O falso e os abismos na arte de interpretar (Estadão)

O escritor Ian McEwan revelou que certa vez ajudou seu filho numa tarefa solicitada pelo seu professor de redação. O tema proposto era produção de um texto tendo como tema uma obra sua.  Pois seu filho ganhou apenas um C do docente. Quais os significados dessa avaliação? Quais as implicações da análise do professor?  Teria ele o domínio técnico e capacidade necessárias para rebaixar a opinião do próprio autor da obra a uma categoria que estava no limite da reprovação?

Ilustra bem o momento contemporâneo, onde as interpretações adquiriram o poder, a critério da gestão ideológica dominante, de atribuir aos fatos o selo da verdade e da mentira; a própria origem do falso.

Uma certa excentricidade quase hegemônica tomou conta dos meios de comunicação — e as redes sociais ainda resistem mas não por muito tempo — e num átimo, sob um documentação apócrifa, eis que a ditadura pode não ser mais ditadura. O terrorismo vira militância, a extrema direita tornou-se porta voz da justiça, a extrema esquerda guardiã da liberdade que pretende destruir.   E falta pouco para que a perseguição política de dissidentes — agora ou outrora — seja considerada legítima. Em uma palavra, seguiu-se, à desmobilização da língua, um melancólico e progressivo embrutecimento da opinião pública.

E é sob essa perturbadora katastasis (sequencia) que as palavras vão sendo adulteradas até que alguém se aproprie da linguagem e, mais cedo ou mais tarde, dê cabo dela. Sem estabelecer o contexto toda interpretação fracassa. Pois é desta apropriação e tentativa de sequestro do discurso que subsiste a semente autoritária. Aqui ou no Reino Unido, a hermenêutica tem criado mais abismos que atalhos dialógicos. E o resumo do abismo é exatamente a ausência de regras para bem interpretar. Os procedimentos da lógica argumentativa estão sendo questionados. Mas é evidente que eles existem, a despeito do facebook e os gestores midiáticos não terem conseguido identifica-los. E agora buscam compensar a liberdade de expressão com censura e manipulação. Confiar em algoritmos é apenas o endosso deste tipo de distorção.

O professor britânico imaginou que sendo um leitor critico da obra do escritor poderia dar uma uma interpretação mais acurada — no sentido de certificada e correta — do que o próprio autor. E por que não?  Todo autor, especialmente os romancistas, sabe, que a partir do momento em que o livro deixa a gráfica ele perderá ao mesmo tempo, o controle e o monopólio. Vale dizer, seu trabalho deixou de ser apenas um sucesso de estima, um objeto monopsista, e, dali em diante, o exemplar transforma-se, quase à sua revelia, num “cidadão do mundo”. E, ao abrir mão dessa posse exclusiva, ele é obrigado a submeter-se ao diálogo de mentes, aquele que caracteriza a leitura.

Muitos escritores referem-se à criação como um processo misterioso, a grande maioria o classifica como sôfrego. E o último pode ser responsável pela ambiguidade frequentemente presente no ofício. De um lado a  ilusão de onisciência quando o escritor insufla vida no personagem,  que mesmo não nascido, passa a ter voz, de outro lado, uma profunda cisão pessoal.  Sem ela, a cisão, o risco de projetar o próprio DNA sobre os caracteres dos protagonistas é imenso.

Muitos autores experimentam essa fragmentação da personalidade, não necessariamente sob a forma de uma patologia, mas sob um pathos (paixão) necessário, de qualquer modo inexorável. Como se para criar a máquina de diálogos — que é um livro — e o espaço de maternidade gerador de personagens na ficção, fosse necessário expressar e sublinhar as divisões internas e acentuar a falha na identidade. O estranhamento do si mesmo. O intrigante é que para colocar a imaginação a serviço de um romance será necessário entrar em um um estado psíquico quase oposto ao da cura, pelo menos como aquela síntese escrita por Paul Ricoeur: “é preciso coincidir consigo mesmo”. Foi com esse espírito que  Jacques Lacan teria formulado a pergunta “Joyce é louco”? Escrever ficção seria uma atitude que se assemelha à insanidade?

