Ponha-se no lugar do outro (Estadão)
13 sábado abr 2019
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Paulo Rosenbaum
11 Outubro 2016 | 15h38
Alguns professores e articulistas vem afirmando que identificaram uma luta perturbadora e obscurantista contra o intelectualismo. Na verdade, como todo campo especulativo pode ser apenas mais um diagnóstico precipitado. A crescente objeção pode ser contra a abundância de intelectuais que abusam da inteligência das audiências. Que generalizam o irrepetível. Que asseguram que detém a fórmula. Que vislumbram o que sequer imaginam. Que enquadram o que não pode ser classificado. Que tomam hipóteses por teses comprovadas. Que asseguram a instabilidade e desestabilizam o que tranquilizaria. Como confiar em distorções prudentes? Como aceitar posturas peremptórias onde deveria prevalecer o esforço para contornar os dogmas? Caberia exatamente aos intelectuais que se tomam por notáveis exceções do senso comum — pois supostamente pensariam melhor que a média — assumir seus equívocos antes mesmo que estes tivessem sido exibidos de forma humilhante em praça pública. Mas, antes, muitos consideram demais fazer concessões à realidade. Imaginam que a coerência tem um valor unívoco, muito maior do que toda autocritica. E, assim, o erro erudito, que era apenas uma hipótese científica falseável se transforma em mito. Dai ao slogan repetitivo é só mais um deslize justificacionista.
Isso é um intelectual?
Nosso atual status de ausência de diálogo significa que, para desarticular a progressiva indignação do senso comum com os excessos dos intelectuais — sem mergulhar no mérito de justificativas políticas ou da devoção ideológica — acusa-se toda a plateia de não ter entendido corretamente o papel do pensador na sociedade. Mas essa aversão nada mais é do que o arrastado resultado de uma distorção ainda mais longa. O papel do pensador é para além de analista social, um crítico do poder e de seus protagonistas. O que ocorreu na última década no Brasil, quiçá no mundo, é que uma parcela significativa da elite universitária passou a defender consensos costurados num endogenismo quase tribalista. Em geral à revelia do meio e da população. Mais do que defesa da causa pregava-se um gênero específico de agenda política que passava a ser corroborada por contaminação. A disciplina foi cooptada, professa-se liturgias, não aulas. O sistema de notação se transformou em uma tragédia pois reforça o erro. E a filiação intelectual uma herança de sangue onde o leigo deve engolir o que o mestre disse. Isso é, aceitava-se que aquilo que parecia consenso era de fato o resultado de um grande acordo. O acordo que o mundo inteligente e bem pensante concebeu para todos os mortais. Não lhes ocorreu que nenhuma teoria tem um átimo da consistência da realidade. Nada mais distante do mundo empírico do que a persistência da especulação baseada em ideias multiabrangentes. E esta pan-agenda foi expandida de tal forma que passou a demandar engajamentos cada vez mais alinhados. O resultado previsível é que o compromisso determinou o obscurecimento progressivo do sentido analítico destes agentes. Não se tratava mais de pesquisa e análise mas de vulgarizar sínteses construídas por sectarismos engajados. Será ainda preciso ir muito adiante para perceber o fracasso que estas diretrizes legaram à educação e à sociedade. Será preciso purificar — esta é a palavra com todo seu peso filológico — as cátedras dos vícios doutrinários. O estrago produzido por tal estágio de encarceramento mental não é mais monopólio de progressistas ou de conservadores. Ainda que a esquerda tenha obtido êxito em sua semi hegemonia, a tentação abusiva é a mesma do outro lado. O perfil para ditar muito similar. Este protagonismo sacrificou ao momento não só as ideias como o próprio papel de quem precisa repensar o processo da história que nos fez herdar este impensável instante da República.
Os intelectuais deveriam, antes de lamentar, apreciar a desconfiança que inspiraram. A decência os obrigaria a uma retratação. A honra e a honestidade à uma revisão completa. Não é realista, poucos o farão. Estão demasiadamente preocupados com a imagem pública para a plateia. E aflitos com o rótulo da capa. Ainda não notaram que o espelho, quando descasca, reflete apenas fuligem.
13 sábado abr 2019
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Paulo Rosenbaum
18 Outubro 2016 | 22h41
Atualidade de Hipócrates (460 a.c. – 370 a.c.): Medicina que convém a cada um
A obra de Hipócrates é vasta e a autoria dos textos polêmica. Entretanto, superando-se a questão da autenticidade autoral, o conjunto de obras deixado pelo fundador da técnica médica – disponibilizados aqui em 10 volumes –, permanece indelével e surpreendentemente atual. Segundo o autor Charles Lichtenthaeler, “a história da medicina poderia ser resumida como retornos sucessivos a Hipócrates”. De fato, se pensarmos no conhecimento (e revalorização) do saber empírico, na capacidade observacional e na sistematização adquirida para narrar o que pode ser constatado a partir das evidências clínicas produzidas ou testemunhadas, esta afirmação ganha ainda mais consistência. O “retorno sucessivo a Hipócrates” não se dá por nostalgia de reviver suas obras, mas porque ele resume o “fazer” da arte médica. É isso que torna esta coleção única e justifica seu enquadramento no seleto grupo dos clássicos.
