• Uma entrevista sobre Verdades e Solos
  • Resenha de “Céu Subterrâneo” no Jornal da USP
  • A verdade lançada ao solo, de Paulo Rosenbaum. Rio de Janeiro: Editora Record, 2010. Por Regina Igel / University of Maryland, College Park
  • Resenha de “Céu Subterrâneo” por Reuven Faingold (Estadão)
  • Escritor de deserto – Céu Subterrâneo (Estadão)
  • A inconcebível Jerusalém (Estadão)
  • O midrash brasileiro “Céu subterrâneo”[1], o sefer de “A Verdade ao Solo” e o reino das diáforas de “A Pele que nos Divide”.(Blog Estadão)

Paulo Rosenbaum

~ Escritor e Médico Writer and physician

Paulo Rosenbaum

Arquivos do Autor: Paulo Rosenbaum

A falsa hermenêuticado jornalismo instrumental (Estadão)

14 domingo abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Como se não bastasse o excesso de realidade nos empurrando ao beco, surgiram, nos últimos dias nas redes sociais e fora dela textos que se superaram em matéria distorção. É perturbadora o volume de desonestidade intelectual a serviço das causas. As peças mais recentes migraram às mídias jornalísticas com uma matéria publicada na FSP onde se traçava paralelos (sic) entre a política migratória norte americana e a estratégia nazista conhecida como “solução final”.

Esta e outras obras primas da política comparada tem aparecido com inédita abundância. Sob o generalizado pretexto de classificação falso  ou verdadeiro, empunhando a expressão “fake news”, os lados se acusam simultânemente. O resultado é a péssima qualidade da informação e o jornalismo a desserviço dos leitores. Se por um lado com esforço e honestidade é possível diagnósticar falsas notícias é muito mais complicado — mas a verdadeira tarefa do jornalismo imparcial e independente — detectar a falsa hermenêutica. Mais sutil, mais ardilosa e muito mais elaborada ela pode confundir e passar a impressão que é uma verdade sob a famosa expressão “contra fatos não há argumentos”. Porém eles existem e dependem como os fatos e as metáforas que se criam ao redor deles são expostas. Existem regras para interpretar realidade e texto e aboli-las não podem servir de álibi para afirmar o implausível. Tais regras existem desde a apreciação de uma obra de arte até um texto científico. A liberdade de expressão não pode contemplar a narrativa embuste sem contesta-la.

O problema, ainda sem um diagnóstico satisfatório deve estar bem em outro lugar: na pretensa aceitação da diversidade. No pseudo acolhimento do contraditório. Já descobrimos que o famoso adágio “contra-hegemonico” visaria, ao fim e ao cabo, execrar todo aquele que se recuse a fazer generalizações reducionistas para endossar o senso comum. Quem quebrar essa regra de ouro do jornalismo instrumental corre o risco de condenação pública. Fui obrigado a constatar em outro panfleto este gênero de insinuação. O redator afirmava que duvidar da estratégia de manipulação midiática — sobre como a mídia tratou o episódio dos abrigos infantis nos EUA — poderia merecer o titulo de “capo” (figura sinistra, relacionada aos outros presos que ajudavam/colaboravam com os nazistas nos campos de concentração). Acusar o outro de nazista, além de tese ignominiosa e uma analogia repugnante, é a inflexão grotesca que adota o discurso intolerante contra o qual pretensamente se insurgiu.

A comparação entre o holocausto e seus desdobramentos com o endurecimento da política imigratória dos países, por mais cruéis ou repugnantes que aparentem ser, enseja uma espécie de cinismo involuntário. O cinismo torna-se mais grave e menos involuntário na medida em que os argumentos evocam um moralismo supremacista. A comparação entre a política de exterminio nazista que criou o maior drama da civilização ocidental patrocinando 1.5 milhão de infanticídios com o grave problema dos shelters (abrigos) infantis de crianças separadas de seus pais nos EUA  não é só um exagero, não se trata apenas de um contraste hiperbólico, nao se limitou a lançar mão de superlativos inocentes: é uma fraude jornalística.

É, sobretudo, uma interpretação superficial, uma demonstração de distorção e imperícia para analisar os fatos históricos.
E quem será que a patrocina a distorção sistemática?

Fazer um paralelo moral destes requer a coragem de se expôr à estultice. Enxergo dois propósitos na divulgação desta pseudo tese: banalizar o holocausto como fazem sem igual a imprensa iraniana, os racistas do BDS, os jihadistas e terroristas palestinos e as Ongs ligadas aos financiadores da extrema esquerda, aos regimes judeofóbicos de extrema direita, ou a uma ingenuidade limítrofe que deve ser acolhida com piedade e condescendência, mas furiosamente combatida com mais informações. Uma pena que quem deveria fazer este trabalho é quem mais o impulsiona.

Quando a mídia deixa de ser analítica e torna-se jornalismo instrumental a favor ou contra uma causa, perde a função jornalística para tornar-se mero apêndice ideológico do regime ou proposta política/partidária defendida. Testemunhamos isso muito recentemente no discurso vitmizador do petismo e aliados.

Enquanto toda essa discussão se desenrola o músico racista Roger Waters — classificado pelo prefeito da cidade como persona non grata — faz show em Munique com projeções e incitamento à demonização dos judeus, e sob o manto do veto à islamofobia, os jihadistas europeus gozam de progressiva liberdade para oprimir as maiorias.

Eis uma época na qual precisavamos encontrar expressões fortes e sintéticas para expor nossa desolação: Céus. https://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/a-falsa-hermeneutica-do-jornalismo-instrumental/

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Perguntas hermenêuticas (Estadão)

14 domingo abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Sonhei que estava no mundo bizarro e o Supremo era só uma vara de pequenos casos. Lá era permitido que um leigo como eu fizesse perguntas mesmo que fossem muito impertinentes.  

Lancei a primeira

— O respeito à hierarquia jurídica é religioso?

Eu ouvia uma música e um coro de fundo e achei que a turma estava vendo o jogo: “O campeão voltou, o campeão voltou eeeee o campeão voltou, o campeão voltou”

Achei bizarro para um ambiente que deveria ser formal, mas recorri ao meu espirito condescendente, afinal Copa é Copa.

Quando fui insistir em mais perguntas veio um múrmurio arrogante e mal humorado, eu tentei amenizar pois senti que poderia sair de lá com um processo de bobeira:

–É que eu sempre achei que a justiça fosse uma ciência baseada na hermenêutica.

Um deles, parecia funcionário de carreira, me atirou um formulário em seis vias

— Preencha e deixe suas perguntas por escrito, nosso prazo de resposta para respostas não partidárias é de até 14 anos.

Sem muitas opções, preenchi todo os formulários e com a convicção de confiança de que podemos todos confiar no sistema fiz as seguintes perguntas, esperando que meus netos recebessem as respostas no devido prazo legal:

Perguntas hermenêuticas 1:

Se as leis são elaboradas por infratores das leis, qual seria o alcance e a legitimidade destas leis?

Perguntas hermenêuticas 2

Se a interpretação da constituição está sendo feita de acordo com um juizo baseado em uma ideologia política apriorística, onde entra o papel hermenêutico do tribunal?