Essa sensação, espontânea ou induzida, gera no autor uma espécie de apartamento da própria personalidade. Pode-se negar o fenômeno, ainda assim ele é auto-evidente e empiricamente constatável. Neste sentido, a geração de sujeitos criados nos romances, mesmo defectivos e parciais, é um feito notável. E tal como um pai ou uma mãe, há certo orgulho pelo que cada um deles gera como contrapartida em seu criador. Entretanto, como inexiste neutralidade, toda obra de arte deveria levar em conta um ethos, isso é, assumir alguma responsabilidade.*

O professor que corrigiu a redação do filho de McEwan  provou isso ao provavelmente ter ouvido a voz autonômica de um ou mais personagens por ele criados. E no lugar de uma única e consensual certeza de que tal obra deveria ser considerada conservadora, progressista, de direita, de esquerda, avançada ou retrógrada, revolucionária ou convencional, experimental ou do mainstream, moderna ou pós moderna, o crítico tem a obrigação, antes, de proceder a leitura à guisa de uma fonte primária. E temporariamente suspender suas teorias e bagagens. Como se não existisse um antes ou depois.  E, talvez aí sim, aplicar sua capacidade intelectual e erudição, para efeito de análise e comparação em um terceiro momento. Ou nunca.

Só assim os autores passarão a ser valorizados — ou avaliados — pelo que efetivamente escrevem e não para qual publico escrevem, qual escola são filiados, quais os nichos atendidos e enfim se o seu sistema de notação agrada ou desagrada o crítico-colunista, pareceristas das editoras ou os jurados dos concursos literários. Pois justo aqueles que enunciam a preeminência da diversidade preferem e privilegiam suas reservas de mercado ideológico e adotam políticas excludentes em sua listas de seleção literárias. E já que estou conformado, isso não é uma reclamação, apenas um alerta.

O excesso de engajamento — uma censura branca e cinza — têm empobrecido um debate já deficiente e determinando um nocivo oligopólio de regras ideológicas onde o predomínio de determinados  slogans se impõem sobre a criatividade e sobre os méritos dos originais.  A literatura deveria transcender a datação e ultrapassar a análise binária e reducionista da realidade política, ou, até mesmo, despreza-la. Isso pode não acontecer, mas aí sim, estaremos, mais uma vez, cedendo terreno para aprofundar os fiascos hermenêuticos.

*Na exposição do professor Júlio Jeha sobre a obra “Frankstein” de Mary Shelley emergiu o conceito de accountability (numa tradução livre aproxima-se de “responsabilidade”), tema que merece desdobramentos. Estas e outras reflexões sobre a ética da criação e interpretação de textos literários foram feitas durante a recente  jornada de literatura “Criadores e criaturas” na UFMG (organizado pela Faculdade de Letras através da professora Lyslei Nascimento e colaboradores).

Timing e justiça poética (Estadão)

Timing e justiça poética

Paulo Rosenbaum

05 outubro 2014 | 12:24

 

Juro, é incompreensível. Eles bem que prometeram, o bicho iria pegar. E mesmo assim, ninguém ainda sabe qual vai dar. Não é descrédito nos instituto de pesquisa, apenas respeito pelo imponderável. Timing sempre foi vital. Na política, perdê-lo costuma ser desastroso. Custava a história postergar junho de 2013 para meados deste ano? Fosse assim, a aspiração de parte significativa de brasileiros estaria previamente garantida e alguma oposição vingaria. A eclosão precipitada, o parto prematuro e a pressa do processo histórico pode ter nos custado caro. Um perturbador continuísmo. A arrogância maciça. O totalitarismo de gabinete. Ou será que tivemos transformações das quais ninguém se deu conta? Mobilidade urbana? Reformas políticas não oportunistas? Descentralização de impostos? Controle da inflação? Ajustes nas contas públicas? Transparência e diálogo? Não só tivemos Copa, como os benefícios palpáveis perduram invisíveis. Por capricho aleatório dos eventos, corre-se o risco de engolir mais enganos sucessivos, submissão à manipulação e observar o agônico torniquete contra as liberdades democráticas. Se perderem vão culpar a mídia, levando estufarão o peito e será “apesar dela”. Nada é fortuito: num País rachado, a tentação controladora fica mais plausível. Nesta peculiar democracia, programa de governo tornou-se agenda secreta: só em primeiro de janeiro. O mérito pela diminuição das desigualdades? Coletivo, vêm de longe. Resultado direto do espantoso respeito inicial pelas conquistas republicanas. Mas gula e cegueira podem ter se tornado pandemia contagiosa. Um jogo não deveria observar regras? A constituição não exigiria garantias e igualdade de oportunidades aos candidatos? Ou a máquina do Estado foi expropriada, e doravante declarada propriedade do partido? Só para saber: qual órgão da República fiscaliza a matéria “difamação e calúnia” no horário político gratuito? No futuro, podemos nos pegar rindo da navalha sobre a qual estamos suspensos. Infelizmente, o presente têm mais rigor: só nos permite votar, cruzar os dedos e esperar pela justiça poética com ou sem timing.

http://blogs.estadao.com.br/conto-de-noticia/timing-e-justica-poetica/

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O indeterminável sentido da evaporação (Estadão)

O indeterminável sentido da evaporação

Paulo Rosenbaum

16 abril 2015 | 01:12

Dia em memória às vítimas do Holocausto (Yom Hashoah)

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Mais uma vez você vem falar  do Shoah?

