Não reprisem barbáries (Estadão)

Não reprisem barbáries

Paulo Rosenbaum

05 junho 2015 | 13:20

barbariesantamariaXX

Merece ser lida com indignação a orientação contida no Memorando/Circular de número 02/2015, datado de 15 de maio de 2015 redigida pelo Reitor substituto da Universidade Federal de Santa Maria (RS) José Fernando Schlosser.  Junto com o documento que o antecede e assinado por três mãos, ele pede para ser informado da presença de discentes e/ou docentes israelenses no programa de pós graduação. Diz estar atendendo ao várias entidades representadas pelo “Comitê Santamarienense de Solidariedade ao Povo Palestino”.

Schlosser se perfila lado a lado aos mais rematados antissemitas da história, singularizando pessoas por sua origem. O ancestral ódio judeofóbico se instaura oficialmente em nossas faculdades pelas mãos deste indivíduo que, assim, em nome de minorias, supostamente, prejudicadas, advoga a xenofobia e toma a nuvem por Juno. Um real representante do universo acadêmico deveria defender as liberdades individuais e proteger seus pupilos em todas as circunstâncias, jamais promover segregação.

É evidente que seria preferível evitar concentrar a polêmica sobre um só nome. Porém foi pelas mãos do magnificentíssimo substituto que o manifesto federal mais recente na história de nossas instituições de ensino, abertamente judeofóbico, veio a público.

Claro que, mais uma vez, utiliza-se do desgastado álibi universal que pensa poder contornar o antissemitismo com a troca mágica de uma palavra por outra. O uso de “israelense” no lugar de “judeu” tem se tornado a marca de uma prática falsificadora na linguagem contemporânea. Se largamente usada, ainda é pouquíssimo denunciada, e menos ainda, acatada como o que realmente é: uma manobra semântica de disfarce judeofóbico.

Na verdade, por outros motivos e em contingencias históricas distintas, lembra uma das primeiras leis promulgadas em abril de 1933, que restringia o número e a atividade dos judeus em escolas e universidades alemãs. Como se sabe, a isso se seguiu a cassação, destituição e perseguição dos professores e alunos nas Universidades da Alemanha.

Um panfleto desta natureza seria compreensível como desculpa para iletrados e incultos, porém não deveria valer para quem chegou a conquistar qualquer título acadêmico como diz possuir o autor do referido libelo.

Parece ridículo mas é necessário explicitar que solidariedade nenhuma, seja ao povo palestino, sírio, iraquiano ou ucraniano, justifica hostilizar, constranger, boicotar ou segregar povo de qualquer País, religião ou etnia. Oxalá que o reitor substituto estivesse isolado no protagonismo para reeditar perseguições que pensávamos superadas. Assim como os nazistas precisavam queimar livros para destruir o passado, a reflexão e o pensamento crítico, intelectuais e uma considerável quantidade de pessoas imagina que frente ao injusto, o ato de silenciar pode aceitar a classificação de neutralidade. O silencio tem uma carreira conhecida: se transforma em conivência, e em sua rápida metamorfose migrar para apoio tácito é uma mera formalidade.

Para nossa perplexidade, há mais gente, supostamente esclarecida, que endossa essa discriminação. O que recentemente se ouviu de professores universitários é digno de perfilar entre as causas indefensáveis. O apoio à discriminação étnica macula muito mais do que a honra individual destes docentes, desabona a honestidade intelectual, último patrimônio do pensar. Ao acusar Israel de praticar um regime de apartheid e espalhar notícias deste tipo em redes sociais e em aulas magistrais estas caluniam um País e difamam um povo. Se demonizar um povo não é mais crime, o que seria?

É preciso reconhecer que essa versatilidade com as palavras obedeceu longo processo de amadurecimento. Entre nós, floresceu sob décadas de pregação de intolerância do lulopetismo, insuflada nos fóruns sociais da esquerda retrógrada — a direita truculenta, já suficientemente conhecida, não merece menção — que oportunamente eclipsa valores humanos fundamentais para defender causas. Em geral, uma ideologia, palavra de ordem ou fé sectária, que não podem ser contrariadas, não importa a aberração política que  impliquem.

Cria-se um ambiente no qual xenófobos, racistas e antissemitas ficam autorizados a escapar do armário e pregar suas diatribes. Para quem acha que tudo isso não passa de fantasia, basta lembrar do clima na franca e empolgante campanha de demonização de Israel na última guerra contra a milícia extremista Hamas.