Perguntas hermenêuticas 3

Se um tribunal da alta corte abdica de sua função de interpretar a constituição, e se é ela a “guardiã dos direitos fundamentais do cidadão” para que e a quem serve este tribunal?

Perguntas hermenêuticas 4

A grande maioria das leis promulgadas não são respeitadas. O parlamento é uma usina de leis. Consulto se não seria o caso de proibir qualquer nova lei até que as vigentes fossem cumpridas?

Perguntas hermenêuticas 5
A carta constitucional alega que o legislador foi empossado para aperfeiçoar o País e criar melhores condições para nós, o povo. Se isto não acontece estamos diante do artigo “desvio de função”?

Perguntas hermenêuticas 6
Quem a PGR procura?
A OAB está em ordem?
A CGU está controlando?

Perguntas hermenêuticas 7

Tivemos todo esse este trabalho foi só para substituir a ditadura por monocratismo jurídico?

Perguntas hermenêuticas (última)
Quem interpreta o interpretador?

https://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/perguntas-hermeneuticas/

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In Dubio Pro Societate (Estadão)

14 domingo abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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O velho e esquecido adágio do direito “In dubio pro societate” (na tradução livre : em caso de dúvida, favoreça a sociedade) me foi recitado por Marina, minha estudiosa filha, academica do curso de Direito. Isso significa que, na dúvida, o Estado deve agir e decidir em prol do conjunto. As instituições que se batem para despistar as regras constitucionais, precisam recuperar a tradição. E, se fossemos escolher só uma, entre as milhares da hermeneutica jurídica, esta seria a eleita.

O País vai parando. Escolhe suspender-se em função de eleições temerárias. Não há mais festa democrática. O entusiasmo, substituído por aflição. Sob o eco de moedas em derretimento todos olham para o mesmo ponto. Cego, sob um céu, sempre postergado. Um mundo vindouro onde a perspectiva do bolo que cresceria para ser dividido, parece cada vez mais inviável. Trata-se de doce indivisível. Eis o maná vindouro, aquele que não descerá tão cedo. E é desta abstração, deste crônico e recorrente engano que vivemos nos plagiando com a mesmíssima história. E por que não espalha-la como boato ou notícia verdadeira por mais um dia? Não é no que acreditamos? Num futuro circular. Onde o mesmo, faz a mimica do novo. Onde o velho finge alternância. Mas alternância de poder significa rodízio de agentes ou de ideias?

Todo justiceiro social acredita mesmo em sua superioridade moral, é adepto de uma potencia premida. Idealizada. Não pelos esforços, já que a meritocracia foi abandonada, mas por uma divisão de tudo que a sociedade produz. A equidade, dos resultados. Não importa quem você seja, o que você faz, pensa, no que trabalha, habilidades ou dedicação. Esta premissa, falida, a falsa promessa, mancomunada com o que há de pior da manipulação no qual vem se assentando o conceito hodierno de justiça social. A igualdade de oportunidades, migrou ao paradigma de “igualdade de resultados”.

Esta notável deformação decorre tanto de um leitura superficial do manual de marxismo conciso, misturado com a manipulação às avessas do darwnismo social. Como se uma visão política baseada no materialismo instrumental fosse natural. Conjugados, impuseram sobre a sociedade os elementos perversos que a escravizam: para além da corrupção sistêmica e do populismo autocrático: a falta de sentido.  Só pode ter sido estes os elementos que nos levaram à tamanha precariedade.  Onde instituições encontram-se em evidente estado involutivo. Regressão, hoje polarizada entre extremos autocráticos, não declarados inimigos da democracia. Enquanto o marketing político acelera seus enganos bem estudados, o difícil é fazer os cidadãos enxergarem que retrógrado e totalitário representam a mesmíssima coisa. Com sinais e simbolos invertidos.

Lembram-se do caçador de marajás e, em seguida, da pregacão fanática da ética na política? Para não repetir amanhãs de erros antigos precisaríamos de uma crítica mais fecunda, viva. De nada adiantará prosseguir na militância universitária, jornalística, partidária e sectária.  A amnésia. aliás, é a grande aliada da saturação, e, desde sempre, vem conspirando junto com os autocratas do mundo. Esquecer tem sido o grande, senão único, remédio para encobrir os erros políticos. Não será uma educação militar ou cicloativismo anticarros dois extratos do mesmo teor de primitivismo?  Jamais poderiam ser símbolos de campanhas políticas de um Estado. Mas aqui as causas adquirem outro papel. O grotesco é naturalizado como estratégia política e os líderes escolhem sabotar as escolhas mais saudáveis, embora todas estejam contaminadas com a mesma patologia que dominou a vida pública brasileira.

A quase paralisia da economia sob uma avalanche recorde de desempregados no ex-emergente País, diz muito. Fala mais do que gostaríamos de ouvir: o desenvolvimento não deveria estar subjugado –atrelado ao cenário dos discursos políticos. Só resta à sociedade emancipar-se do poder centralizado, cujo desdobramento reforça o culto à personalidade. Muito melhor a consciência da falta de liderança e assumir esta condição, do que submeter-se à acefalia fisiológica. Escolher o proprio destino deixou de ser um detalhe, virou kit de primeiros socorros.  O que sacrificaríamos se a decisão for que o Estado não será, doravante, o centro do mundo?

Que toda dependencia quimica que dele temos nunca foi a solução, mas a cultura mesma onde toda patologia progride? Notem, por exemplo, que a autocracia detesta o sujeito. Despreza o individuo. Massacra o privado. Como se estes fossem os verdadeiros inimigos do coletivo. O erro é tão colossal que tangencia o absurdo.

Só a emancipação conquistada pelo cidadão teria o potencial para abrir o caminho nunca considerado: a real fusão de horizontes, onde as particularidades e idissincrasias serão respeitadas e preservadas.

E, oxalá, nos mostrará como sair da crise voluntariamente gerada pelos anos de aparelhamento e omissão, auxiliados por uma oposição que habilmente promoveu a própria debilidade simulando combates enquanto, no back stage, costurava acordos prévios de impunidade. Ou a omissão de quem deveria se opor ao sequestro do Estado não é um delito tão grave quanto o protagonismo dos espertalhões?

Muitas vezes, a desesperança age como motor, forçando a pulsão destrutiva a exibir-se sem roupas. Mas vai que o choque da nudez nos faça recuperar os sentidos.

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Cremação da Memória (Estadão)

14 domingo abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

≈ Comentários desativados em Cremação da Memória (Estadão)

Museu: chave analógica, reunião-dispersão. Foco, ponto de convergência, gregário. Conservatório, galeria, tesouro.

Fatalidade: Vontade-necessidade. Naõ ter direito à escolha, estar à merce de, só ter uma saída, ser levado `parede, não depender do alvedrio de ninguém, demitir de si a vontade. Os seus dias estão contados, O que for, soará. Isto é dos livros.