E mais uma vez somos obrigados a ouvir?

Quer esquecer essa história? Seria bem melhor para todos.

Admita, você não compreendeu: se esqueço, desapareço. Se você esquecer, desapareceremos todos.

Não como pessoa, ninguém evapora como espírito, não se somem com as marés, não desintegramos como barrancos em inundações

Costumamos evaporar quando não fazemos mais sentido, mas existem ebulições prematuras. Se quiséssemos, viveríamos pelos segundos. E, se nossa contagem viesse numa outra unidade? Uma que desprezasse o tempo e redescobrisse outros ritmos.

Impressão minha? Seu sorriso mudou?

Não, não é capricho. Nada de apologias, nacionalismos, nem cumplicidade neurótica. Bastaria ter sabido que existi, a única exigência de toda memória.

Por que insisto em fixar-me em tuas lembranças?

Nada pessoal, não vivo por vingança. Permite uma intimidade? Num dos campos senti: toda memória está vinculada à história. Entende? Nós somos assustadores.

Não, isso também não é para evocar sua consciência, despertar a Misericórdia. Você sabe tão bem quanto eu que a pena é uma nostalgia sem objeto, uma culpa sem noção do mal.

Exato. Como você, também não me comovo facilmente.  De acordo, detestáveis aqueles que se constringem sem levantar da cadeira, ridículos os que se movem sob a indignação remota.

O meu ponto?

Exijo que a dor, essa dor, suba junto com o vapor que nos destruiu, Faço questão que mortalha alguma seja reverenciada. Que os números tatuados se transformem numa álgebra benigna.

Agora pode sentir? Captou meu estado?

Tento de outra forma: isso não tem a ver com religião, nem raças, etnias, partidos ou, classes sociais. Céus, crianças estão cercadas: judias, árabes, negras e caucasianas.

A natureza dos genocídios?

Permanecerá tão misteriosa como a gravidade. Com autorias indeterminadas: da Europa à Grécia, da Armênia à Síria, da Ruanda ao Iraque, da Bósnia ao Sudão, do passado ao futuro.

Viu? O assustador nunca esteve fora ou distante. É preciso repetir: nós somos assustadores. Todo holocausto é um adiamento, uma fusão sem fim, um negócio movido por manivelas humanas.

Agora você chora? Só que ainda não terminei.

Precisei  vagar entre livros, em meio aos escombros e também nas paisagens intactas da natureza remanescente. Precisei viajar desafiando bósons, sob asteroides que carreavam água. Precisei ouvir lamentos de cada povo e elemento só para poder te ver. Precisei superar a ignorância, suportar a decadência. Precisei desviar dos fornos e gazes. Precisei contornar escravos e tiranos.  E mesmo chegando a estes confins de mundo, enfrentando provável arrependimento, reuni forças para te dizer que o homem pode ser diferente. Que se abandonarmos a vida reativa, a ação tem chance de prevalecer. Uma tradição como a vossa merece sobreviver se disser de novo, um novo.

A outra escolha? Resignar-se à repetição. Nesse caso, nem com todo esforço migraremos da insignificância ou escaparemos da perplexidade.

A imensa curiosidade (Estadão)

A imensa curiosidade

Paulo Rosenbaum

31 maio 2015 | 14:15

curiosidadeXX

Quando perguntado em seu leito de morte o escritor Leon Bloy respondeu ao amigo

–O que sente?

–Uma imensa curiosidade

Se ninguém voltou de uma situação tão liquida e certa quanto à explosão de uma supernova, a morte e a incerteza acerca da vida depois do fim, continua sendo um enigma perturbador. Não pelos detalhes mórbidos, mas pelas idiossincrasias de cada cultura. Há paraísos naturais e artificiais. Em alguns castidade, em outros, santificada lascívia.