Embora pouco se saiba da vida do contemporâneo de Sócrates e Demócrito – as informações vieram de Platão e dos eruditos alexandrinos do século iii – há consenso que Hipócrates fundou a era técnica em medicina. Como? Através da invenção da história clínica. A coleção deste autor, conhecida como corpus hipocrático foi ampliada por seus seguidores da escola de Cós – que pautavam suas – contemporâneos e sucessivos compiladores, além de gerações de comentaristas posteriores. Hoje, a maioria dos historiadores da medicina admite que, dentre todos os textos, aqueles que mais sintetizam seu saber e aplicatio, são essas pequenas sentenças, os aforismos, palavra de origem grega cuja etimologia significa “delimitação” ou “distinção”, “separação”. Os aforismos médicos tornaram-se populares entre médicos e pupilos justamente pela forma prática e acessível que este tipo de disposição de texto era capaz de fornecer. Pode-se dizer que todo o corpus hipocrático encontra um perfeito abstract precisamente nestas sentenças. Ainda que o conjunto de obras hipocrático seja uma das coleções mais conhecidas da história da medicina, os leitores e pesquisadores precisam compreender que jamais se tratou de um patrimônio exclusivo da medicina. Na verdade, foi a partir do poder empírico e suas aplicações práticas que gerações de escritores, poetas, cientistas, filósofos e até estadistas foram influenciados por suas deduções, especulações e experiências.
Alguns se tornaram mais conhecidos e populares: “as pessoas constitucionalmente obesas estão muito mais sujeitas à morte súbita do que as magras” (segunda seção, 44); “os doentes com tétano morrem em quatro dias; se ultrapassam o quarto dia, curam-se” (quinta seção, 6); ou, ainda, “as feridas em torno das quais caem os pelos são de mau caráter” (sexta seção, 4). E assim, passaram à cultura. O médico medieval hebreu Moisés Ben Maimon, ou Maimônides, afirma ter testemunhado que, desde a infância, muitos tinham o hábito de decorar trechos dos aforismos hipocráticos nas escolas e confirma que “muitos são memorizados mesmo por quem não pratica a medicina”. Esta conquista e esta difusão científica só acontecem quando um livro encontra ressonância e gera efeitos. O nome e a obra de Hipócrates continuam, portanto, estritamente ligados ao desenvolvimento seminal da filosofia como ética e práxis médica. É o caso, por exemplo, dos volumes que abordam a dieta e a nutrição, a importância da anamnese e exame corporal, a ideia da perturbação fisiológica como propulsora da enfermidade, da analogia entre a natureza e o sujeito e dos limites e alcance ético da arte de curar. Particularmente importante é a hodierna correlação entre o habitat e as e maneiras de adoecer e recuperar a saúde. Mais contemporânea ainda é sua recomendação de individualizar a abordagem clinica: é o que convém que deve ser feito.
Distanciando-nos dos aspectos reverencial e mítico que a personalidade daquele médico grego ainda conserva em nossos dias – e de um possível viés laudatório deles decorrentes – não podemos deixar de insistir na surpreendente e inusitada contemporaneidade da sabedoria hipocrática. Em muitas das seções, a leitura atenta revela uma acurácia descritiva, prognóstica e, por vezes, terapêutica (que as vezes colocava ele mesmo em dúvida), esta última, ainda hoje, reconhecida. É esse pertencimento que perdura sobre uma suposta “desatualização” cronológica de uma obra que vem de tão longe.
Isso também não significa que seus escritos devam readquirir – como já tiveram – aura oracular e dogmática Como concluiu o médico e pesquisador Pedro Laín Entralgo, se a capacidade prognóstica e semiológica da escola de Cós era espantosa, sua terapêutica era pobre e contava com escassos recursos. Por fim, deixemos um trecho que desvela a filosofia médica de sua escola: “A vida é curta, a arte é longa, a ocasião fugidia, a experiência enganosa, o julgamento difícil. O médico deve fazer não apenas o que é conveniente para o doente, mas também com que o próprio doente, os assistentes, e as circunstâncias exteriores concorram para isso.” (Aforismo I). Definitivamente, devemos um retorno a Hipócrates.
Obs- Exte texto foi a base para a minha apresentação das Obras Completas de Hipócrates na Biblioteca Brasiliana Mindlin – Com as obras completas de Hipócrates (tradução do grego de E. Littrée) disponíveis para consulta e download gratuito no site da USP.
