os equívocos depois reprocessados dos ensaístas, a permanente incerteza dos pesquisadores. Sem os rascunhos, não teríamos os cadernos de Darwin, os escritos secretos de Newton, as anotações de Gauguin, os desenhos criptográficos de Da Vinci, as duas preciosas versões do Grande Sertões de Guimarães Rosa (visite-os na impressionante Brasiliana Usp) ou os diários de Kafka.  A extinção do rascunho pode ter sido um golpe letal no que Carlo Guizburg certa vez nomeou como paradigma indiciário. Ele nos conta que a elucidação de autoria de obras nas pinturas nas antigas galerias italianas — levada adiante através de uma metodologia proposta pelo médico forense Morelli e usada por Freud — estaria mais nos pequenos detalhes quase inimitáveis do que no “jeitão”, ou seja na tipicidade do óleo sobre tela. Tanto o  falsificador como o imitador esmeravam-se em copiar o estilo, vale dizer o estereótipo, e raramente se preocupavam com minúcias como sombra, brilho dos olhos, unhas, disposição das sobrancelhas.  Tivéssemos só tipografias limpinhas e impecáveis desconheceríamos livros com anotações e desenhos rabiscados dentro e fora do texto. Um dos mais recentes e importantes achados foi feito por George Koppelman e Daniel Wechsler e publicado sob o título “Shakespeare’s Beehive” (Colméia de Shakespeare) — ainda inédito em português — quando encontraram num depósito leiloado no Canadá um impressionante dicionário, o “Alviare” de 1580, com prováveis anotações manuscritas de Shakespeare.

A verdade é que, sem os rascunhos, estaríamos condenados à indesejável utopia que Jorge Luis Borges chamou de “la pagina de la perfeccion“. Ela não existe, mas não é que a pasteurização das edições tornou isso quase possível. Os exemplares saem já prontos, triplamente revisados. A indústria editorial e seus agentes esforçaram-se para torná-los inquestionáveis, assépticos, e sua higienização virou o símbolo de um produto quase perfeito.

Mas e se quiséssemos conhecer não só o item acabado? E se disséssemos que gostaríamos de saber mais das etapas, do processo mental de elaboração, de como os originais emergiam de forma bruta das cabeças dos autores? E se precisássemos de uma visão panorâmica das palavras desencaminhadas, das ideias perdidas, dos extravios  iniciáticos de cada artista? Seria uma imperdoável indiscrição? Uma curiosidade ilícita? Ou a inquietude intelectual nos autorizaria a investigar as referencias culturais que afinal nos forjou até o limite? E se a chave para entender a história realmente estivesse nos detalhes, nas omissões voluntárias, nos textos descartados ou destruídos nas lareiras e trituradoras de papel? Sem o rascunho estaríamos todos cegos aos devaneios, aos atalhos descartados, à intimidade desconhecida, à faceta oculta da imaginação.

De toda forma parece que O Rascunho insiste em sobreviver. E é por essa notável e contra-intuitiva persistência que recomendo a leitura e assinatura de um importante e resiliente Jornal de Literatura publicado desde 2000 em Curitiba chamado exatamente de “Rascunho”, eis uma amostra : http://rascunho.com.br/o-direito-ao-silencio/.

PS- Acabo de salvar este texto como rascunho.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/eis-o-rascunho/

Esgotamento do Sonambulismo (Estadão)

Esgotamento do sonambulismo

19 Agosto 2017 | 11h37

Você prometeu, sem tragédias, nem pés de guerra, que seriamos únicos e coesos. Eu te ouvi bem? Você nos disse que estávamos juntos, atentos, que migrávamos aos poucos à transição, e mais, que ela seria suave. Que a cura faria uma curva em nossa direção, que não perceberíamos o crescimento das marés ou o falso modelo das performances. Onde está o istmo que nos guiaria até o afeto, aos dias inteiros, aos pátios de obras únicas? Nada disso vimos. Testemunhamos destinos inconsequentes, não como liberdade, não como a escrita de nomes intensos, mas com prisões informais, togas incompletas, pavimentos injustos, e, enfim, um País sem diretriz. Você prometeu a paz, e nos desarmou a esperança. Deveríamos dispersar os palácios vitalícios e agora enxergamos cúpulas de hospícios. Tua lentidão concedeu pactos, sem honrar os atos. Percebo que estivemos voluntariamente inaptos. Que para teu deleite, nos cegamos. E para que? Nos diga para que? Pelo teu triunfo? Para nos varrer do mundo?  Mas eis que, hoje, senhor, acordamos mais cedo. Hoje, cresce o consenso. Tua versão de democracia sufoca. A explicação de liberdade expirou. E o que querias? Remanescentes, nosso calor sobrevive, para outro verão.