O escritor Leon Bloy, as vésperas, poderia ter se rendido ao ceticismo ou à languidez, mas escolheu a porta aberta. Se você não é médico ou nunca acompanhou uma última expiração, talvez esse relato soe mais abstrato do que de fato é. Nossa cultura exorcizou tanto a morte que, fora os obituários, preferimos ignorar sua onipresença. Esquece-la sob o trago, amando ou numa corrida são medidas quase corriqueiras. Mas nenhum destes álibis resistem ao que essa velha ceifadora tem a nos dizer.

Há duas saídas: fazer ouvidos moucos ou prestar mais atenção à nossa senhora, a brevidade. Isso não significa, ainda que totalmente plausível, aceitar a correspondência entre a brevidade da vida e a irrelevância.

Destarte, o que mais chama a atenção na frase de Bloy é menos a morte e muito mais sua extraordinária atitude, comprimida na palavra curiosidade. Ela é raridade, desejo de saber, e também fenômeno. O escritor nos instiga para além da palavra: e se fôssemos mais curiosos para além da quitação peremptória? E se conservássemos a naturalidade lúdica da infância? E se, com ela, espantássemos a monotonia das constâncias? Como se precisássemos dela para nos arrepiar. Das pequenas às medianas circunstâncias da vida somos viciados no imprevisível.

Podemos negar, mas ninguém aspira rotina. E o que é curiosidade senão abrir-se ao contra intuitivo? Nossa urgência é com a passagem do tempo, mas, curiosamente, nossa esperança vem do inesperado.

Desta perspectiva, abelhudo passa a ser virtuose. Ninguém espere o indulto para chegar à indiscrição. Mas e se a bisbilhotice se tornar necessária?  É provável que nosso mais inconfesso leitmotiv esteja colado à nossa última perquirição. Pois é a sede insaciável que se opõe à indiferença.  É o levantar das orelhas que enfrenta o desdém. É o tange-foles que se insurge contra a repetição. O curioso busca o excepcional. A investigação, o encontro com o surpreendente. E o ávido espera por um novíssimo. Anotem as últimos dizeres de uma pessoa, elas podem ser um assombro, ou o espetáculo que as palavras não descrevem.

Talvez seja só um instinto adormecido: já que, como denunciou Hamlet, nunca ninguém voltou, buscamos a perplexidade como uma redução de dano frente ao silêncio comedido do universo.

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Pode acontecer hoje (Estadão)

Pode acontecer hoje

Paulo Rosenbaum

06 agosto 2015 | 11:21

forçasXXX

Neutralizem-nos. Desfazer é a palavra. A concessão ao ódio, pueril. A profusão sentimental, irreflexiva. Justiça instantânea, perigosa. Destoar da hegemonia é girar, numa outra direção. Evidente, tudo pode mudar. Uma revolução pode operar no silêncio. A política é lábil, mutante, ciclotímica. Distorçam-na como arte ou torçam nas arenas. Aprender a esquecer como convém aos pactos datados. Vivemos numa não ficção. Um vento não remove um Estado. Mas também não o edifica. O radical limita-se a um vício de informação. O acirramento interessa: para poucos. A ilusão hegemônica está em pé. Não é que o projeto acabou, foi adiado. Rejeitam a ideia de que o mundo não é um menu acabado. Preferem o manual onde, numa balança infinita, só se ensina dois lados.

Não só pelo 16 de agosto, mas porque nossas ações exigem rumo. Usem a rota b. Ninguém quer golpe, bastaria oposição. Desmonta-la, sempre foi um mal negócio. No jogo democrático oposição é vital. Respeitada e respeitável, ela, quando vigora, exerce poder moderador. Se assim fosse, renuncias, afastamento e outras tribulações não seriam traumas. Uma República deveria ser o conjunto das instituições. Sem reunificação (aceitemos o desacordo), sem conluio, (assumamos as disputas) apenas alguma circunscrição da desforra. Comutem por um outro estar. Mudem as flores por vasos mais enxutos. Na vigília digital não há esperança de sono ou coesão. “Contamos com vosso sonambulismo”, eles vêm nos pedindo. Mas, em nossas realidades, não há indício de respiro. Não te falaram que as urbes tirariam todo nosso fôlego? Que a rarefação do poder estava garantida? A confusão, sortida? Era verdade, mas ninguém varou a noite para avaliar.