Não irei escrever — o que os competentes articulistas especializados decerto farão — sobre as 20 milhões de ítens históricos que evaporaram e subiram como cinzas para o distraído céu hoje paira sobre o rio de janeiro. Nem sobre os esforços de D. Pedro II em arregimentar e zelar pelo patrimônio histórico material e imaterial do País. Também evitarei mencionar os 470 mil volumes os quais, junto com as peças históricas, foram incinerados no altar da amnésia anunciada. Não sobra muito para dizer a não ser reduzir tudo à solenidade do silêncio. Lamentar a falta de dignidade de uma luta invisível que está sendo travada no Brasil. E a luta está, simbolicamente, representada neste incendio.

Começarei invertendo a ordem: não é que há perigo nos museus. É que museus são perigosos. Especialmente quando vivos. Quando longe das mãos sectárias e censoras. Afinal, é lá que a cultura fenece sem sequer ter sido devidamente apreciada. Todo museu é crítico. Nos força rever o que preferimos ignorar. E entender o que preferíamos ter despejado. Nos mapas e livros rasurados pelo inferno das inquisições. Nas fotos que congelavam paisagens que já nem existiam. Em pinturas e esculturas jamais catalogadas, Em múmias que aguardavam o despertar das novas gerações. Em acervos drenados em ralos sem manutenção. Em meteoros gigantes que viajaram anos-luz para vir ter à Terra. Entre fios sem capa. Em mangueiras furadas, em hidrantes vazios.

Hoje, neste dia 02 de setembro, os habitantes atuais e futuros foram privados para sempre de saber o que os antecedeu. Quem já não escutou o desafio dos eternos neófitos: para que o passado?  Os beócios ocultos que aparecem durante as votações. Afinal o que significa um museu quando existem outras prioridades?

Mas, e se memória for o único bem político real? E se sua preservação assegurasse que os erros antigos fossem cada vez menos frequentes? E se a história, representada pelos objetos que hoje se extraviaram no descaso do infinito, fossem a única lição significativa? Aquela que permanece a despeito da tentativas de sufoca-la? A única reminiscência que fica das aulas que os relógios ainda contam? Como pudemos permitir que o tempo fosse invadido por aqueles que se acostumaram a negar a história? E da história que insiste em ser desconsiderada por aqueles que preferem ignora-la? Ou, soterra-la nos escombros do prgamatismo. Já se perguntaram o que querem eles? Sim, pois eles continuam a desfilar o discurso sem conteúdo, a narrativa que todos nós já conhecemos na tortura diária em rádio e Tv. Para além do que se convencionou-se chamar “horário eleitorial gratuito para políticos”, um verdadeiro ônus para todos os demais. É que a conspiração não deixa de existir só porque parece urdir paranoias. E, em geral, mimetiza a palavra mágica sacada pelos legisladores em ocasiões como essa: fatalidade.

Claro: Fatalidade prevista. Fatalidade profetizada. Fatalidade recheada de prenúncios. Como a incêndio da Boite Kiss. Como as passarelas que desabam, viadutos que desmancham, enchentes que arrastam, barragens que estouram, edifícios que desmoronam, violência ampla geral e irrestrita que não cede, como as filas de pacientes sem leito empilhados nos corredores, como os impostos financiando regalias e tribunais que alimentam a insegurança jurídica com bônus especulativo.

Decerto, todos signos da mesmíssima fatalidade. Desta fatalidade que não é muito mais fatalidade do que não poder prever o óbvio. Fatalidade que surge no improviso e no despreparo. Da imperícia de agentes que, públicos, não sabem o valor daquilo pelo qual deveriam zelar. De gente, que prefere que o esquecimento vença o conhecimento. O simbólico do atraso é precisamente escolher a borracha para corrigir o que foi grafado pelas tintas acusatórias do passado. Um passado que, mais do que nunca, reafirmaria a verdade em suas múltiplas perspectivas dialógicas. Os museus são particularmente perigosos para os autocratas. Pois eles são, afinal, o conjunto de um inventário do que já fizemos. Eles guardam o que produzimos e as lacunas que ainda precisavam ser preenchidas. Que para cada museu interditado, destruído ou queimado faça surgir, em cada esquina, um museu de ressarcimento.

Quiça o luto de acervo, que a cremação da memória sirva para refazer o vazio. E funcione como inusitado fator de união.

Altamente improvável, mas como o filósofo um dia deixou grafado “só o improvável tem alguma chance de ser possível”.

https://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/cremacao-da-memoria/

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Cremação da Memória (Estadão)

14 domingo abr 2019

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Museu: chave analógica, reunião-dispersão. Foco, ponto de convergência, gregário. Conservatório, galeria, tesouro.

Fatalidade: Vontade-necessidade. Naõ ter direito à escolha, estar à merce de, só ter uma saída, ser levado `parede, não depender do alvedrio de ninguém, demitir de si a vontade. Os seus dias estão contados, O que for, soará. Isto é dos livros.

Não irei escrever — o que os competentes articulistas especializados decerto farão — sobre as 20 milhões de ítens históricos que evaporaram e subiram como cinzas para o distraído céu hoje paira sobre o rio de janeiro. Nem sobre os esforços de D. Pedro II em arregimentar e zelar pelo patrimônio histórico material e imaterial do País. Também evitarei mencionar os 470 mil volumes os quais, junto com as peças históricas, foram incinerados no altar da amnésia anunciada. Não sobra muito para dizer a não ser reduzir tudo à solenidade do silêncio. Lamentar a falta de dignidade de uma luta invisível que está sendo travada no Brasil. E a luta está, simbolicamente, representada neste incendio.

Começarei invertendo a ordem: não é que há perigo nos museus. É que museus são perigosos. Especialmente quando vivos. Quando longe das mãos sectárias e censoras. Afinal, é lá que a cultura fenece sem sequer ter sido devidamente apreciada. Todo museu é crítico. Nos força rever o que preferimos ignorar. E entender o que preferíamos ter despejado. Nos mapas e livros rasurados pelo inferno das inquisições. Nas fotos que congelavam paisagens que já nem existiam. Em pinturas e esculturas jamais catalogadas, Em múmias que aguardavam o despertar das novas gerações. Em acervos drenados em ralos sem manutenção. Em meteoros gigantes que viajaram anos-luz para vir ter à Terra. Entre fios sem capa. Em mangueiras furadas, em hidrantes vazios.

Hoje, neste dia 02 de setembro, os habitantes atuais e futuros foram privados para sempre de saber o que os antecedeu. Quem já não escutou o desafio dos eternos neófitos: para que o passado?  Os beócios ocultos que aparecem durante as votações. Afinal o que significa um museu quando existem outras prioridades?

Mas, e se memória for o único bem político real? E se sua preservação assegurasse que os erros antigos fossem cada vez menos frequentes? E se a história, representada pelos objetos que hoje se extraviaram no descaso do infinito, fossem a única lição significativa? Aquela que permanece a despeito da tentativas de sufoca-la? A única reminiscência que fica das aulas que os relógios ainda contam? Como pudemos permitir que o tempo fosse invadido por aqueles que se acostumaram a negar a história? E da história que insiste em ser desconsiderada por aqueles que preferem ignora-la? Ou, soterra-la nos escombros do prgamatismo. Já se perguntaram o que querem eles? Sim, pois eles continuam a desfilar o discurso sem conteúdo, a narrativa que todos nós já conhecemos na tortura diária em rádio e Tv. Para além do que se convencionou-se chamar “horário eleitorial gratuito para políticos”, um verdadeiro ônus para todos os demais. É que a conspiração não deixa de existir só porque parece urdir paranoias. E, em geral, mimetiza a palavra mágica sacada pelos legisladores em ocasiões como essa: fatalidade.