13 sábado abr 2019
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Paulo Rosenbaum
27 Outubro 2016 | 10h44
A devastação, política ou não, tem um sentido inalcançável. Uma direção incoesa e errática. Não se sabe se as terras foram arrasadas por desejo ou exaustão, sonho ou perversão. Te disseram que sumiríamos nos desvios? Que o convés seria esvaziado e estaria livres de motins? Escuta, estas aglomerações de sujeitos que julgavas mortas ou desativadas contem vida. Homens e mulheres cuja potência foi impedida de virar ato. Como? Não se sente responsável? Sabem senhores para qualquer ação pública ou privada, é essencial aprender a noção de falha? Alguma ideia dos malefícios? Qualquer perspectiva de nos dirigir uma palavra com a expressão constrita?
Perfeitamente. Vossa aflição nunca foi a nossa. Não parece. O conjunto das pessoas comuns nunca esteve com a Violência do Poder. Estava do lado que elege. Não foi preciso compreender?
Senhor, vosso poder embarcou no intangível. E como se sabe a violação carrega suas consequências. Os senhores fizeram a fusao dos poderes a frio, não será fácil separa-los na chapa quente. Se será um drama ? Estamos somente no seu inicio. Chefete, joguete, topete são rimas previsíveis. Já o Vosso público não é mais vosso mas também não e mais de ninguém.
Cansaram de migrar famintos por lideres. Estão agora absorvidos por necessidades incompreensíveis , pelo poder como sobrevivência e resgate de qualquer horizonte. Curioso que foi um horizonte assim que foi recentemente cooptado. O Senhor não o viu? Pois é, nem outros milhões. Não senhores, os passageiros sao vocês. Aqueles que negam o desejo de uma dignidade mínima.
Se estamos em uma democracia?. Depende. Enxerga-se o alcance da tragédia ? As agruras do sofrimento individual? A sonolência do legislador diante do frenesi? E a peste? Não é dessa peste que falamos senhor. Esta é o resultado de milhões de conversões infundadas. Esta esta se decantando — como habitualmente — fora de sua capacidade de apreensão. São as famílias em apuros. As pessoas que nem chegaram a ser adultos, mas perderam precocemente a jovialidade. Esqueceram o sentido do valor do que fazer. Se vocês são culpados por tudo? Decerto não e ate mesmo o imperdoável costuma proscrever. O demérito está na reincidência, na vossa convicta e reiterada fama de impassíveis.
Como fica a causa? Oh Senhor, nunca houve. Noite a Noite os sonhos se refazem na imaginação dos sujeitos. E o Estado deve apenas obedece-los. A causa Senhor não está em seu posto. Nem sua função é intocável nem sua emulação de nobreza convence.
Se seus dias terminarem da forma mais melancólica concebida não nos acorde. Hoje merecemos dormir o sono dos que esperaram a justiça e está em nossos planos acordar na orla de uma praia que Vossa Excelência nunca poderá compreender: a da consciência em modo tranquilidade.
13 sábado abr 2019
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De Onde vem as lágrimas?
O maniqueísmo é uma foice bi articulada, sua evocação serve de álibi para acusação e defesa. Ao mesmo tempo, um neutralismo relativista assume uma outra versão dos fatos. E, do lado purista, a tendência é preservar o manipulador, dando-lhe o titulo da dúvida ou de herói honorário. Demolir o ditador cubano pode não ser a melhor resposta, mas todo adulto com a capacidade cognitiva razoavelmente preservada deve poder compreender o que significa controlar o poder ininterruptamente por tanto tempo. Uma saga nepótica de mais de 60 anos. Todo acobertamento do preço a se pagar é fruto dessa ingenuidade programática, a omissão calculada, o viés disfarçado de causa justa, ou a simples pitada de falta de escrúpulo intelectual. A essência desse marketing é o culto à personalidade que apresenta tiranos como libertadores.
À versão de que o ditador proveu seus discípulos com educação saúde e cultura — se verossímil decerto muito aquém da propaganda enganosa — serve como escusa universal para um regime que funciona na base do slogan: “Oprime, mas faz”. E quem haveria de se importar se ele é tirânico? É uma espécie de autocracia baseada em evidências. Falsas. Isso significa que o método não importa, o resultado, muito bem controlado, é o que vale.
O detalhe incomodo é que um Estado todo provedor e seus apoiadores não se importam muito com os efeitos colaterais de sangue, privação de liberdade e violência institucionalizada contra os inimigos políticos. Também não é grande coisa que, para alcançar a igualdade, um considerável escape se propague e que a elite governante obtenha a justa regalia.
Mas o que mais surpreende nas lágrimas derramadas pelo ditador é sua trajetória seletiva. Ela vai dos olhos secos, às fendas imaginarias que se cegam à prisão dos dissonantes, deportação de dissidentes (alguém se lembra dos pugilistas cubanos devolvidos?) , dos séquitos prontos para agir como informantes. A lágrima também revela as cristalizações dogmáticas que reduzem argumentos às convicções preexistentes.