O jogo democrático não é  exatamente negócio de lobistas. O jogo pode não ser equânime, justo ou coerente, precisa ser pacífico. Exige renuncia à brutalidade, desvio do confronto e, elegância mínima. É que as lutas se despistam nas guerras. Se te convencerem de um destino bomba, não será esquerda ou direita. Que se prolonguem as vidas dos homens sensíveis. Mas que não te assombrem. Nem nos sacrifiquem na idolatria do culto personalista. Dirijam irritações contra a milionésima parte dos abusos. Dos desmandos aos comandos. Adensem os artefatos até se transformarem em palavras. Afiem a civilização. A Pátria seria educadora se comovesse alguém. Nunca é tarde. Mas, a certa altura, perdemos a razão, junto com o sentimento. Rumo ao fundo dizem. Até que a sangria não coagule. Até que os autores meçam-se por cãibras. Até que os analistas mexam nos roteiros que filtram. Até que a Nação seja um cárcere sem fronteiras. A cadeia deveria ser para ninguém. Nem as aberrações das leis, feltro para justificar o arbítrio.

Que ninguém se engane. Os intelectuais podem estar silenciosos mas os poetas não desapareceram. Guardam a visibilidade oscilante. No parapeito de cada surto. No limite do susto. Nas paginas anuladas, borradas de insultos. Nas impressões foscas. Na fuga das rimas. No êxodo do cuidado. Na contagem regressiva dos soluços. Não foi ainda ontem que mudamos tudo? E as unhas de quem sofria encobriam o ruído de quem comia?  Até o fim do dia. Abandonar a surdez para enxergar todos os outros. Enquanto isso, vaga uma meia lua constrita pelo excesso de olhares. Ela não inibe a dor, nem os sonhos. É que o milagre opera na surpresa. Desce ao simples. Pode acontecer hoje.

Quem radicalizou foi o poder (Estadão)

Quem radicalizou foi o poder

Paulo Rosenbaum

16 agosto 2015 | 12:58

 Ladocerto

Nunca houve como saber de antemão. Foi em paz. Qual será o lado certo da história? Uma máxima precisa ser considerada: a obediência à tirania é uma modalidade de golpe. Democracia não é jogo estático. Se não existem lobos, tampouco ovelhas. A quem interessa a aversão, a repulsa e a generalização? A turma da bala sempre esteve distribuída uniformemente, mas entre nós, graças a uma estranha tolerância, não se fortaleceu como maioria.

Ontem, nenhuma mídia televisiva mostrou os preparativos para a marcha. Por que? Assinantes ou não. Telespectadores engajados ou não. O direito à informação é vital para a democracia. Foi só através deste direito que ficamos sabendo de tudo que estava, e está, sendo urdido. Por isso, uma marcha pacífica precisa ser respeitada e protegida. Hoje arriscam flashes, tímidos.

Faz parte desta mesma democracia, acordos, contas desesperadas, conchavos de última hora, mas e se os bastidores retiverem segredos dolosos à República? E se a sociedade estiver sendo alijada de um processo no qual ela é a protagonista principal? E se as leis passarem a proteger o direito de quem quer caçar os direitos? E se a mordaça aprisionar a liberdade de pensamento e de expressão?

A legitimidade através do voto é uma presunção de legalidade. Ela se auto justifica sob a vigência plena da constituição e do Estado de Direito.  As regras são estáveis enquanto houver mecanismos para corrigir a injustiça do arbítrio e instâncias às quais recorrer. Em completo isolamento, o poder mingua nas ruas, e suspira sitiado em eventos encapsulados. A governabilidade é fruto da confiabilidade. Sequestrada pela fisiologismo terminal, agora agoniza na paralisia e nos acertos suspeitos: quem radicalizou foi o poder.

Há quem queira distorcer a índole pacífica de um dia como hoje. Neste caso, a virulência está nas mãos e nas penas de gente que insiste em desqualificar os 93% que discordam da atuação do regime. Têm todo direito em desqualificar, mas ao indicar o termo “golpista”, estão avalizando o sentido oposto. A história costuma ser rigorosa com panfletários chapa branca, mas ela será ainda mais avessa aqueles que apostarem na manutenção do status quo.