Num mundo com superavit de paradoxos, alguém deveria ficar chocado com mais esta demonstração de decadência de nossas Universidades? Se não fossem por todos os outros motivos, pela infâmia. Para o que exatamente o Zoilo deseja ser informado de cidadãos israelenses do corpo discente e docente nas dependências da Universidade? A finalidade é clara ainda que inconfessável: expandir a propaganda de constrangimento. As guerras migram às propagandas, não é novidade. O fato novo aqui é a produção de um documento oficial que autoincrimina o professor pelo delito de racismo.

Se proibíssemos um habitante do País Z de vir e se quiséssemos impor sanções contra este sujeito em tempos de paz, teríamos que explicitar os motivos e fulanizar a escolha:  “Aquele sujeito prega intolerância”. “Este outro, defende a litigância entre povos”. “Este é um terrorista perigoso”.  Neste caso, vários de nossos políticos teriam que ser barrados ou banidos do ambiente acadêmico. Mas não se trata disso. Em seu ofício, o reitor e seus apoiadores suspeitam de qualquer habitante de Israel. Isto significa que todos eles merecem ser boicotados por serem israelenses ou judeus, o que, no fim e ao cabo, dá no mesmo e pouco importa. E o que dizer dos árabe-israelenses, drusos israelenses, cristãos israelenses, agnósticos e outras minorias fora do catálogo?

Considerando tudo, o inaceitável mesmo é o silencio da maioria. O silencio dos culpados significa a conivência maciça com uma segregação anunciada. Significa que estamos em terreno aberto e respaldado para a prática de arbitrariedades e generalizações inaceitáveis. Por que não realçar a paz e instigar o diálogo no lugar de banir? Que tal um realce na inclusão? Que tal discutir o discutível e capinar a intolerância? Para aqueles que acham exagero o barulho que se faz em torno deste memorando, recomenda-se examinar melhor a história. Especialmente ênfase no estudo de períodos nos quais aparecem os primeiros indícios de legislação intolerante e discriminatória. Antes que nos submetamos à sua repetição é preciso começar a enxergar para além de uma historiografia superficial e das boatarias.

É nossa chance de prevenir a barbárie. Ou reprisa-la.

Este texto foi escrito em coautoria com Floriano Pesaro

Paulo Rosenbaum

Cinismos hediondos (Estadão)

Cinismos hediondos

Paulo Rosenbaum

01 junho 2015 | 17:41

TraidorXX

Não recomendo. Foi torturante, mas tive que ver. A votação de ontem terminou de madrugada. Hoje a tortura mental, impassível, prossegue na TV Câmara. O problema central ainda é a manipulação montada da linguagem. Trata-se de um técnica que se expandiu pela nação. Independentemente da análise do resultado, pois ontem o ministro não interferiu na votação da votação da redução da maioridade, insinuando que a votação cassaria a já apavorada classe media e abarrotaria presídios já abarrotados?. O representante do psol não vaticinou lá pelas 23:17 que se o “estado não protege, não pode punir”? E o outro não complementou com “sou solidário com as vítimas, tanto quanto às vitimas que cometeram estes crimes”? E enfim mais alguma voz da da base: “lembrem-se, nem sempre o povo sabe escolher o que é justo”, involuntária alusão à famosa frase de Pelé durante a ditadura de que o “povo não está preparado para votar”. O que se nota é que a discussão que se arrasta desde 1993 não é só anacrônica e inoportuna, ela é, no fundo, recheada pela disputa entre dois partidos.

Sob o calor do clamor dos 87% a favor da redução da maioridade e sob a sombra dos míseros 9% de aprovação da presidente, a discussão — que acusava o tempo todo o senso comum como mau conselheiro em matérias legislativas — não passou exatamente de exposição de sensos comuns e chavões revestidos de estatísticas contraditórias. Chama a atenção  a pobreza absoluta do debate argumental. Aparando os figurinos, a dicotomia entre PT e PSDB parece ter determinado a aniquilação das condições mínimas de racionalidade no parlamento.

Ainda assim, o partido do poder têm sido o grande responsável pela obstrução de tudo que se refere à modernização dos costumes. Obstruiu a atualização do ECA, suprimiu o orçamento da segurança pública, relegou a educação. O partido, que sempre se perdeu no timing, paga pela inércia, pela paralisia, pelo oportunismo. Agora, em pleno incêndio, resolveu dialogar e se mostra artificialmente indignado sob o lema cabotino “por que tanto ódio?”. Ódio é uma coisa, desejo furioso por justiça é outra.