Claro: Fatalidade prevista. Fatalidade profetizada. Fatalidade recheada de prenúncios. Como a incêndio da Boite Kiss. Como as passarelas que desabam, viadutos que desmancham, enchentes que arrastam, barragens que estouram, edifícios que desmoronam, violência ampla geral e irrestrita que não cede, como as filas de pacientes sem leito empilhados nos corredores, como os impostos financiando regalias e tribunais que alimentam a insegurança jurídica com bônus especulativo.

Decerto, todos signos da mesmíssima fatalidade. Desta fatalidade que não é muito mais fatalidade do que não poder prever o óbvio. Fatalidade que surge no improviso e no despreparo. Da imperícia de agentes que, públicos, não sabem o valor daquilo pelo qual deveriam zelar. De gente, que prefere que o esquecimento vença o conhecimento. O simbólico do atraso é precisamente escolher a borracha para corrigir o que foi grafado pelas tintas acusatórias do passado. Um passado que, mais do que nunca, reafirmaria a verdade em suas múltiplas perspectivas dialógicas. Os museus são particularmente perigosos para os autocratas. Pois eles são, afinal, o conjunto de um inventário do que já fizemos. Eles guardam o que produzimos e as lacunas que ainda precisavam ser preenchidas. Que para cada museu interditado, destruído ou queimado faça surgir, em cada esquina, um museu de ressarcimento.

Quiça o luto de acervo, que a cremação da memória sirva para refazer o vazio. E funcione como inusitado fator de união.

Altamente improvável, mas como o filósofo um dia deixou grafado “só o improvável tem alguma chance de ser possível”.

https://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/cremacao-da-memoria/

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Contagem regressiva da Democracia (Estadão)

14 domingo abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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Contagem regressiva da Democracia 

Os populistas nunca saem de moda, mas doravante será preciso escolher entre criminaliza-los ou preservar o sistema democrático.

Mas para esclarecer será preciso um trabalho de dissecção dos cadáveres que estão ainda na mesa. Ou como se diz em epidemiologia de uma autopsia psicológica do atual cardápio eleitoral. Como se fosse possível, recentemente criaram-se mais subdivisões nas subdivisões pré-existentes. Mulheres, judeus, negros, gays contra e a favor. A simples recusa em mencionar o nome dos candidatos (para não não fazer subir suas estatísticas digitais) mostra o caráter regressivo ao qual a sociedade parece esta sendo conduzida. O resultado tem sido um marketing reverso à revelia. Quanto mais se evita nomear mais exposição se obtém para o sujeito oculto.

Ora, nenhuma classe, etnia ou gênero tem homogeneidade minimamente razoável nas suas escolhas políticas. São todos movimentos forjados para  tomar a palavra e monopoliza-la. Procura naturalizar a  assunção de que se fala por muitos quando é apenas um grupo, mesmo que possa vir a ser numeroso.  Divulga-se então a ideia de que os interesses pessoais, partidários e ideológicos podem ser sequestrados para se tornarem porta vozes de uma suposta maioria.  Pois este é, em princípio, um desserviço à democracia. E a sabotagem não termina ai. Com a capacidade de difusão de robos emprestados e contratados com dinheiro público desviado, a capacidade de espalhar intolerância é maior do que a percepção da armadilha ao qual estamos sendo submetidos.

E por que o centro está sendo desativado, vale dizer, estraçalhado pelo voto? Sobre quem deve recair o ônus de ter levado a sociedade a ter que já escolher — em incrível antecipação desesperançosa — entre quem será mais fácil votar contra e derrotar em 2022?  Sim, pois este é a aritimética de uma exaustão que nos trouxe até este momento. Sim, é chegada a hora de apontar para os omissos e toda classe política que nos fez herdar a obscena polarização. O diagnóstico obvio têm apontado para os partidos políticos como um todo. Locupletaram-se nos últimos anos e são os grandes responsáveis, pois sua cooptação — por ideologia ou ambições de poder e censitárias — ocorreu a céu aberto, explicitamente, em plena luz do dia. A mordaça exerceu seu papel emudecedor não pela censura, não pela restrição da liberdade, mas pela via do excesso de denúncias. Se todos são culpados ninguém pode assumir a culpa. não se pode funalizar pessoa ou partido. Trata-se de alta astucia de um jogo ganha-ganha onde quem sempre leva a melhor são os conhecidos predadores, nunca a sociedade.

O culto à personalidade, alimentado pela perspectiva de redenção mítica, foi outra fonte da mazela que agora atinge a todos, indiscriminadamente. Exalçado por entidades religiosas e confirmado como salvador por movimentos sociais regados com dinheiro da casta sindical o culto à personalidade terminou o serviço de descaracterização dos programas partidários. Exterminou o projeto de uma agenda programática como fundamento da política. Desmontou o centro democrático. Além disso, tivemos a fabulosa ajuda de um regime proto-policial que ajudou a construir o perigoso consenso de que a única coisa necessária para ser um Estadista é não ter uma ficha corrida. Nada mais defectivo e falso. O candidado além de probo, deveria ter mostrado sua capacidade de administração, sua experiência em tangenciar temas dificeis, e capacidade intelectual e temperança para opinar, argumentar e contra-argumentar. Nada disso se viu nos candidatos que vieram substituir os presos e os impedidos de se reeleger para nos incomodar com seus repertório de sensos comuns.

O outro fator, talvez este o mais grave foi a negligente perturbadora afasia das instituições. Ninguém prefere explicitar, mas é notório que sistema juridico começou a apresentar falhas gravissimas. Ao usurpar atribuições dos outros poderes sem que as outras instituições lhes fizesse frente, a hipertrofia da toga asfixiou a representividade popular. Foi assim possivel para Roussef e outros constitucionalmente inelegíveis agora tornarem-se presentes nas urnas digitais à prova de balas. Condenados em três instâncias burlarem as normas e se apresentarem como ícones da moralidade pública. Votações reiteradas para julgar nomes e não princípios ou dilemas da constituição. Hermenêuticas seletivas aplicadas ao gosto dos clientes.