Todas as lágrimas contem mais ou menos o mesmo teor. Suponha que as suas lágrimas apareceram pelo ditador morto enquanto as minhas saíram para suas vítimas. Lágrimas compartilham da mesma composição, percorrem as mesmas trajetórias, idênticas pois. Talvez nossas plataformas afetivas sejam outras, ou nossas lentes de mundo tenham sofrido polimentos assimétricos. Só posso dizer que, em comum, temos que sofremos ao mesmo tempo, mas nunca estivemos juntos.
O que nos reparte não são mais nossos sentimentos, mas de onde emergem.
13 sábado abr 2019
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Ao ler as manchetes, o dia parecia sombrio. Há sinistros por todos os lados. O de sempre, reações desproporcionais, complos e alibis. A união de arbirarios. O acordo dos mandatários. Povos sem democracia. Califados refeitos com tiranos eleitos. Sob o terror protegido pelo pudor. A inação que favorece o atropelador. A extensa rede de apoio ao lobo avulso municiado. A perversao da linguagem que justifica o agressor.
Na subida da serra, outro aviso de perigo. Poderia ser apenas mais uma placa. Cuja direção mudava conforme o vento. Foi quando percebeu: amanhecer não é tarefa que se escolha. O esperado é sucumbir à avalanche de infortúnios. É aceitar a inoperância. Avalizar o sacrifício alheio de muitos em beneficio da ideologia privada dos bem pensantes. Mas eis ue foram os homens que fundaram todas as alcateias. Armaram todas as minas, fundiram todo plutonio. O acaso? Ja obteve seu habeas corpus.
A neblina cedeu e foi possivel ver um pouco mais adiante. Diante da natureza, estamos sós. Nela, a estranha virtude do estoicismo é constitutiva. O dia surge alheio às vontades individuais, e a criação se reorganiza com espantosa autossuficiência. Nossa dependência do surgimento é orgânica. Eis uma neblina que esclarece. Que faz nascer. Estivemos sempre aqui. Muito antes da evolução tínhamos percebido as marés, as correntes retrógradas, os maremotos sincréticos, as ilhas vulcânicas. O caos é só um mar reverso de ocasião. E haverá o teto de passagem que é nosso céu. Pensanos, apenas pensamos emprestar voz ao destino.
Mas a alçada é mais ampla, a rota indecisa, o sono irregular, o final tardio. Somos uma consciência sem vigilia. Uma singularidade divisa. O limite entre terra e areia. Estamos na locução das praias. No curto gemido dos pássaros. Enquanto o sol nasce, descemos como nunca, ao primeiro dos dias. Ao nunca visto. A primeira rajada. No mármore dourado do nascente gravando os caules. Visitamos as palmeiras e os salgueiros.
Para dizer: espaço.
Nosso canteiro fica bem aqui. O regaço de uma cultura. Arqueólogos honorários a preservarão . Hoje é um dia primo para resistir às desistências. Para reafirmar a identidade frente aos que pensam ceifa-la. Seja lá qual for a tradição, hoje, a tradução será livre.
Livre-se da imposição, do convencimento, da persuasão. Livre-se daqueles que dizem ter o monopólio da liberdade. Livre-se de quem te assombra pela angústia. Fuja da redoma de enredos pré montados. Uma festa com luzes não se apaga com discursos. Nao faz renascer com apologias. Não se acende com desconfiança. Uma festa de luzes se faz com pessoas e aproximações. É uma estética da paz. Mas não de qualquer paz. Muito menos daquelas que entenderam o que ela significa e, por isso mesmo, a sabotam. Da paz que subverte a omissão e a perseguição. Da paz que tem a coragem de dizer não às nações que se unem para condenar outras ao isolamento, enquanto estas mesmas nações se calam frente às evidencias de injustiças e massacres. A paz é a pré condição unica de terras para todos. Ainda assim, neste trecho não sujeito à neblina, já ê permitido desejar: feliz dia da sua tradição.