Percebe-se que o parlamento não está de fato interessado nos temas que afligem os jovens, nem em esmiuçar as raízes da guerra civil ou examinar formas de controle da violência. A impressão que dá é que os dogmas, sob desfile de cláusulas pétreas, tenham que ser repetidos à exaustão para que eles mesmos se convençam de que sabem sobre o que estão falando. No final, consegui formular meu voto: sou a favor do aumento da maioridade mental para parlamentares, mas só para cinismos hediondos.

O sequestro (Estadão)

O sequestro

Paulo Rosenbaum

18 julho 2015 | 18:46

Vai andando!

Por que parou?

Estou pensando!

vai por mim, não é uma hora boa para pensar Filho. Temos que ser práticos. Estamos com essa encrenca ai atrás e até agora ninguém respondeu!

O que sugere?

Checaram a mordaça? Amarraram bem?

Serviço profissional, Por que? Ouviu algum pio?

Tá surdo? Não percebeu que está gemendo?

Vai lá e da mais um aperto para ver se cala a boca.

Pronto!

Ele falou alguma coisa?

A baboseira toda. Que nunca pensou que pudesse acontecer e achou que tinha muito mais gente interessada na saúde dele. Quando expliquei, ficou chocado!

Você explicou o que?

Que ninguém queria pagar resgate, que o preço era muito alto. Que muita gente torcia para sangrar mais!

És mesmo um Imbecil! O cara entregue, todo mundo tirando lasquinha e você ainda dá mais uma torturadazinha?

Acorda Zoilo, foi ele quem pediu, fiquei com pena e contei a real. Você minha testemunha, sou contra a ilusão.

Como tem ingênuo neste mundo. Esperança é o fim da picada. Quem ainda cai nesse tipo de conto?

Você ficou pancado? Começou a acreditar nas mentiras que contamos esses anos todos? Só pode estar de brincadeira, ou já esqueceu que somos sócios?

Éramos!

Ah agora tú vai pular fora agora? Recado: não cabe crise de consciência em bote salva-vidas.

(Risada nervosa )

Presta atenção: era 50/50, mas com gente gulosa não tem negócio!

Ficou louco? Está me ameaçando? Para já esse carro.

Quer bancar o manda chuva comigo?

Você esta acelerando esta geringonça!

Vai vendo

Para essa droga.

Segura que estou detonando

Um acidente grave, em cadeia,  envolvendo centenas interrompeu o sequestro, quase à beira do abismo. Os motoristas que se revezavam na direção sumiram de cena. Nunca mais se ouviu falar deles.  No porta malas encontraram a vitima ferida, com sinais de maus tratos, espoliada e desidratada. Libertada, saiu do buraco, cambaleante e desorientada. Deu uma singular declaração antes de voltar, pensativa, ao seu posto original:

Uma Republica vale se puder sobreviver aos seus condutores!

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/o-sequestro-2/

Kepler 452 (Estadão)

Kepler 452

Paulo Rosenbaum

24 julho 2015 | 09:53

KeplerXX

Caros habitantes,

Queríamos dar as boas vindas para todos neste dia histórico. Aviso que estamos usando o tradutor automático para 214 línguas.

Nenhum antigo parece ter valorizado suficientemente aquela previsão. Na verdade, grosseiro erro de estimativa, pois era mais do que uma advertência. Foi tomada como desafio moral. Inútil, diziam todos eles. Mas isso foi antes do grande incêndio. Hoje, daqui, podemos enxerga-la com telescopia de lentes de água e vapor solar. Em tese, com a aceleração linear, alguém poderia, caso ousasse, voltar e atingi-la em 1.400 anos luz. Ou, se preferem, na velha cronologia, em 236 anos, 22 dias e 18 horas.

Obviamente, como ninguém desconhece, isso está fora de questão por toda contaminação atmosférica e pelo deslocamento do eixo magnético. Sem contar o aquecimento e a radiação. Sim, aquele sol minúsculo nos impediria pisar ali, naquele que já foi um solo fecundo segundo os arquivos e as poucas marcações que restaram da biopaleontologia. Ninguém a deseja mais a não ser por uma estranha nostalgia. Nunca se esquece de um berço. Não se pode desprezar aquela que foi objeto de todas nossas especulações e depositária dos desejos da espécie até não muito tempo atrás.