Nos últimos dias o quadro tornou-se pesadelo, grave atentado político, ameaça de indulto, agerssão contra jornalistas, insultos destempero e convocação à violência. E na mistura de temas até um ex-ministro, abusando da manipulação e escancarando sua desonestidade intelectual abusou dos termos fascista e nazista. O disparate do membro da comissão da ONU, foi acusar um dos candidatos de “nazista e sionista” equiparando a doutrina do nacional socialismo alemão com o direito dos judeus a retornar a Israel. Do outro lado, a tentação atual é de revisionismo tosco ao propagar que os “nazis” eram bolcheviques travestidos com suásticas (sic)

O estado abusivo com que o sistema político tem tratado os contribuintes e a reiterada malversação do interesse público fecha o quadro de um painel deprimente, onde o desvio de função do Estado é tão absoluto, que sabota a própria razão da existência do próprio governo.  Por fim, mas não menos importante, a semi nulidade da oposição. Reféns do sucesso provisório que era uma fraude: a 5a economia do mundo, decerto, de 10a categoria. O resultado foi previsível, a sedução nos custou caro: vivemos 13 anos sem oposição. Nem a remoção cirurgica e benéfica da ex presidente não pode ser contabilizado a favor desta oposição, já que foi um ato que dependeu basicamente das 10 milhões de pessoas que estiveram nas ruas para amedrontar o establishment e o pressionarem a adiar o caos. Além disso, nas entrelinhas, o impeachment esteve muito perto de obter o aval lulopetista, que já mostrava desaprovação à catastrófica escolha do poste feminino que Luis Ignácio pinçou de algum obscuro rincão burocrático. Tudo isso com o beneplácito de parte da mídia que endossou ou fez a aprovação velada ao projeto de poder. Não são os votos que estão consolidados, é o pathos político que já está bem sucedido e pago.

Temos agora que compreender a provável eleição de um populista das extremas com olhos analíticos. Não haverão surpresas. Já com enfoque preventivista e a preservação da saúde mental prescreveria:

Alienação para os próximos 4 anos.

Estoicismo para os próximos 10.

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A Medicina do Falante (Estadão)

14 domingo abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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A Medicina do Falante

Subestimada pelas investigações epistemológicas, uma das questões centrais da medicina não tem sido objeto de um estudo essencial: no que a medicina é, por exemplo, distinta da ciência veterinária? Quais as diferenças metodológicas de apreensão dos sintomas nas duas especialidades? E a terapêutica? De que forma as indústrias farmacêuticas investigam novas drogas? Qual é a metodologia aplicada para avaliar o efeito das substâncias medicinais nos homens e como compara-las aos testes clínicos conduzidos usando animais?

O velho argumento de que a diferença está na irracionalidade dos animais pode ser facilmente derrubada quando se vai até a origem desta informação. Por um erro de tradução a hipótese do filósofo Aristóteles de que o homem é um animal racional em contraposição aos “animais irracionais” foi mantida por mais de dois milênios.

Este filósofo grego, o primeiro a descrever em detalhes o aparelho fonético, escreveu, em sua obra Historia Animalum que os animais apenas usam outra forma de lógica.  Na axiologia judaica o homem é aquele que veio da terra (adamá = terra), uma alusão à sílica. Destarte, o realmente distintivo entre homens e animais repousa em sua capacidade de falar.  Um dos primeiros registros desta especificidade pode ser encontrado na Bíblia Hebraica.  Ao se referir pela primeira vez ao homem, o texto mosaico da Torá, menciona a palavra “medaber”, o falante.

E o que nos torna falantes?

Não é apenas a presença do aparelho fonador, com a laringe e suas conexões neurológicas, pois a maior parte dos mamíferos superiores compartilha de estruturas análogas. Por exemplo, com um aparelho fonador quase idêntico ao nosso por que é que os chimpanzés não relatam sintomas ao médico veterinário? Os sons que emitem, decerto denotam uma linguagem. Junto com as modificações mímicas e corporais pode ser decodificada. O alfabeto de alguns tipos de aves tem sido objeto de estudiosos dos cientistas que já detectaram dezenas de sons que funcionam como uma comunicação de alta especificidade, que significam por exemplo, evocar acasalamento, alerta de perigo, “palavras” de guerra, pedidos de ajuda por saúde e até reclamar de abandono. Sem esquecer dos ultrassons e mensagens subsônicas que várias espécies de insetos estabelecem em suas relativamente curtas jornadas existenciais.

É no entanto, uma pequena, porém decisiva inclinação da cartilagem crico-laríngea que tem lugar nos meses finais da gestação, o que  permite que a articulação dos sons se transforme em palavras – mudança, que, por exemplo, mesmo a maioria dos mamíferos superiores como os símios não apresentam. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5219873/

Esta particularidade associada à maturidade do sistema neurológico que nos conferiu a capacidade de expressão através da linguagem falada. A peculiaridade é que nos transforma em animais produtores de narrativas. E voltando ao estagirita, para ele, o outro elemento que nos diferencia dos animais, além da linguagem falada, é a capacidade de evocar, por um ato de vontade, a memória. Assim, como seres que se expressam pela fala e que conseguem evocar a memória voluntariamente é que podemos dizer que pertencemos ao reino único dos falantes. Superado o reducionismo vamos agora examinar onde estes conceitos podem impactar a medicina.

Se Hipócrates e o Corpus Hipocraticum, seu legado, inventaram a história clinica e, portanto, a medicina técnica, foi Samuel Hahnemann quem sugeriu – meio século antes de Claude Bernard — uma forma de capturar nos estudos experimentais o resultado da ação dos medicamentos quando as pessoas são a eles expostos.

Mas quais resultados?

Trata-se daquilo que o médico de Lyon, Benoit Mure, introdutor da homeopatia no Brasil,  chamou certa vez de “processo verbal”. Pois é destas narrativas capturadas pelas experimentações de medicamentos sobre o homem são, as chamadas patogenesias, que conseguimos obter as sensações, sintomas e vivências do sujeito. Apesar de Hahnemann ter sido glorificado por outras aspectos de sua capacidade científica e criatividade, sem a qual o cientista é apenas um robô compilador de metanálises, sua descoberta de que seria preciso registrar toda a narrativa vivenciada pelo experimentador – assim como a do paciente – passou quase despercebida. Seu livro Fragmenta de Viribus Sive in Sano Corporis Observatis foi no mínimo, subdimensionado. Pois é este registro — comparar os processos verbais induzidos pelas substâncias medicinais aqueles relatados pelos pacientes — permitiria aproximarmo-nos da exatidão das “ciências matemáticas” conforme Hahnemann escreveu em seu texto “Medicina da Experiência”.

Muitas funções, catárticas e não catárticas entram em operação quando alguém chega para relatar o que sente e como sofre. Esta capacidade de extrair uma história clínica com todos os sintomas, a anamnese, não só não é simples, como desafia o modo como os médicos tem sido ensinados nas escolas médicas, especialmente quando se aplica uma pedagogia hiperpragmática.

A ação sossegadora ou catártica é uma função da fala descrita por Muller-Freienfels (Entralgo, 1950). Trata-se de um tipo de função notificadora, pois na intimidade daquele que notifica há nivelação afetiva e, quiçá, sossego. Conforme Pedro Lain Entralgo apontou, “a elocução adequada tem, sempre, ainda que em quantidades muito variáveis, um efeito catártico.”

Trata-se de aspecto tão importante para o constructo relacional que Entralgo ainda divide catarsis ex ore (produzida pela elocução ativa) e catarsis ex auditu determinada pelo fato de se ouvir adequadamente e conclui, afirmando: “Não é possível construir uma doutrina psicoterápica sem discutir a fundo estas duas formas da catarse verbal.”

E, portanto, qualquer aperfeiçoamento deve decorrer de um treino permanente. Vale dizer, trata-se de um destreino, vale dizer, de uma verdadeira reabilitação semiológica.