13 sábado abr 2019
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Viramos o ano do avesso, e o que procurávamos mesmo? O senso comum fala em sucesso. Os jornais lamentam as previsões fracassadas. A vida institucional não está dizendo coisa com coisa. Foi então que resolvi sacudir a caixa deste ano para ver o que ele continha. Não vi pós verdade. Não saiu nenhuma campanha de desinformação que já não estivesse na grande pauta da pequena mídia. A carta foi marcada, atenção, agora é questão de tempo. Estar alerta e cuidar para que o engano não se promova é a única das coisas essenciais. Reserve ao silêncio e à solidão a oportunidade que você não deu ao diálogo que nunca existiu. Se te disserem: “você não foi suficientemente generoso” recuse imediatamente. Pode ser blefe. Mas para minha surpresa — e para meu desarme — daquele saco amorfo, cheio de potenciais más novas, saiu um bilhete. Um só. Na verdade, uma pequena carta de reconhecimento. Um elogio por um favor. Sim, porque serviços prestados, normalmente remunerados, tem valor definido. Oferta e procura. Leis do mercado e coisa e tal. Neste caso não. Houve esforço, mas não era para tanto. Era uma pessoa falando de amizade e gratidão numa interpretação muito pessoal:
“Prezado, queria agradecer seus cuidados. Suas doações metafísicas, culturais e psicológicas me ajudaram. Ajudaram em aspectos que normalmente a ajuda não cabe. Digo, o cuidar é um verbo, mas ser cuidado está para além do substantivo, mostra uma amizade difícil de qualificar. Bem, isso não importa agora. Sei que nem sempre, vale dizer, quase nunca, esta dimensão é reconhecida. A dedicação ao outro é ofício árduo, e eu me pergunto se isso pode ser mesmo ser ensinado. Acredito que sim. Fora dos muros da faculdade? Fora dos ambientes formais? Fora da vida corporativa? Talvez até fora da família? Ao receber sua amizade entendi que boas maneiras e gentilezas não bastam. Promessas vagas e compromisso futuro são insuficientes. Os amigos que duram são os que não precisamos jurar amizade. Mas vejo que nossa índole material precisa dos objetos. Para contemplar, para lembrar ou para respirar. Por mais que tentemos, somos feitos de areia comum, fomos modelados em praias coletivas e nosso destino final é um e o mesmo. Na vida, poucas vezes se tem a oportunidade de agradecer. Agradecer quem te conquistou por respeito, não pela simpatia. Quem soube não te deixar deslizar ao abismo, ainda que para isso, tenha te apontado para ele, feito advertências duras e te colocado de volta à vida sem te iludir ou te seduzir com falsos diálogos. Sim eles podem ser falsos, eu sei bem disso. Nestes casos, o silêncio pode ser mais salutar. Pois é amigo, posso me referir assim a sua pessoa, não?, eu hoje só queria passar para te dar esta pequena carta e te dizer, grato por compreender o que eu cheguei a imaginar como saída. Você me ajudou a ver como pode ser fácil o engano e como o julgamento é penoso, mas vital para enxergar. Que há mais de um caminho. Que talvez para as perguntas que realmente importam não há resposta. Isso é, podem haver várias, mas nada conclusivo. Olhe, até para ser coerente (e a essa altura quem ainda precisa disso?) não vou te prometer retribuição alguma, fica aqui um abraço e a sensação de que me entregar aos seus cuidados bastou pelo ano. É isso, um ano que foi suficiente. Suficiente para poder andar até o próximo. Sinceramente, seu.”
Ás vezes, a calada solicitude é a forma mais sofisticada de amizade. Ninguém a reconhece, pois ela é propositalmente oculta pela discreta benevolência, como deve ser. Pois quando revirar este ano ou qualquer ano, não procure presentes ou notícias, tente achar bilhetes. Eles podem ter a densidade do inesperado. A perplexidade pode ser uma sensação agradável, mas, talvez, para recebe-la na integra, esvazie-se de tudo especialmente das expectativas. Suas perspectivas agradecem.
13 sábado abr 2019
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Não te disseram? Que havia mais de um ponto de fusão? Que a ebulição poderia ser adiada? Que há um estado que não é intermediário? Que tempos líquidos são outros? Aqueles que ainda não chegaram? Estamos juntos. Juntos, mas perdidos, entre um e outro mar. Mares que não fecham, que não criam, que apenas vivem, e, por isso, afastam as estações, arrastando invernos. Mares que não pensam, nem tomam desprezo como questão pessoal. Estamos sós neste fragmentado pátio de manobras. Como pianos sem cauda, melodias sem contrastes. Se há uma causa? Nossos destinos incertos desacertando as veias, o descompasso das margens, as beiradas. Hoje, navegamos pelo mesmo canal, tive a alegria da incerteza.
Foi quando acordei para o gondoleiro soando a voz:
“Oiiiiiiii”- Oiiiiii”
Era esse o aviso, ele vinha. Aqui, ou em Veneza, canais sobem e descem, nunca esvaziam. Canais mudam de sentido a cada instante. Em suas esquinas, colisões seriam certas e inevitáveis. Com as casas submersas ratos precisaram adaptar o instinto, nós, ainda roemos por vingança. Quando a sublimação perdeu-se na imprecisão e pulou o estado liquido, nossos olhos não puderam mais conversar. Você foi embora antes que eu pudesse te mostrar a instabilidade das águas, a sonoridade dos remos, a vacância da luz, as ondas insistentes, o deslocamento dos pontos fixos, a luz férrea dos cabelos, a qualidade dos vinhos e o ar suspenso.