Fração ideal (Estadão)

 Fração ideal

Paulo Rosenbaum

04 setembro 2015 | 12:04

O Jogo

Não é só imaginação ou interpretação. Devemos estar vivendo uma das eras mais idiossincráticas desde a segunda guerra mundial. São tantas peculiaridades e tantas arestas para aparar que — entre melindres e chiliques — preciso te dizer, senhor, deu para pressentir a nervura do subsolo. Só uma visão estoica do mundo pode nos apartar dos textos inflamados, manchetes e chamadas. De que outro modo escapar da obtusidade do politicamente correto? É que o consenso sempre foi senso comum disfarçado de diálogo. Por isso, tanta gente interessada em manter esquerda e direita, nós e eles, bons e maus. Quer coisa melhor que um maniqueísmozinho para ocultar a complexidade? Quer solução mais caseira de garfar a subjetividade e, em seu lugar, colocar estabilizante de humor ou reduzir tudo ao “jeito certo” e “jeito errado” de olhar o mundo?  O exagero sempre foi um recurso didático. Improvável? Pois acompanhem: o reino jurídico sempre será frustrante e como só a justiça traria paz, esqueçam paz, equanimidade, isonomia, meio termo, equilíbrio, caminho do meio. Tudo desceu à obliquidade. Déspotas locais e déspotas internacionais encontraram a fórmula mágica para se livrar das responsabilidades: populismo baseado em nonsense. Avanços sucumbiram à desorganização do Estado.  E por que persistimos? Por que não nos damos por vencidos? Que força misteriosa é essa que nos faz prosseguir em marcha? Numa vigília automática. Num antagonismo assombroso ao uníssono. O que nos faz imaginar que o calejamento, enfim, amolecerá o mundo? Como pudemos sonhar com tanta liberdade? Só encontro uma resposta: é a idealização que nos mata. É que, para além da interpretação, mas antes da perfeição, há um mundo, maior, mais vasto e não limitado às acareações silenciosas. Há um atmosfera onde ninguém precisa compartilhar o ar viciado dos bastidores. Há um campo, livre e limpo, das ideias claras e distintas que pode nos devolver a respiração, ainda que curta. E se você é como eu, e resiste em aceitar que o milagre é possível, não será preciso ir muito longe. Estarmos aqui e agora não prova tudo, mas diz muito. Se somos apenas uma fração do ideal, é por isso mesmo que estamos ligeiramente adaptados ao mundo das imperfeições, e, quem sabe aptos à mutação benévola. Que seja em breve, ainda nossos dias!

O último baile da pedalada fiscal (Estadão)

O último baile da pedalada fiscal.

Paulo Rosenbaum

04 janeiro 2016 | 22:06

 

De longe o Brasil ainda incrementa sua potencia como País de futuro. Futuro do pretérito. Enquanto a maior parte das nações se preocupa em oferecer bem estar aos seus cidadãos — sem idealizações, abundam corruptelas — nosso staff ocupa-se com o que? Doutrinas inúteis, dogmas obsoletos e teorias comprovadamente insustentáveis ecoadas pelo anacronismo militante de boa parte do establishment intelectual. Endosso, que vai se tornando cada vez mais ilegítimo, pois alienado da realidade do País. Mas, de longe, do bem distante, do incomodo ostracismo que voluntaria ou involuntariamente alguém escolhe esconder-se, ficamos cada vez mais sem graça. Perdemo-la especialmente quando, ao nos ver, os habitantes de outras fronteiras abrem os braços para nos perguntar:

—O que aconteceu com vocês?

Resta oferecer os braços de volta, com a expressão precária de que também nós fomos rebaixados à ignorância. Isso remete a uma  trajetória pessoal, quando, durante a ditadura, a família foi “aconselhada” a abandonar o País. Hoje, é outra a natureza do exílio. Quem lutou pela democracia não pode se conformar com o saldo das três últimas gestões desse governo. As anteriores tiveram lá suas mazelas, mas não existe espaço para que alguém ouse compara-las. Tentativas não faltaram, o que faltou foi estabelecer alguma equivalência moral entre as gestões. E qual a diferença essencial? O embate foi habilmente deslocado para conservadores e progressistas. Mero disfarce. O matiz populista é o que fez toda diferença. Essa, a parte óbvia. O que não é evidente, e portanto raramente explicitada, é a inclinação hegemônica do projeto de poder. Negada pelo grupo e subestimada pela oposição e outros analistas políticos, ela avança a despeito de todas as evidências comprometedoras que a envolvem. Não é exaltada porque é exercida numa opacidade à prova de balas. Inspirada num modelo muito próprio, decerto nem chavista nem peronista, trata-se de uma espécie de mutação da malandragem política, um mix de maracutaia baseada em slogans, voluntarismo personalista e narrativas grandiloquentes.