Por que?

A pedagogia médica limitou-se a ensinar como se captura os sintomas objetivos, capazes de nos oferecer um quadro diagnóstico plausível da patologia. O propósito é essencial, achar e identificar os sintomas em determinada árvore nosológica para que se possa estabelecer o nome correto da moléstia. Em nossos dias, programas e robôs que já podem substituir médicos nesta tarefa de definir o nome da moléstia. E há quem defenda até terminais onde os médicos prescreveriam de centros à distância, dispensando a clássica “medicina feita à cabeceira do enfermo”. Importante que o leitor note que não se trata de anacrônico saudosismo. Com ou sem o apoio da tecno-ciência o diagnóstico nosológico torna-se, isoladamente, insuficiente para determinar qual a melhor terapêutica quando se trata de uma medicina baseada em sujeitos.

Não me refiro exclusivamente à uma medicina específica. Falo sim da medicina lato sensu. Se a medicina de fato deseja recuperar para si a tradição humanista que foi perdendo — e que é clamada pelas sociedades ao redor do mundo como reação à hipertrofia da biotecnologia aplicada às ciências da saúde, precisa deslocar-se do eixo no qual confortavelmente se instalou. E o resgate começaria com a recuperação da linguagem para elucidar o significado do sofrimento de cada um. É preciso recuperar a perspectiva de captar o patognomônico do sujeito, aquilo que o individualiza.

Há aqueles que argumentam que uma divisão de trabalho foi estabelecida e que a mesma deve ser portanto respeitada. Mente e o corpo separados resolveriam um grande problema epistemológico. Neste caso, psiquiatras seriam responsáveis pela primeira parte e os médicos clínicos se encarregariam do monopólio dos transtornos corporais.

Isso também significa que um médico deve se ocupar do tratamento tendo em vista a especificidade da queixa clínica e da moléstia diagnosticada. Ora, essa observação poderia ser uma saída, se, e somente se não houvesse uma crise entrando pela porta da frente da Medicina. De um lado, o dilema preventivista da epidemiologia e da saúde coletiva nos alertando para os custos excessivos na manutenção dos recursos médicos direcionados para as doenças crônicas já estabelecidas, e, de outro, a extrema insatisfação (questionários e estudos multicêntricos indicam que ela é mundial) com os serviços de saúde mundo afora.

A primeira ministra da Grã Bretanha Thereza May, acaba de designar uma tarefa inédita para a Ministra da Saúde, Jackie Doyle-Price: com um orçamento exclusivo de 1.8 milhao de libras, estudar e estabelecer um plano de ação para a prevenção do suicídio. Só no passado houve um alerta dada a epidemia de 4.500 pessoas que ceifaram a própria vida no Reino Unido. A epidemia de depressão e de distúrbios psíquicos havia sido antecipada 30 anos antes. O relatório da OMS publicado em Geneva em 1988, já previa: a maior parte das buscas por atendimento médico até a metade do século XXI não seria por problemas clínicos físicos, mas por queixas relacionadas aos distúrbios funcionais e um difuso mal estar psíquico. Parafraseando o famoso texto de Sigmund Freud deparamos, mais uma vez, com um evidente mal estar na cultura, e na civilização.

A primeira teoria médica adotada era a tóxica: o veneno que vinha de fora era o principal responsável pelo adoecimento. Pois mesmo num ambiente como o que hora vivemos aqui no Brasil não poder ser descartada a hipótese de que uma peçonha psíquica externa esteja sendo injetada no ar, neste momento exato, através das redes sociais,  no ciberespaço e também fora dele. Nada de novo. O psiquiatra alemão Wilhelm Reich já diagnosticara a existência de uma espécie de peste presente no “éter”. Esta “praga” psíquica foi apelidada de peste emocional e ela é tão ou mais nociva que uma epidemia de peste bubônica, tifo ou febre amarela.

E o que aprendemos com a tradição vitalista? Que a susceptibilidade é o aspecto mais determinante – ainda que não o único — para desencadear o adoecimento. Que a primeira perturbação detectável pela natureza do cérebro e do sistema nervoso central se reflete primeiramente no estado anímico das pessoas. A primeiríssima afecção acontece na disposição física e no estado psíquico e isso é particularmente notável em crianças. Em geral, traduz-se por sensações pouco objetivas e, às vezes, de difícil detecção semiológica.

Dai a semiologia que aprendida em faculdades de medicina e ciências da saúde ser rigorosamente insuficiente para diagnosticar o mal estar sub clinico (illness) que antecede o aparecimento e desenvolvimento da própria moléstia (disease). E é precisamente neste momento que as medicinas integrativas — como uma modalidade de medicina preventiva — poderiam ajudar imensamente as pessoas e impedir a hiper concentração em atendimento terciário em hospitais e clínicas de especialidades. O atendimento de alta complexidade ficaria para a maior parte dos casos agudos e emergências, e assim sobrariam recursos humanos e capacidade para intervir e cuidar das moléstias crônicas.

Outro aspecto crítico que as ciências da saúde deve reconhecer é que apesar da fala e da narrativa se mostrarem como elementos semiológicos pertinentes e úteis existe uma enorme dificuldade para que os clínicos reaprendam a valorizar o que apreendem destas narrativas. Para que saber qual lado do corpo é mais atingido? Qual a finalidade de registrar sonhos? O que significam as sensações fugazes como “sensação de corpo desmanchando” “cabeça leve”, “do meu ouvido direito sai um vento” “a insônia piora depois das 3 horas da madrugada” “dor de cabeça como se alguém estivesse rosqueando um parafuso na testa” “se como chocolate é como se meu rosto desaparecesse” “sinto tontura quando ouço barulhos altos” ou “quando vejo noticiário político minha boca espuma”. Fora este último, todos os outros foram extraídos de narrativas reais, de experimentadores que expuseram seus sintomas a quem conduziu as experimentações. São as chamadas idiossincrasias, aquelas que mais individualizam os problemas clínicos das pessoas.

Estavam inventando? Não. Exageraram? Não importa, pois não existe mentira na clínica. Mesmo se uma criança diga que ela não gosta de peixe e sua mãe, espantada, afirma que quase muito raramente este alimento é oferecido em casa. A aversão ao peixe deve ser levada em consideração, já que a linguagem expressa o imaginário. E ele possui uma realidade em si. Independentemente da checagem dos fatos.

No entanto, estes elementos, aparentemente parasitas, são importantes não somente para fazer valer o poderoso efeito catártico da consulta, mas também para adensar o conhecimento da pessoa enferma. Samuel Hahnemann muito tempo antes do médico alemão  Otto Schwartz em seu “Psicogênese dos sintomas corporais” já fazia as devidas correlações entre as emoções e as perturbações na saúde.

Mas isso valeria, também, para avaliar o contexto do aparecimento dos sintomas. E tudo isso depende de que? Da linguagem, dos sintomas comunicados através da fala. Outro aspecto que precisa ser desenvolvido é investigar melhor como ocorrem as curas. Pesquisadores notaram que a maior parte dos estudos epidemiológicos são destinados a compreender como as doenças surgem e evoluem, mas são bem mais raros investigações científicas que tentam apreender como elas são curadas.