Uma dança destilou a terra, que novíssima, nos fez aprender. Somos uma antecipação improvável. E o que você não concebeu aconteceu: ultrapassamos os marcos, desfizemos a ditadura estática do destino. Para o perplexo, criamos uma alegoria contra intuitiva, inusitada até para as gerações fracas. A explosão da qual falamos é espontânea. As cartas formaram castelos sem reis. Não quer ouvir-nos? Pois mais uma profecia: eis a era do esgotamento do sonambulismo. Quando todos, ao mesmo tempo, descobrirem que tuas criticas eram auto elogios. Por isso, prometemos, não falaremos mais de ti. Teu reino, inculto, é um passado apagável. O nosso? Está sendo esculpido nas letras. No movimento dos parques. Nos passos largos da areia molhada. Por isso, as peças de malabarismo, obsoletas, já caíram. A opressão, desativada. Se já houve felicidade, fixou-se na memória. E, só por isso, agora, é o impossível que se comprova, chegou a hora

Mutação do Poder (Estadão)

Escravos do Estado

Marcham, lado a lado

Entre slogans e partidos

Enquanto nós, feridos

Circundamos o abismo

Das jogadas e subsídios

Do reacionário ao judiciário

Dos governos e seus petardos

Fundos públicos e comícios

Para eles, somos bastardos

E, à revelia, sustentamos a usurpação

Até que, pisoteada, a democracia

Assumirá a conspiração

Refluíra, perdendo a inspiração,

Concedendo vigas à tirania

Até o novo encontrar outra direção

Abolindo a polaridade obscura

A ruína branca será, enfim, dissipada

Os intermináveis anos de tortura

Do pesadelo, acordaremos na madrugada

Mas em tempo, e já fora da ditadura

Conscientes dos disfarces da hegemonia

Da malandragem, dos ardis e da censura

A política descerá ao ponto de ebulição

Defenestrando mediocridades

Até que a completa mutação

Se fará ouvir pelas vielas, ruas e cidades

Uma imensa poeira será desfeita

E diálogos retornarão  sem persuasão

Destruindo o núcleo duro da cultura

Que impregnava de fervor as ideologias

Até que confessem todos os sofismas

Desvelando a falsificação do saber

Para enfim fazer ceder

O acesso do justo ao poder

Mutaçção do Poder (Estadão)

Escravos do Estado

Marcham, lado a lado

Entre slogans e partidos

Enquanto nós, feridos

Circundamos o abismo

Das jogadas e subsídios

Do reacionário ao judiciário

Dos governos e seus petardos

Fundos públicos e comícios

Para eles, somos bastardos

E, à revelia, sustentamos a usurpação

Até que, pisoteada, a democracia

Assumirá a conspiração

Refluíra, perdendo a inspiração,

Concedendo vigas à tirania

Até o novo encontrar outra direção

Abolindo a polaridade obscura

A ruína branca será, enfim, dissipada

Os intermináveis anos de tortura

Do pesadelo, acordaremos na madrugada

Mas em tempo, e já fora da ditadura

Conscientes dos disfarces da hegemonia

Da malandragem, dos ardis e da censura

A política descerá ao ponto de ebulição

Defenestrando mediocridades

Até que a completa mutação

Se fará ouvir pelas vielas, ruas e cidades

Uma imensa poeira será desfeita

E diálogos retornarão  sem persuasão

Destruindo o núcleo duro da cultura

Que impregnava de fervor as ideologias

Até que confessem todos os sofismas

Desvelando a falsificação do saber

Para enfim fazer ceder

O acesso do justo ao poder

Nenhum homem é uma ilha? (Estadão)

“No man is an island, entire of itself; every man is a piece of the continent, a part of the main;

if a clod be washed away by the sea, Europe is the less, as well as if a promontory were,

as well as if a manor of thy friends or of thine own were; any man’s death diminishes me, because

I am involved in mankind; and therefore never send to know for whom the bell tolls; it tolls for thee”

John Donne (meditation 17)

“Nenhum homem é uma ilha” diz o poema de John Donne.