Você sumiu antes que eu pudesse dizer uma palavra sobre o instável ponto da sublimação. Antes que eu pudesse retornar para jurar que há um valor sequer mencionado. Estamos diante do por do sol único, o por do sol da lua. Apenas ontem os cientistas confirmaram a autonomia do satélite. Só uns poucos desconfiavam: a Lua jamais fez parte da Terra. Se você tivesse ficado eu teria te mostrado como o mínimo contrapeso faz oscilar, como só os lábios alcançam o balanço. Não pense que não compreendo. Entendido: seu olhar despede-se a cada manhã. Sem que eu escape do instante, sem que eu te olhe a sós. Por que tuas mãos sempre apontavam para cima? Devo esperar o céu inteiro ou fazer descer teu palácio? Encomendar as cadeiras para tua dança ou molda-las ao teu convívio? Não sei se consigo enxergar tempos líquidos. Se o sociólogo compreendeu a generalização, o poeta escolheu exaltar o próprio de cada relação.
Não sei, nunca soube, devemos aceitar os sentidos comuns? Se a história é inconcebível, o que de especial dela escaparia? Qual a graça se o padronizado vencesse? Ou se vigorasse a rotina do cronometro? Ou o triunfo da constância? Nenhum autor convence. Por isso, doei um sopro ao vaporetto que me embalava pelo canal. Não é para provocar. É que só hoje senti: Veneza é um múltiplo distribuído pelo mundo. O mediterrâneo inteiro te deixaria surpresa, mas estar aqui muda tudo. Foi por isso, só por isso, que te deixei partir. Enxerguei em tua liberdade a chance de amar. E hoje, que todos os jornais assinam com tintas distantes, que as tipografias ameaçam parar, que os livros impressos narram o refluxo, e que o espirito parece se comportar com a extravagancia das certezas, justo hoje, voltei para reafirmar: estamos vivos num outro presente. O vapor que você acaba de inalar é essa certeza. Só conto com ele para te prometer que, sem nada sólido à vista, renegaremos também o transitório.
Voto em transformar toda efeméride em ofício sagrado, e o presente, a sublime prova de nossa permanência.
13 sábado abr 2019
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≈ Comentários desativados em A Mentalidade Preventivista (Estadão)
A Mentalidade Preventivista
Era para ser um texto em homenagem ao aniversário desta cidade. Não deu. Pois lá se vão quatro anos do incêndio da boate e a tarda justiça ainda continua fazendo vítimas em série. Em homenagem às famílias, aos que não podem mais se defender da inépcia do Estado e para que — em algum futuro tremendamente remoto — tragédias anunciadas, disfarçadas de fatalidade, não voltem a ocorrer republico no blog, excepcionalmente, o texto “A Dor merece nosso Constrangimento”. Decerto que o imponderável, o imprognosticável, a incerteza e o absurdo são tanto perturbadores, como onipresentes na condição humana. Porém, isso não tem nada a ver com pane seca, falta de extintores, erros de cálculos em pontes e viadutos, falha na inteligência, justiça leniente, leis anacrônicas, cárceres inimagináveis, descaso com áreas de risco, e, finalmente, déficit de vigilância para cuidar que as instituições não sejam escravas das corporações.
Que a mentalidade preventivista se infiltre em quem governa. E, se não, — que as consequências desta falta crônica desabem sobre os omissos, mostrando que quem quer gozar do Poder, quem precisa do Poder, quem está obcecado por ele, tem a obrigação, moral ou criminal, pouco importa, de planejar e, sobretudo, a responsabilidade de antecipar acontecimentos.
A dor merece nosso constrangimento
Devo estar cultivando a insensibilidade, já que não me comoveu o choro nem a circunspeção dos políticos nos funerais. Além disso, temos que suportar o horroroso espetáculo dos apresentadores explorando a biografia das vítimas ou especialistas explicando como os alvéolos são destroçados pela inalação de fumaça. Nesse campo de batalha, só cabem urros, uivos, ritos de contrição. A dor merece nosso constrangimento.
São poucas ou muitas as palavras que podem descrever acuradamente o absurdo. Absurdo é pouco, estultilóquio, limitado, dislate, distante. Precisava de um vocábulo sem precedentes. Pois “galimatias” revela um glossário analógico apropriado para o desastre gaúcho: um acervo de heresias e incoerências disparatadas, coxia de desconchavos, parvoíce chapada, um amontoado de cacaborradas, aranzel, inépcia, chocarrice. Para contornar registros menos recomendáveis ao grande público, cada um deles pode indicar o repertório que se passa pelas nossas cabeças quando tragédias completamente evitáveis parecem inevitáveis.
A falta de decência não é só fazer as coisas sem pensar que outros podem se ferir ou sair lesados. Paira no ar um senso de desproporção, tocado pelo culto ao único mito invicto de nossa era: grana.
Há uma máxima que deveria vir instantaneamente à cabeça de qualquer um: “Tratarei todo filho como se fosse meu”. Passa longe do sentimento predominante. Que dizer dos donos do lugar e dos homens da segurança? Inicialmente, sem perceber a eminente tragédia, impediram pessoas de sair do inferno. Quais as regras a serem seguidas e quais merecem desobediência civil já?