Quem poderá esquecer as amostras que hoje preservamos no Museu Copérnico II? As experiências de desmaterialização no eixo polar? A concentração de verde no hemisfério sul? A extração recente dos painéis de sondas e embarcações perdidas em missões frustradas (na época de combustível liquido fóssil) são um patrimônio da memória. Muitos eram, assim como em nosso velho mundo, a favor da destruição desses registros de memória. Congratulemo-nos todos já que a argumentação não passou nos testes dialógicos.

A energia dos núcleos como armas não poderá mais ser esquecida. Nossa responsabilidade deixou de ser só com aquele sistema solar, hoje obsoleto até a órbita de planeta com a grande tempestade, graças aos nossos erros.  Neste ano 127 da novíssima experiência humana, podemos avaliar retrospectivamente o que fizemos com o velho habitat e evitar amanhãs de erros antigos.  Por isso, é com grande alegria que inauguramos este memorial na via Kepler com a famosa frase do escritor Arthur C. Clarke (infelizmente, profissão quase extinta nesse nosso novo mundo, que apenas ameaça renascer)

“Os dinossauros desapareceram porque não tinham um programa espacial”

Pode acontecer hoje (Estadão)

Pode acontecer hoje

Paulo Rosenbaum

06 agosto 2015 | 11:21

forçasXXX

Neutralizem-nos. Desfazer é a palavra. A concessão ao ódio, pueril. A profusão sentimental, irreflexiva. Justiça instantânea, perigosa. Destoar da hegemonia é girar, numa outra direção. Evidente, tudo pode mudar. Uma revolução pode operar no silêncio. A política é lábil, mutante, ciclotímica. Distorçam-na como arte ou torçam nas arenas. Aprender a esquecer como convém aos pactos datados. Vivemos numa não ficção. Um vento não remove um Estado. Mas também não o edifica. O radical limita-se a um vício de informação. O acirramento interessa: para poucos. A ilusão hegemônica está em pé. Não é que o projeto acabou, foi adiado. Rejeitam a ideia de que o mundo não é um menu acabado. Preferem o manual onde, numa balança infinita, só se ensina dois lados.

Não só pelo 16 de agosto, mas porque nossas ações exigem rumo. Usem a rota b. Ninguém quer golpe, bastaria oposição. Desmonta-la, sempre foi um mal negócio. No jogo democrático oposição é vital. Respeitada e respeitável, ela, quando vigora, exerce poder moderador. Se assim fosse, renuncias, afastamento e outras tribulações não seriam traumas. Uma República deveria ser o conjunto das instituições. Sem reunificação (aceitemos o desacordo), sem conluio, (assumamos as disputas) apenas alguma circunscrição da desforra. Comutem por um outro estar. Mudem as flores por vasos mais enxutos. Na vigília digital não há esperança de sono ou coesão. “Contamos com vosso sonambulismo”, eles vêm nos pedindo. Mas, em nossas realidades, não há indício de respiro. Não te falaram que as urbes tirariam todo nosso fôlego? Que a rarefação do poder estava garantida? A confusão, sortida? Era verdade, mas ninguém varou a noite para avaliar.

O jogo democrático não é  exatamente negócio de lobistas. O jogo pode não ser equânime, justo ou coerente, precisa ser pacífico. Exige renuncia à brutalidade, desvio do confronto e, elegância mínima. É que as lutas se despistam nas guerras. Se te convencerem de um destino bomba, não será esquerda ou direita. Que se prolonguem as vidas dos homens sensíveis. Mas que não te assombrem. Nem nos sacrifiquem na idolatria do culto personalista. Dirijam irritações contra a milionésima parte dos abusos. Dos desmandos aos comandos. Adensem os artefatos até se transformarem em palavras. Afiem a civilização. A Pátria seria educadora se comovesse alguém. Nunca é tarde. Mas, a certa altura, perdemos a razão, junto com o sentimento. Rumo ao fundo dizem. Até que a sangria não coagule. Até que os autores meçam-se por cãibras. Até que os analistas mexam nos roteiros que filtram. Até que a Nação seja um cárcere sem fronteiras. A cadeia deveria ser para ninguém. Nem as aberrações das leis, feltro para justificar o arbítrio.