Mas, às vezes, é assim que nos sentimos. Já passou do tempo. A proporção de forças díspares vem sendo discutida. O Conselho de Segurança falou, tá falado. Mas a abstração de teoremas desaparecem na extensão das coisas terrenas. Serve para Gaza, Ucrânia, França, América Latina, Rússia, Sudão, Cuba ou Taiwan. Não importa a latitude. Nada do que se passa parece razoável. Como dizer sem confessar ser parte do problema? Mas é literal: compartilhamos o mesmíssimo barco. A desproporcionalidade, a injustiça e o abandono estão na ignorância. As pessoas não odeiam País A, B ou C, elas só não sabem o significado de cada um deles. Como toda luta contra forças talhadas pela obscuridade só podemos golpear o ar. A batalha pelo ciberspace, mais plástica, mais rápida, mais mentirosa. O verdadeiro conflito protegido pelos bastidores: Qatar e Turquia Versus Egito e Arábia Saudita. A mídia desfigura reputações, e a retratação, tardia, só refaz superfícies.  É tão difícil assim entender que ser contra a guerra não significa abdicar da obrigação de se defender? Para a maioria parece que sim, trata-se portanto de uma compreensão seletiva da realidade. Ainda bem que nunca levei fé em maiorias. Mas é claro que Israel é um caso a parte: a legítima defesa criminalizada. O contexto, abortado. Para deslegitimar testemunharam-se desvios, da razão, da civilização. Na lógica dos mísseis todos os alvos se tornaram legítimos. A rotação da esfera entrou no lado escuro, sombra e escatologia. Chamem como quiserem, mas não existe choque entre civilizações. Há vácuo. Ele estacionou entre culturas. Ilhados e sem reparo à vista, ninguém ainda acordou para o fim da tolerância. Para bem além do antissemitismo, a guerra rola contra todos. O que explicaria cristãos carbonizados, budistas enforcados, xiitas mutilados e minorias esmagadas? O fetichismo do Isis? A sobrenatural leniência do ocidente? A silenciosa opressão chinesa? O fantasma de uma KGB mundial no neoczarismo de Putin? Sem muita cerimônia, tendências extremas se reagruparam no calor das oportunidades. Neonazistas respiram, separatistas picotam, jihadistas comandam, xenófofos enxotam. Não basta a complexidade da vida, agora seremos colonizados por demandas que nem escolhemos? A ideologia doutrinaria se uniu aos conservadores pragmáticos. Velhos comunistas, veteranos fascistas e ideologias de antanho entraram em acordo. E por aqui? Tanto faz sininhos, peter pans, ou o exército do capitão gancho: a violência fixou-se como linguagem. Junho negro, molotovs e partidos de ação direta. É bem provável que tenhamos que financiar campanhas e pólvora com dinheiro público. E as jurisdições não alcançam as aberrações. Mereciam condenação por burrice e infração única: colaboraram para que incríveis manifestações pacíficas dessem em nada. Nem erudição nem populismo tem respostas. Os intelectuais emudeceram na ciclotimia, alimentados com subsídios do Estado. Nenhuma fonte é mais confiável. Uma geração dividida entre subserviência e radicalismo. A critica torturada sob a positividade das convicções. A vingança virá com o centralismo partidário, revival de soviets ou golpes de Estado. Com a anomia cultivada, a censura branda vige. Nem bancos podem mais dizer o que pensam. Enfim consenso. Todos se juntam quando o alvo são as liberdades. Eleitas como o grande perigo para o projeto. Esquerda e direita se uniram num complô contra os continentes.