Não sei quantos mais poderiam ter sido salvos da asfixia, da carbonização. Uma vida poupada teria feito toda diferença. Mas havia a barreira do execrável pedágio, a pirotecnia fora de lugar, o entupimento das salas, as formigas espremidas na armadilha.
Não vem ao caso apontar para a banda ou para os proprietários como alvos óbvios de punição e responsabilização criminal. Já que pais e mães tiveram seus futuros cassados, e as vítimas ardem na sombra, seria preferível acompanhar o que o poder público tem a dizer.
Em geral, fiscais são bons burocratas e, raramente, têm consciência de seu papel vital na prevenção dos desastres. Prevenção, lugar-comum, baixa visibilidade, antipopular, mas a única palavra-chave para não termos que ouvir a esfarrapada desculpa “fatalidade”. Isso não é um se, está acontecendo agora. Nas enchentes, na calamidade absoluta que é a segurança pública do país, na incapacidade organizacional para gerir o dia a dia das cidades. A verdade é que, se ainda vivemos ilesos, é por sorte e apesar do Estado. E não se trata de apontar para um único partido. Todos comungam deste mínimo múltiplo comum, a incapacidade de enxergar que toda matéria política caberia numa sentença: governo é para o povo. Submergidos no populismo ignorante, cosmético e estelionatário, quanto dinheiro ainda será arrecadado nas miríades de impostos pagos para fiscalizar e manter as bocas de lobo, as escolas, o passeio publico, a segurança, a defesa civil? E como isso será gasto? Não sabemos e ninguém sabe.
Mark Twain escreveu: “O governo é meramente um servo, meramente um servo temporário: não pode ser sua prerrogativa determinar o que está certo e o que está errado, e decidir quem é um patriota e quem não é. Sua função é obedecer a ordens, não originá-las”.
Só quando os administradores forem imputáveis e sentirem nos bolsos e na privação de liberdade que, se falharem em prevenir o prevenivel sofrerão consequências pesadas, talvez tenham mudanças efetivas no dislate que é o planejamento público no Brasil. Só quando a opinião pública exigir que as apurações não se limitem a dois ou três bodes expiatórios, mas, a quem, de fato, permitiu a vigência do absurdo. Talvez ai, calçados na educação solidária, o respeito aos cidadãos conquistará status de lei.
Na hora dos massacres, a solidariedade autêntica vem das pessoas desvinculadas do poder. Emerge pura da nossa emoção, premida pelo nada, esvaziada de sentido, e lapidada pela voz rouca do abandono. Um sobrevivente do incêndio descreveu “Vi o monte de corpos empilhados uns em cima dos outros, como os judeus no Holocausto”. Ainda que o cenário justifique a analogia, a outra semelhança é a gratuidade com que essas vidas foram incineradas.
Todos nós, civilizados desde o berço, podemos enxergar tragédias como inerentes à condição humana. Rachaduras na placa continental, asteroides, furacões e terremotos são eventos inevitáveis, às vezes inexoráveis. Crematórios, não. A dor merece nosso constrangimento, assim ao menos sofreremos todos juntos. Não entendo bem por que, mas parece que precisamos nos derreter para nos unirem.
Paulo Rosenbaum é médico e escritor. É autor de “A Verdade Lançada ao Solo” (Ed. Record) e “Céu Subterrâneo” (Ed. Perspectiva)
paulorosenbaum.wordpress
http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/a-mentalidade-preventivista/
13 sábado abr 2019
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A Mentalidade Preventivista
Era para ser um texto em homenagem ao aniversário desta cidade. Não deu. Pois lá se vão quatro anos do incêndio da boate e a tarda justiça ainda continua fazendo vítimas em série. Em homenagem às famílias, aos que não podem mais se defender da inépcia do Estado e para que — em algum futuro tremendamente remoto — tragédias anunciadas, disfarçadas de fatalidade, não voltem a ocorrer republico no blog, excepcionalmente, o texto “A Dor merece nosso Constrangimento”. Decerto que o imponderável, o imprognosticável, a incerteza e o absurdo são tanto perturbadores, como onipresentes na condição humana. Porém, isso não tem nada a ver com pane seca, falta de extintores, erros de cálculos em pontes e viadutos, falha na inteligência, justiça leniente, leis anacrônicas, cárceres inimagináveis, descaso com áreas de risco, e, finalmente, déficit de vigilância para cuidar que as instituições não sejam escravas das corporações.
Que a mentalidade preventivista se infiltre em quem governa. E, se não, — que as consequências desta falta crônica desabem sobre os omissos, mostrando que quem quer gozar do Poder, quem precisa do Poder, quem está obcecado por ele, tem a obrigação, moral ou criminal, pouco importa, de planejar e, sobretudo, a responsabilidade de antecipar acontecimentos.