Pesquisadores israelenses estudando curas espontâneas de AIDS, em países africanos, acabaram descobrindo novas substâncias por elucidar aspectos muito peculiares sobre o auto reciclagem do sistema imune frente à agressão de microrganismos.

Por que então a insistência em retomar uma medicina do falante, onde a tecnologia entra apenas como subsidiária, acessória? Porque a necessidade é premente. Porque as pessoas precisam se expressar como se sentem e não apenas serem fonte de pesquisa de sintomas para formação de um diagnóstico.

Portanto, ao chegar neste ponto, precisamos aceitar que a medicina especificamente humana é a medicina do falante. De quem pode expressar a modalidade das suas queixas e sofrimentos, com contexto e características individuais. Eis a provável origem que Hahnemann atribui aos sintomas particulares e peculiares em detrimento dos sintomas gerais e comuns. E aqui, transcende-se as medicinas integrativas.

Que ganho extraordinário para toda a semiologia médica se os médicos apenas pudessem reconhecer de que não há uniformidade absoluta na apresentação de sintomas quando o foco não é exclusivamente a doença, mas o sujeito com seus sintomas, perturbações e sensações.

Além disso, seria um ganho adicional a qualquer semiologia médica caso os sintomas não servissem somente para prover uma classificação e encaixe em alguma árvore nosológica, mas sim, exaltar a compreensão da própria pessoa. Esta semiologia generosa, mediada pelas palavras, teria potencial para regenerar o rapport, a tão desgastada relação médico-paciente, com a grande vantagem de estar baseado em um encontro. Num contato interhumano solidário e afetuoso, que viria a calhar como uma espécie de lugar neutro, um oásis em meio a tanta hostilidade, turbulência e mal estar.

*Conferência proferida no Congresso Brasileiro de Homeopatia, Curitiba, outubro de 2018

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A oposição substituta (Estadão)

14 domingo abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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A oposição substituta –

https://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/a-oposicao-substituta/

No auge das demandas binárias de “golpe militar” e “abaixo os golpistas” escrevi algo como “ninguém quer golpe, basta oposição”. Pois é, ela, a oposição, este alicerce de um regime democrático sem o qual não se governa uma República, praticamente inexistiu. Algo um tanto inédito na história das democracias, durante largo período de tempo tivemos grosso modo, situação e sócios minoritários da situação. Pois, à revelia do poder representativo, essa lacuna foi enfim detectada pelas ruas. Aos poucos cresceu até chegarmos às manifestações de 2013 e pularmos às mega manifestações — com aproximdamente 10 milhões de pessoas que foram pacificamente mostrar um não  — próximas à época do Impeachment da hoje candidata derrotada à vaga do Senado Federal por Minas Gerais.

Decerto Bolsonaro, imantou este sentimento coletivo, mas receberá muito mais votos dos antipetistas, do que de seus simpatizantes confessos. Se realmente deseja governabilidade ela lhe exigirá compreender esse espírito e civilizar-se quando se trata de temas críticos como “defesa da tortura”(sic), meio ambiente e proteção às minorias.

Destarte, é também fato que precisamos ir além do reducionismo do antipetismo para lutar contra as novas ameaças que virão daqueles que permanecerem seduzidos pelo autoritarismo e pela tentacão nostálgica de totalititarismo. Será preciso comprender que a aversão ao partido dos trabalhadores transcende a corrupção. A crescente repulsa está muito mais no campo de uma rebelião contra uma tutela descabida. A crença de uma elite intelectual partidária e sectária  que imaginou poder ditar o comportamento das massas fermentou uma inssurreição não prevista, e, só agora se dão conta, de difícil controle. A velada ou explicita busca de monitoramente dos costumes sociais, disfarçada de “controle social” e “regulamentação da imprensa” foi explicitada sem a menor cerimônia neste último episódio das acusações capitaneadas pela matéria alardeada por um jornal de São Paulo.  A sugestão que os signatários de manifestos pela democracia fizeram ao judiciário de banir as comunicaçoes eletrônicas do whattsapp, contém uma auto evidencia constrangedora para aqueles que rubricaram documentos a favor da livre expressão.

As redes, tem sido apenas o “escape” psiquico à enorme pressão exercida por esta legislação de caráter moralista. Um moralismo mimético, usando como invólucro o padrão cultural ideológico que tem sido exercido através da hegemonia nas cátedras e no domínio do poder.

Nem a vituperada classe média, nem o achincalhado senso comum aceitaram assistir suas vidas privadas sendo regulamentadas por padrões que rejeitavam ou simplesmente não lhes era familiar.  Com um arcabouço ditado pelo suposto progressismo, não foram só os convervadores que ficaram escandalizados. O próprio núcleo duro da sociedade composto por enorme variedade de tendencias pessoais e políticas foi tocado negativamente por uma invasão de privacidade jamais consentida. A facilidade arrogante com que alguns falsos consensos, pois jamais acordados, tentavam ser impostos aos cidadãos comuns foi uma outra semente, que, germinada, também ajuda a explicar a exaustão das pessoas ao padrão petista de governar.

A verdade é que a sociedade está fazendo o papel de uma oposição que — com raríssimas exceções — eximiu-se de seu papel nos últimos 13 anos.

Somente quando o combate aos desvios de função se tornaram mais frequentes, e o assombroso volume de recursos desviados apareceu à superficie e explodiu na imprensa, é que o tema da corrupção ganhou relevância na agenda das camadas mais populares.  As condenações judiciais vieram e foi neste ponto que o processo de impeachment alcançou seu bem sucedido desfecho.

Subsequentemente, as agências internacionais foram instrumentalizadas para reiteradamente noticiar o “golpe” aqui e no exterior com amplos prejuízos para a imagem do País, que, por sua vez, se traduziram em mais dificuldades financeiras que se somaram as pré-existentes. Juntem a isso os 14 milhões de desempregados,  a violência sem precedentes e a desindustrialização em marcha, formaram um potente conjunto de fatores que funcionou como comprovação empírica do que antes era apenas uma teoria conspiratória: quanto pior melhor.

Portanto, o grande fato novo destas eleições é o surgimento espontâneo  de uma oposição substituta que agora opera ao largo das instituições. Oposição difusa, porém direcionada contra o establishment e seu hegemonismo. E agora a resistência transcendeu a voz amordaçada das ruas. Passou a atender uma sonoridade que ganha corpo a cada nova detecção de arbitrariedade e a cada manobra excusa visando torpedear a democracia.

A voz, antes rouca, agora grita em alto e bom som:

isso tudo já tivemos: nunca mais.

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Daltonismo para estrelas (Estadão)

14 domingo abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in Artigos

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O biógrafo Peter Gay nos conta que quando o fundador da psicanálise estava para escapar dos nazistas com um salvo conduto, embarcando num trem de Viena rumo a Londres, a SS exigiu-lhe que assinasse um documento. Freud precisava atestar que havia sido “bem tratado” pela tropa de elite nazista. Sigmund impulsivamente rabiscou:

“Eu recomendo a SS”.