Que ninguém se engane. Os intelectuais podem estar silenciosos mas os poetas não desapareceram. Guardam a visibilidade oscilante. No parapeito de cada surto. No limite do susto. Nas paginas anuladas, borradas de insultos. Nas impressões foscas. Na fuga das rimas. No êxodo do cuidado. Na contagem regressiva dos soluços. Não foi ainda ontem que mudamos tudo? E as unhas de quem sofria encobriam o ruído de quem comia?  Até o fim do dia. Abandonar a surdez para enxergar todos os outros. Enquanto isso, vaga uma meia lua constrita pelo excesso de olhares. Ela não inibe a dor, nem os sonhos. É que o milagre opera na surpresa. Desce ao simples. Pode acontecer hoje.

Pai? (Estadão)

paipresença

Pai?

Está ouvindo?

Queria levar um papo. Agora é urgente.

Se estiver ai faça um ruído, cutuque a porta, dá uma raspada no gesso, sei lá.

Vou falar, quando puder de algum sinal de vida, combinado?

O que fiquei pensando é que aqui a coisa está tão pesada que a gente já está apelando para qualquer lado. Talvez você pudesse me dar uma força. Temos uma situação como nunca houve neste País — e por favor nem venha com uma daquelas suas gargalhadas. Oh velho, tudo tem sua hora.

(cutucão na porta)

De verdade, é presidente que não exerce, vice que não assume, fora que não se vê consenso em lugar algum. Os outros poderes? Você sabe, nem preciso falar. Era para ser parlamentarismo, mas o senhor sabe melhor que a maioria, eles seguem a boiada. Mas nem é isso que está me preocupando. O que está deixando todo mundo maluco é que não há ninguém que ofereça solução. Para bom entendedor. Tem gente que acha que a solução é cadeia geral. Também tem a turma do liberou geral.  Na linha do “restaure-se a moralidade ou locupletemo-nos todos”. Pobre isso, né? Eu sei bem o que você esta pensando: enquanto eu estava lá em Arembepe vendendo artesanato você estava bem aqui, lutando contra a ditadura e enfrentando os valentões que queriam matar pela causa.  Mas Pai, entenda que aquilo era barra para mim. A alienação sempre foi um alívio. Sabe a coisa de fingir que não é com você? Hoje também tem muita gente nessa. Não quero te decepcionar mas tenho que contar: tem gente pedindo a volta deles.

(raspada de gesso)

Isso mesmo. Como se fosse solução. Mas tem que haver uma saída. Que seja uma redução de dano. Eles preferem sacrificar a República que os cargos. Não dá para chamar gente assim de homens públicos.

Isso aí. Acredita? E a esquerda, lembra a sua querida esquerda? Sinto te dizer que a que está no poder não é mais esquerda muito menos democrática. Defende aliança com ditadores, caça jornalistas, quer controlar a mídia, todos cheios de grana suspeita e se alinharam com os piores tipos para faturar as eleições. Os bem pensantes? Parece que boa parte dos intelectuais está dominada. Pessoal está sem autocrítica ou se beneficia dos abusos, ou ambas. Tá difícil, eu te falei. Desculpa te falar isso tudo bem hoje.

Me perdi, o que estou para te perguntar:  aí é melhor que aqui?  Eu já sei que você vai repetir o que falou a vida toda: “mais vale um minuto aqui do que 1000 anos ai”. Mas é que o tempo aqui está passando cada vez mais rápido.

Era exatamente o que você sempre dizia, isso aqui só vai dar certo quando não tiver mais paizão, o salva pátria, o rei da cocada. O populismo é uma praga que dá certo. Tem um pessoal que quer guerra. Ainda na base do quanto pior melhor. Eles insistem em montar o circo. Tem aqueles irresolutos de sempre com o velho problema, que está mais para psicanálise que para sociologia. Eles não querem se indispor com os históricos, morrem de medo de serem chamados de golpistas. Não assumem a identidade. Já deu. Ninguém tem paciência. E desde quando obedecer a constituição é golpismo? Pai, eu sei que você achava de todos eles e como me arrependo de, na época, não ter concordado contigo. Tua frase exata era “não importa quem está lá, o País vai caminhar, ele é maior que todas as figuras públicas juntas”. Mas não tem duvidas que eles estão escondendo o horizonte das pessoas, fingindo que sabem para onde estão levando. Já se ouviu que não vale a pena salvar, e o pior é que talvez seja isso mesmo.

Ninguém respeita mais nada. O reino dos direitos sem deveres. Incrível que é tal qual você previu. Todo mundo acha que pode tudo, todos estamos na mesma, mas uns estão menos na mesma que outros. E tem mais uma pergunta: o que que você quer de presente de dia dos pais? Te dou algumas opções: uma viagem às vinícolas do sul (dizem que a safra é das melhores), um bote inflável (para o caso sabe?) ou uma revista de figurinhas com os melhores momentos da Copa do Mundo com um encarte “os grandes cartolas da Fifa”.