A dor merece nosso constrangimento
Devo estar cultivando a insensibilidade, já que não me comoveu o choro nem a circunspeção dos políticos nos funerais. Além disso, temos que suportar o horroroso espetáculo dos apresentadores explorando a biografia das vítimas ou especialistas explicando como os alvéolos são destroçados pela inalação de fumaça. Nesse campo de batalha, só cabem urros, uivos, ritos de contrição. A dor merece nosso constrangimento.
São poucas ou muitas as palavras que podem descrever acuradamente o absurdo. Absurdo é pouco, estultilóquio, limitado, dislate, distante. Precisava de um vocábulo sem precedentes. Pois “galimatias” revela um glossário analógico apropriado para o desastre gaúcho: um acervo de heresias e incoerências disparatadas, coxia de desconchavos, parvoíce chapada, um amontoado de cacaborradas, aranzel, inépcia, chocarrice. Para contornar registros menos recomendáveis ao grande público, cada um deles pode indicar o repertório que se passa pelas nossas cabeças quando tragédias completamente evitáveis parecem inevitáveis.
A falta de decência não é só fazer as coisas sem pensar que outros podem se ferir ou sair lesados. Paira no ar um senso de desproporção, tocado pelo culto ao único mito invicto de nossa era: grana.
Há uma máxima que deveria vir instantaneamente à cabeça de qualquer um: “Tratarei todo filho como se fosse meu”. Passa longe do sentimento predominante. Que dizer dos donos do lugar e dos homens da segurança? Inicialmente, sem perceber a eminente tragédia, impediram pessoas de sair do inferno. Quais as regras a serem seguidas e quais merecem desobediência civil já?
Não sei quantos mais poderiam ter sido salvos da asfixia, da carbonização. Uma vida poupada teria feito toda diferença. Mas havia a barreira do execrável pedágio, a pirotecnia fora de lugar, o entupimento das salas, as formigas espremidas na armadilha.
Não vem ao caso apontar para a banda ou para os proprietários como alvos óbvios de punição e responsabilização criminal. Já que pais e mães tiveram seus futuros cassados, e as vítimas ardem na sombra, seria preferível acompanhar o que o poder público tem a dizer.
Em geral, fiscais são bons burocratas e, raramente, têm consciência de seu papel vital na prevenção dos desastres. Prevenção, lugar-comum, baixa visibilidade, antipopular, mas a única palavra-chave para não termos que ouvir a esfarrapada desculpa “fatalidade”. Isso não é um se, está acontecendo agora. Nas enchentes, na calamidade absoluta que é a segurança pública do país, na incapacidade organizacional para gerir o dia a dia das cidades. A verdade é que, se ainda vivemos ilesos, é por sorte e apesar do Estado. E não se trata de apontar para um único partido. Todos comungam deste mínimo múltiplo comum, a incapacidade de enxergar que toda matéria política caberia numa sentença: governo é para o povo. Submergidos no populismo ignorante, cosmético e estelionatário, quanto dinheiro ainda será arrecadado nas miríades de impostos pagos para fiscalizar e manter as bocas de lobo, as escolas, o passeio publico, a segurança, a defesa civil? E como isso será gasto? Não sabemos e ninguém sabe.
Mark Twain escreveu: “O governo é meramente um servo, meramente um servo temporário: não pode ser sua prerrogativa determinar o que está certo e o que está errado, e decidir quem é um patriota e quem não é. Sua função é obedecer a ordens, não originá-las”.
Só quando os administradores forem imputáveis e sentirem nos bolsos e na privação de liberdade que, se falharem em prevenir o prevenivel sofrerão consequências pesadas, talvez tenham mudanças efetivas no dislate que é o planejamento público no Brasil. Só quando a opinião pública exigir que as apurações não se limitem a dois ou três bodes expiatórios, mas, a quem, de fato, permitiu a vigência do absurdo. Talvez ai, calçados na educação solidária, o respeito aos cidadãos conquistará status de lei.
Na hora dos massacres, a solidariedade autêntica vem das pessoas desvinculadas do poder. Emerge pura da nossa emoção, premida pelo nada, esvaziada de sentido, e lapidada pela voz rouca do abandono. Um sobrevivente do incêndio descreveu “Vi o monte de corpos empilhados uns em cima dos outros, como os judeus no Holocausto”. Ainda que o cenário justifique a analogia, a outra semelhança é a gratuidade com que essas vidas foram incineradas.
Todos nós, civilizados desde o berço, podemos enxergar tragédias como inerentes à condição humana. Rachaduras na placa continental, asteroides, furacões e terremotos são eventos inevitáveis, às vezes inexoráveis. Crematórios, não. A dor merece nosso constrangimento, assim ao menos sofreremos todos juntos. Não entendo bem por que, mas parece que precisamos nos derreter para nos unirem.
Paulo Rosenbaum é médico e escritor. É autor de “A Verdade Lançada ao Solo” (Ed. Record) e “Céu Subterrâneo” (Ed. Perspectiva)
paulorosenbaum.wordpress
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