Os recentes ataques contra judeus guardam evidente relação com o excesso de menções negativas contra Israel desrepresados acriticamente em toda mídia mundial. É preciso denunciar que — sob o disfarce de antissionismo — o País dos hebreu virou uma metáfora obsedante para a imprensa. Aqui no Brasil, assistimos recentemente as falsas comunicações de crime como pseudo suásticas “plantadas”em corpo e paredes. Isso bastou para excitar o clima de antissemitismo latente em parte da sociedade. No dia  01/11/2018, o escritor Luis Fernando Veríssimo escreveu em sua coluna semanal do Estadão, “Os omissos”, onde lançou mão da alusão às estrelas usadas para identificar os inimigos do Estado na Alemanha nazista.

Em resposta, aquilo que poderia ter sido interpretado apenas como ironia do escritor gaúcho, a FIERJ (Federacao Isarelita do Rio de Janeiro) emitiu uma nota de repúdio, choveram cartas de parentes de sobreviventes do holocausto, além de manifestações individuais acusando o artigo nas redes sociais. Todas elas mostravam indignação. Apesar de parcialmente justificáveis, não alcançaram o núcleo duro do real problema representado pelo artigo. Na carta resposta redigida por LFV, afirma que só quem não conhece sua história pessoal e de sua família poderia imaginar que o texto carregasse elementos de antissemitismo. De fato, confirmado por depoimentos de pessoas que conhecem a trajetória histórica, assim parece ser.

Destarte, o articulista fez uma analogia direta entre as opiniões do novo presidente eleito com o nazismo (ainda que, como afirmou em sua carta-resposta “não o considerar nazista”) quando o regime nacional socialista alemão levou adiante uma política implacável de perseguição aos membros do partido comunista daquele País. Assim, aparentemente, quando afirma no final do artigo, a frase estéticamente duvidosa “por lá deu certo” referindo-se à missão de limpeza étnica e ideologica do III Reich, é que ele nos introduz ao centro da polêmica.

O que de fato interessava ao partido dos trabalhadores do estado germânico desde 1933 era o extermínio de tudo que fosse dissensso, todas as formas de oposição, e a anulação do contraditório, sob a prática — legal e constitucional, referendada por juízes da Suprema Corte, através das Leis de Nuremberg — de expurgos e assassinatos. Pois ali, o daltonismo para as estrelas era oportuno. Se a perseguição às minorias fazia distinção apenas formal para a cor das estrelas “amarela para judeus, vermelha para comunistas e triangulo rosa para homosexuais”, o grande foco de eliminação sistemática para além das objeções poliíticas, era mesmo a etnia judaica. Contando com amplo esforço de marketing para forçar a identificação dos comunistas com judeus, sem esquecer do conceito ariano de “arte degenerada” que também procurava expandir a identificação dos artistas com a corrupção dos hábitos da sociedade. Apesar de tudo isso, nunca foi segredo que o foco fanático dos seguidores de Adolph estava concentrado no “Judenrein” ou “territórios livres de judeus”.

Portanto, o que afinal o citado colunista subestimou?

Acurácia e sensibilidade.

Sensibilidade quando fez associações a um tema como o holocausto, que vem sendo ostensivamente banalizado. Mastigado e colocado junto com outras mazelas do senso comum, o genocídio de seis milhões de pessoas tem aparecido aqui e ali como um conflito ideológico delimitado. A liberdade de expressão não pode prescindir do humor e da ironia e até permite que se tripudie sobre determinados episódios da história, mesmo aqueles mais terríveis. Além disso, a liberdade de um autor não deve ser colocada sob judice quando idissincrasias são atingidas. Mesmo assim, é necessário se constranger frente à dor dos demais.

Acurácia, já que não se pode desprezar o timing nem desconsiderar o contexto. Escrever é um ato político. Pois é aí que enxergo o descaso. Qualquer articulista tem como obrigação ética, se não, estética, de calibrar melhor seus alvos, especialmente em meio às várias comoções simultâneas que testemunhamos: o triste episódio do crime de ódio recém perpretado contra judeus dentro de uma sinagoga em Pittsburg — o pior da história americana — o antissemitismo jihadista em alarmante alta na Europa, as parábolas farsescas de que milicias neo-nazistas estavam na iminencia de assumir a administração do País. Ou, caso recuse a calibragem, que tal amplia-la para melhor situar e servir o leitor?

Ao insistir em afirmar aquilo que os nazistas fizeram com as minorias frizando que “por lá deu certo” o escritor descerrou um dos arquétipo de sofrimento mais impactantes da história. Se a ironia pode funcionar como denúncia, advertência e alerta, também pode insinuar um tom prescritivo: “é assim que se faz bem feito”. Às vezes, não é a leitura racional que impregna o leitor, mas a assimilação subliminar, afetiva. Foi isso que aconteceu.

O “politicamente correto” tem sido uma forma de amenizar, quiça disfarçar, a dureza nua e crua dos eventos, e, ser jocoso, é uma das formas mais refinidas de comunicação literária como Freud demonstrou acima. Contudo é recomendável cuidado com o sarcasmo ambíguo. Corre-se o desnecessário risco da ofensa. O caminho correto para a  dessensibilização não é, nunca foi, o da psicanálise selvagem. Até a libertação dos tabús, exige respeito ao sofrimento alheio.

Não é pedir muito, bastaria mais sensibilidade.

Faço votos que o colunista a recobre rapidamente, ainda em nossos dias.

https://brasil.estadao.com.br/blogs/conto-de-noticia/daltonismo-para-estrelas/

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TALVEZ NÃO FOSSE MÁ IDEIA IMAGINAR QUE NOSSOS OLHOS SE CRUZARAM DENTRO DE UM LIVRO* A Pele que nos divide (Estadão)

14 domingo abr 2019

Posted by Paulo Rosenbaum in A Pele que nos divide- Diáforas Continentais, Artigos

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poesia

Cartapácio, cadeixo, tomo, opúsculo, enquirídio, homiliário, códice, fólio, livro, bacamarte

“]

J.S. Pintor Português (2017) – Óleo Sobre Papel.[/caption]

TALVEZ NÃO FOSSE MÁ IDEIA IMAGINAR QUE NOSSOS OLHOS SE CRUZARAM DENTRO DE UM LIVRO*

Talvez não fosse má ideia imaginar que nossos olhos se cruzaram dentro de um livro
Talvez não estivesse assim se tua sombra estivesse alerta ao zênite
Talvez nossos sonhos fossem suposições sobre o que é mundo
Talvez o mundo não estivesse crepuscular se nos incensássemos
Talvez nosso aturdimento fosse descartado se nossos olhos fossem letras
Talvez a leitura fosse automática se os poros fossem papéis
Talvez o império de convenções ruísse se falasses
Talvez fossemos de outro mundo se a realidade jorrasse
Talvez nossa sede fosse genial se ocupássemos desertos
Talvez a Amazônia sobrevivesse se a floresta parasse
Talvez não pairássemos sobre outros se fossemos íntimos
Talvez tua boca estivesse sobre mim se não fosses loquaz
Talvez o esférico não te atordoasse se fosses pleno

*Poema que integra o livro “A Pele que Nos Divide”

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