Já vimos o suficiente (o bias da Mídia contra Israel na cobertura dos conflitos) (Estadão)

Já vimos o suficiente, certo? Agora já podemos nos posicionar. Não restam muitas opções. Façam suas escolhas: a favor ou contra. Esqueçam as infinitas gradações. Borrem o contexto. A dicotomia simplória é só um exemplo de como o diálogo está moribundo. Mas há algo para bem além desse fenômeno. A instantaneidade das cenas são tão céleres como os julgamentos sumários. E vem contribuindo para web linchamentos, que, com alguma frequência transpiram para o mundo real. Foi o caso recente da dona de casa assassinada pela turba incendiada pelas falsas informações. Mais acesso às informações incrementa da intolerância? Não há algo errado nesta equação? A qualidade faz diferença. O que só faz aumentar a responsabilidade dos jornalistas e blogueiros. Formadores de opinião tem poder, inclusive para propagar distorções. No anonimato e sem sanções impregna-se o ciberspace com fotos falsas, conclusões  equivocadas e generalizações improváveis. Colher informações do rescaldo das redes sociais sem verificar a matriz da informação, pode ser desastroso. E qual o papel dos insufladores na atual epidemia de intolerância? O que significa dar voz para pregadores da violência? O que fazem, além de acirrar ânimos, aguçar paixões e induzir à beligerância? O que acontece nas guerras já não é suficiente?

O problema ético atualíssimo é a cobertura jornalística dos conflitos no Oriente Médio. A marcação cerrada com Israel chama a atenção. Dilemas morais e conflitos estão democraticamente distribuídos pelo mundo e não só no oriente médio. Uma guerra é sempre, lato sensu, um álibi universal. Inflando falsas polêmicas, a chancelaria do Brasil, comandada pelo PT, se posicionou ideologicamente a favor de um dos lados, um jornal abriu espaço para que um colunista pouco articulado pregasse o fim de um País e as Tvs hegemônicas impuseram a versão que mais lhes convém. Com tantos estímulos, verificou-se significativo aumento de ataques antissemitas pelo mundo, e, por aqui, uma inédita hostilidade contra a comunidade judaica. Cabe um paralelo com a violência no Brasil (mais de 50.000 mortos em 2013) onde, numa incrível inversão, há mais preocupação com os criminosos, do que com aqueles que sofrem com suas ações, vale dizer os cidadãos. Como se os primeiros fossem assunto do Estado e os demais, ora, os demais que se virem. Quando um absurdo destes é naturalizado, a tendência é que seja incorporado pela opinião pública. Tudo isso cabe na agenda do marxismo reacionário que adotou, nos termos de Fareed Zacharia, a democracia iliberal.

Se há excesso de um exército, que se denuncie esse excesso. Mas o que fazer quando quem ataca não pode ser convertido ao processo dialógico?  Nas palavras de um conhecido pacifista, o escritor israelense Amos Óz, o que você faria se seu vizinho disparasse uma metralhadora contra você e sua família, segurando um bebe no colo? Fujo da angústia e, a cada foguete, preciso me esconder. Eu me envergonho. Mas não pelo direito que um País têm de legitimamente defender sua população, e sim pela absoluta falta de criatividade de quem dirige as populações, a ONU, a diplomacia internacional. Faltam Estadistas, porém o déficit é, sobretudo, de imaginação. Existem sinais de que ela pode ter entrado em recesso.

É difícil aceitar que ninguém tenha desenvolvido uma tecnologia de paz. Um vale do silício do armistício. Uma startup da solução negociada. Ao mesmo tempo, não queremos morrer. Queremos ser equânimes. Nossos cérebros reptilianos nos convencem que se alguém deve sobreviver, somos nós. Não é decisão, ponderação moral ou tirocínio. Segundo o epistemólogo Georges Canguilhén, para os suicidas, tirar a própria vida é um recurso cujo objetivo seria reduzir a tensão à zero. É um equivoco sem volta pois, junto com a tensão, sacrificam a vida. Nós, os conformados, afundamos as cabeças nos travesseiros. Dormimos até que o sangue estanque. Para surpresa de muitos o antissionismo se fundiu ao antissemitismo e está bem mais vivo do que supunha nossa vã paranoia. Pela anômala repetição histórica dos surtos de judeofobia na história, somos obrigados a indagar: estamos diante de um problema de origem transcendental? O judeu, agora cidadão do mundo como outro qualquer, é culpado por não ser mais o bode indefeso preferencial a ser expiado? Talvez não seja nada disso. Quando o mundo, de tempos em tempos, submerge em tensão, os disfarces caem por terra, e os preconceitos, libertados, vingam-se da civilização. Não foi preciso muito esforço. Nunca foram necessários grandes pretextos para condenar Israel e judeus. Hoje há algo bem mais assustador: o entrondoso silêncio da maioria.