(sons indecifráveis)

Não é em alemão não. Acredita que reeditaram? Tinha tanta gente tirando da nossa cara que eles acharam que seria pop. Pode rir, eu aguento a gozação, você merece.Paulo Rosenbaum

Máximas e condensações (Estadão)

Máximas e condensações

Paulo Rosenbaum

14 agosto 2015 | 12:47

MinimalismoXXX

O problema em blindar um poder insustentável, é ficar trancado por dentro.

Vale tudo para barrar o nada a ver!

Se eles chamavam de herança maldita a bonança que receberam, fica-se a pensar como chamar o entulho que estão nos legando?

O Estadista precisa de elegância, inclusive a de não contemporizar.

Já que não há satisfação garantida, queremos nosso dinheiro de volta.

Se esse não é mesmo um País sério, por que cargas d’agua ninguém se diverte?

O último a desativar a pauta-bomba, apague o congresso.

A oposição é a situação com alguma cerimônia.

Só aplauda um “caça às bruxas” se sua vassoura estiver turbinada,

Não se pode confundir: às vezes, civilidade exige contundência!

O tempo transforma o inaceitável em rotina.

O problema do julgamento da historia é o veredicto, anunciado entre testemunhas sepultadas.

Perfeitamente compreensível que haja relutância em adotar uma atitude republicana num País cujo governo faz exatamente o oposto.

Fora o subsolo, alguém está captando água?

Contraste é tudo: a gestão é de tal forma nociva, que parece que a anterior foi razoável.

Ódio é um regime político infantil, já a ironia nasceu para desmontar os velhacos.

Lava jato imune à crise hídrica.

Ninguém quer golpe, bastaria oposição!

Quem foi que disse que era a solução? Menos, apenas soluto.

O Estado foi tão aparelhado que fez sumir qualquer zona franca.

O mais imperdoável nas ações deles é nos obrigar apoiar pessoas para as quais, num outro contexto, jamais daríamos suporte.

Reparem que, quando se trata de momentos difíceis,algumas neutralidades são mais neutras que outras.

As coisas são reguladas, mantidas e divulgadas através dos dados oficiais. Como lidar com a oficialidade quando ela passa a ser um simulacro da verdade?

Tudo, mas especialmente o involuntário, é intencional.

Uma coisa é ódio, outra, desejo furioso por justiça.

Conseguimos: temos suspeitas acima de qualquer cidadão!

Emudecem imaginando recompensas pela mordaça, e acordam algemados.

O Itamarati, que na língua tupi-guarani significa “pedras brancas”, cogita seriamente mudar o nome para yruhu, caixa preta.

Andam dizendo que as manifestações podem falir por falta de substrato ideológico consistente. E quanto à falência de todo resto?

Mais uma destas coisas que só mesmo por aqui: temos a mais peculiar das oposições, uma oposição a favor.

A meritocracia existe, só foi para o fim da fila porque os outros eram indicados.

Hoje, o inesperado! (Estadão)

Hoje, o inesperado!

Paulo Rosenbaum

13 setembro 2015 | 01:08

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Hoje é muito, a noite do mundo. Hoje é fundo, ao largo de tudo. Dia da escala primeva, pristina. Movimento, obra prima. Hoje se sabe, o valor é enganoso, a certeza, inútil, a decisão, instável. Hoje é o dia sem recuos. Não se enganem. Não é só o homem: são as forças, todas as capacidades, e todas as verdades. O que comove. Hoje, o divisor de águas, o inverso do ciclo, a sede que move. Hoje é a estação para mudanças. Troca de faixa. Inversão do estável. Reciclagem do estático. Reverso do mesmo. A fusão que nos escapa. O planisfério se dilata. A prata das bocas escapa. A vez do sutil. Do repleto. Dos códigos gerais. Dos sonhos orgânicos. Dos extratos românticos. Das mulheres em graça. Da infância sem pena. Da mutação, plena. Hoje, instante para brincar com os mundos. Saudar o recomeço. Saldar a nostalgia. Hoje, vigência do inesperado. Não é só mais um ano novo. Chegamos às vésperas,  o triunfo do justo. Ao ímpeto da inércia. A resistência recobrou alento afora. A recompensa, aqui, agora. Nas alegrias sem fundamento à evasão do firmamento. É do horizonte que a notícia emerge. Com olhos nos céus. Ovos perfeitos e livro sem defeitos. Sob letras grafadas em tudo. Agora que as vozes venceram o silêncio dos mudos. A derrota da tirania exige persistência. Paciência, mesmo sem maná, shaná tová.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/hoje-o-inesperado/