Identifica-se aqueles que escolheram a omissão ou a conivência para “conservar imaculada a coerência”. E quanto aos demais? Continuarão a aceitar o papel de vitimas? A filosofia dominante tornou-se insuficiente, ou comprometida demais, tanto faz, para analisar a gravidade da situação. Que vai muito além da econômica e social. É da natureza da culpa achar que, para fazer alguma frente à injustiça social e aos males do mundo, somos obrigados a aceitar o preço da tragédia. Socializar o atraso não é mesmo tarefa simples. É preciso ir até o fim, forçar o fundo do poço, esquecer qualquer forma de renúncia, desarrumar o que entrava nos eixos e, acima de tudo, ter convicção para forçar teses mitômanas. E ai passar a operar por um lado, como se o milagre fosse auto evidente, e, do outro, culpar a outra metade para imortalizar o conflito encomendado. Vale dizer, a conflagração subsidiada.

Tudo não passaria de especulação se as pessoas não estivessem sendo afetadas pela patologia estoica que acomete a chefe do executivo. Ela e seu grupo,  convictos da predestinação, passam ao largo da opinião pública e, guiados pela improviso, impõem a agenda inepta. E, já que o exílio prolongado perturba a lucidez do exilado, nestes penúltimos dias, o balanço merece a amplitude do otimismo: se dependedessemos das noticias para sobreviver já estaríamos liquidados. Para nossa sorte, a realidade costuma surpreender. O último baile da pedalada fiscal é indício de fim de ciclo. E como o ano, tudo que muda merece comemoração.

http://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/o-ultimo-baile-da-pedalada-fiscal/

Teatro do Opressor (Estadão)

Teatro do opressor

Paulo Rosenbaum

07 fevereiro 2016 | 14:35

OpressãoXXX

Indique-me um, apenas um. Alguém que enxerga com clareza. Que distingue o rigor do emaranhado. Que não foi cego pelo excesso de interpretações. Quem se exaspera em uma democracia? Aqueles que governam? Quem fala tua língua? Quem ilude a montante? O jogo de cena chegou ao fim do tablado. Agora teremos que aceitar, de qualquer forma assumir: estamos rigorosamente sós. Sós, não porque não haja mais gente com a mesma sensação. Não porque estamos no mesmo espaço e sob o mesmo desamparo.  Sós, porque nossos dias estão sendo gastos num horizonte avessos à fusão. No planalto sem relevo. Na rota costurada por quem não se importa. Se as instituições subsistem é à nossa revelia. Se nunca nos arrependêssemos seria nosso dever e obrigação, perguntar: como deixamos chegar a este ponto? O silencio indica uma sociedade sem audição. Rendida ao berro crônico. Pois o recesso não é mais do parlamento, o clima é de cancelamento geral. Fomos apresentados para um outro carnaval. Não queremos mais ouvir, decerto nem ver. O que será que nos paralisou? Estreitamento, mesmo os mais entusiastas podem precisar conceder. A pátria, postergacionista, induziu alienação, revolta e submissão. Por isso não se enxerga mais meio do caminho. Qualquer trilha é precária, derrapante e insegura. As clareiras, rondam brasas. Os atalhos, tomados pelo reducionismo típico. Na performance do governo, a instalação provisória. Nós, civis amadores, gente que até esteve confiante, quer vencesse um ou outro, pouco importa, perdedor ou ganhador, iriam ambos, em nossa imperdoável ingenuidade, nos assegurar a vida. Mas a República, recém dilacerada, foi entregue à legião de anti ourives. Regressamos ao beco, de onde nunca pudermos sair. Uma quadra atacada pelos vícios da violência. Cercada pelo império do descuido. Sitiada pelos maestros do descompasso com seu orgulho sem sentido. Podemos ter falhado, decerto capitulamos impotentes frente à estupidez. Sem dúvida, alimentamos a anomia com nossa mania por desmentidos. “Não, eles não fariam isso”. “De forma alguma ousariam”. “São alarmismos, invenções e disparates, ninguém subjugaria todo o Estado”. Pois é por isso mesmo que persiste a esperança. O paradoxo não poderia ser mais brutal. Na aceleração de um blackout moral e no empuxo de um abandono sem precedentes, uma forma toma corpo. Sem nome e sem passado a responsabilidade pessoal, irrigada pelo colapso, pleiteia espaço inédito. Em meio aos disparates e às buzinas acabaremos reencontrando a voz que sufocáramos. Uma resposta aos enganos. Aprendizado doloroso, ética parece discurso desqualificador. Será portanto um carnaval único, reconstituído a partir da incompletude das cinzas. O trajeto não será longo, na verdade, seguirá breve. Da paralisia à alegria, o bloco partirá rumo ao desconhecido. Se alguém ainda se preocupa com os solavancos basta levantar do trem para enxergar o que já deixamos para trás. É pouco provável que alguém se arrependa. E, mesmo que sim, o destino, que não costuma ser revisionista, decretará o recomeço. Trilhos não faltam.