Paulo Rosenbaum

Licença para odiar (Estadão)

Licença para odiar

Paulo Rosenbaum

06 outubro 2015 | 00:52

Democracia_e_misti

O que testemunhamos no atual poder moribundo, é, no mínimo, indigno. Quem negará que o partido do governo foi pródigo em plantar a cizânia, instigar a litigância e flertar com a intolerância? Mas é a extrapolação da aversão que merece algum exercício de autocrítica. Hoje, no enterro de um veterano político petista ligado ao poder, houve mais uma incitação ao ódio. Incitação póstuma, desnecessária, primitiva. Compreende-se a indignação, a revolta. Sob a escassez absoluta de soluções justas e duradouras, as pessoas rendem-se ao reino do senso comum. A falta de mediadores minimamente confiáveis aguça a sensação de inutilidade. Somos inúteis num sistema político de duvidosa eficácia. Assim ficamos a mercê dos abusos de poder, dos bullyings do Estado, da impotência imposta por uma interpretação retrógrada de democracia. Sem critérios, sob publicações prematuras, as quais, por exemplo, elevam a pena capital como ideário de solução para a segurança pública, exterminar adversários, massacrar discordantes. Só que doença, morte e sofrimento pessoal não devem fazer parte da civilidade política. Alguns signos precisam manter alguma invulnerabilidade. A força da sociedade está numa união instável contra o governo. As ruas, o último reduto de oposição. O ataque deveria ser direcionado ao poder, e toda objeção focar num programa que antagonizasse os desmandos, e evitasse desperdícios como catarses direcionadas às pessoas.Tomamos diferenças como ameaças, e respondendo ao ameaçador, nos convencemos de que estamos rodeados de inimigos. Eles existem, mas a maior parte só adota outro sistema de compreensão política. Precisamente ai uma armadilha tomou forma, ainda que sob roteiro pré justificado: a licença para odiar. É vital explicitar que descarta-se libelos de amor, paz de convescote e uniões impossíveis. Despreza-se sentimentalismos informais e a neutralidade conivente. A gestão do partido pode ter sido campeã no quesito promotora de conflitos, e, quase com certeza, protagonizou insuperável programa de poder sustentando no fisiologismo e na corrupção. A última, ao contrário do que todos os indícios apontam, apenas um detalhe do planejamento estratégico. A verdadeira novidade esteve na determinação e na furiosa convicção de que tudo precisava ser destruído para que a nova ordem viesse à tona.Outro fenômeno que ainda ocupará tempo de historiadores e psicanalistas é o incrível séquito de apoiadores acríticos, hoje infiltrados em todos os cantos da administração pública, nas redações e naquilo que conhecíamos outrora como centros de saber. Para estes, defender esta gestão tornou-se, então, questão de sobrevivência. Para todos nós, sobrevivência perigosa, uma vez que o poder migrou da acefalia à posse do grande manipulador. Nota-se então o desejo nostálgico que tomou conta dessas mentes. Bom notar que eles não mais militam, apenas precisam justificar-se por terem sustentando o insustentável e racionalizado o incompreensível. E foi por tanto tempo, e sob tantas formas que hoje sussurram intimamente “longe demais, tarde demais, profundo demais para arrependimentos”. E mesmo aqueles veículos midiáticos que receberam e continuam recebendo generosas verbas publicitárias desta administração, vem se afastando da neutralidade suspeita. O poder perdeu a moral e a razão, não necessariamente nessa ordem. Difícil precisar o grande erro estratégico: subestimar as instituições que reputavam subjugadas e rendidas ao sindicalismo de resultados? Pegos de surpresa pelo que um desses ministros definiu como “ingratidão” do povo? Ou simplesmente o mais infantil dos equívocos: terem acreditado nos próprios slogans? Que ninguém se engane quanto a capacidade de regeneração do populismo. A República, reduzida a um instrumento partidário e como toda tendência totalitária, escolheriam terra arrasada ao triunfo de um novo consenso. Portanto, a descrença atual do brasileiro não é bem com a democracia, como parece dar a entender a última pesquisa do tema (Ibope/setembro, 2015). A decepção é, antes, com o que imaginaríamos conquistar ao sair de longa e sombria tutela militar autoritária. Na contramão das teses, a história por aqui acontece como fraude e se repete como mistificação.

Geração espontânea e terroristas avulsos (Estadão)

Geração espontânea e terroristas avulsos 

Quais as etapas que um sujeito deve percorrer entre entrar em seu veículo, escolher o alvo, acelerar contra este a uma velocidade significativa, abalroar uma ou mais pessoas, descer do veiculo e golpear à faca, adaga, lâmina ou machadinha até acabar com uma vida? Há um terrorismo exposto e um latente prestes a irromper. Quais as chances de que uma epidemia homicida atinja várias mentes sincronizadamente? Pois os cidadãos de Israel tem sido alvo de múltiplos e sistemáticos ataques terroristas. Os fatos, porém, tem sido expostos de uma forma surpreendentemente neutra. Sob as vozes monotônicas e testeiras eletrônicas da mídia televisiva, tem-se a impressão de que os ataques precisam ser naturalizados. Terroristas avulsos surgiriam às dezenas ao modo de geração espontânea. Ações terroristas ex-nihilo se propagam sob a ação de esfaqueadores em transes assassinos. Da forma como nos apresentam os eventos, a impressão é que, subitamente, uma parte dos palestinos e árabes israelenses — os perpetradores dessas ações contra alvos civis inocentes — tiveram, ao mesmo tempo, a mesmíssima inspiração.  A sensação quase subliminar que se pode ouvir ao largo das transmissões é ambígua: “um horror”, e ao mesmo tempo “devem ter feito algo para merecer”.

Quem não reconhece que a raiz profunda desta e de outras crises passadas e futuras são os erros políticos recorrentes dos governantes israelenses e palestinos em achar uma solução para a tragédia que se abate sobre os dois povos? O perturbador é que parte significativa da mídia insiste em pulverizar os atos nitidamente terroristas como “sublevação legítima”, “insurgência política”, “resposta à ocupação”e, mais recentemente, o criativo “fúria contra a proibição de fiéis muçulmanos rezar na esplanada das Mesquitas”. A notória má vontade da mídia mundial com Israel e seus habitantes teria origem num antissemitismo latente? A desonestidade intelectual estacionada em acusações irresponsáveis como a de que ali vigora um “regime de apartheid”? Essa latência  floresce irrigada a cada mínima gota. É como se um argumento subliminar estivesse a postos para ser sacado contra a mítica pré condenação judaica. Manchetes omissas diárias — sem contar as abertamente  judeofobicas dos jornais árabes e iranianos —  estampadas nas páginas de jornais terminam inculcando uma percepção completamente distorcida da realidade social e política da região.

Abundam questões territoriais, jurídicas e culturais em permanente disputa, mas quem é curioso ou cultiva um pouco de amor à análise política sabe que Israel é um dos países com maior liberdade religiosa e de gênero em todo o mundo, e, decerto, o mais multicultural entre as nações do oriente médio. E, com todos os defeitos inerentes implicados, uma democracia estável. Pois as pessoas deveriam também saber que o desenvolvimento econômico nos territórios palestinos está entre os maiores registrados na região e não é fortuito que a taxa de escolaridade por lá também seja bastante alta. Não há nada de fortuito ou coincidência mística que o novo ciclo de ataques tenham se iniciado alguns dias depois do discurso do presidente da autoridade palestina Mahmoud Abbas, quando declarou que considerava nulos os “acordos de Oslo”. É sintomático que o anúncio tenha sido feito num momento histórico no qual o relevância do conflito esteja em evidente declínio na agenda dos países ocidentais. Com tópicos quentes como guerra civil na Síria, estado islâmico, Ucrânia e fortes indícios da retomada de uma novíssima guerra fria, o imbróglio palestino-israelense não é mais prioridade para ninguém. Abbas captou a nova realidade e talvez tenha pretendido instrumentalizar uma escalada para recobrar a relevância perdida. Porém, a conclamação ao ódio e à indução ao terror, ainda que cifrada, é um novo e perigoso precedente na escala de equívocos políticos. No reino dos justificacionismos não há, nunca houve, solução para contendas.  A busca pela pacificação é provavelmente um dos impulsos mais contra-instintivos em nossa espécie. Quando não existe ninguém realmente pensando em paz, o vazio pode vir como signo de guerra. Oxalá o futuro nos reserve menos lamentos e mais civilização.

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