O dever de desobedecer (Estadão)

O dever de desobedecer

Paulo Rosenbaum

25 fevereiro 2016 | 01:01

Podemos dizer que estamos sujeitos. No sentido da sujeição, imposição, vale dizer, estamos à revelia da cidadania. Não acho que se deva comemorar prisões, mas quando se trata deste mercador de ilusões, que através dos truques de marketing, astúcia predadora e conselhos perversos nos enfiou nessa enrascada, a justiça propicia alguma atmosfera de paz efêmera. No entanto, o maior delito não é bem aquele pelo qual ele e seus amigos estão sendo citados. O elemento mais sinistro deste magnífico crime foi usar sua capacidade para promover um estelionato transnacional, provavelmente sem precedentes na história política moderna. A criatividade pode sim ser maligna. Isso se encaixa perfeitamente no espírito de ausência que se espalhou pela sociedade de forma generalizada. A gravidade da situação onde o subsolo do País cede sem que ninguém pareça se alarmar, merece ser mensurada. Testemunhamos a indiferença. As catarses ainda consentidas pelo poder como a indignação virtual — entre apitos, panelas e hostilização pública selvagem — simplesmente não mexem com a estrutura modelada pelo erro, que continua relativamente intacta. Trata-se de um estoicismo induzido pela reiteração, pelo convicta prática de excedente de transgressões. Ou quem ainda não sabe que o Mensalão coexistiu com a Petrolão, que atua simultaneamente com os desvios dos Fundos de Pensão, que coincide com os empréstimos suspeitos do BNDES, que opera junto com os repasses fantasmagóricos para as ditaduras amigas.

Admita-se que o que os move é incompreensível para nós. Nós que achamos que usurpar o poder é bem mais grave do que ilícitos comuns. Nós que poderíamos até aceitar justificativas, jamais o cinismo. Nós que esperávamos zelo com o bem estar e com a coisa pública. Nenhuma política é feita por santos e rejeitar o moralismo puritano é tão importante quanto resistir ao Estado gangster. Mesmo porque a corrupção justifica o Estado policial, que justifica o poder que corrompe. Porém, enquanto estamos aqui discutindo a engrenagem que garantiu ao Partido o controle do Estado e de suas instituições, as verbas oriundas dos desvios continuaram a fluir e a subsidiar o projeto.

Regaram eleições, caprichos pessoais e pagaram apoios. Simplesmente ainda não estamos totalmente conscientes da temporalidade desse processo. Não é passado. Isso os coloca hoje, agora, neste instante, em pleno controle de praticamente todas as instâncias cívicas públicas, da cultura às mídias. No planalto viciado não há espaço para outros, o sol é um oligopólio para alinhados, uma matinê entre amigos, com ingresso grátis para todos afinados com o desejo de hegemonia. Como pode uma democracia se defender se os mecanismos que a salvaguardam estão nitidamente obstaculizados? A divisão não está mais entre democracia instável e autoritarismo, mas, com a independência dos poderes comprometida, a escolha se restringirá entre instabilidade passageira e anomia prolongada. Trair a sociedade não é mais um escândalo. Na incrível ausência patológica de auto critica, na positividade dogmática, na nostalgia de uma revolução que nunca procedeu, os defensores deste governo escolhem morte à capitulação. Sobreviver a ruína requer deixar-se levar pela queda: ainda que se sabia que preveniria fraturas graves, cair sem resistir é uma arte pouco frequentada. Muitos tentam compreender este fenômeno, mas suas raízes já excederam a racionalidade. O esforço poderia nos remeter ao campo da psicopatologia, mas nem esta consegue amparar uma tese sólida quando se trata da devoção com que os enganos são cultuados por aqui. Para eles admitir erros parece significar a derrocada da existência. Sacrificar a República no lugar de assumir a inépcia para governar pode ter se transformado num desporto, praticado ao ar livre, na delinquência solitária de um palácio, ou até mesmo dentro de uma cela. Podemos até arcar com as custas, mas o preço da liberdade deles não consegue mais garantir submissão. É quando desobedecer passa a ser dever.